Jornal Mineiro de Psiquiatria
 

                  

Crítica a quem?

por Humberto Campolina

 

É sabido que um sistema de idéias, quando parte de falsas premissas, chega inexoravelmente a conclusões absolutamente alienadas da realidade, malgrado a coerência interna de suas partes. É o caso dos doentes paranóicos e da...  antipsiquiatria que hoje aparelha todo a coordenação do sistema público brasileiro de “saúde mental” (expressão ruim cunhada justamente para discriminar e substituir a o nome da psiquiatria).
A Associação Brasileira de Psiquiatria, que inicialmente pareceu cair no canto de sereia (uso aqui a expressão no sentido homérico, referência a Ulisses que se amarrou ao mastro do navio na tentativa de resistir ao que atraiu seus companheiros e os matou) dessa patologia social, recuperou-se a tempo e as últimas diretorias têm resistido bravamente aos assédios psiquiatricidas(*) dos Foucaults tupiniquins.
Mas a instituição tem suas recaídas. É o caso da publicação do artigo “Análise da assistência psiquiátrica no Brasil: análise crítica (**), publicado no Debates (ano 1, n° 3, maio e junho de 2009), assinado por Jane Lemos, psiquiatra pernambucana e presidente da associação médica desse estado, conforme os créditos fornecidos pela publicação.
No título do trabalho, Lemos nos faz crer que construirá um texto crítico à deletéria assistência (anti)psiquiátrica  a qual estão sujeitos os brasileiros pobres (pois os ricos passam longe dessa “saúde mental” de construção ideológica) e, ao fim e ao cabo, faz um... panegírico à tal reforma (***). A começar pela inexplicável mudança terminológica: o que no título era reforma da assistência, passa no corpo do texto a ser chamada de reforma psiquiátrica. Ignorância ou malícia? A dra. Lemos por acaso não sabe a diferença entre reformar a assistência e mudar paradigmas científicos? Ou será que vê em Basaglia abordagens verdadeiramente paradigmáticas em psiquiatria? Em qualquer dos casos, a doutora Jane Lemos estará em sérios apuros profissionais.
E qual a premissa da qual parte Lemos? Passo a palavra à autora:

Historicamente, [sic] o cenário assistencial em psiquiatria no Brasil foi marcado pela repressão, autoritarismo, violência, exclusão social, violação aos direitos humanos e cidadania(p.38, grifo meu) (****).

 Jane Lemos solenemente dispensa-se do trabalho de comprovar a correção desta premissa que inevitavelmente conduz à dedução de um futuro brilhante para a saúde mental, à nossa espera graças à sabedoria da doutora e sua geração. Ou dito de outra forma, o passado concreto, agora permeado pelo Mal, é trocado pelo inexistente, não concretizado futuro luminoso, encarnação terrena do Bem; ao invés de um porvir orientado e estruturado pela experiência passada, tem-se o contrário: o passado é filtrado e visto sob a luz de uma quimera futurista. Eis aí, como diria o filósofo Olabo de Carvalho, uma inversão da ordem do real que, mutatis mutandis, vê-se em certos casos psicopalológicos.

Todavia, não resisto em auxiliar Lemos a provar sua tese. Quem, quando e onde: uma acusação, do porte da que a psiquiatra faz, prova-se facilmente com as respostas a tais questões. A doutora Jane Lemos deve tão-somente nos contar quando, onde e quem REPRIMIU, ABUSOU DE AUTORIDADE, EXCLUIU SOCIALMENTE E VIOLOU DIREITOS HUMANOS DE DOENTES MENTAIS. Ou estará, para dizer o mínimo, correndo o risco de ser leviana e injuriosa para com as gerações de psiquiatras que fizeram a história da psiquiatria brasileira.

(*) Na comissão de saúde mental do Ministério da Saúde, a psiquiatria ocupa uma suplência ao lado da odontologia...

(**) http://www.abpbrasil.org.br/medicos/publicacoes/debates/REV_PSQ_HOJE_3_Junho_2009_light.pdf

(***) Reforma que, segundo Lemos, “tem como pressuposto básico a inclusão social e a habilitação da sociedade a conviver com a diferença” (idem). Hum...

(****) A doutora Jane talvez não saiba a origem histórica da antipsiquiatria, que já nasceu com os jargões por ela usados no artigo de “exclusão”, “resgate da cidadania”, etc. etc. (mantras surrados que funcionam como hipnóticos e paralisantes às consciências incautas)?  Pois vou fazer o obséquio contar-lhe a história. Consta que na década de sessenta do século XX, vazou para o ocidente que na União Soviética estavam internando dissidentes políticos nos hospitais psiquiátricos. Com o objetivo de contrabalançar essa informação, veio de Moscou a ordem para que um membro da KGB, o famigerado serviço secreto da URSS, lançasse a contra-informação de que os hospitais psiquiátricos do Ocidente estavam tratando desumanamente os pacientes psiquiátricos. Sabem quem era esse homem da KGB? David Cooper o fundador da antipsiquiatria (história que apareceu quando o companheiro de viagem Laing deu com a língua nos dentes). Em seguida vieram Foucault, Baságlia et caterva e, nos dias de hoje, a saúde mental pública brasileira, engendrada pelas mãos de um partido político que tem como modelo de política Cuba, esse paraíso da liberdade e do respeito à cidadania.

 

 

home