Jornal Mineiro de Psiquiatria

                                         

A MANIPULAÇÃO DAS CONSCIÊNCIAS

por Alberto Oliva

 

É irrealista exigir total isenção nos julgamentos sobre assuntos humanos. Talvez a imparcialidade possa ser tentada. O fato é que a neutralidade é quase impossível quando se tem de lidar com os problemas da vida interpessoal e coletiva. Mas isso não significa que não haja diferença, em termos cognitivos, entre as teses e posicionamentos e que tudo esteja fadado a ser aferido com base em preferência ideológica. Mais que possível, é desejável que a inteligência lúcida se mostre judiciosa nas avaliações e ponderada nos julgamentos. Infelizmente, o “bias”, a predisposição militante, é mais forte justamente entre aqueles que, se valendo de vários tipos de disfarce, se arvoram a combater o preconceito no Brasil. Uma das formas mais acintosas e grosseiras de combater pretensos preconceitos tem sido pela entronização legal de outros. Ataca-se o suposto racismo dispensando tratamento diferenciado – pela introdução, por exemplo, de cotas - a brancos e negros. O impressionante é que se tenta combater um racismo nebulosamente caracterizado promulgando leis nitidamente racistas.

O brasileiro é extremamente tolerante para com os que o manipulam. Acredita piamente que ideologizar é expressão de inteligência. As atividades de ensino tornam patente que docentes e discentes são reféns de esquemas mentais enrijecidos: repetem todos as mesmas frases de efeito de alguma ideologia e se acham em pleno exercício do pensamento crítico. Quando a complexa culinária da inteligência se reduz ao prato feito de uma ideologia não há mais como degustar os sutis temperos do pensar. Quando um vai concordando com a besteira do outro, um vai idiotizando o outro, cria-se um especioso consenso em torno do vazio de idéias. É interessante constatar que quando o consenso é apenas ideológico, quando não se dá no campo das genuínas idéias, nada encerra de produtivo: gera desorientação prática e falta de convergência básica no plano da ação.

A catarse pela via da construção de significados emotivos é o que mais acontece; só que ao preço de se abandonar o inóspito terreno da formulação e defesa de autênticas idéias. Exemplos de ideologização sistemática, sem medo e sem pena de enganar, existem em abundância no cotidiano da imprensa brasileira. Nós últimos tempos tem-se destacado o silencio providencial dos que antes eram muito duros com o “neoliberalismo” de FHC. As charges de Chico Caruso no Globo e na Rede Globo, que têm como protagonista o presidente da câmara, servem para exemplificar a monomania ideológica. O excelente caricaturista tem sido, na era Lula, excessivamente benevolente com tudo que é caricaturável no governo. Severino, que virou sua grande obsessão, foi esculachado durante semanas como se fosse o único grande vilão de nossa triste realidade política. É claro que Severino deu declarações infelizes e adotou práticas nepotistas condenáveis. Defendeu coisas que expõem as vísceras de nosso velho patrimonialismo. Só que o nepotismo no Brasil está espalhado por todos os poderes. Nesse particular, Severino, por linhas tortas, contribuiu para expor a chaga. O deslize de Severino é que além de praticar o nepotismo superou a vergonha nacional de assumi-lo e passou a defendê-lo abertamente. O que indigna os fariseus não são os vícios públicos institucionalizados e sim o desassombro de sua defesa. A sociedade prefere esquecer o mecanismo político-institucional que propicia o nepotismo para levar ao pelourinho apenas a figura que teve a coragem insana de defendê-lo publicamente. Prefere a catarse da malhação do Judas à expiação da culpa na Cruz.

Por que o combativo caricaturista silencia sobre o nepetismo? Será que uma só letra modifica tanto o significado do fenômeno? Por que contratar membros da família é pecaminoso e contratar dezenas de milhares de filiados ao PT nada tem de censurável? Por que a contratação sem concurso, para funções muitas vezes “inventadas”, em consonância com imperativos e interesses partidários é mais legitima, em termos éticos, que a que se faz com base em laços de sangue? Dentre as restrições que podem ser feitas ao nepotismo e ao nepetismo duas se destacam. Contratar sem submeter ao crivo da competência e da competição é eticamente condenável. E é na maioria dos casos expressão de ineficiência, já que o dinheiro público deixa de ser gasto com educação e saúde, em frangalhos, para recompensar militantes. Por que os Chicos Carusos fingem que nada vêem quando o trem da alegria do PT passa recolhendo apaniguados para distribuí-los pelas estações dos Ministérios, Fundações, Agências e outras que tais? Por que não se dá a Severino, a despeito de seu nepotismo crasso, o crédito de ter como um leão combatido o Leviatã tributário? Seu empenho contra a medida provisória 232 foi digno de louvor. Mas nenhuma palavra de apoio recebeu da mídia que não se envergonha de fazer genuflexão diante das gafes e erros do governo. Será porque Severino pertence ao PP ou será porque ousou, no país em que a hipocrisia se alia à ideologização, assumir abertamente os vícios do velho patrimonialismo dos quais todos que podem tentam tirar proveito? Com a única diferença de que a esmagadora maioria esconde as benesses que colhe ou toma os cuidados de disfarçá-las com o verniz especioso da ideologia.

 

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