Jornal Mineiro de Psiquiatria
 

                  

                 O AVESTRUZ TERAPÊUTICO*

por José Guilherme Melquior

 

I. Uma teoria altamente arbitrária


Muita gente boa ainda pensa que a psicanálise é uma teoria do distúrbio mental. Isso é o que ela promete, mas não cum¬pre. No duro mesmo, a psicanálise não é uma medicina da mente — é uma enfermidade do intelecto, um projeto iluminista que virou superstição burguesa. O que é de pasmar, se levarmos em conta a natureza das ambições de Freud. Sabe-se que quando atribuíam a Marx a descoberta do papel da luta de classes na história, ele protestava, replicando que o verdadeiro mérito de sua contribuição fora demonstrar o nexo entre a sociedade de classes e o desenvolvimento histórico dos modos de produção. Pois bem: Freud também chiava quan¬do creditado com "a descoberta do inconsciente". Segundo ele, o inconsciente já havia sido explorado, bem antes da psica¬nálise, por numerosos poetas e pensadores; e o que ele trou¬xera de novo fora exatamente o "método científico" de es¬tudá-lo. Ora, o problema é que, perante a moderna teoria do conhecimento científico, o método freudiano é tudo, me-nos ciência.
Hoje em dia não falta quem pretenda livrar a cara de Freud, alegando que essa sua preocupação é apenas cientificismo datado. A psicanálise não teria obrigação nenhuma de ser ciência. Não é preciso explicar a mente; basta “interpretá-la”... Freud teria sido um humanista semi-envergonhado; mas para muitos que o lêem agora, com os olhos afeitos a desprezar na ciência o produto de uma metafísica perversa (Heidegger) ou a encarar o saber científico como algo a ser "superado" por formas superiores de reflexão (Ha-bermas), o único motivo de embaraço é precisamente a sua linguagem causalista, reducionista e biologista.
Infelizmente, porém, essa generosidade humanística defor¬ma demais o pensamento de Freud. Há poucos anos, Frank Sulloway (Freud, Biologist of the Mind) relembrou o tama¬nhão da dívida intelectual do grande vienense para com o pensamento biológico de seu tempo. E de fato é necessário ser bastante excêntrico, como o marxista italiano Sebastiano Timpanaro, para mobilizar contra Freud o "materialismo bio¬lógico": pois o pai da psicanálise era a favor, não contra — conforme o indica sua notória propensão a descrever os im¬pulsos da libido em termos de economia energética. Não só Freud pensava biologisticamente, como é no biológico que radicam alguns eixos fundamentais da sua visão do psiquis¬mo. Por exemplo, quando se pergunta por que a repressão dos instintos, no freudismo, ganha a forma de uma repres¬são da sexualidade, a única resposta encontradiça nos escri¬tos do Mestre aparece correlacionada (como qualquer leitor de O Mal-Estar na Civilização recordará) com o surgimento, na evolução biológica da espécie humana, da estação vertical, e o consequente afastamento entre os principais órgãos dos sentidos e o aparelho genital.
Tratemos, portanto, de respeitar as intenções de Freud, reconhecendo que ele se propunha explicar cientificamente as causas de certos fenómenos psicopatológicos. Aliás, não há dúvida de que algumas hipóteses por ele levantadas se reve¬laram fecundas para a investigação psicológica. Mas todo o problema está em saber se o interesse heurístico, isto é, de descoberta, das teorias freudianas tem valor, também, ao ní¬vel, logicamente bem distinto, da explicação. Por exemplo, muitos estudos demonstram que algo no género de um "caráter sado-anal" realmente existe. Quando um indivíduo re
vela tendência a ser ou frugal ou obstinado ou ordeiro, é alta a probabilidade de que venha a exibir também os ou-tros dois traços. Logo, Freud descobriu um fenómeno signi-ficativo. Todavia, se passarmos desse plano meramente heurís¬tico ao plano explicativo, constataremos que a hipótese freu¬diana — a de que esse tipo de personalidade é determinado por experiências localizadas na sexualidade infantil — não "cola". A teoria não consegue obter comprovação empírica. E o mesmo, mutatis mutandis, se aplica ao complexo de Êdipo ou à interpretação dos sonhos.
De resto, Freud não peca só por falta de fundamentação factual. Na verdade, os defeitos lógicos de suas teses são tão sérios quanto suas deficiências empíricas. Freud foi exímio na arte da interpretação altamente equívoca. Vejamos, de relance, a história do pequeno Hans, uma de suas mais co¬nhecidas narrativas clínicas. A educação sexual do pequeno Hans fora um modelo de tabus obscurantistas, e Freud a considera, em parte, a causa das fobias animais experimen¬tadas pelo menino, pouco antes do seu quinto ano de idade — uma fase, para ele, crucial no desenvolvimento do Édipo de cada um. Acontece que, anteriormente aos acessos fóbicos de Hans, Freud já escrevera sobre o menino, desta vez sob o nome de "Herbert" — e então sublinhara que a educação sexual do garoto havia sido um paradigma de atitude "escla¬recida" (O Esclarecimento Sexual das Crianças, 1907)! Que fez Freud? Optou por uma escapatória formidável: declarou que a própria educação "liberada" de Herbert-Hans deve ter contribuído bastante para a sua neurótica fobia, "porque" em outras crianças, a repressão, o medo de castigos, no caso de sua curiosidade sexual ultrapassar certos limites, acabavam minorando a ansiedade, ao passo que crianças liberalmente educadas não podiam contar com esse freio. . .
Todo o "opus freudianum" formiga com interpretações des¬se tipo. A moderna filosofia da ciência nos ensina que, quanto mais uma teoria exclui, mais falsificável ela vira, e, portanto, mais sujeita ao teste da experiência. Com a psicanálise, no entanto, a teoria é indiscriminadamente inclusiva: procura incorporar tudo  - menos o contraditório -  às suas pseudo-explicações. É o reino do preso por tercão, preso por não ter. O animal totêmico do freudismo devia ser o avestruz, que tem fama de onívoro e, ao mesmo tempo, quando confrontado com dificuldades, enfia a cabeça no solopara não ter de tomar conhecimento delas..
  Quando se apontam essas fraquezas do freudismo, é comum alguém retorquir que o crítico está sendo severo demais. Freud — argumenta-se — estava construindo, praticamente sozinho, uma obra pioneira, com direito a falhas e hiatos... O diabo é que essa visão heróica do sábio de Viena não é nada con¬vincente. Preliminarmente, convém relativizar a ideia do gi¬gante isolado. Afinal, ele mesmo não se pronunciou, tantas vezes, contra a idealização ingénua dos grandes homens? É tanto mais estranho ver seus adeptos sacralizarem sua ima¬gem. No entanto, depois de trabalhos de síntese despidos de idolatria, como o de Paul Roazen (Freud and his Followers), não se pode mais ignorar que o intercâmbio entre Freud e seus colegas, para não falar em discípulos, se dava muitas vezes sob o signo "ciúme e descoberta". Assim, a noção de terapia catártica deve muito a Breuer; a do id, a Groddeck; a hipótese da bissexualidade, a Fliess; a do narcisismo (nome devido a Havelock Ellis), a Abraham; a do instinto de morte, a Stekel. Não obstante, em vários desses casos, todos muito bem documentados, o "génio solitário" não reconheceu ple¬namente a dívida. Mas como estamos discutindo o freudismo e não Freud, o que interessa é ajuizar o pedido de clemên¬cia para suas debilidades teóricas. E aqui, não se vê por que Freud estaria isento dos deveres epistemológicos que são exi¬gidos de todos quantos apresentem teorias de pretensões cien¬tíficas. Darwin foi muito mais pioneiro que ele, e jamais se beneficiou dessa complacência. Por que diabo teríamos que suspender o juízo crítico para compreender a novidade da psicanálise?
Ironicamente, se há um ponto em que o neofreudismo fundameníalísta — a escola de Lacan — se mantém realmente fiel à fonte é a extrema arbitrariedade da sua teorização. Já
 
tive ocasião de mencionar como o oracular teorema de base do lacanismo — "o inconsciente é estruturado como uma linguagem" — é ou uma banalidade ou uma tolice. Se com isso Lacan quis dizer que as manifestações do inconsciente passam necessariamente pela linguagem, tudo bem. Só que isso é uma platitude, já que o mesmo é verdade, no plano mental, de todo e qualquer aspecto ou dimensão da conduta humana. Tudo quanto fazemos, sentimos, imaginamos e, obvia¬mente, dizemos passa pela linguagem.
Porém se a tese é que o inconsciente é, no duro, estrutu-rado como uma linguagem, então é simplesmente falsa. Con¬forme observou o grande linguista Emile Benveniste — por cuja sala, no Collège de France, costumávamos passar toma¬dos do maior respeito —, o simbolismo linguístico se diferencia radicalmente da simbólica do inconsciente em pelo menos três coisas. Primeiro, a linguagem é algo que se aprende, e o inconsciente, não. Segundo, ela se articula em signos arbitrá¬rios (lição número um de Saussure), cada língua empregando um significante diverso do da outra para exprimir o mesmo significado (mesa/table) — enquanto a língua do inconsciente é, naturalmente, o que há de mais motivado. Terceiro, em vez de diversificar-se na miríade das línguas naturais, como a linguagem, o "vocabulário" do inconsciente é, segundo Freud, perfeitamente universal, comum a todos os homens, de todos os lugares e em todas as épocas.
Calcula-se por aí se não têm razão aqueles que, como Dan Sperber, se escandalizam ante a suprema desfaçatez com que Lacan dissertava, com pomposa solenidade, sobre a profunda significação do trocadilho "nom du père/non du père", nome do papai/não do pai (isto é, "a" lei, "a" proibição, inerente à situação edipiana). Com efeito: como é possível levar a sério uma teoria que fez de uma
Mera peculariedade da língua francesa um dogma sobre o psiquismo humano? Por essas e outras é que a lacanagem nunca passou de uma hilariante, mas deprimente, combinação de pedantismo e mistificaçãpo – sem sequer o pionerismo heurístico de Freud.


II- A ilusão terapêutica da psicanálise

 

Lacan encarnava, na psicanálise contemporânea, o caso mais radical de desdém pela função terapêutica do freudismo. Não obstante, muitas pessoas talvez replicassem às nossas críticas à teoria freudiana com a legação de que importante é o valor “existencial”, e não cognitivo da psicanálise. Mas qual será, portanto, esse valor, objetivamente apreciado? Vou partir de um estudo recente, por sinal bastante simpático ao freudismo, The Standing of Psychoanalysis de B. A. Farrell (Oxford niv. Press). Farrel nota que: 1) a psicanálise não é mais comendada, salvo por meia dúzia de fanáticos, para o tramento de psicoses graves, como a esquizofrenia; 2) estas moléstias são hoje tratadas por uma combinação de técnicas de técnicas de comportamento, assistência social e drogas medicinais; e 3) a massa dos neuróticos não tem condições de custear uma análise.
De fato, no espaço de uma geração, verificou-se tremendo sucesso na redução do número de doentes mentais internados. Nos últimos vinte e cinco anos, o número de pacientes nos hospitais psiquiátricos americanos caiu de 550 mil para 150 mil; e nos britânicos, baixou à metade (nos estabelecimentos quivalentes  soviéticos  houve certos  aumentos, porém  deterninados  pelo  estado  da  ideologia  e  não  da  cuca...).  Na naioria esmagadora dos casos,  esse êxito  se deveu ao emprego de novas drogas, como o lí tio (antidepressivo)  ou os neurolépticos,  que, bloqueando a dopamina, um neurotransmissor químico do cérebro, controlam ataques agudos de es-quizofrenia — embora sem chegar a alterar a conduta asso-cial dos doentes. Esse admirável progresso neurofisiológico não significa que a psicoterapia se tenha tornado inútil. As drogas controlam os sintomas e reduzem os riscos de recaídas; po¬rém as técnicas psicoterapêuticas ajudam o paciente no plano de seu ajustamento social.
Mas é no tratamento dos distúrbios mais brandos da per-sonalidade que as escolas de psicoterapia se concentram — nas depressões e ansiedades do quotidiano, nas neuroses em que é sempre mais ou menos possível "segurar a barra". De modo geral, o grosso da psicoterapia se divide hoje em dois ramos: no tratamento das fobias, prevalece a tendência behaviorista; no das ansiedades, o psicanalítico. Ora, o interessante, neste particular, é refletir sobre os achados já clássicos, po¬rém sucessivamente reconfirmados, da vasta pesquisa empreen¬dida pela Menninger Clinic, de Topeka, no Kansas: a análise continua a forma de psicoterapia preferida por pacientes do¬tados de ego forte, alta motivação, elevada capacidade de tole¬rância em relação à própria ansiedade e não menor potencial de relacionamento com os outros. Moral: a psicanálise — o tipo de terapia mais complicado, mais longo e mais caro — é geralmente utilizada exatamente pelos que menos necessitam de tratamento ...
Entretanto, mesmo admitida sua condição de terapia de luxo, adequada aos menos necessitados de cuidados psiquiá¬tricos, ainda assim o problema da eficácia terapêutica da aná¬lise, freudiana, neofreudiana ou dissidente (junguiana, adleriana, etc.), fica de pé. E o recorde é lamentável. Várias com¬parações rigorosas da análise com outros métodos psicoterapêuticos, ou mesmo — maravilha das maravilhas — com a pura e simples ausência de tratamento psiquiátrico, demons¬tram que as taxas de recuperação exibidas pela psicanálise são das mais baixas. Até os pesquisadores mais despreconcebidos, como Seymour Fischer e Roger Greenberg (The Scien-tific Credibility of Freud's Theories and Therapy, 1976) con-cluíram que "a psicanálise não se mostrou significativamente mais eficaz que outras formas de psicoterapia, com nenhum tipo de paciente".
Não me passa pela cabeça negar que, às vezes, a análise presta serviço a certo tipo de pessoa. Em geral, o indivíduo com problemas sexuais ligados aos tabus da educação fami¬liar "vitoriana" e reforçados por certos géneros de formação religiosa — se bem que esse tipo de analisando se restrinja, atualmente, à faixa de meia-idade, pois a educação sexual muito mais liberada e permissiva das gerações mais jovens tende cada vez mais a condenar essa problemática ao anacronismo. Fora daí, se análise chega a “curar”, mal dá para saber se a “cura” não adveio da simples passagem do tempo, de tal modo se trata de neuroses amplamente controláveis (e em muitos casos, ambiguamente “curtíveis”.
Seja como for, o efeito iatrogênico da análise é inegável: a terapia induz à moléstia. Com enorme frequência, o analisando já parte para a análise lido ou traslido em Freud e nos freudismo  --  e tanto mais sugestionado a descobrir “sua” neurose. Woody Allen satirizou genialmente esse tipo moderno de “malade imaginaire”; e Karl Kraus teve uma intuição certeira quando viu na análise mais um método de transformar leigos em especialistas que para curar doentes, e sentenciou: na psicanálise, o diagnóstico vira uma doença. O pior é que esse doente ultra-sugestionado que é o homo freudianus volta e meia é para lá de disposto a aporrinhar o género humano com seu zelo proselitista. Desconfio que a próxima edição do perspicaz Tratado Geral dos Chatos, de Guilherme Figueiredo, trará um capítulo especialmente consagrado ao chato analisando, que, decretando "todo mun¬do neurótico", não descansa enquanto não vence a "resistên¬cia" (ou torra os países baixos) dos amigos e até conhe¬cidos, no ignóbil afã de prostrá-los no divã.


III. Narcisismo de grupo


E daí? — perguntará o maníaco por psicanálise. O quente da análise não é nenhuma terapia — é a curtição da autognose, o jogo do autoconhecimento. "Conhece-te a ti mesmo", já dizia a velha sapiência moral dos antigos. Dá para o ana¬lisando culto se sentir um verdadeiro Sócrates — e bota volúpia nesse escafandrismo interior. . . Ainda ontem, a voga dos existencialismos não fez tudo para estimular "a verdade de cada um", a busca da "autenticidade" e outros mitos do ego pós-burguês? Nesse clima, é quase mal-educado questio¬nar a premissa de toda essa exploração do eu. No entanto, foi justamente isso o que fez Adolf Grunbaum, num ensaio ("Epistemological liabilities of the clinicai appraisal of psycho-analytical theory", Psychoanalysis and Contemporary Thought, dez. de 1979) que encerra uma devastadora crítica aos postulados da autognose analítica. Grunbaum adverte que a intros¬pecção está sendo posta seriamente em causa pela pesquisade ponta em psicologia experimental.
Os últimos achados da psicologia revelam que podemos conscientizar fatos sobre nós mesmos e nossas sensações, mas não há quase nenhuma conscientização de processos perceptivos e mnemónicos. Na realidade, o acesso introspectivo à vida mental é severamente limitado. Quando nos sentimos enga¬jados numa introspecção, estamos de fato é baseando nossa ideia do que nos parece mais peculiarmente nosso em teo¬rias da vida psíquica que achamos plausíveis. Em particular, o suposto "insight" do analisando não é o produto de ne¬nhuma autodescoberta — é o reflexo da sua conversão às interpretações do analista.
O colapso da ideia de introspecção representa a ruína do "socratismo" freudiano. A menos que Leslie Farber, o herege da psicanálise americana, tenha razão. Para Farber, com efeito, o eu que mergulha em suas próprias águas não volta com uma verdade biográfica — retorna antes com uma narcisística estetização da existência de cada um. Na procura do significado de nossa vida, nada mais tentador que "estilizar¬mos" nossas experiências e conclusões, dando aos aconteci¬mentos uma forma bem mais intencional e dramática do que na verdade tinham. N'O Fantasma Romântico (1980), tentei mostrar como a psicanálise, não sendo ciência, talvez se te¬nha tornado, desde Freud (esse soberbo escritor), uma espé¬cie de novo género literário, a "psicanaliteratura". Farber su¬gere um desdobramento muito maior desse potencial "estéti¬co" do freudismo: ele faz de cada analisando um tremendo romancista da sua própria vida. Certamente, a análise infla em cada peito o sentido da própria importanciazinha, numa pífia caricatura do individualismo moderno.
A psicanálise vem perdendo respeitabilidade intelectual, a olhos vistos, nos países que melhor socializam sua população na cultura científica do nosso tempo. O prestígio intelectual
Do freudismo nos EUA é como os filmes de Bogart: um fenômeno dos anos quarenta. Atualmente há um abandono em massa da psicanálise pelos psicoterapeutas americanos. Mas o Brasil preferiu seguir a França  -- por longo tempo um verdadeiro bastão de resistência a Freud --  e abraçar, com ridículo atraso, a moda analítica, exatamente quando os seus podre já estão bem à mostra. É que se instala entre nós a cultura do narcisismo (C.Lasch). Freud falou, é claro, do narcisismo do grupo, da massa que se adora a si mesma na pessoa do líder carismático. O que sucede hoje é diferente. É o narcisismo de grupo, o auto-embevecimento de um número crescente de indivíduos que se con¬sideram carregados de direitos e no entanto mal reconhecem qualquer dever. Não é de espantar que alguns filósofos achem que estamos vivendo o reino da grossura civilizacional, do egoísmo que se faz passar por "autenticidade". Quando todo mundo está na sua, o bem comum não preocupa ninguém. Entretanto, talvez o erro das morais antiquadas não estivesse em persegui-lo, mas somente em identificá-lo com ideais de¬masiado estreitos, ou muito repressivos.
 Valerá a pena terminar com uma palavra sobre a respon-sabilidade imediata dos analistas — os sacerdotes desse culto festivo do individualismo grosso? Os narcisos do microego que pululam à nossa volta vão encontrando terapeutas cada vez mais irresponsáveis, atletas do desvario profissional. De um analista do Rio conta-se que, procurado por uma dama do soçaite, saiu-se com esta: "Agora não dá pé. Meu tempo de consulta está todo tomado daqui até seis meses. Mas en¬quanto você espera, vá logo se divorciando". . . Por isso é que aquele psicótico, ao emergir de uma primeira sessão com outra celebridade neofreudiana, declarou eufórico: "Não foi uma consulta — foi uma confraternização!" Pobre Freud, que ainda se considerava um racionalista...
 

*Jornal do Brasil de 31/01/1982
 
 
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