Jornal Mineiro de Psiquiatria
 

  

Freud: estudo crítico da psicanálise (*)

(prefácio)

por Rudolph Allers (**)                                        

                                      ESTE livro, que é uma crítica, foi escrito por quem estudou muito de perto a psicanálise e se vê agora obrigado a proferir um veredicto desfavorável. E o autor sabe que está longe de se encontrar sozinho na sua atitude. Muitas pessoas há que que têm criticado a psicanálise e muitos mais há ainda que a têm reprovado, sem se darem ao trabalho de a criticar. Estou convencido de que os estudos críticos das ideias de Freud não têm sido levados tão longe quando seria para desejar, nem conseguiram ainda levantar o véu que é, por assim dizer, o pano de fundo da teoria. E, se o fizeram, não deram a conhecer, com suficiente clareza, quão intimamente as várias concepções de Freud e da sua escola dependem da filosofia que está por trás de todo o sistema. Muitos adversários da psicanálise rejeitam as suas ideias, porque entendem que tais ideias contradizem a moral, os princípios geralmente aceites e o senso comum. Mas estas reacções isoladas, por muito justificadas que possam ser, não são bons argumentos. Podem resultar de uma vaga noção de que alguma coisa está em desacordo com os factos, com as ideias e com a lógica da teoria que condenam; mas, a não ser que tais factos se tornem claramente visíveis, a simples maneira de pensar de uma pessoa sobre o assunto é um argumento de pouco valor.
A psicanálise orgulha-se de ser uma ciência e, sendo assim, tem de ser contraditada pelos meios que a ciência emprega, isto é, pela análise lógica e pelo exame critico dos factos.
A nossa intenção, nestas páginas, é, não só criticar a psicanálise, mas também estudar a importância que este sistema pode ter — ou deixar de ter — para a psicologia, para a medicina, para a educação, para a sociologia e para a etnologia, E há, ainda, outro fim em vista para o autor.
A psicanálise, depois de ter sido ignorada e posta de parte durante muitos anos, veio a alcançar um enorme e surpreendente sucesso. Não é apenas pelos psicanalistas que a psicanálise chegou a ser considerada como a maior realização da psicologia e a mais importante descoberta no decorrer dos séculos. O século XIX — diz-se — será chamado o século de Freud. Não há campo algum da vida ou da actividade do homem que, por uma forma ou por outra, não tenha estado debaixo da, influência, desta nova « depth--psychology » ou não tenha sido obrigado a servir-se das ideias emanadas da psicanálise. Este sucesso é, já de per si, um problema. Uma amplitude desta natureza não é frequente na história do pensamento humano e, exactamente por isso, carece de uma explicação. E é essa explicação que eu vou tentar dar.
Este livro foi escrito por um católico. Muitas pessoas, principalmente os psicanalistas, poderão imediatamente suspeitar de que existe, logo de entrada, determinada tendência no espírito do autor. É exactamente para desfazer tal impressão que eu me esforçarei por evitar, tanto quanto possível, os contrastes entre as afirmações da psicanálise e as da Fé ou da filosofia católica. Vou tentar desmascarar as ocultas autocontradições da psicanálise, bem como a inconsistência de muitas das suas afirmações, e procurarei demonstrar que esta teoria é incompatível com qualquer filosofia, exceptuando aquela cujo espírito anima, não só a teoria, mas também a prática da psicanálise.
Creio, de facto, — e desejo esclarecer isto logo desde o princípio — que a teoria e a prática estão tão intimamente ligadas na psicanálise que se podem considerar verdadeiramente inseparáveis. Não se pode aceitar uma sem a outra. Todo aquele que quiser fazer uso do método não poderá deixar de adoptar a filosofia. Desde que creio que tal filosofia é absoluta e demonstravelmente errada, sou também obrigado a crer que é perigoso empregar o método.
O múltiplo emprego que as ideias de Freud têm encontrado, bem como as suas relações com muitos aspectos da vida humana, exigem que um estudo critico tome em consideração todos esses aspectos, ou, pelo menos, a sua maior parte. Hoje é impossível que o homem adquira um conhecimento completo em todos os campos da ciência. Será obrigado, portanto, a acreditar nos outros e, nesse caso, terá de recorrer a autoridades dignas de crédito. Mas, quando um homem adquire conhecimento suficiente em certos campos particulares, devido ao estudo pessoal ( e à experiência ), só terá de dizer aquilo que ele mesmo reconheceu ser verdadeiro. Espero que não me acusem de presunção pelo facto de afirmar que possuo um conhecimento digno de crédito, no que se refere ao aspecto psicológico e médico do nosso problema. Conto, no meu activo, trinta anos de prática de psiquiatria e vinte anos de prática de psicoterapia. Fui, durante muitos anos, professor de psicologia médica e normal no estrangeiro, e há já dois anos que ensino psicologia na América. Seja-me ainda permitido declarar que, nos últimos vinte anos, quer por escrito quer oralmente, me tenho dedicado à psicanálise, acompanhando, desde há muito tempo, a sua evolução.
 
Os resultados dos meus estudos sobre psicanálise, sobre a sua comparação com outras concepções psicológicas e sobre as minhas experiências pessoais em muitos indivíduos, encontram-se espalhados por muitas publicações. Devo, porém, dizer que já não mantenho algumas afirmações que fiz. Trata-se, na sua maior parte, de afirmações que se ajustam a uma ou outra parte da psicologia de Freud. A minha opinião modificou-se; quanto mais conhecedor me tornei da psicanálise e dos seus problemas, tanto menos favorável se tornou a minha opinião. As conclusões a que chego neste livro, são, portanto, na sua maior parte, negativas.
Julgo desnecessário apresentar aqui uma extensa exposição do que seja a psicanálise. Esta doutrina tornou-se tão conhecida que suponho que a sua essência, pelo menos, não carece de mais ampla explicação. Espero, portanto, poder referir-me à natureza da psicanálise em poucas páginas, isto é, nas que forem suficientes para estabelecer a base indispensável para a análise crítica.
Como toda a gente sabe, Freud é o verdadeiro pai da psicanálise. Foi ele quem desenvolveu tudo quanto hoje se encontra geralmente compreendido sob esta rubrica, embora os primeiros passos nesse sentido tivessem sido dados juntamente com Breuer e, como parece, em parte sob a sua influência. Breuer abandonou os trabalhos pouco depois de terem sido iniciados, por razões que são pouco conhecidas e que, em qualquer caso, não têm importância. Era mais velho do que Freud e morreu há alguns anos. Freud morreu em Londres, em 24 de Setembro de 1939, fora da sua pátria e com 84 anos de idade.
Poder-se-á julgar, em virtude das referências biográficas aqui feitas, que o facto de se criticar a obra de Freud, tendo ele morrido há tão pouco tempo, representa uma falta de respeito pelo velho ditado — de mortuis nil nisi bonum(1). Mas os vivos são mais importantes que os mortos. E proteger os vivos contra as armadilhas do erro é uma tarefa importante, mais importante ainda que toda a consideração pelos mortos. Foi com razão que Voltaire escreveu : Aux vivants on doit dês égards ; aux morts, rien que Ia verité (2).
Qual é, pois, o fim deste estudo ? Não só convencer os psicanalistas de que estão em erro, mas também conseguir que aqueles que estão apenas interessados pela psicanálise a possam ver à luz da verdade. É certo que há muito poucas « conversões » de psicanalistas; todos eles estão demasiadamente seguros de terem posto a mão sobre as mais profunda das verdades da natureza humana; no entanto, poderemos acalentar a esperança de conseguirmos evitar que o contágio alastre.
Os psicanalistas raras vezes têm respondido a qualquer crítica. Usam, para com a crítica, de um método muito curioso. Em vez de considerarem os argumentos objectivos apresentados pelos seus adversários, explicam a si próprios — e a quem quer que em tal acredite — que a oposição contra a psicologia de Freud é devida aos próprios factores que Freud declarou serem activos na natureza humana. A não ser que um indivíduo —- dizem eles — tenha sido submetido pessoalmente à psicanálise, é incapaz de compreender e avaliar esta teoria e muito menos de se servir dela para o estudo do espírito e do tratamento das perturbações mentais. Tal maneira de raciocinar é um fenómeno único na história do pensamento e da ciência. A isto nos havemos de referir na devida altura. Mas devo afirmar, logo de início, e categoricamente, que este argumento é em absoluto injustificado e assenta sobre falsos raciocínios, o que, aliás, é comum a todas as partes do ensino psicanaíttico.
Este livro tem três partes. A primeira, compreendendo os capítulos I a V, trata da natureza da psicanálise, das suas pressuposições e da filosofia em que todo o sistema assenta. A segunda, capítulos VI a XII, trata de questões especiais e das relações da psicanálise com outras ciências ou campos científicos. A terceira e última parte estuda as raízes históricas da psicanálise e procura dar uma ideia das razoes por que esta teoria alcançou tão admirável sucesso. O último capítulo resume a discussão das partes anteriores s formula perguntas definidas, às quais os psicanalistas são convidados a responder. Este livro não é, de forma alguma, um relato completo dos factos que podem ser considerados, nem pretende esgotar o assunto. Apenas incidentalmente nos referimos a quaisquer obras e só a título de explicação. Também não apresentamos qualquer outra teoria que possa substituir a de Freud, aqui criticada e considerada inaceitável. Sejam quais forem os meus pontos de vista pessoais sobre tal assunto, não são chamados para aqui. Este livro é apenas uma crítica.

1-Dos  mortos,   nada a não ser o   bem.   (N.   T.)
2   -Aos vivos, devemos respeito ; aos mortos, apenas a verdade. (N. T.).

(*) Allers, Rudolph. Freud: estudo crítico da psicanálise. Livraria Alves Martins/ Porto,1970

Esta obra está esgotada, mas pode ser encontrada na Estante Virtual.

( http://www.estantevirtual.com.br)

(**) Rudolph Allers foi doutor em medicina e filosofia, professor de psicologia na Universidade Católica da América e assistente de psiquiatria nas Escolas Médicas de Munique e Viena

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