Jornal Mineiro de Psiquiatria
 

                  

                                 A revolução dos bichos  
                                         

Por Humberto Campolina

                                                                               “With words we govern men” - Disraeli

 

1) Outro dia recebi a mãe de um antigo paciente bipolar grave (e oligofrênico), da época em que eu ainda trabalhava no extinto INAMPS, que desesperada me contou a seguinte história: estando o filho em uma das frequentes crises de agitação psicomotora (que alterna com depressões catatônicas), foi aconselhada a levá-lo ao CAPS, onde foi internado em regime integral (pelos mesmos antis, que são  contra as internações hospitalares...). O resultado (previsível, por faltar nessas “internações” estrutura hospitalar, como, por exemplo, médicos...) foi uma pneumonia dupla, o que lhe valeu transferência para uma unidade de tratamento intensivo. Tendo recebido alta da UTI, foi enviado de volta ao, digamos, serviço alternativo, onde recebeu a seguinte recomendação de um dos epígonos da assistência (anti)psiquiátrica pública de Belo Horizonte: leve-o ao consultório do dr. Humberto -- para onde o paciente foi efetivamente conduzido pela mãe. Chegou numa agitação psicomotora clássica dos quadros maníacos, ipsus facto fui obrigado a interná-lo por não haver as mais mínimas condições clínicas para tratamento externo. (Este fato dá a medida do caráter dos responsáveis atuais pela assistência psiquiátrica pública deste país.). Internei-o em hospital particular, às expensas da pobre (em dois sentidos, pelo menos) mãe, e depois de oito ECTs o paciente se encontra livre dos sintomas do Transtorno Bipolar.
2) Recentemente participei de uma reunião para implantação de um serviço de prevenção de doenças mentais (como se vê, um projeto mui modesto...) em uma instituição federal conhecida. Vendo curioso a desenvoltura com que a enfermeira do serviço utilizava a expressão “saúde mental”, quis saber o que a colega de trabalho entendia por tal denominação. Como não conseguia obter dela um definição suficientemente clara, escandalizei-a ao confessar-lhe que eu mesmo, psiquiatra de profissão há longos 35 anos, não sabia bem do que se tratava, e a assustaria muito mais se acrescentasse que até o dr. Freud, quando indagado a respeito, saiu-se com uma generalidade tal como “é amar e trabalhar”, o que pouco ou nada nos acrescenta ao estudo da matéria.
3) Há pouco tempo recebi um e-mail de um colega de uma cidade do interior se gabando que na residência psiquiátrica a que ele pertence todo os serviços são “substitutivos”, e no auge da gabolice cobrava “direitos autorais” (sic) do feito. Perguntei-lhe de volta se considerava sua residência melhor que a do Instituto de Psiquiatria de USP (um hospital psiquiátrico considerado modelo).
4) Num outro e-mail, um colega propunha “trocar um parlamentar corrupto por 300 professores”; retruquei-lhe dizendo não saber o que é  pior, pois a corrupção epidêmica “como nunca neste país”, para usar uma expressão recorrente, é resultado da falta de cultura, consequência inarredável de um ensino que invariavelmente fica em último lugar nos testes internacionais. O colega me respondeu que “políticas públicas” dariam um jeito na coisa. Indaguei-lhe se “políticas públicas” eram o que pregava um partido político conhecido por práticas políticas, digamos, não muito republicanas.
Mas por que conto essas historietas? O que há em comum nelas?
Há dois itens básicos da cultura politicamente correta, origem dos nossos colegas antipsiquiatras, soi-disant antimanicomiais. A saber: a má-fé  e o fetiche pelas palavras, origem dos usados e abusados slogans e palavras de ordem que passam como verdades incontestáveis.
Não vou me deter sobre o caso 1, cuja má-fé, aliás, não é somente intelectual. Prefiro não me dar o trabalho de discutir coisas do tipo. Apenas registro, e peço a Deus que tenha misericórdia  de uma alma infeliz.
Fiquemos com os três casos seguintes e o fetiche pelas palavras contido nas premissas respectivas.
São três abracadabras dos Ali-Babás da cultura antipsiquiatra brasileira: “saúde mental”, “serviço substitutivo” e “políticas públicas”.  Pois bem. Nenhuma dessas expressões  nomeia qualquer coisa de substantivo (no sentido aristotélico) da realidade. São Flatus vocis com intenções de encantamento a ouvidos incautos. Conta-se que certa vez um assessor de Getúlio Vargas avisou-o de que certa medida governamental poderia desagradar o povo. Ao que o presidente respondeu irônico: qual é mesmo o endereço do povo? Um político, ao dizer que faz isso ou aquilo pelo povo, está é fazendo, na verdade, demagogia. No caso das referidas expressões, além do efeito hipnótico, há claros indícios de novilíngua (v. George Orwell), na qual  cada palavra tem um significado sub-reptício latente. “Saúde mental” em novalinguês denota a satanização da psiquiatria e/ou assistência psiquiátrica, “serviço substitutivo” demoniza o hospital psiquiátrico e “políticas públicas” (existem políticas não-públicas?) vem nos dizer que o Governo, aparelhado por eles, vai resolver os problemas dos doentes mentais (despejando-os na rua, parece-me...).
E agora o mais espantoso: exceto o primeiro, os outros três casos têm como protagonistas profissionais que não são militantes antipsiquiátricos!  São gente pacata e de boa-fé. Mas não fazem a mínima idéia que estão funcionando como marionetes; que inocentemente estão pondo na própria boca palavras ditas e expressões inventadas por bocas transbordantes de malícia.
Esse é um sintoma da revolução cultural gramsciana(*), sinuosa e sibilina como as serpentes, que aos pouco devora e digere a cultura brasileira.

Presente de grego

 A chapa vencedora das últimas eleições da Associação Brasileira de Psiquiatria parece estar no caminho certo no que se refere à assistência psiquiátrica brasileira. Mas não sabe nada da psiquiatria mineira. Levou consigo representantes de uma instituição psiquiátrica do Estado, que favoreceu no mínimo por omissão (mas não só...) a ascensão dos antipsiquiatras ao poder público de Belo Horizonte (e por eles foi favorecida, na perpetuação do poder na referida instituiçao mineira, no estilo franciscano de uma mão lava a outra**); essa mesma instituição defendeu um monstrengo ideológico chamado IV Conferência Nacional em Saúde Mental, conforme se pode ler no número 49 (junho/10) do  periódico “O Risco”,  inteiramente dedicado ao bizarro acontecimento que a publicação da ABP, “Psiquiatria Hoje”,  de abril/maio de 2010 manchetou em primeira página “ A IV CNSM serviu para atender interesses estranhos aos pacientes”.**  Donde conclui-se que quem abrir as portas da ABP vai topar com um genuíno Cavalo de Tróia pacientemente à espera de sua vez de entrar.

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     * Antonio Grasmci (1891-1937) foi um filósofo italiano que pregou uma nova forma de tomar o poder político e fazer a revolução: não de forma violenta e sanguinária como fizeram os sovietes, mas aos pouco ocupando os espaços culturais da sociedade (mídia, Universidades, instituições profissionais e pública, religião etc.), assim implantado a hegemonia cultural dos imperativos categóricos do Partido (no Brasil, adivinhem qual...) Platão, na sua República, faz uma descrição do peocesso no Século IV a.C. Vejam:
Nada mais faz, na realidade, do que introduzir-se aos poucos, deslizando mansamente pelo meio dos costumes e usanças. Daí deriva, já maior, para as convenções sociais; das convenções passa às leis a às constituições com toda a insolência, ó Sócrates, até que por último, subverte as coisas na ordem pública e na particular. (424c).

**Então ficamos assim, ad aeternum: de um lado, a turma do Basaglia, de outro, a patota do Lacan...

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http://www.abp.org.br/publicacoes/imagem/Jornal_Psq_Hoje_15_AbrilMaio10_light.pdf

 

 

 

 

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