Jornal Mineiro de Psiquiatria
 

Especialistas discutem o vício em crack       

 


O JN da Rede Globo conversou ao vivo com Ronaldo Laranjeira, psiquiatra e professor titular da Unifesp; e com o coordenador de saúde mental do Ministério da Saúde, Pedro Gabriel Delgado.


O Jornal Nacional conversou ao vivo com um especialista em tratamento de viciados em drogas, o doutor Ronaldo Laranjeira. Ele é psiquiatra e professor titular de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo. Conversou também com o coordenador de saúde mental do Ministério da Saúde, Pedro Gabriel Delgado.

Muitas famílias já estão passando por esse problema: o crack começou com moradores de rua, mas hoje chegou à classe média. Como as famílias podem identificar que o parente esteja iniciando o consumo do crack?

Ronaldo Laranjeira - Sempre que começar um comportamento errático, que começar a gastar mais dinheiro e se envolver com pessoas envolvidas com o tráfico, a família tem que desconfiar. Mas a família tem que se informar que existe uma lei que permite a internação involuntária. Mas essa lei não é seguida aqui no Brasil. O sistema público de saúde não tolera esse tipo de atitude. Então acaba desassistindo uma parte da população. O crack é uma doença grave em que é preciso uma série de recursos, inclusive a internação involuntária, em que as pessoas que não têm recursos no Brasil estão sendo privadas de receber o tratamento necessário para essa doença tão incapacitante.

Qual é a posição do Ministério em relação a essa queixa de incapacidade de internação involuntária?

Pedro Gabriel Delgado – A legislação brasileira é clara e permite sim a internação involuntária. Permite a internação naqueles casos que representam risco para a pessoa, para familiares ou para outras pessoas. É uma lei de 2001. Esse caso demonstra que mesmo que a pessoa tenha sido internada, a gravidade da situação do crack pode levar ao fato de que ele permaneça em situação de vulnerabilidade, mesmo depois de sucessivas internações.

Delgado – O pedido de terceiro é de um familiar, um vizinho ou algum conhecido. Ele tem que acionar o sistema de saúde pública, especialmente as emergências do campo da saúde mental e da saúde em geral. Tem que acionar, por exemplo, o sistema do Samu, no 192, emergências psiquiátricas e emergências gerais. A internação só se realiza a partir de decisão médica, que é o que a torna legal. Depois, tem que ser comunicado ao Ministério Público.

O que é a estrutura brasileira para a recepção e para o tratamento desses doentes. Na semana passada, a mãe desesperada do Rio Grande do Sul que nós mostramos no JN dizia que seu desespero era não ter estrutura adequada para isso. O Brasil está em situação equilibrada ou temos muito a vencer?

Laranjeira – Nós não temos uma estrutura para tratar uma situação tão complexa como o crack. Nenhuma capital que eu conheça no Brasil tem condições de fazer essa internação involuntária. Se ela acionar o Samu para levar uma pessoa para os pronto-socorros no Brasil, eles vão dizer que não tem vaga para internar involuntariamente um dependente químico. O Ministério da Saúde abandonou as famílias dos dependentes químicos. Vão precisar investir muito mais dinheiro para impedir que isso continue acontecendo.
A lei não fica tão clara. Ela diz que é possível sem o consentimento do usuário e a pedido de terceiros. O que a família tem que fazer para que esse terceiro possa conseguir a internação involuntária?

Qual é a posição do Ministério em relação a isso? Há algum plano para que o quadro se modifique.

Delgado - O quadro do consumo de drogas é muito grave no Brasil. Houve mudanças importantes que nos preocupam muito. Uma delas é o modo de consumir o crack, que tem afetado pessoas muito jovens. A própria mudança no mercado da droga tem induzido pessoas muito vulneráveis ao consumo. O Ministério da Saúde tem ampliado os recursos para atendimento, tem ampliado a rede, que tem muitas fragilidades. O fato de São Paulo ser uma cidade grande, por exemplo, não significa que ela tenha muitos recursos. São Paulo tem problemas sim na saúde pública, não só no campo da droga. O ministério ampliou muito os recursos para internações e para tratamento extra-hospitalar, no caso da droga e do crack. Mas reconhecemos a necessidade de ampliar esses recursos e essa rede de tratamento.

 

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