Jornal Mineiro de Psiquiatria
 

                  

A hegemonia antipsiquiátrica

por Humberto Campolina

 

“Quem Ignora o óbvio está condenado a ser atropelado por ele.”(Reinaldo Azevedo)
 “Criatura humana é muito constante na tolice, tem tolice na natureza, meu Mocinho” (Dona Rosalina, personagem de Guimarães Rosa)


                                                           
O antipsiquiatra
Este jornal vem, desde sua fundação, batendo na tecla de que existe no Brasil uma corrente antipsiquiátrica, para a qual cunhou o termo “neo-antipsiquiatria”, extremamente ativa e insinuante, com um apetite voraz direcionado para o poder total na área da chamada saúde mental; esses ativistas se escondem sob o manto do que cretinamente denominaram “reforma psiquiátrica”₁, que ao suprimir o termo “assistência”, trai-se e conta a que veio: estigmatizar a psiquiatria (afinal, é ela que deve ser reformada, logo está deformada, entenderam?), implantando um sistema baseado não em fundamentos científicos, mas moldado por uma ideologia política que em todos os lugares em que foi imposta, resultou em dor, sofrimento humano e morte. É o uso político da psiquiatria.
 Nunca levaram a sério essas denúncias do JMP; acham que o jornal exagera ou que a antipsiquiatria é coisa de um passado distante.
Pois bem, a revista Debates da Associação Brasileira de Psiquiatria, na edição jul/ago/2009 (http://www.abpbrasil.org.br/medicos/publicacoes/debates/PSQDebates_4_Julho_Agosto2009_light.pdf) ,
publicou um debate a respeito da antipsiquiatria; foram convidados para escrever artigos o mineiro Francisco Paes Barreto e os gaúchos Rogério Wolf de Aguiar e Marcelo Pio de Almeida Fleck. E, sintomaticamente, sem nenhuma exceção, os autores escolheram como mote para abordar o tema justamente a... “reforma psiquiátrica”₁. O que, convenhamos, passa longe de ser uma coincidência...  
O resultado foi um amálgama de equívocos e desinformação com má-fé intelectual.
Comecemos por Barreto, que parece não gostar de ser qualificado de antipsiquiatra. O artigo do mineiro, cujo título “Da psiquiatria à saúde mental”(p.18) que, ademais do insólito trânsito de algo concreto – a psiquiatria – para uma reles abstração – a “saúde mental” -,jádenuncia as intenções do autor (algo como “da doença à saúde”; sutil como pata de elefante), tem uma estrutura ternária, em que descreve (e subscreve) o que ele chama de vertentes teórica, profissional e institucional do pensamento antipsiquiátrico.
Despidos dos floreios retóricos e das piruetas conceituais em que os antipsiquiatras de praxe embalam seus slogans, o autor descreve o assunto como se segue:

1- Do ponto de vista teórico os psiquiatras definem a loucura₂ como um desvio inconveniente à normalidade;

2- Na vertente profissional, esses médicos frente ao doente assumem não uma postura clínica, mas moralista;

3-  Como corolário de 1 e 2, no campo institucional,  os psiquiatria constroem  hospitais visando tão-somente a exclusão dos loucos.

Em uma palavra, segundo os antipsiquiatras, a loucura é uma doença construída socialmente, um constructo social como dizem, uma “sociose”. A conseqüência lógica ad absurdum de tal premissa seria que a doença mental é da competência menos de médico do que de sociólogo...    
São essas as premissas – algo entre a ignorância e a má-fé – sobre as quais a antipsiquiatria foi alicerçar todo seu edifício conceitual e engendrar sua prática desatinada.
Claro, sobre tais pés de barro, para o santarrão não haveria outro destino senão o desmoronamento. E foi isso o que aconteceu em todos os lugares por onde sua-santidade-redentora-dos-loucos andou em sua sanha messiânica. Desde a perversa Kingsley Hall de Laing&Cooper, passando pela Itália do medíocre Basaglia (tentem ler um livro dele...), na Alemanha, país em que antipsiquiatras foram para a cadeia, a França e seu representante Michel Foucault, cuja perversidade de tão notória dispensa comentários, até os EUA onde houve um aumento miserável de moradores de rua₃ e, conseqüentemente, da taxa de encarceramentos de doentes mentais.
No Brasil... Bem, com a palavra o próprio Barreto:
“...o que se constata [depois da “reforma”] é algo diametralmente oposto[ao que prometia]. Em vez da complexidade, simplificação. Em vez de aprimoramento,  deformação profissional, emprego maciço de modelos de capacitação simplórios e pobres... As tarefas seguem uma rotina sufocante e infernal...Num esquema como esse urge padronizar as condutas e tipificar os pacientes” (p.20).
 Não há como discordar da apreciação de um dos próceres do movimento reformista: a montanha pariu um rato. Mas Barreto não desiste, e já tem a fórmula para corrigir o malfeito: um tratamento “que crie um laço social a partir de sua singularidade irredutível”(p.21). Hum...
Certa feita vi um stalinista concedendo como  fato o genocídio havido sob Stalin (60 milhões de mortos), mas com a condição de que se aceitasse a justificativa de que fora conseqüência de um pequeno desvio, passível de ser corrigido num outro regime socialista. A seu modo, é o que Barreto, como representante do establishment antipsiquiátrico, nos pede: uma nova chance para corrigir outro “pequeno desvio”.
Ó insensatez, teu nome é antipsiquiatria. Com a metodologia e o entendimento que os antipsiquiatras possuem  da doença mental, qualquer reforma antipsiquiátrica estará sempre condenada a ser mais do mesmo:  dano e sofrimento principalmente para quem só tem a opção do atendimento público.
Mas a causa da débâcle assistencial é bem outra do que pensam os antipsiquiatras. A certa altura de sua apologética (não é outra coisa, apesar do estilo formal) Barreto descobre que a doença “exclui” o louco; vejam: “A tendência à segregação é um dado de estrutura [no portador do transtorno](grifo meu). Ora, quantos anos de formado Barreto tem? Que eu saiba, não menos de quarenta. Só agora descobriu que doenças graves como a esquizofrenia “afrouxam os laços sociais” dos doentes mentais, como dizem os pedantes lacanianos? Parece-me pouco provável. O mistério é por que só agora vem nos comunicar tal “descoberta”... 

Os psiquiatras
Se no mineiro sobra a autoconfiança soberba de quem possui a chave do enigma, nos gaúchos prevalecem tibieza e ambigüidade intelectual.
Não conheço pessoalmente os psiquiatras sulinos, mas lendo seus trabalhos₄ não detecto os trejeitos e a fé cega comuns aos antipsiquiatras. O que percebo é aquela indecisão confusa de quem acabou de aprender uma segunda língua, mas esqueceu a primeira. Em vários trechos de seus trabalhos, canhestramente vestem a camisa antipsiquiátrica, mas o que dizem soa falso; falta convicção, sobram culpas. Os conceitos emitidos não parecem vir de lavra própria, mas impostos “de fora”, do contexto hegemônico no qual estão inseridos. Suas críticas à psiquiatria não se resolvem quanto ao objeto (assistência psiquiátrica? ciência psiquiátrica?), e caem na ambigüidade proposital com que os antipsiquiatras confundem profissionais e usuários.
Alguns exemplos:
Na p. 23, Aguiar escreve:
“A manuntenção do modelo manicomial e hospitalocêntrico não tem encontrado defensores” (grifo meu)
Somente dois parágrafos abaixo, grafa:
“Por outro lado, o maior problema dos defensores do modelo hospitalocêntrico...”
A contradição flagrante dispensa comentários.
Fleck cai em estado de confusão conceitual. Escreve ele:
“Em verdade, o Movimento da Antipsiquiatria teve um componente de crítica e de oposição à psiquiatria. Esta distinção é importante, pois a crítica é baseada em argumentos, é lógica e permite o crescimento múltiplo. A oposição é doutrinária... visa a derrota do opositor.”
Ademais da sem-cerimônia com que distorce o significado do prefixo “anti”, equilibrando-o em cima de uma espécie de muro conceitual, o autor deixa em suspenso nas linhas acima uma questão candente: se, como nos diz, “crítica” é ciência (dialética, verdade) e “oposição”, ideologia (retórica, sedução) conclui-se que ambas são entre siexcludentes; se é puro não é impuro e vice-versa; coisa alguma pode ser outra coisa ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. Então, de qual delas – ciência ou ideologia -  se serve a antipsiquiatria, afinal? Eis uma pergunta cuja resposta não é sequer insinuada no trabalho de Fleck.
As conclusões
1- Ao final da leitura dos artigos publicados pela revista da ABP, quem não conhece a história fica com a impressão de que há uma bem-aventurada antipsiquiatria dando voltas ao mundo no digno labor de retificar a recalcitrante psiquiatria.
2- Só os cegos por ingenuidade ou conveniência podem negar o óbvio embate entre o projeto antipsiquiátrico e o projeto psiquiátrico, este bancado pelas práticas de alguns centros universitários ( São Paulo, principalmente) e aquela pelo poder público através do Ministério da Saúde e instituições corporativamente interessadas, como o Conselho Federal de Psicologia. A atual diretoria da ABP tem dado inesperados passos para trás₅.
3-  Ajoelhados ante a “reforma psiquiátrica”, os psiquiatras estão se saindo muito mal nos embates. Quando um dos lados começa a usar as palavras e os conceitos criados pelo adversário, é sinal de que já perdeu a guerra.
 

 

1 A expressão “reforma psiquiátrica” vai entre aspas por duas razões muito simples: além do óbvio propósito de desconstruir a psiquiatria, como afirmei acima, é uma absurdidade do ponto de vista científico: onde já se viu reformar uma ciência com atos de governo?   
2 Não gosto dos termos “loucura” e “louco”, que me parecem desrespeitosos e de mau gosto. Utilizo-os no presente artigo para operar em paralelo à terminologia antipsiquiátrica.
3 Deve ser isso a que se refere Barreto quando escreve que  o objetivo da reforma é [...] situar o louco na cidade(p.18)
4 “Algumas idéias sobre psiquiatria e antipsiquiatria...” p.21 e “A evolução do movimento da antipsiquiatria” p.25.
5 A invasão de textos descaradamente antipsiquiátricos na publicação da ABP é um sintoma claro disso; é triste ver que usam as publicações psiquiátricas para desancar a psiquiatria. JAMAIS veremos artigos psiquiátricos em publicações antipsiquiátrica. A presença na atual diretoria de representantes inequivocamente simpáticos ao stablishment antipsiquiátrico mineiro não deve ser casual.
6 A suplência, ao lado da odontologia, no Conselho Federal de Saúde Mental é uma prova da situação vexatório a que os psiquiatras foram sendo submetidos.

 

 

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