Jornal Mineiro de Psiquiatria

Preso por ter cão, preso por não ter cão

Por Humberto Campolina

                                                                

“Uma mentira repetida mil vezes se transforma em verdade”. Frase do abominável Joseph Goebbels, que nossos pequenos totalitários da saúde mental ainda acreditam.

O filósofo Olavo de Carvalho, grande estudioso da mentalidade esquerdista, afirma que à lógica das esquerdas se aplica aquela máxima machadiana: preso por ter cão, preso por não ter cão.  Em outras palavras, argumentos absolutamente contraditórios ou incompatíveis coexistem e dão força a uma mesmíssima causa.Pude verificar o fenômeno pessoalmente no que relato a seguir.
Todo mundo psi sabe que este jornal polemiza com o que convencionei chamar pelo neologismo neo-antipsiquiatria. Esta, em resumo, é filhote temporão da antipsiquiatria surgida nos anos 60 na Inglaterra, através de dois autores que hoje estão mortos carnal e/ou espiritualmente (não sei se Cooper já morreu carnalmente; Laing finou-se em ambos) há pelo menos duas décadas. Outros, em países civilizados, como a Alemanha, estão na cadeia. Bem, mas essa gente é igual àquele capim de nome Tiririca: quanto mais você arranca-o da terra, mais ele aparece. Foi então que no Brasil (país em que as teorias, se não dão certo na Europa, aqui desembarcam trinta anos depois) aportou a antipsiquiatria e, por motivos didáticos, acrescentei-lhe ao nome o prefixo “neo”.  A neo-antipsiquiatria, grupos esquerdistas abrigados sob o manto fraudulento do “movimento antimanicomial”, é composta na superfície por duas correntes ideológicas, o lacanismo e o foucauldismo (há os que são devotos do Basaglia, o que é pior, pois o italiano era analfabeto funcional), mas na realidade os sujeitos dessas duas ideologias são (na maioria das vezes inocentemente; outras, nem tanto) marionetes de outra corrente, que atua mais no fundo e nas sombras, o gramscismo. Este, bem mais sinuoso e maquiavélico, decorre da obra de um marxista italiano heterodoxo, Antonio Gramsci, cuja teoria pode ser sintetizada assim: dá muito trabalho tomar de assalto e pela violência o Estado; tem um jeito mais simpático e eficaz: varrer das mentes e corações, uma a uma, todas as formas de pensamentos, até que reste unicamente o pensamento do Partido. E como fazer isso? Simples: ocupar gradativa e progressivamente os espaços em todas as instituições culturais, seja de direito público ou privado, como a mídia, as universidades, a igreja, os sindicatos, as escolas, as associações de classe, o próprio Estado etc., indo assim, de forma sinuosa e indolor, inoculando na sociedade as palavras de ordem do partido até estas se tornarem elas mesmas a verdade, a realidade, nada restando fora ou acima dela. É a chamada hegemonia cultural gramsciana(Gramsci foi o mais aplicado aluno de Maquiavel).
Uma das críticas que faço ao lacanismo é a mesma que Karl Popper fez ao freudismo e ao marxismo: ambos não são científicos, apesar das pretensões de Freud e Marx (este falava em socialismo científico... Não viveu para ver a URSS e Cuba e outros frutos da “ciência” marxista). Os lacanianos, com aquela soberba argentina muito própria deles (será por isso que tem tantos psicanalistas entre os hermanos?), dão de ombros e argumentam: mas é isso mesmo; aliás, odiamos a ciência que forclui o sujeito. E se dão por satisfeitos.
Mas recentemente, li um psi utilizar o argumento contrário, ou seja, a cientificidade, pela causa da “desospitalização”, a mesma que os companheiros lacanianos defendem com a não-cientificidade. Foi na Revista Brasileira de Psiquiatria (<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44462008000200018&lng=en&nrm=iso&tlng=pt>), publicação trimestral da Associação Brasileira.  O autor, o psiquiatra cearense Luís Fernando Tófoli, pretendeu refutar a reportagem do jornal carioca O Globo (9/12/2007) intitulada “Sem hospícios, morrem mais doentes mentais” (<http://www.abpbrasil.org.br/newsletter/rep_oglobo/parte1.PDF>). Com essa finalidade, Tófoli inicia seu trabalho com uma pergunta: “Será que a ilação proposta pela matéria é cientificamente consistente?” (grifos meus). Ora, ilação, segundo o Houaiss, significa dedução. Portanto, o autor quer saber se é cientificamentelícito deduzir do fechamento de leitos havida entre 2001 e 2005, o aumento de mortes de doentes mentais no mesmo período, dado fornecido pelo próprio Ministério da Saúde.  Parece que Tófoli acha que não; para sustentar sua tese, o colega do Ceará, utiliza os seguintes argumentos:
1- “Confusão” pela reportagem entre mortes por doença mental e mortes de doentes mentais.
2- As estatísticas em países subdesenvolvidos (que ele chama de “em desenvolvimento”...) não é confiável.
3- No mesmo período, houve uma diminuição das mortes por causas indefinidas. Agora a ilação é de Tófoli: joga o aumento estatístico das mortes de doentes mentais nas costa de uma maior definição das causas mortis do período.
4- E mais uma ilação: se o aumento, no mesmo período, de mortes por causas neurológicas e geniturinárias não se deveu a redução de leitos, pode-se concluir que o aumento das mortes de doentes mentais também não se deve ao fechamento de leitos hospitalares.
Em relação ao argumento 1, parece-me que a dificuldade origina-se na tabela do MS que crava as doenças mentais e transtorno de comportamento na coluna de “causas primárias de mortes” sem precisar a que exatamente está se referindo sob esta rubrica. Ora, a rigor transtornos mentais dificilmente são causas primárias de mortes, mas causas concorrentes ou fator de risco. Ou alguém já ouviu falar que um paciente morreu de TOC? Faleceu de esquizofrenia? Finou-se de Bipolar? (Existe um tipo de esquizofrenia fulminante, que o doente chega ao chamado êxito letal após alguns dias do início do quadro. Em 34 anos de prática clínica, só a conheço da literatura. Seria uma exceção?).
E os três outros argumentos jogam com a precariedade das estatísticas, mais ainda as brasileiras, em apontar causalidades. Ou seja, a concomitâncias entre dois fenômenos medidos estatisticamente não permite deduzir que um é causa ou causado pelo outro. Assim fosse, deveríamos concluir que os médicos são as causas das doenças, pois onde existem mais médicos há mais doentes. Dizia o economista Roberto Campos que estatística é igual biquíni: mostra coisas interessantes, mas esconde o essencial. Portanto, até aqui nada a discordar de Tófoli.
Contudo, como todos sabem, estatística é apenas um dos procedimentos científicos. A metodologia científica comporta outros procedimentos, dentre eles dois que vamos necessitar na conclusão deste trabalho: a observação empírico-fenomênica e a dedução.
Não me parece sensato pretender de uma matéria jornalística filigranas de teses científicas. Penso que, como consumidores de jornais, cabe-nos exigir simplesmente que o profissional não atropele a lógica e os fatos. E nisso a autora do artigo esteve impecável. Pois vejamos. A jornalista Soraya Agegge, utilizando fontes idôneas (Associação Brasileira de Psiquiatria, Ministério da Saúde, Associação dos Hospitais e Instituto de Psiquiatria da USP), colheu um dado impressionante: nos últimos 18 anos foram fechados 80% dos leitos psiquiátricos! (Neste item, ela adota a sinonímia perturbada dos “antimanicomiais” ao se referir a fechamento de “hospícios” em vez de “leitos hospitalares”: trata-se de um exemplo ao vivo da hegemonia cultural gramsciana referida acima...) Os dados também informam que no período 2001/05 foram abertos CAPS em número insuficiente (*), sendo que somente 11 dos estados da federação têm cobertura “boa ou muito boa” (este dado me parece altamente suspeito, volto a ele mais adiante), sendo que 90% não têm serviço 24 horas e/ou médico de plantão in loco (de onde vem então aquele “boa ou muito boa”?). O resultado é que, referente à necessidade de 0,45 leitos psiquiátricos por 1000 habitantes, o Brasil está com míseros 0,23. Junte-se agora aos dados colhidos um fenômenoque nenhum profissional médico de nenhum lugar do planeta, de nenhuma corrente ideológica, de nenhum credo religioso, de nenhuma especialidade e de nenhuma escola jamais ousaria negar sem expor ao ridículo a própria capacidade intelectual ou mesmo sua sanidade mental (**), que é: o doente mental grave sem tratamento adequado, sem cuidador, deixado a si mesmo e vivendo ao Deus-dará é um sujeito exposto a toda espécie de risco de morte, regra esta, em tese, sem exceções (***). Daí Agegge ligou lé com cré e concluiu que a “era antimanicomial” da saúde mental no Brasil está matando gente – e poderia até acrescentar sem cerimônia: matando mais do que as pobres estatísticas deste país “em desenvolvimento” possam nos revelar.
O prestigiado psiquiatra paulista e professor da USP, Gentil Valentim, fez ao Conselho Regional de Medicina uma consulta indagando se o psiquiatra seria acusado de omissão de socorro caso encontrasse por acaso na rua um doente mental padecendo de sua doença. Sei não, mas se a resposta do Conselho for positiva, os psiquiatras vão correr sérios riscos num simples passeio na pracinha do bairro.

 

(*) Mesmo se fossem abertos mais 500 mil CAPSs, ainda assim seriam insuficientes, pelo simples motivo que este tipo de estabelecimento não substitui integralmente os leitos hospitalares. Evidência que não entra na cabeça dura dos “antimanicomiais”.
(**) O psiquiatra Alonso-Fernándes (na minha modesta opinião, o mais completo do mundo), no seu monumental Fundamentos de la Psiquiatria Actual 4° edição (1979),  referindo aos antipsiquiatras Laing e Cooper escreveu: “Esquizofrénicos ellos mismos” (p.124)...

(***) "Se o homem não raciocinasse, se ele se deixasse arrastar pelas tendências que o puxam em todas as direções, ele perderia sua unidade subjetiva, ele deixaria não apenas de ser homem, mas, a longo prazo, deixaria de ser vivo. A neuropsiquiatria moderna assinala a degenerescência física que acompanha sempre os processos de perda ou dissolução da identidade psíquica . A razão é a condição sine qua non da perseverança do homem no ser." (Olavo de Carvalho)

 

 

voltar