Jornal Mineiro de Psiquiatria


Superação humana do homem pertubado

Por Barahona Fernandes

 

 

Indo ao encontro do tema geral da dignificação do Homem doente mental, o título desta palestra visa o incitamento à prática — inserida na perspectiva antropopsiquiátrica que propomos — da efectiva humanização das intervenções curativas, ultrapassando algumas barreiras que dificultam a antropossocialização dos meios de recuperação dos nossos padecentes e das medidas de prevenção do perturbar-se humano em geral.
O Humano de tal superação está — mais do que em qualquer «técnica» — nas atitudes face ao doente e nas intenções «antropo-éticas» de todas estas actividades — mediadas como são pela relação compreensiva e comunicativa com aqueles que procuram, aceitam e confiam na nossa ajuda técnica e pessoal-nimbada, como deve estar, na atmosfera de humanidade que a todos nos liga.

Embora não ligado às vossas instituições assistenciais, congratulo-me por esta oportunidade de cooperação e livre discussão de pontos de vista. Cooperação pessoal que aliás já vem de longe e desejava personificar nos colegas P. Polónio e Nunes da Costa. Remonta ao tempo da abertura do Hospital de Júlio de Matos (1942) em que a nova equipa, então formada, logrou romper os pesados liames da tradição «manicomial» e humanizar de forma clara o ambiente de um serviço psiquiátrico moderno. Pela primeira vez funcionou o regime aberto, então legalizado, de hospitalização, conseguiu-se criar um ambiente de comunicação interpessoal mediante a terapêutica ocupacional e a nova enfermagem; aplicaram-se novas técnicas tanto biológicas como psicológicas e sociais de modo personalizado,   ensaiou-se   o  primeiro  serviço social e dispensário psiquiátrico... em   suma — como então escrevemos: «descobriu-se o Homem no louco» (1), melhor — superou-se durante um certo prazo a «alienação» da doença prevenindo o risco de acrescentar outra forma de perturbação: a «alienação institucional».
Certo é que já antes, em especial com Sobral Cid e os seus assistentes e em áreas excepcionais de certas instituições (e é justo mencionar as vossas) se tinham feito esforços para atender e melhor compreender o Homem doente — superando o «alienado». Só a partir dessa experiência inicial de liberação humanizante na clínica-psiquiátrica universitária no Pavilhão de admissão do Hospital de Júlio de Matos, experiência depois continuada no primeiro serviço psiquiátrico num Hospital Geral — o  de  Santa Maria, também assistencial de ensino e investigação — só a partir dessa nova formação de uma equipa com novas relações e instrumentos terapêuticos realmente humanizados é que os médicos especialistas deixaram de ser «alienistas» (designação hoje totalmente obsoleta) para se tornarem psiquiatras, ao mesmo tempo que os guardas manicomiais deram lugar a autênticos enfermeiros, e se criaram novas profissões dentro da equipa — desde os psicoterapeutas e psicólogos até às assistentes sociais e vários terapeutas de recuperação...

O cerne deste encontro está na integração dos esforços de todos nós com o fito de intervir no homem em risco (prevenindo o seu adoecer), de tratar e cuidar o homem perturbado (superando os seus desvarios e sofrimentos), de ajudar o homem em recuperação, tornando-o capaz de ser autónomo e cooperante com os outros, livre e responsável, adaptado à sociedade, produtor de bens, criador de valores… e de beleza...
                 

            I - Homem perturbado — dissemos, em vez de «doente mental». Fazemo-lo com a intenção de acentuar alguns princípios gerais, de que partimos:
a) mais  do que o culto do Humanismo na Medicina e na Saúde, visa-se a Medicina Humana — ou seja a sua referência antropológica num sentido especial, que chamamos Antropociências, quer dizer a referência na praxis de todas as ciências e técnicas à pessoa humana (1, 2, 3);
b) o Homem um ser perturbável e não só problemático, conflitivo, contraditório... Todo o ser humano em certas horas e certas situações é susceptível de se «perturbar». E humano não seria aquele que em tantas  circunstâncias da vida não entristecesse, não ficasse ansioso, não se culpasse, não se irritasse, não se fatigasse ou não sonhasse desperto... não «delirasse» mesmo. Uns mais do que outros, uns nesta situação outros naquela, uns agora outros amanhã, uns de modo fugaz outros duradouro, uns libertando-se e ultrapassando com facilidade a sua perturbação outros crispando-se e fixando-se na sua dolência e assim por diante;
c) a análise fenomenológica destes estados evidenciou-nos que esta perturbabilidade se molda em formas gerais que são comuns a todos os homens ditos «normais» e se encontram também sem limites nítidos nas mais variadas afecções psiquiátricas. Recorde-se o angustiar-se: tido por alguns como modo básico de «existir no Mundo», é — nesta perspectiva — um modo de perturbação próprio de ser e de estar dos humanos em certas circunstâncias (de risco, ameaça, mudança, expectativa). E ainda também, já sob a forma dos chamados «sintomas» ansiosos, em muitas neuroses, reacções e evoluções abnormes da personalidade e em variadas psicoses de que a melancolia ansiosa é paradigma. Na mais abstrusa e dificilmente empatizável angústia, por exemplo no começo da esquizofrenia (a vivência da ameaça do fim do mundo, de significações terebrantes, de tudo e de todos) há ainda certas cintilações do humano angustiar-se (muito embora moldadas em formas qualitativamente diversas). Se soubermos e desejarmos, é sempre possível oferecer uma ponte de ligação com a pessoa — um elo de comunicação que aflore a compreensão da tolerância experimentada (vivenciada) pelo doente (25);
d)   como adiante se verá, as formas gerais de a personalidade se perturbar são moldadas, nos diferentes estados clínicos, por diversas formações de base já claramente patológicas que lhes dão o seu peculiar cunho fenomenológico — as estruturas psicopatológicas básicas.
O que lhes é comum e especificamente humano é, no caso, «o angustiar-se» como forma genérica de ser e de estar do Homem como personalidade perturbável. O qual se torna, então, um Homem perturbado.
O nosso ponto de vista «Fenomenológico-estrutural-dinâmico» 7) permite-nos religar o compreender (motivado) das formas gerais ao explicar (determinado) das estruturas psicopatológicas básicas. Mantém-se assim, em princípio, a distinção fundamental de Dilthey, Jaspers, Kurt Schneider, Weitbrecht, etc. — mas integrados os dois termos em diversos níveis de estrutura (embora interaccionantes entre si). O angustiar-se normal: 1) varia já com as diferenças caracterológicas. 2) ganha acentos escessivos nas variantes do carácter em função do grau da sua anormalidade. 3) e das mudanças das suas evoluções e reacções. 4) outras estruturas psicopatológicas básicas imprimem-lhes um cunho peculiar (as alterações neuróticas, as alterações endotímicas, as desintegrações do proprium, etc.). (V. a seguir).

e)    Homem é um ser com possibilidades de superar a sua perturbabilidade.
Tal é o fito primacial destas reflexões. Cabe-nos não só analisar, mas intervir no Homem perturbado. Voltemos ao exemplo do angustiar-se: está nas possibilidades técnico-científicas actuais, utilizar vários meios para atenuar, lenificar, melhorar ou até «curar» a angústia: a) desde o nível vital por técnicas biológicas (fármacos, fisioterapias) até b) ao nível espiritual (sócio-cultural por técnicas «formativas, pedagógicas, noológicas» com feição «antropológica». c) nos níveis anímico e reaccional  (intermediários   entre  a)   e  b)   usando   técnicas   psicoterápicas   e psico-sócio-terápicas. Importa sublinhar que cada uma dessas técnicas não exclui necessariamente as outras. Podem-se combinar e convergir (por ex.: a farmacopsicossocioterapia). Há mesmo uma certa hierarquia: 1) quando o nível vital está perturbado é em geral necessário intervir nessa base como suporte necessário dos efeitos psicodinâmicos. 2) O mesmo se poderá dizer quanto à necessidade de sustentar com medidas psicoterápicas (agindo ao nível anímico pessoal) os efeitos educativos (psicagógicos) e sócio-culturais. Em todas estas intervenções há um movimento humano de superação, para nível mais elevado libertando as possibilidades latentes da personalidade. Daí a convergência e complementariedade das técnicas de intervenção bio-psicológicas, psico-sociológicas e psico-formativas (pedagógicas).
Note-se desde já que se trata aqui de uma atitude peculiar de intervenção: não de remover sintomas mas de compensar a sua perturbação até à sua superação num plano mais geral — justamente o humano.
f) A superação do homem angustiado é apenas um exemplo das muitas possibilidades de intervenção sobre os nossos enfermos e pessoas em risco e dificuldades. Fundamental é a mudança da perspectiva dos modos de abordar os problemas psicopatológicos — a sua referência antropocientífica.
Poder-se-á assim ultrapassar muitas contradições que originariamente fecundas, têm, no entanto, dificultado o entendimento do assunto:
            A) Em primeiro lugar: a polarização radical entre: 1) o compreender dinâmico das chamadas «psicogenia» e «sociogenia» e 2) o explicar biológico («organicista»), como já se apontou (nota pag.   ). Em cada nível há uma diferente acentuação relativa a 1) e 2). No exemplo do angustiar-se, há múltiplas gradações entre os estados de angústia determinados pelo fundo orgânico e biotónico (endotímicos) e os estados mais fluidos motivados compreensivamente pela situação e acontecimentos actuais e pretéritos. Não se excluindo reciprocamente ligam-se exactamente pelas conexões sistemáticas entre as estruturas psicopatológicas, no caso: as estruturas endotímicas sustentando, modelando as estruturas situativas (reaccionais) e de alteração da pessoa cultural, etc.; ou as estruturas do carácter sustentando e modelando as estruturas neuróticas e estas as reactivas, etc. (V. adiante).
B) Outra ultrapassagem teorética diz respeito à opção exclusiva entre as perspectivas: 1) holísticas («sintéticas», gestálticas, englobantes) abrangentes do todo da pessoa e 2) atomísticas elementaristas, relevando dados parcelares e parciais dos diferentes métodos de investigação. É a velha luta entre as «partes» e o «todo» e das suas polarizações reducionistas que presentemente culminam na injusta cisão da Psiquiatria biológica e Psiquiatria Social e nas pelejas, tornadas obsoletas, entre psico e sócioterapeutas, por um lado, e farmacoterapeutas, por outro.
C) Em terceiro lugar e focando o nosso tema central, considere-se a falta de ligação (tão prejudicial ao doente) entre as intervenções pontuais «tecnocratas» (desde um medicamento «mecanicamente» receitado, até à «token economy» dos behavoristas) e a abordagem da Personalidade na relação terapêutica em termos antropológicos.
D) Pense-se por outro lado na impossível redução de toda esta complexa fenomenologia à mera «relação» tida como exclusivamente edipiana).
E)  Ou ainda, no exemplo inverso: a terapia exclusiva das perturbações biológicas agindo sobre as enzimas das conexões sinápticas intercelulares do sistema nervoso central, encarando como meros epifenómenos os outros níveis da personalidade.
O ponto de vista aqui defendido é exactamente a tentativa de «superação» (conceptual e pragmática) de tais polarizações extremistas e inadequadas ao real. Os riscos inegáveis da sua errada («alienante») aplicação ao Homem perturbado são o melhor incentivo para a sua superação.

II — A superação humana do homem perturbado faz-se primacialmente mediante a interacção das personalidades em situação: do médico e do doente em relação dual, da equipa terapêutica e do doente (ou dos doentes do grupo terapêutico) na relação plural (25).
Tem-se insistido muito que na relação as pessoas agem por si mesmas como terapias («o médico dá-se como remédio»...). Como tudo o mais nestes problemas tal asserção só vale de modo relativo (veja-se a diferença dos efeitos neurolépticos e antidepressivos e dos «placebos»). O que é mais exacto dizer-se é que tanto a relação dual   como   a   plural   mediatizam  outros   efeitos  terapêuticos.  E  tanto  a  nível bio-farmacológico como sócio-cultural e pedagógico.
Importa portanto não esquecer a possível perturbabilidade das pessoas dos terapeutas, eles mesmos. E também a perturbabilidade das próprias «equipas» agindo no seu todo.
A experiência tem mostrado, de facto, que também nós próprios — todos os membros das equipas de saúde — somos perturbáveis. Quanto mais não fosse, porque a despeito do maior ou menor «treino» — não podermos deixar de ser «humanos». Para além das «técnicas» — não se pode deixar de estar humanamente na vidav. g. na situação peculiar da relação terapêutica.
Por este motivo começámos logo por vos mostrar na sessão das Jornadas o diagrama de organização estrutural da personalidade.
Sem repetir aqui os diagramas já publicados, recordamos que 1) sobre o fundo material do organismo, se estruturam as camadas anímicas (psíquicas) da personalidade, reguladas pela vigilidade — o somático vivenciado como corporalidade, o movimento básico dos impulsos e afectos do humor e do empuxo para a acção, estruturados no fundo endotímico-vital; 2) num plano mais diferenciado, os sistemas do carácter e do intelecto;  3) Este conjunto sincronicamente organizado pela consciência; 4) e diacronicamente pelo Proprium (o si mesmo, o Self) centrado no Eu.
Às superestruturas cognitivas e caracterológicas, dinamizadas pela reactividade pessoal e a aprendizagem, acrescemos outro sistema estrutural: a Pessoa Cultural (2.12) a qual de certo modo se contrapõe à «Pessoal vital» — interagindo esta preferencialmente com o ambiente ecológico e habitacional, aquela com o ambiente sócio-histórico-cultural —, o conjunto da personalidade com as outras personalidades e dos seus agregados grupais e societários.
Esta complexa organização da Personalidade dispõe-se em camadas (não mais vistas ao modo «geológico») mas inter-relacionadas recursivamente de modo envolvente como uma organização de múltiplos sistemas.
Nessa perspectiva multidimensional torna-se claro que as perturbações da equipa se não podem reduzir à «dinâmica grupal»; que cada membro pode ser ou estar ele mesmo efectivamente perturbado, de vários modos e em diferentes níveis. Esboçando alguns exemplos significativos, temos:

—  ao nível da vigilidade: oscilações da atenção, concentração, ritmo alterado do sono («velas» das enfermeiras e da urgência);
—  ao nível do organismo (ligados ao stress profissional);
—  variantes individuais e perturbações das aptidões psico-físicas (senso-motoras) e psico-vegetativas (e outras) da corporalidade (frequentes perturbações psicossomáticas dos profissionais de saúde);
—  ao nível endotímico: estados de humor básico (sujeitos a oscilações diurnas e outras) do modo de se sentir, do empuxo (ímpeto e iniciativa) para a acção e suas alterações distímicas (vitais);
—  ao nível de reactibilidade dinâmica: o modo de resposta à situação, motivações e outros aspectos psico e sócio-dinâmicos; latentes (in-, ou preconscientes) ou manifestos e suas perturbações;
— no âmbito caraterológico: as variantes, acentuações de carácter e desvios dos sentimentos e tendências, o diferente modo de ser de cada qual de nós, moldando os nossos actos sanitários — isentos que não somos de pechas humanas;
— no âmbito do intelecto: o nível mental e respectivos processos cognitivos, as aptidões, a criatividade até ao saber específico do «ofício», a «experiência clínica» e grau de informação científica e técnica e suas insuficiências, erros, desvios, incluindo o nível e qualidade da «aprendizagem» destas e outras áreas de actividade.
Como fecho desta complexíssima organização:
—  a vivência do proprium imprime-se, no caso do terapeuta, no estilo pessoal do seu trabalho (possíveis originalidades ou, de modo negativo, possíveis desvios do pensar, sentir, avaliar, decidir e agir);
— a formação plena (ou insuficientemente amadurecida) da sua Pessoa Cultural, processa-se em inter-relação com o carácter, o intelecto e o proprium e exprime-se: nas atitudes face a si mesmo, frente aos clientes, aos outros membros da equipa e na qualidade como assume o seu «papel» (médico, enfermeiro, psicólogo, etc.) enquanto tais e, em especial, como «terapeutas» mais ou menos «esclarecidos e hábeis», críticos da situação, firmes nas suas convicções e valores e adequados ao real, sinceramente comprometidos no seu trabalho, com sentimentos profundos na ordem espiritual (simpatia humana, cooperação, dádiva de si...) ou, ao invés, perturbados nestas variadas facetas (afirmativos, omnipotentes, dominadores, autoritários ou inseguros, indecisos, instáveis, influenciáveis, oblativos ou ressentidos, desconfiados, incertos, culposos...(*)
              — Alargar estes exemplos implicaria uma psicopatologia especial dos membros da equipa — do Homem terapeuta perturbado — com o interesse prático de estudar as possibilidades de superar o humano de todas essas e outras perturbações. Os modos de abordar e resolver não são, em princípio, diversos dos que se usam com os nossos clientes — todos humanos que somos...

III — Psicopatologia geral do Homem Perturbado
Na impossibilidade de maior desenvolvimento, esboçamos a perspectiva «antropopsiquiátrica» nos aspectos aqui relevantes: a) aquilo que muda a visão do conjunto (dos dados e conceitos conhecidos) e b) o recurso genérico a novos «constructos» a situar entre os «sintomas» e os seus agrupamentos em «síndromas», por um lado, e as determinantes étio-patogénicas, por outro:

1)  as já referidas formas gerais de se perturbar a personalidade, (f. g.:) comuns ao normal (V. Cap. II);
2)  as estruturas psicopatológicas básicas (e.p.b.) que são como o nome indica: os padrões gerais da modulação anormal de 1) ou seja: os padrões invariantes e sistemáticos de perturbação «de fundo» que sustentam as formas gerais, por exemplo: o angustiar-se fenomenologicamente vincado como: a) uma variação de carácter, b) reacção a uma situação frustrante, c) distímia endotímica, d) evolução neurótica, e) alteração paranóide, f) desintegração do Eu (16);
3) os gradientes de perturbação correspondem à acentuação e mudança de 2) do passado para o presente e no curso da evolução da perturbação (em função das circunstâncias e das variações da constelação étio-patogénica e das situações motivantes). Um exemplo: numa pessoa habitualmente deprimida (e.p.b.: variação endotímica) sofre (por uma perda afectiva) uma alteração reactiva (e.p.b. «alteração situacional») que a seguir se fixa e acentua no tempo (e.p.b.: «evolução anormal») ou, por causas «endógenas», se toma distímica (e.p.b.): «alteração endotímica») ou adoece   no   estilo  da  «melancolia endógena)»   (e.p.b.:  «desintegração endotímica — vital»). O gradiente é a «linha de forças» contida nesta sucessão de várias estruturas em devir (de agravamento ou de melhoria). Referindo a outros trabalhos mais especializados (15) notamos o seguinte:
— Todos estes constructos se referem aos sistemas funcionais de personalidade (Cap. I) de que são as mudanças «psicopatológicas» — avaliadas de modo regular e sistemático como evoluções infantis perturbadas, variantes, alteraçôes, evoluções anormais, organizações e desintegrações.
— A cada sistema funcional corresponde um gradiente de perturbação (do carácter, intelecto, pessoa cultural, proprium, etc.); da sua interacção perturbada resulta a organização com outros gradientes (neurótico, paranóide, psicossomático, psiconeurótico) (15).
      Esta organização estrutural dá-nos, por assim dizer, a «arquitectura do Homem perturbado». — Tal o cerne da perspectiva antropopsiquiátrica. Além desta apreensão «estrutural» está em ensaio uma escala de avaliação sistemática qualitativa destes constructos.

IV — Na impossibilidade de mais pormenores, concretizemos, em estilo telegráfico, dois casos exemplares:
— A pessoa Ki fôra um jovem muito inteligente mas excessivamente tímido e inibido, inseguro e ansioso: Pai complacente, mãe rígida e perfeccionista, ambos activos e exigentes; apesar do ambiente carinhoso, forçaram a educação e o estudo de modo penoso e angustiante («evolução infantil perturbada»). Cedo aprendeu, porém, a ultrapassar as exigências dos pais e a suportar o medo dos professores e dos exames, as suas próprias expectativas ao sofrimento ante situações ansiosas (perturbações vegetativas circulatórias, digestivas, etc.), logrando com grandes esforços e uma vida retraída e com poucos contactos sociais, singrar com êxito no curso; de começo, medo dos colegas trocistas, manifestando ereutofobia intensa com referência a temas sexuais o que levava a situações de evitamento da convivência e retraimento no diálogo; surgiram então dificuldades lálicas que superava, ao assumir o papel de bom estudante, excitando-se e desinibindo-se até ao ponto de falar acelerada e freneticamente, quando a necessidade era premente. Profundos sentimentos de inferioridade com inibições sexuais, só tardiamente vencidas, após sucessivas frustrações amorosas e crises de impotência. Episódios distímicos ansiosos e fóbicos e outros obsessivos ou depressivos, por vezes com feições paranoides esboçadas de auto-relacionação. na base da sua hipersensitividade melindrável. Escolhe a profissão de professor do liceu, em tentativas sucessivas de sobrecompensação da timidez e insegurança perante os outros. Após várias crises (por vezes sem motivação determinável e com repetição cíclica primaveril, com astenia), evolução mais favorável após o casamento e êxito na carreira profissional, ultrapassando todas as expectativas.
— Afinal um caso «banal» de perturbações vulgarmente ditas «neuróticas» ou «psicogéneas» apenas aqui referido para sublinhar a sucessão — num mesmo indivíduo — de múltiplas formas gerais de perturbação (inibitórias, fóbicas, ansiosas, obsessivas, etc.) e de várias estruturas psicopatológicas básicas (evolução infantil perturbada, variação de carácter, alterações neuróticas e seu desenvolvimento situacional, episódios endotímicos. (*).
— A pessoa Pe sofreu aos 20 anos um surto alucinósico-paranoide com o diagnóstico de esquizofrenia. A mãe era uma paranóica ciumenta socialmente adaptada; uma tia: surto paranóide na involução. Fora um jovem activo e sociável, cumpridor mas «estranho» nas suas atitudes e preferências lúdicas e afectivas: cursava engenharia com bom êxito e praticou desportos violentos, muito instável nas inclinações amorosas e eróticas. Tratado então com choques insulínicos e convulsivantes, melhorou a ponto de reatar o estudo e concluir o curso.  Na convalescença: uma longa fase depressiva com sentimentos de incapacidade, outras fases obsessivas e com pensamentos coactos e dúvidas sobre a sua própria saúde mental, criticando o delírio persecutório e as alucinações sofridas mas sentindo-se diminuído, inseguro e preterido na vida; organização ango-obsidiante destes sentimentos com oscilação do discanciamento crítico; falha por vezes em curtas recaídas paranóides (desencadeadas por situações em que o seu prestígio poderia estar em cheque). Com a maturação dos 40 anos, compensação progressiva destes sentimentos lograda pelo trabalho profissional de engenharia a que se dedicou fervorosamente e com êxito. A partir de então operou-se uma viragem caracterológica para uma maior segurança e assertividade, sobrecompensando-se na vida social das «humilhações sofridas»; continuava porém muito ciumento, não suportando ligações amorosas persistentes, desencadeando-se reactivamente episódios paranoides com auto-relacionação, desde que se «comprometia» num vínculo amoroso socialmente aceite. Daí a grande instabilidade erótica (de sobrecompensação, dom juanesco etc.). Depois dos 50 anos estabilização destas facetas caracterológicas até ao esfumar completo (ou latência persistente) das vivências paranoides. Não há propriamente «deficit residual» mas emergiu «outra» personalidade, acentuando-se certos traços de energia, afirmação, abertura e sintonização,  apagando-se  a  desconfiança,  ressentimento, retraimento, permitindo-lhe uma adequada adaptação social.

V — Trata-se pois de dois casos exemplares de homens perturbados os quais, apesar de diagnósticos nosológicos e classificações muito diferentes, participaram nas mesmas formas gerais de perturbação e na maioria das mesmas estruturas psicopatológicas básicas (excepto, claro está, no segundo caso de alterações e desintegrações do proprium — ausência clínica em Ki de sinais de psicose esquizofrénica). Ambos têm alterações endotímicas (distímicas episódicas espontâneas). A sua diferenciação faz-se pela muito diversa intensidade dos gradientes, suas variações no tempo e inter-relação no quadro da organização global («arquitectónica») da personalidade (V. diagnóstico individual estruturado e personalizado in (15).
Reservando para outros estudos o desenvolvimento desta «análise fenomenológica-estrutural-dinâmica» centrada no Homem em perturbação, consideremos brevemente o modo como se operou a recuperação das perturbações e a superação do homem perturbado.
Fá-lo-emos também na «perspectiva antropopsiquiátrica» quer dizer: a superação ao modo humano e não por «técnicas» cujos efeitos desmedidos possam vir a constituir novas perturbações. Nem por acção de certas «defesas» que levadas ao excesso, por ex: as ditas fugas na «mania», na sublimação omnipotente, na dispersão social e outras «técnicas de existência» desviadas ou desvairadas com recurso abusivo ao álcool, medicamentos ou tóxicos podem determinar novas perturbações porventura tanto ou mais graves que as primeiras.
A recuperação de Ki foi um longo processo: 1) de reversão e compensação das formas gerais perturbadas e 2) de re-estruturação das modificações estruturais da base (e.p.b.):
ad 1) usando uma psicoterapia comunicativa e compreensiva como base, mediada por aquela relação terapêutica, com predomínio da comunicação verbal e, nas fases finais de encontro existencial e interacção social.
— utilizaram-se algumas interpretações psicodinâmicas («profundas») e em especial a ligação ao nível «cultural» do género da «logoterapia». Assim se venceu sucessivamente a timidez, as inibições bloqueantes, as atitudes fóbicas e certas obsessões.
A dislália emotiva foi objecto de terapias pedagógicas na juventude e mais tarde, em especial de training autogéneo (relaxação) com uso de fórmulas intencionais (de incitamento ao falar lento e bem modelado) com aprendizagem da vocalização, superando as dificuldades consciencializadas nas situações (do falar e aparecer em público, recitar, dar aulas, etc.).
— ad 2) Muitas destas «técnicas» (note-se o pluralismo adequado às necessidades   formais  usadas  na  altura  própria (timing)  exerceram   também  efeitos
re-estruturantes sobre certas estruturas psicopatológicas (além das referidas e.p.b. neuróticas e do carácter e situacionais); notem-se as perturbações da pessoa cultural, (excessiva acentuação das obrigações, do cumprimento do dever, respeito pelas normas paternas e sociais e adopção de valores éticos correspondentes) e ainda as perturbações do gradiente psico-neurológico (tremor emocional da face, dislálias variadas) e psicossomático (circulatório, etc., entre  as quais a  ereutofobia — congestão
                Classificação internacional: na fase aguda 295.3: nos episóides paranoides 295.5 (esquizofrenia latente, tipo borderline ou de fronteira). Nos intervalos os quadros depressivos, obsessivos, etc., levantaram dificuldades, dado o elo de ligaco «esquizofrénico» ser latente e sobrecompensado (hipótese: outras psicoses não orgânicas: 298.3). (15)       V. a sua inserção na personalidade, fig. 11 e pag. 22-25 de (13)

facial quase «reflexa» ligada a atitudes fóbico-obsessivas).
Embora sem grande intensidade no caso, as estruturas endotímicas (distímias angodepressivas, sem atingir o grau de desintegração melancólica) foram, na fase aguda, removidas com técnicas farmacológicas (*) higiénico-dietéticas, etc.
Acompanhando e ultrapassando no tempo 1) e 2) toma especial relevância: 3) a superação «antropo»-orientada das perturbações descritas: na nomenclatura usada: a formação ajudada pelas nossas intervenções, de gradientes de recuperação, opondo-se, equilibrando e ultrapassando mesmo os gradientes de perturbação. Até alcançar uma nova «homoestasis» uma nova organização global da personalidade — com redução do sofrimento, atenuação e reintegração das alterações estruturais, melhor adaptação ao real (de si mesmo e do ambiente) e realização mais livre e pessoal do projecto de existência do indivíduo.
— Como se praticou tal superação no caso Ki? Já o adiantámos na descrição: pelo incitamento. empatizante, suave e estimulante de auto-confiança e auto-estima e de decisões para actividade, novas vias de acção, imediatamente possíveis e viáveis, buscando novos fitos e propósitos a atingir, esclarecendo as dificuldades e aprendendo a ultrapassá-las, por meios possíveis. O essencial está na atitude de aprender a aceitar os obstáculos e até um certo sofrimento, na expectativa de o vencer e superar («olhando o futuro, caminhando para a frente...»).
— Temo que o leitor com experiência psicoterápica (de inspiração dinâmica) veja nestas asserções algo de comando, directivo ou manipulador, ou técnicas de controle da conduta de aprendizagens «condicionadas».
 
A noção de superação como ultrapassagem das próprias dificuldades, de abertura a novas possibilidades, de animação da própria iniciativa, adopção de novas atitudes e posições no sentido da acção e da criatividade — basta, em nosso parecer, para esfumar tais reservas. Antes ao invés— do que se trata é de «ir além» das limitações impostas pela «doença», das barreiras coagindo o livre exercício das próprias capacidades a liberação — em suma para uma maior autonomia do próprio. Se se quiser: Transcender a necessidade por novas possibilidades de liberdade.
— Está aqui toda uma teoria «bio-psico-socioterápica» — de cunho antropológico que não cabe agora profundar. Desenvolve-se na sequência do que escrevemos a propósito da psicoterapia do Homem senescente (11)..

Adientemos algo mais como a análise do processo de recuperação da Pessoa Pe:
A fase inicial da psicose aguda (*) tinha claras indicações para o tratamento, então o mais praticado. (e eficaz para os surtos alucinósico paranoides) pelo choque hipoglicémico somado às convulsões terapêuticas. Acentue-se que desde logo havia que estabelecer uma relação inter-pessoal compreensiva (facilitada no despertar do coma) num apelo directo, actual e real, orientando a atenção e os interesses do convalescente, para ocupações concretas, manejáveis e úteis ou para lazeres agradáveis, convivência, actividades várias, (lúdicas, desportivas, etc.).
Quando mais tarde (1952) se dispôs dos neurolépticos, usámo-los em doses moderadas, reduzindo a tensão ansiosa, assomos de desconfiança delirante e prevenindo recaídas. Pequenas doses de clorpromazina (cerca de 25/27 mg. diários) bastavam para compensar certa instabilidade e tensão do humor básico e as atitudes de desconfiança e reserva ante as pessoas (em especial nas relações femininas e com as autoridades. O autismo prolongou-se durante meses, abrindo-se a pouco e pouco na comunicação familiar, com o médico e os amigos. A compensação psicoterápica focou electivamente as formas gerais de perturbação que no caso tinham a rigidez e prevalência com que as e.p.b. (do proprium, do carácter, endotímicas. neuróticas) as marcavam. Uma vez compensadas as desintegrações e alterações de base (ou seja as e.p.b.) aquelas formas gerais — o deprimir-se, desconfiar, duvidar, obsidiar-se, ciumar, delirar persecutoriamente. etc., tomavam-se mais maleáveis, permitiam a abertura do próprio a novas atitudes e modos de actividade pessoal. Deixaram então de ter repercussão na conduta social e permitiram reatar o estudo e. mais tarde, a prática da profissão.
— Não deixaremos, mais uma vez, de insistir na ênfase dada à «convergência» das terapias somáticas e psico-sociais, esforçando-nos por uma autêntica integração de ambas («farmacopsicosocioterapia»).
No caso Pe, como noutras evoluções esquizofrénicas atenuadas (muito mais frequentes desde a introdução das novas terapias, tanto biológicas, como psicológicas e «ambienciais») não se trata apenas de manter o doente «sem sintomas» mas avaliar aquilo de que está capaz e compreender a nova problemática pessoal, levantada por essa mesma «remissão». Em Pe houve fases de depressão, ansiedade e recidivas paranoides que requeriam novo ajustamento das atitudes e dos medicamentos e ajudas e conselhos, quanto ao modo de vida e relações sociais. Não discutiremos aqui a tendência (herdada da mãe) para o ciumar (delirante), o papel relativo dos factores genéticos (complementados pela situação e vivência biográficas, aliás não muito significantes neste caso). O mais importante era a perturbação da identidade do próprio com insegurança radical face à responsabilidade de «possuir uma esposa fiel», na situação ética e sócio-económica do seu alto estatuto profissional e familiar).
Radicavam aqui as recidivas paranoides — neste plano, situagenicamente, compreensíveis, embora logo moldadas pela emergência das respectivas estruturas psicopatológicas de base. Aconteceram também em Pe (e muito mais frequentemente noutros casos de nossa observação)   recidivas  por mera supressão dos medicamentos (decidida pelo próprio — «se não tomar remédio deixarei de estar doente»... ou erradamente aconselhado por outrem).
O problema essencial está porém no sentimento penoso da mudança do Eu e da baixa das suas possibilidades frente à vida e à competição social.
É neste ponto que incide o problema da superação: encontrar novo sentido nas coisas e na existência, novas vias e possibilidades de acção para que o próprio se liberte da «prisão» («a doença» o estar perturbado), em que estava encerrado, ultrapassando as barreiras que o tolhiam primeiro delirantes, mais tarde caracterológicas, neuróticas, situacionais, relacionais, culturais…
Torna-se assim possível a re-emergência dos sistemas funcionais ainda conservados «sãos» — da personalidade, passando os últimos a prevalecer nas decisões do comportamento.
Recordemos que na fase aguda, segundo a análise («gestáltica») de K. Conrad,  o indivíduo em «apofania» está amarrado na estreiteza do seu vivenciar delirante. É incapaz de mudar de posição, de operar a chamada «mutação coperciniana» que o possa situar fora do centro do seu patológico Mundo; tudo se lhe refere significativamente em múltiplas projecções delirantes; para se libertar, é necessário colocar-se «de fora» para além do imperativo das (percepções) significantes. Nesse estado (agudo ou sub-agudo) só em raros momentos (e com a ajuda de fármacos neurolépticos «organizadores») consegue mudar o ponto de vista patologicamente fixado e passar a interpretar os aconteceres de modo não delirante — vendo as situações mais objectivamente, à distância e de fora — e começando a esboçar-se algumas contradições dialécticas e interpretações autocríticas (impossíveis na fase aguda do delirar).
Na fase de melhoras, se o estado residual (desintegração do próprio) é diminuta ou não existe (ou é inapreciável) torna-se então possível ajudar o indivíduo a ultrapassar essas barreiras, libertar-se das valências pessoais e suas expressões, desejos, defesas e impulsos e avançar no sentido de um maior «des-prendimento», logrando assim novos valores — já consonantes com o uso comum e o ajuizar valorativo dos outros, quer dizer socialmente adequados e congruentes. Tal é o processo de superação de um Homem perturbado pelo delirar. Torna-se capaz da transposição do seu ajuizar, preso ao nível «bio-psicológico», para o nível, mais livre e consonante com o real, da Pessoa cultural.
Não estamos a propor uma nova «técnica» antropopsico-socioterápica, muito embora seja claro que o processo de superação se enquadra era determinadas tendências coerentes com o modelo proposto.
Por agora desejamos acentuar, com vista à praxis — que se trata mais de atitudes a assumir pelos terapeutas do que regras tecnificadas operativas.
Recorde-se o que se disse (I, II, III) dos pressupostos do Homem perturbado, visto de modo muito mais lato do que o «doente mental» e abrangendo toda uma gama de formas gerais de se perturbar, estruturas psicopatolgicas básicas e seus gradientes que   vão   desde   a   «média normal»   até  às  mais  graves  psicoses    desintegrativas  
Aos gradientes de perturbação dos diversos sistemas funcionais da personalidade, as nossas intervenções visam contrapor  os  correspondentes gradientes de recuperação — utilizando   técnicas   adequadas à sua diversa natureza categorial — quer dizer: 1) agentes terapêuticos biológicos frente às perturbações por desintegração endotímica, da vigilidade, da corporalidade, do organismo, 2) agentes terapêuticos psicológicos às alterações e evoluções anormais da situação, do carácter, neuróticas, etc., 3) agentes terapêutico-sócio-pedagógicos às alterações da Pessoa cultural, 4) e todas as suas múltiplas combinações, interaccionando de forma ajustada à organização global da personalidade perturbada de cada indivíduo, segundo a arquitectura básica das suas estruturas (normais e alteradas, anteriores à doença e no curso da evolução, etc.).
Reservamos para outro estudo a fundamentação desta perspectiva do que chamaremos antropociências terapêuticas.
A acentuação agora esboçada do superar humano significa a atitude e a posição a tomar em cada uma destas intervenções no sentido de animar a favorecer e a ultrapassar as barreiras psicopatológicas, abrindo novas possibilidades de vivência e de conduta e transmitindo, além do esclarecer do entendimento - e mediante a comunicação empática - um certo «calor humano» quer dizer a devida ressonância afectiva e empuxo. Assim se incita à iniciativa pessoal e espontaneidade, à reflexão sobre o sentido da própria existência, à adopção de novos valores, ao interesse pelos outros, pela acção da cultura, pelo labor concreto e os lazeres significativos...
Recorde-se a evolução dos 2 casos descritos e note-se que o processo se desloca para o plano das superestruturas da personalidade: A pessoa cultural (englobando o carácter e o intelecto nas suas relações, por um lado com o Proprium,  por outro, com o ambiente sócio-histórico-cultural.
A intenção primordial está pois na abertura à maior autonomia da Pessoa, como se disse em V: novas possibilidades de ultrapassar a «necessidade» (os determinismos perturbantes) pela liberdade de «auto-determinação do próprio no quadro das possibilidades de relação com os outros e das responsabilidades devidas à Sociedade e suas normas e valores.
— Está aqui o ponto delicado (e genericamente humano) da «adaptação, da socialização quando não do «conformismo» versus independência pessoal. Sem o discutir, diríamos apenas que ante o dilema: controle/autonomia dos indivíduos em relação aos outros,  cabe às «antropociências» encontrar a justa medida das liberdades, das possibilidades,  dos  direitos  humanos  e  dos  deveres  e  responsabilidades — no quadro de uma ética «antropomédica» como a seguir se verá.
Frente   a   toda   a   problemática   humana   em   geral   e   no  caso  em  questão — enquanto terapeutas e seus clientes — respeitemos, em todas as circunstâncias, a qualidade do Humanum.
Neste nível de actividade de homens perturbáveis há que acautelar os riscos de permutar os valores: erigindo, se já não a «loucura» como «norma» (como aconteceu em certos desvarios mais re-alienantes do que contestatários) mais precisamente: não avaliando dialecticamente o perturbar-se criativo (que existe, embora excepcional) e os autênticos valores humanos que iluminam as estruturas sociais e a sua função cultural.
Por outro lado, não é mais aceitável o alibi de certas perturbações para legitimar a persistência de certos desvarios e atitudes e posições conceptuais e terapêuticas, muito menos para justificar a indiferença, inércia e descompromisso ante as grandes tarefas e a acção que se nos impõe a todos de participar activamente na peleja pela Saúde Mental e tentar superar as dificuldades que se lhe opõem.

VI — Que afinidades poderá haver nesta atitude de superação com as tendências psicosocioterápicas correntes?
— Alguns apontamentos problemáticos:
As correntes que mais se aproximam são evidentemente as das psicoterapias de inspiração antropológica. A hermenêutica (que apenas foi aflorada) da atitude de superação é porém muito diversa da «análise existencial» (inovada por Binswanger) na medida em que o modelo antropocientífico se afasta da antropologia heideggeriana (ultrapassando «de salto»  (Delfim Santos)  todo  o naturalismo científico).  Comuns são--lhe, no entanto o relevo dado ao compreender dos aconteceres humanos e também à orientação para a autonomia e posição participante do terapeuta, a atenção dada ao sujeito (ao Eu centro do proprium) e respectivas condições interiores significantes comuns   e    também,   entre   outras,   as  atitudes   dialectizantes   entre  o   perturbar--se/recuperar-se:
Básico à posição antropocientífica é porém a convergência integrativa: 1) com os métodos biológicos, 2) em especial com outras correntes psicoterápicas, mesmo polarmente antagónicas.
É sabido como as posições hermenêuticas compreensivas («de condições das possibilidades») se opõem polarmente às posições explicativas (de «análise condicional» determinística ou probabilística). A investigação toma nestas uma feição objectivamente tendente a discriminar («isolar») perturbações de funções e as suas condições determinantes (causais).
Aceitando em certos níveis (de actos perturbados de regressão até ao nível neuro-bio-psicológico as técnicas comportamentais, o superar dialéctico visa prevenir os riscos da sua mecanização, manipulação dirigista («re-alienante») e manter certa distância pessoal no processo de aprendizagem.
A referência antropocientífica globalizante tende a ultrapassar os riscos do reducionismo unilateral e parcializante. Este problema espelha-se nas dificuldades da investigação e avaliação dos dados por métodos estatísticos frente à apreensão empatizante fenomenológica de estruturas e conjuntos organizados.
Os êxitos pontuais de certas técnicas «comportamentais» devem pois — na nossa perspectiva — ser integrados no movimento dialéctico de superação (v. IV) que não exclui a aprendizagem cognitiva, em particular de novas posições, atitudes e valoração de parte do «cliente» e mesmo certos processos psico-fisiológicos (relaxação, training autogéneo, etc.) desde que ligados ao necessário complemento noológico (ideo-cultural — «espiritual») das «formulas intencionais» (H. J Schultz) com treino de atitudes para enfrentar situações ansiogéneas, etc…
Polarmente     oposto  às  psicoterapias  behavorísticas  estão  as  posições   «não directivas» «centradas sobre o cliente» — ditas também «dialogais» e «comunicativas» — pela sua posição de libertação e espontaneidade. A superação proposta dá-se claramente (ao nível da Pessoa cultural!) em linhas análogas — de compreensão empatizante. Inclui, no entanto, — um factor que só recentemente (noutro sentido ainda) certas terapias «cognitivas» têm considerado: a reflexão consciencializada (Besinnungstherapie de Bochenick).
Na verdade a superação parte da empatia compreensiva mas toma uma atitude activa e alcança o nível do entendimento — não só o intelectivo como de sentimentos ao nível espiritual e de apreciações valorativas, elaborações e treino de decisões e programas de acção.
Este aspecto activo, «consciencializado» e prospectivo, de superar, como cabe ao nível da pessoa cultural   (conceptualizada de modo diverso do Super-ego  e do Ego--ideal freudeanos) marca a diferença frente às terapias de orientação psicanalítica que nas duas penúltimas décadas tendiam a dominar as correntes psicológicas da terapêutica, frente aos restantes métodos até os biológicos.
Claro que há muitos objectivos comuns: a ajuda para que o próprio Homem perturbado se ajude a si mesmo com o fito de melhor auferir do «prazer» de existir, permitindo-se assim o desenvolver espontâneo da personalidade. Não basta, porém, o prazer (libidinal) nem o «poder» ao modo adleriano.
Como se referiu, a total «neutralidade» do observador (terapeuta!) face ao «cliente» (dolente) não é porém «humanamente» possível face aos sofrimentos, às vivências e às condutas (psicóticas e mesmo neuróticas graves) e também a passividade (mais suposta, pois o interpretar implica a comunicação de opções valorativas e de orientações conceptuais). Só são compatíveis com as «análises ortodoxas» de longo curso, dentro das suas limitadas indicações clínicas e incapacidade de abranger as exigências sociais da saúde psicológica.
A diferença principal está na multidimensionalidade em que as enquadra o superar antropológico, permitindo (ao invez dos psicanalistas) a flexibilidade de escolha de intervenções múltiplas e combinadas, escalonadas no tempo (aos níveis bio-psico-sócio-culturais),   por   exemplo,   a integração   dos   psico-fármacos   na psico-(e sócio)-terapia como se tomou irrecusável e é geralmente usado na prática clínica psiquiátrica corrente (não só das psicoses, mas de muitos episódios reactivos, neuróticos, evolutivos, etc.).

Superar é um movimento de ultrapassar, de «transcender» (em sentido fenomenológico antropológico). O dizê-lo «humano» marca os seus limites: frente ao indivíduo, à sociedade, à humanidade.
Cabe pois à terapia consciencializar também (além da sua própria perturbabilidade) os limites das suas possibilidades — tanto sob o ângulo técnico e científico, como no ponto de vista ético.
Neste ponto não é possível continuar estas reflexões, sem largo desenvolvimento. O real do homem perturbado oferece-nos uma infinidade de dados que carecem de ser interpretados e unidos num sistema corrente. Fico-lhes a dever a justificação epistemológica e axiológica que subsumimos na perspectiva das antropociências, v.g. nas antropociências terapêuticas. O seu limite estaria numa ética também «antropomédica».
Não esqueçamos a prudência e reservas do psiquiatra e filósofo K. Jaspers ao limitar as fronteiras destas possibilidades de abranger o todo, mas lancemo-nos no desafio e aventura de investigar mais além do «estabelecido» (ou suposto tal) sem reducionismos fragmentadores e sem especulações desiderativas (mito-ideológicas). Recorramos portanto aos métodos ajustados a cada categoria do real, organizando («construindo») os conceitos genéricos que permitam a sua multivariada compreensão e explicação  — não  só  teórica —  mas    visando    a    práxis    concreta    do    Homem perturbado — na sua situação de sofrimento que nos cabe ajudar e cuidar.
 — Não será esta uma mais humana forma de dignificar o Homem perturbado?

VII — A atitude de superação da perturbabilidade humana no plano da Pessoa cultural ultrapassa desde logo os meros problemas individuais. Implica todo um conjunto de   estruturas  que,   no   modelo   das   antropociências,  designamos   como  «sócio--histórico-culturais».
Nesse contexto, o ambiente implica os outros — ou seja, tanto o eu como o tu. Abrange portanto o nós, desde a família, os grupos, as comunidades até à sociedade.
Diz-se que o Homem é um Ser social. É-o, de facto, de múltiplas maneiras até no sentido genético-evolutivo da actual «sócio-biologia».
Seja como for, não é só a «dignidade», os direitos humanos (e respectivos deveres!) que têm sido postos em questão. Toda a problemática Natura/Cultura é focada no mais aceso das nossas preocupações actuais.
 A poluição, a ameaça nuclear, a contaminação genética, etc., são riscos muito concretos e presentes para nos obrigar a repensar a situação do Homem no Mundo, compreendido também como Cosmos. Mais ainda e não em último lugar: como a Sociedade humana dos Homens — quer dizer livre, responsável, ligada a uma Ética.
 — Na mesma linha do pensamento e sem o fundamentarmos agora, podemos dizer que também a Sociedade está perturbada.
De tal maneira que o que se disse do Homem ecoa também, com as devidas diferenças categoriais, nas estruturas sócio-históricas e económico-políticas e societárias.
Relevemos mesmo a evidente perturbabilidade social do aqui e agora português do nosso tempo. Levantar-se-iam então delicadíssimas perguntas:
 — Para que Sociedade realizaremos então a superação humana das perturbações de cada indivíduo, cada família, cada grupo, cada comunidade?
Como a poderemos efectivar num ambiente sócio-cultural já em si perturbado?
Quais  os  meios de fazer justiça às necessidades e direitos humanos de todos
     os homens?
No fecho desta palestra não mais é possível do que apelar— para o planeamento realista e efectivo de um autêntico Serviço Nacional de Saúde:

No   qual   a   Saúde Mental tenha a devida relevância — não esquecendo      que afinal a Saúde Mental é o problema n.° 1 da Saúde pública.
— Em Portugal — neste  momento  de  indefinição de objectivos humanos importa  sublinhar a problemática da saúde neste sentido mais amplo — da sua antropossocialização.
— Atenda-se, pois, à Saúde Mental de modo explícito no texto em revisão da    Constituição de 1976.
             —  Pense-se numa mais humana Política da Saúde.
— Que não pode deixar de ser uma Política de Educação e uma Política de      Cultura.
— Nas quais o Homem, como Pessoa Cultural, seja visto nos seus aspectos   globais — desde a ecologia à economia, desde a genética até à Cultura.
— Superando — numa ética, também humanizada — a perturbabilidade em risco crescente de todos nós.

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