Jornal Mineiro de Psiquiatria

                 

 CORRESPONDÊNCIA ENTRE AS MATRIZES ARCAICAS E AS PRINCIPAIS FORMAS CLÍNICAS DAS NEUROSES

por Mário Catão Guimarães

INTRODUÇÃO

Focalizaremos somente os sintomas da neurose fóbica, da obsessiva e da histérica, por acreditar que nosso objetivo fica alcançado com a abordagem dessas três formas de neuroses.

Com relação à sintomatologia, sabendo tratar-se de uma formulação genérica, podemos falar que a neurose fóbica está ligada ao aspecto afetivo, a neurose histérica se define por apresentar manifestações na esfera corporal e que a neurose obsessiva está vinculada à esfera do pensamento e da ação. Em que pese essa formulação ser muito genérica, ela não deixa de ser verdadeira e nos é útil, pois nosso objetivo é abordar o tema de modo sintético.

A Neurose Obsessiva

"A neurose obsessiva se define pelo caráter forçado (compulsivo) dos sentimentos, das idéias ou das condutas, que se impõem ao enfermo e que o leva a uma luta inextinguível, sem que, não obstante, o mesmo deixe de criticar este parasitismo incoercível".

Essa definição e a síntese que segue, sobre os sintomas da Neurose Obsessiva, nós as obtivemos de H. Ey e al (1969).

 

Sintomas

Numa tentativa de facilitar a exposição, os sintomas da neurose obsessiva podem ser apresentados em grupos:

1 - "O paciente é invadido por idéias obsessivas que se lhe impõem, apesar da tentativa de se livrar delas: é o pensamento compulsivo.

2 - Experimenta uma tendência aos atos agressivos, impulsivos, particularmente temidos e não desejados: é a atividade compulsiva.

3 - Sente-se forçado a realizar atos repetitivos de caráter simbólico: são os ritos do pensamento mágico.

4 - Esta luta esgotadora é por sua vez efeito e causa de uma astenia psíquica (psicastenia).

O conjunto desses sintomas recebe o nome clássico de obsessão."

H. Ey e al enumeram ainda, e na qualidade de sintomas típicos, os três grupos seguintes: Dúvida (loucura da dúvida), obsessão-impulsão e onomatomania.

1 - "Dúvidas - São frequentíssimas na sintomatologia da Neurose Obsessiva". Podem atingir o campo da Microbiologia, em que o enfermo se envolve nos aspectos da contaminação e descontaminação, ou no campo da consciência moral. As dúvidas podem, ainda, recair sobre qualquer ato da vida a respeito do qual possa ser cogitado ele estar certo ou errado.

2 - "Obsessão - Impulsão de atos criminosos, (suicídio, homicídio, atentados à moral, incêndios, etc)". O enfermo não os executa mas é atormentado por esses desejos, contidos ‘a custa de grande esforço, segundo afirma.

3 - Onomatomania - "infinitas séries de números e cálculos constituem o objeto privilegiado, para a técnica de sabotagem da ação pelo pensamento mágico".

Outro modo de abordar os sintomas da neurose obsessiva encontramos no trabalho de Lotufo-Neto e al (1994) que, tratando do tema transtorno obsessivo compulsivo (o conjunto de obsessões e compulsões), apresenta a seguinte classificação:

"Obsessões:

a . Quanto à forma:

  1. Dúvida
  2. Impulsos
  3. Medo
  4. Ruminação

b. Quanto ao conteúdo:

  1. Sujeira e contaminação
  2. Agressividade e prejuízo
  3. Temas impessoais ou inanimados
  4. Bem-estar familiar
  5. Trabalho
  6. Diversos

c. Quanto à conseqüência:

  1. Eliciadoras de ansiedade
  2. Corretivas ou rituais congnitivos
  3. Disruptivas

As compulsões são classificadas somente quanto à forma:

  1. Limpeza/descontaminação
  2. Verificação
  3. Repetir ou tocar (sic)
  4. Rituais
  5. Simetria e Ordem
  6. Colecionismo
  7. Lentificação

 

Freud (1892, 1899, 1925) trata do tema neurose obsessiva através de relato de casos clínicos e vai introduzindo, junto à casuística, aspectos teóricos.

Fenichel (1966) aborda essa neurose por meio de assuntos tais como:
O pensamento na neurose obsessiva; o caráter obsessivo e sua relação com a analidade; relações objetais na neurose obsessiva; instinto e defesa nos sintomas obsessivos; sistemas compulsivos; mecanismos de defesa na neurose obsessiva; magia e superstição na neurose obsessiva;
a dupla frente do Eu na neurose obsessiva.

O modo variável de tratar do assunto é, em nosso modo de ver, fruto de uma imensa dificuldade em abordar uma patologia tão profusa em sua sintomatologia.

Podemos adiantar que certos grupos de sintomas apresentam vínculo com os aspectos afetivos, enquanto que outros já têm nítida correlação com o pensamento mágico e outro grupo de sintomas, em número considerável, têm ligação com a dúvida primitiva.

A interação desses três componentes, pertencentes à matriz arcaica, vai dar forma à neurose obsessiva.
Sintomas da Neurose Obsessiva e a Correspondência com sua Matriz Arcaica.

Vamos relembrar ao leitor a matriz arcaica da neurose obsessiva que já tivemos a oportunidade de apresentar anteriormente.

" Dúvida primitiva associada ao conjunto emocional predominante, amor e ódio, sem característica de amálgama. Presença da emoção de medo.
Uso abusivo do pensamento mágico" (Guimarães, 2005).

Nos sintomas da neurose obsessiva encontramos uma manifestação afetiva em que predomina, ora a libido, ora predomina a agressividade. Além disso, como fator complicador, existe a dúvida primitiva que interfere na decisão por uma ou por outra dessas manifestações afetivas.

O pensamento mágico concorre para a formação de outro importante grupo de sintomas, que são os representados pelos rituais.

Dúvida Primitiva

A dúvida primitiva associada ao conjunto emocional amor e ódio é a mola mestra da neurose obsessiva. Cabalero Goás (1966) diz que a raiz da obsessão é a dúvida. A dúvida isoladamente acaba, às vezes, em ser um  sintoma terminal de algumas  formas crônicas da neurose obsessiva.

Ela está presente nas situações em que a libido e a agressividade podem se manifestar. Ela ainda se manifesta nos escrúpulos, nas execuções adequadas dos rituais, etc.

A dúvida presente na neurose obsessiva recebe variados nomes, tais como dúvida mórbida, dúvida vital.

É muito claro que nos sintomas da neurose obsessiva em que ocorre a dúvida e que poderemos chamar de dúvida secundária é uma decorrência da dúvida primitiva (Guimarães, 2004) e que já foi pormenorizada no trabalho intitulado: A importância dos fatores quantitativos na estrutura das matrizes arcaicas.

 Sintomas decorrentes da dúvida primitiva associada aos afetos

 A dúvida entre amar e odiar o mesmo objeto para um adulto normal não é um grande problema, mas para uma criança isto é desesperador. Às vezes a melhor solução é a intermediária, ou seja, manter as duas emoções em condições de equilíbrio ou em condições de igualdade. Daí decorre a compulsão à simetria, a mania de números pares, a rigidez na distribuição de justiça, o pavor à disposição de objetos em números impares, tudo isto numa tentativa mágica de igualar ou manter em relativo equilíbrio as emoções de amor e ódio.

Ainda dentro deste bloco, Amar ou Odiar, se encontram aqueles pacientes que necessitam se assegurar de que fecharam adequadamente a chave do gás e, na dúvida, voltam a tocar a chave novamente de modo que o mesmo ato destinado a combater o perigo pode, na realidade, precipitá-lo.

Outros Aspectos Afetivos

Medo

O medo não ocupa a situação de emoção predominante da matriz arcaica da neurose obsessiva, mas pode estar presente em maior ou menor grau. Quando está presente em maior intensidade, acaba por dar um complemento fóbico à neurose obsessiva. Este fato não é incomum, tanto que Cabalero Goás (1966) trata das fobias junto com a neurose obsessiva.
Caso a emoção de medo tenha participação importante na matriz dessa neurose, em um determinado paciente, ela seria a responsável pelo grupo de sintomas de caráter fóbico, principalmente no que se refere à sujeira e contaminação.

O medo é a emoção responsável, ainda, pela maior ou menor rigidez do superego da neurose obsessiva.

Mecanismos de Defesa da Neurose Obsessiva

Regressão, formação reativa, isolamento e anulação estão sempre presentes nessa neurose. Exceto a regressão, que está presente em todas as neuroses, os demais mecanismos apresentam uma forte especificidade com a neurose obsessiva e têm ligação com a estrutura de sua matriz arcaica.

Anulação e Isolamento

Os mecanismos defensivos estão ligados à matriz arcaica em virtude de sua vinculação com o pensamento mágico, este sim, está presente de maneira explícita na matriz arcaica da neurose obsessiva.

Pensamento Mágico e Mecanismo de Defesa

Certos sintomas da neurose obsessiva, aqueles decorrentes da falha dos mecanismos de defesa, estão ligados a sua matriz arcaica em virtude do pensamento mágico presente na matriz dessa neurose, como já falamos.

Indivíduos portadores da neurose obsessiva podem ter um quociente intelectual elevado, mas ainda assim apresentam a convivência do pensamento lógico com o mágico (Freud, 1913).
Os mecanismos de defesa característicos da neurose obsessiva, tais como o isolamento e a anulação, são mecanismos que fazem obrigatoriamente o uso do pensamento mágico e são responsáveis por grande variedade de sintomas.

Outro importante grupo de sintomas presentes na neurose obsessiva e que faz uso abusivo do pensamento mágico é constituído pelo grupo dos rituais ou cerimoniais.

Regressão na Neurose Obsessiva

A regressão do neurótico obsessivo se faz de maneira bastante nítida à fase anal, mas a regressão do paciente com neurose obsessiva se faz também ao período em que o pensamento mágico já está presente, ou seja, no período oral.

A regressão não é um mecanismo exclusivo da neurose obsessiva e se encontra em todas as formas de neurose.

Formação Reativa

Também não é um mecanismo de defesa específico da neurose obsessiva, mas tem presença frequente nessa forma de neurose.

O paciente luta contra a hostilidade inconsciente e deixa transparecer uma pessoa amável em toda sua vida de relação (Freud A, 1968).

As duas emoções, amor e ódio, sempre presentes na neurose obsessiva, juntamente com a dúvida entre amar ou odiar o mesmo objeto, permitem a mudança de uma emoção para outra com relativa facilidade.

Anulação

Mecanismo psicológico pelo qual o indivíduo se esforça por fazer com que pensamentos, palavras, gestos e atos passados não tenham acontecido: utiliza para isto um pensamento ou um comportamento com uma significação oposta.

Trata-se aqui de uma compulsão de feição "mágica", particularmente característica da neurose obsessiva (Laplanche e Pontalis, 1970).

É possível observar bem este mecanismo em certos sintomas compulsivos, compostos de dois tempos, onde o segundo ato representa a completa inversão do primeiro - é o caso do paciente que tem que abrir e fechar a chave do gás, um ato seguido do outro. Todos os sintomas que representam uma expiação também pertencem a esta categoria. A expiação significa anular atos anteriores. A idéia de expiação tem caráter mágico.

 Às vezes a anulação não consiste em uma compulsão de fazer o oposto ao que já foi feito, senão em uma compulsão de repetir o mesmo ato. A diferença está em que a realização do segundo ato é feita com um significado diferente do primeiro. A anulação pode visar a combater uma atitude instintiva ligada ao prazer sexual, mas pode também combater atos e atitudes ligados a imaginários efeitos destrutivos.

Certos sintomas que são frequentes na neurose obsessiva são decorrentes do fracasso do mecanismo de anulação.

Extraídos de Fenichel (1966), apresentaremos os seguintes:

  1. Aumento em número de repetições necessárias para se assegurar do sucesso de uma medida qualquer.
  2. Certas formas compulsivas de contar, cujo significado inconsciente é contar o número de repetições necessárias.
  3. Alcance cada vez mais amplo das garantias buscadas em um cerimonial.
  4. Dúvidas de caráter obsessivo, que às vezes são dúvidas sobre se a anulação teve êxito ou não.

Isolamento

Consiste em isolar o conteúdo ideacional de sua correspondente carga emocional. O isolamento tem afinidade com o tabu de tocar. Muitos sintomas obsessivos regulam o modo de como os objetos devem ou não ser tocados (Freud, 1925).

O isolamento manifesta-se em diversos sintomas obsessivos. É muito claro em análise, onde a recomendação da associação livre, por lhe ser oposta, o põe em evidência. O paciente é incapaz de fazer a associação livre e pode, ainda, manter isolada a análise de todo o resto de sua vida.

Verifica-se ainda, neste mecanismo de defesa, a situação em que a idéia é isolada da carga emocional originalmente vinculada a ela, e isto gera uma série de situações importantes (Fenichel, 1966):

  1. Conteúdos ideacionais extremamente censuráveis podem se fazer conscientes em forma de obsessões, porque o neurótico obsessivo é capaz de percebê-los como pensamentos isolados desprovidos de qualquer emoção.
  2. O isolamento dá a impressão de uma total falta de afetos que se nota no neurótico obsessivo.
  3. A separação entre sentimentos de ternura e sexualidade é uma forma freqüente de isolamento percebido na nossa cultura.
  4. Crianças conseguem desdobrar sua personalidade em duas, sendo uma boa e outra má, e uma não assume o que a outra faz.

 Relações Objetais na Neurose Obsessiva.

Na neurose obsessiva as relações objetais têm a marca de sua matriz arcaica. A dúvida entre amar e odiar o mesmo objeto leva à total insegurança entre amar ou odiar as pessoas com as quais foi iniciado um relacionamento afetivo.
O precário relacionamento objetal dirige o neurótico obsessivo a uma afeição desusada pelas coisas concretas: mania de coleção, fixação no dinheiro, etc.
A ambivalência do Ego frente ao Superego tem ligação com a dúvida entre amar e odiar o mesmo objeto, mas tem a ver, em última instância, com a tumultuada relação objetal, característica do neurótico obsessivo.

 Sistemas Compulsivos

Os sistemas compulsivos e o afã neurótico pela classificação (ligados aos sistemas compulsivos) objetiva ordenar o conhecido e evitar o desconhecido.

É claro que o desconhecido (e porque não dizer, temido) pelo paciente neurótico obsessivo é o envolvimento emocional. Tanto assim que Fenichel (1966,pg. 324) citando Dooley  diz:

"O neurótico obsessivo se sente protegido enquanto se comporta de maneira "ordenada" , especialmente no que se refere a dinheiro e tempo". Lucile Dooley reuniu material concernente ao sentido de ordem e sistema, na relação com o tempo, de neuróticos obsessivos aferrados aos mesmos e para quem toda perturbação da "rotina" significa inconscientemente assassinato e incesto.

 Rituais

Às vezes os rituais dominam toda a sintomatologia do paciente portador da neurose obsessiva.
Certos rituais representam a sexualidade outras vezes a destrutividade. È comum a afirmação de que o ritual é um substituto da masturbação. Uma caricatura da masturbação. A propósito lembramos ao leitor o relato de Fenichel (pg 187) que diz da surpresa de um paciente do sexo masculino que, após terminar um trabalhoso ritual, teve uma ejaculação completa. 
Podemos fechar o tema com uma idéia de Freud: o pensamento mágico não possue a eficácia externa que o paciente imagina, mas tem uma real eficácia interna.

Comentários
a) dúvida na neurose obsessiva
A dúvida que está presente na maioria dos sintomas na neurose obsessiva é uma dúvida que podemos chamar de secundária. Ela é uma decorrência da dúvida primitiva, tema abordado com detalhes em artigo anterior (Guimarães, 2004).

Está dúvida secundária ou a usual da neurose obsessiva recai sobre conflitos a respeito da masculinidade (atividade) e feminilidade (passividade), amor e ódio, conflito entre o superego e os instintos e, além destes conflitos, podem acontecer um cem número de dúvidas que recaem sobre as mais variadas situações.

 Na matriz arcaica da neurose obsessiva temos a situação de dúvida entre amar ou odiar o mesmo objeto. As duas emoções, amor (libido) e ódio (destrutividade), estão de certo modo em pé de igualdade ou são de intensidades mais ou menos semelhantes. Sendo assim, a defesa representada pelo superego vai ter que atuar em duas frentes: ora contra o impulso sexual, este agravado se tiver o caráter incestuoso, ou ora contra o impulso agressivo, que também  pode estar agravado se for um desejo homicida contra um familiar.
Talvez o leitor pense que estamos dando uma exagerada importância à dúvida associada às emoções amor e ódio, na formação dos sintomas da neurose obsessiva. Talvez estranhe também que a dúvida que chamamos de primitiva tenha surgido a partir de situações afetivas contraditórias e repetitivas, na mais tenra infância.

Para evitar argumentações cansativas, remetemos o leitor à pag. 656, em que Freud (1925) chega à dúvida usual da neurose obsessiva a partir da indecisão entre amar ou odiar o mesmo objeto, utilizando um caso clínico de um paciente adulto jovem.

b) Aspectos emocionais
O paciente neurótico obsessivo além de ter dificuldades em expressar ou lidar com as emoções sexuais e agressivas ainda faz uma tentativa, até certo ponto de caráter mágico, em manter o equilíbrio entre essas emoções. A mania de simetria, a opção compulsiva pelos números pares e o rígido conceito de justiça têm a ver com a problemática do equilíbrio de emoções que acompanha o paciente portador da neurose obsessiva.
Para o paciente neurótico obsessivo a imagem simétrica é a concretização do equilíbrio entre as emoções contraditórias amor e ódio. A imagem assimétrica, ao contrário, caso fosse executada significaria uma clara e "perigosa" opção ou pelo amor ou pelo ódio.

A predileção que tem o neurótico obsessivo pelos temas indefinidos pode ser explicada pela mesma razão fornecida acima.

A fuga das emoções leva à inibição geral da ação sexual ou agressiva.

Certos sintomas, tais como a lentificação dos atos, são indicadores da tentativa de não realizar esses atos.

 c) Ação Psicoterápica

É comum, em alguns relatos de casos ou trechos de casos em que se verifica resolução de sintomas da neurose obsessiva, percebermos que a atuação a ocorreu sobre uma capa superficial. Às vezes se trata do surgimento de uma homossexualidade latente, outras vezes se trata do aparecimento de uma fixação libidinal em um progenitor, acompanhada de forte componente agressivo, e por aí vai.

O âmago do problema da neurose obsessiva está no medo do desamparo ou da perda do afeto, quando há o predomínio da emoção amorosa dirigida ao objeto, ou então é o pavor ao aniquilamento, quando predomina a emoção agressiva em relação ao mesmo objeto, e na dúvida, que chamamos de primitiva, entre expressar amor ou ódio que é conseqüência natural dessa difícil ou impossível decisão.

 d) Ação dos Antidepressivos

Pacientes portadores da neurose obsessiva apresentam melhora dos sintomas quando tratados com antidepressivos. Tudo leva a crer que os aspectos neuroquímicos do antidepressivo, semelhantes aos aspectos neuroquímicos da emoção do amor, decidem pelo vai e vem do amar ou odiar, próprios dessa forma de neurose e resolve, ainda, o problema da dúvida primitiva, em decorrência do aumento da sensação emocional semelhante à emoção amorosa. A emoção de ódio, se comparada com a emoção do amor, fica em papel secundário e praticamente ausente, durante o efeito do antidepressivo.

Esta ação medicamentosa desequilibra a balança afetiva e termina por solucionar o problema da dúvida primitiva, conforme já falamos.

É irônico que a química veio resolver o problema terapêutico de uma forma de neurose, que acreditamos ser de base psicogenética, atuando no âmago de problema desta mesma neurose. Só temos a lamentar que esse efeito terapêutico dure somente enquanto se usa a medicação.

 e) Observações Sobre o Caráter Anal

As pessoas que se enfermam de neurose obsessiva em geral apresentam intensificação das tendências que pertencem aos aspectos do caráter anal, que são: ordem, economia e obstinação.

A matriz arcaica da neurose obsessiva, possuindo o amor e o ódio como emoções predominantes, encontra na região anal um fértil terreno para sua atuação. É possível a expressão da agressividade e da submissão, da crueldade e da bondade, da ordem e da desordem.

Obtenção do prazer, através da retenção do bolo fecal, e manifestação da agressividade, pela expulsão das fezes, é um exemplo da versatilidade da região anal.

Claro que se pode trazer à tona que a região oral tem as mesmas condições de expressar tanto a agressividade, como a libido. Concordamos. Entretanto é importante lembrar que a matriz arcaica da neurose obsessiva vai se formando no período oral e já está pronta quando a criança atinge o período anal, encontrando assim um fértil terreno para estabelecer fixações.

Talvez, por esta razão, os aspectos relativos ao caráter anal e neurose obsessiva são muito mais visíveis que nas outras neuroses.

Segundo Freud (1913) e Abranham (1970) há uma correlação causal entre a fase anal e a neurose obsessiva. Acreditamos que isto tem mais a ver com a matriz arcaica da neurose obsessiva atuando na fase anal do que a fase anal agindo sobre a formação dessa neurose.

Lotufo-Neto e al (1994, pg. 128) falam em estatísticas nas quais não existe correlação entre neurose obsessiva e traços obsessivos-compulsivos de personalidade.

Acreditamos que não chegaremos a ponto algum com essa discussão porque, se a matriz arcaica da neurose obsessiva favorece o aparecimento de fixações próprias da fase anal, não haverá neurose obsessiva sem algum traço dessa fase.

CONCLUSÕES

1- Existe uma correlação entre a grande maioria dos sintomas da neurose obsessiva e sua matriz arcaica.

2- A dúvida primitiva, existente na matriz arcaica da neurose obsessiva, é responsável por todos os sintomas em que se encontra presente  a dúvida usual, que chamamos de secundária, freqüentíssima nessa neurose.

3- Vários sintomas da neurose obsessiva são decorrentes da presença do pensamento mágico em sua matriz arcaica.

4- Os sintomas que surgem em virtude da falha dos mecanismos de defesa, tais como os mecanismos de anulação e isolamento, têm sua existência graças ao pensamento mágico, sempre presente nesses mecanismos defensivos.

5- A alternância entre amar ou odiar o mesmo objeto leva a um precário relacionamento objetal e a uma afeição pelas coisas concretas: mania de coleção, fixação no dinheiro, etc.

6- Há um duplo trabalho do superego para domar duas forças instintivas: Ora a sexualidade (amor) ora a destrutividade (ódio).

7- Verifica-se a ampliação dos sintomas próprios da neurose obsessiva com o aparecimento dos sintomas da neurose fóbica, quando a emoção de medo atinge uma intensidade importante.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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            Um novo enfoque psicanalítico e psicopatológico. Jornal Mineiro
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