Jornal Mineiro de Psiquiatria

Drogas: liberdade de escolha ou compulsão destrutiva?

por Heitor De Paola

Resumo: Uma das maiores falácias dos defensores da liberação das drogas ou da redução de danos, é utilizar argumentos liberais para justificar o uso de drogas pesadas.

 

Uma das maiores falácias dos defensores da liberação das drogas ou da redução de danos, é utilizar argumentos liberais – como o direito dos indivíduos de determinar suas próprias vidas – para o uso de drogas pesadas. Nos seus termos, os usuários de drogas são vistos como uma ‘minoria’ que não deveria ser constrangida ou ter restringido seu direito de usar as substâncias que desejarem. Mesmo estando baseado em princípios constitucionais e legais que garantem os direitos das minorias, este argumento não leva em consideração importantes fatores psicológicos que induzem ao uso de drogas.
Uma característica marcante dos artigos desta área é a falta total de humanismo e de considerações psicológicas. Os usuários são tratados apenas como um ‘grupo social minoritário’, não como indivíduos. No entanto, usar drogas não é pertencer a uma minoria, como as minorias raciais ou religiosas. Não depende da cor da pele ou de opções morais mas de algo muito mais dramático e terrível: uma insuportável e muitas vezes irresistível compulsão. Somente uma observação superficial e afetivamente distanciada pode levar a crer de outra forma. Somente se os virmos como indivíduos, conhecendo algo de seus sofrimentos e desesperança, poderemos entender melhor o que se passa no seu interior. Mas é imperativo abandonar o bias coletivista que impera em nosso meio.
Qualquer um que tenha tido alguma experiência em hospitais psiquiátricos que aceitam usuários de drogas pesadas não pode acreditar na falácia da ‘liberdade de escolha’. São realmente escravos das drogas, dos vendedores e traficantes, não cidadãos autoconscientes capazes de tomar decisões por si mesmos. Esta é uma das razões pelas quais eu não acredito na proposta dos defensores da redução de danos, de estabelecer áreas restritas nas quais o uso de drogas seria livre, ainda que sob supervisão governamental ou de ONG’s ‘especializadas’.
Eu tive a oportunidade de observar a degradação moral, psicológica e física à qual sucumbem os usuários depois de um tempo variável de uso maciço de drogas. Dessas experiências, direi algo sobre uma renomada clínica dos anos 70, cujo nome omito em razão do sigilo.
Embora não sendo membro da equipe internei muitos pacientes de minha clínica psiquiátrica privada, pois lá usavam os mais modernos métodos da época, como Comunidade Terapêutica, Praxiterapia e Hospital Dia, usando medicamentos na menor quantidade possível. Inicialmente usuários de drogas não eram aceitos, pois costumam causar muitas dificuldades e perturbações para os pacientes com problemas psicóticos. Como se poderia esperar de uma clínica particular muito cara, as internações começaram a rarear. Os proprietários decidiram então aceitar usuários de drogas.
Em pouco tempo estabeleceu-se um clima de grande violência, incluindo agressões físicas a pacientes psicóticos, aos membros da equipe e moradores da vizinhança. Membros subalternos da equipe foram induzidos por violência ou pagamento a traficar drogas para dentro da clínica. Várias vezes a intervenção policial foi necessária.
Eu poderia citar várias outras experiências similares que tiveram os mesmos resultados. Todas elas reproduzem, em menor escala, o que é recomendado pelos defensores da redução de danos: locais afastados da sociedade em geral onde reunir usuários com a finalidade de controlá-los e evitar maiores danos a si mesmo e ao meio. Não levar em consideração experiências passadas como a que eu referi leva, certamente, a incorrer nos mesmos erros. Tratados como grupo – certamente maiores do que em uma pequena clínica – tornará impossível controlá-los e contê-los. Lideranças naturais serão desenvolvidas tornando impossível a vida daqueles que querem abandonar as drogas. Mais ainda, a seleção da equipe – ao menos no Brasil, como foi divulgado – será entre pessoas que se auto declaram ex-usuários, transexuais e HIV positivos como ‘agentes terapêuticos’. Posso bem imaginar o que irá ocorrer nestes locais!
A substituição induzida das drogas mais pesadas pela maconha ameaçará qualquer tentativa legítima de abstinência, pois a maconha causa uma falsa sensação de onipotência e onisciência quando, na verdade, os sentidos de realidade, identidade, integridade do self e os valores morais, ficam distorcidos e progressivamente debilitados, até o ponto de estupor chamado de ‘chapado’. A distribuição de seringas – como defendida por várias instituições como LEVI STRAUSS FOUNDATION, TIDES FOUNDATION (financiada pelo Howard Heinz Endowment, co-Presidido por Tereza Heinz Kerry) – através do FUND FOR DRUG POLICY REFORM – e pelo NATIONAL AIDS FUND, por melhores intenções que apresentem, é ainda pior! Não são soluções mas declarações de incompetência e desesperança! Significa dizer aos usuários: vocês estão definitivamente perdidos, sentenciados a usar drogas pelo resto de suas vidas, tudo o que podemos fazer por vocês é retardar este terrível fim, reduzindo os danos físicos que vocês podem causar a si mesmos – como adquirir AIDS ou hepatite – mas psicologicamente, abandonem toda esperança!
Além disto, antevejo estes locais como campos de concentração onde estes indivíduos serão mantidos à parte da sociedade, para que morram sem causar danos à mesma. Em seus portões deverão ser escritas as palavras de Dante: Lasciate ogni speranza voi ch'entrate.
EXISTEM ALTERNATIVAS?
Certamente que nenhuma perfeita. Mas, as alternativas não podem se basear no tratamento de usuários dentro da visão coletivista que defende que eles sejam um grupo minoritário que deve ter liberdade para fazer suas escolhas, como é a moda atual. Mas na atenção aos indivíduos que sofrem e que não são livres mas escravos compulsivos às demandas de seus impulsos destrutivos e, secundariamente, aos traficantes que sabem muito bem como manipular esta compulsão. No entanto, esta visão não representaria um trabalho fácil para discursos belos mas vazios dos que advogam a `engenharia social´. Certamente demandaria um árduo trabalho focado primariamente na conquista de abstinência e não na redução de danos.
Uma pesquisa recentemente realizada na Escócia [*] traz uma nova luz e esperança que deveriam ser olhadas com atenção e estimular estudos mais profundos. A pesquisa, realizada por uma equipe dirigida pelo Professor Neil McKeganey, do Centro de Abuso de Drogas da Universidade de Glasgow, será publicada na importante revista “Drugs: Education, Prevention and Policy”. Os pesquisadores entrevistaram 1007 usuários, cujo tratamento tinha sido iniciado em 2001, em 33 agências de tratamento em toda a Escócia. 60% dos entrevistados apontaram a abstinência como o único propósito de iniciarem o tratamento. 7% visavam estabilizar o uso de drogas. Somente 1% buscavam conselhos para uso mais seguro das drogas.
“Esses números mostram que a maioria dos usuários de drogas procura os serviços de tratamento para abandoná-las completamente”, explica o Professor McKeganey. “Devemos escutar estas vozes e assegurar que tenhamos serviços disponíveis para ajudá-los a superar sua adição. Nos últimos dez anos, a tendência foi priorizar a redução de danos e não a abstinência e devemos agora balancear melhor entre os dois importantes objetivos”. Bill Puddicombe, Executivo-Chefe da Phoenix House, disse: “Como somos o maior centro de tratamento baseado na abstinência, conhecemos há muito os seus resultados positivos. O relatório confirma nossa filosofia de recuperação dos usuários. Nós acreditamos que as pessoas podem reconstruir suas vidas, por isto também as ajudamos com educação e emprego. Os resultados provam que nossa abordagem funciona. Por exemplo, 75% dos que usaram nossos serviços foram bem sucedidos na desintoxicação feita no Serviço de Residência de Adultos de Glasgow, e 67% dos residentes do Programa de Desenvolvimento de Habilidades e Emprego da Phoenix House (PHASE –Phoenix House Access to Skills and Employment) tiveram acesso a programas de continuidade educacional e a empregos pagos”.
Certamente, estes dados apontam para uma maior atenção individual e uma abordagem médica, ambas anátemas para os defensores da redução de danos e liberacionistas. Significam trabalhar de forma selecionada com usuários que procuram a abstinência, deixando de lado aqueles que não se importam, ou que estão num estágio tão avançado da adição que já não têm mais esperança, dentre os quais, mostra a experiência, tendem a surgir as lideranças destrutivas. Misturar todos num mesmo saco significa destruir as esperanças daqueles para os quais ainda existem chances de abstinência, e cujas vozes raramente são ouvidas.

 

Obs: Publicado originalmente no www.midiasemmascara.com.br

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