Jornal Mineiro de Psiquiatria


Os Furiosos

Por Júlio Cesar Machado

 

Estes já não tentam dissimular o estado em que se acham – triste prova de que não conservam sequer um restozito de juízo!... De fisionomia vivaz e animadíssima, semblante exaltado, olhos extraordinariamente metidos pelas órbitas, pela encarquilhada, face cavada e esquálida, saltam-lhes por entre os beiços corados pela febre, como por um arquilho vermelho, gritos e apóstrofes que nem dardos!...
Têm ideias, mas fugitivas, sem ligação, Quebradas. Grande agitação, grandes accionados, grandes berros. Ora vêm, ora vão. Falar sem descanso – para um – para outro. Puxar a enxerga, atirar com a enxerga. Ir às grades; segurar, apertar; luta da carne com o ferro...
Vontade visível de apanhar alguma coisa à unha, de poder deitar-nos a mão. Mas – nem mesa, nem cadeira: nem, às vezes, uma tigela para despedaçar...
Anda cá! Olha! Chega aqui! – dizem alguns, com pérfida languidez, certo agrado felino, o risinho da hiena – a morrerem de desejo de nos sacudir de encontro às grades.
Alguns falam em dinheiro, desconfiam que fomos nós que os roubámos. Outros, de amores; recordam-se, inquietam-se, agitam-se, enfurecem-se... Alguns têm ainda o sentimento de ambição, querem grandezas – dessas mesmas grandezas pequenas que por aí se arrastam de gatinhas com ares de ir num andor – e gritam que são magnates e figurões: a tal ponte é profunda nas criaturas a vaidade, que, mesmo mortas para o mundo, ainda conservam a ideia de alardear possança! Mas já não têm sequer, como os outros, papel dourado, para fazerem coroas; nem há coberta na enxerga para poderem fingir que se embrulham no manto dos imperadores...
Donde provém o mal?
Quem poderá sabê-lo! De alguma paixão desordenada, enorme, extrema. Quem nos diz até que a loucura naquele grau, a loucura daquela qualidade, não seja simplesmente a paixão levada ao excesso?... Estão ali durante as horas do ataque, as horas de fúria, fechados nos quartos, quase às escuras para que a claridade lhes não fira a vista. No decorrer do ano, ligeiro para nós, pesado e cruel para eles, quantos dias de agitação e de tortura – com as mãos atadas, os braços presos, as rações de comida diminuídas; e as grades, as grades frias e negras, por único horizonte e única companhia!...
Já não há ver ali a gordura pagã; são magros quase todos, e parecem velhos: a loucura ainda envelhece mais do que as paixões; abatem-nos, dissecam-nos as fúrias; alguns parecem esqueletos, que a ira unicamente acorda; um ou outro tem a mão finíssima, mão de quem não faz nada, de quem não trabalha há anos; de outras vezes parecem os ossos da morte com pele por cima... em ar de luva! Ali gastam e consomem a vida, separados, presos, isolados, nas agonias insondáveis da desesperação. Só a mãe de algum, ou a mulher, vão vê-lo; únicas dedicações neste mundo que não abandonam as angústias persistentes. Lá esteve um, famoso e ilustre, o mestre do folhetim em Portugal, e a sua esposa ali foi todos os dias vê-lo e fazer-lhe companhia – colhendo do Céu a palma do combate terrestre e vendo sorrir-se para ela e abraçá-la meigamente aquele entre querido, que havia representado um dos primeiros talentos desta terra, e que parecia, lucidamente, dizer-lhe com a vista que deve um dia ser feliz na Eternidade a alma que nesta vida teve dedicação pelo infortúnio!
Mas, em geral, como se os olhos humanos não devessem contemplar o espectáculo daquela dor horrível, poucos são os que têm quem os visite, e ali se conservam até que um dia o padre do hospital vá junto daquela enxerga rezar-lhe ao ouvido, e, na hora em que vão enfim libertar-se do mundo, fazer a diligência de que eles repitam as orações que lhes disser...
Todos ali, mais ou menos, se entretêm e se divertem. Só eles não. São os poetas da casa – sonhar, sofrer. Mesmo se têm ofício, é raro aquele que pode aproveitá-lo uma hora ou outra – e isso mesmo é arriscado às vezes. Lá vi, quando fomos visitar as oficinas, um que dizem ser excelente marceneiro e de quem me mostraram um trabalho curioso: - uma maquineta, como costuma chamar-se-lhe, um nicho de madeira para Santa Filomena – santa com que tinha grande devoção uma enfermeira de Rilhafoles, que fora educada num convento de freiras de Leiria, e que morreu ultimamente doida neste mesmo hospital onde fora empregada. As outras enfermeiras, em obséquio à memória da sua antiga companheira, conservam o culto à santa.
O nem sempre amável marceneiro estava logo à entrada das oficinas com o branco e a ferramenta, na ocasião em que o director o convidou a mostrar-nos as suas obras.
- Mostrar o quê? – berrou ele; e logo se injectaram os olhos; e travando de um pedaço de tábua partiu-a, batendo com ela no banco.
- Bem, bem! – disse o director. – Hoje estás muito zangado; deixemo-nos disso! – e virou logo comigo pelo mesmo caminho.
Uma circunstância interessante é a placidez do director, o desembaraço com que anda por entre os doidos, e a bondade e descanso com que os trata. É isto resultado do seu génio, e em parte também de querer dar exemplo aos empregados de que não deve ter-se medo dos doidos, porque o medo aconselha cobardemente toda a espécie de crueldade. Em vez de injúrias e de chicotadas, como se usava dantes para com os pobres furiosos, sem se lembrar ninguém de que mais humana seria a lei que de vez condenasse à morte, emprega-se o jeito, a doçura, o bom modo, para não espatifar brutalmente e apagar de todo aqueles restos de inteligência, que às vezes só de passagem está nublada.
Todos mais ou menos se entretêm ali e se divertem alguma vez, menos os furiosos. Há teatro de tempos a tempos; e pelas festas de Junho, arraial.
De ordinário os doidos que representam – dos mais quietos, já se vê, e dos que costumam estar dias, semanas, meses às vezes sem dar sinais de alienação – dizem os seus papéis regularmente, mas falta-lhes expressão de fisionomia, gesto, movimento, olhar, tudo que auxilia e completa a frase. São espectáculos mais curiosos do que recreativos.
Até os idiotas poderão bailar nos arraiais ao som da flauta do companheiro: - os furiosos, não; arredados de tudo e de todos, hão-de ir gritando, extorcendo-se, rugindo na solidão atroz do seu cárcere!...
O sentimento da liberdade, que sobrevive a todos, até nas criaturas que perderam o juízo, não os abandona assim. Querem sair, sair!
As mulheres são mais furiosas do que os homens. Estes, de ordinário agitam-se durante horas, depois caem prostrados no sono letárgico que sucede à fúria. Elas, falam e berram, dias noites inteiras, e tornam-se mais notáveis nos insultos, no descomposto do facto, e até nas tendências malfazejas – atirando sempre que podem uma tigela contra as grades, e os cacos à cara de quem vai.
Algumas são verdadeiramente horríveis.
Uma gira todo o dia – mas todo o dia! – descalça, em roda do quarto. Tira-se-lhe a exerga para poder andar naquelas voltas, como a hiena na jaula. Depois, à noite, põem-lhe a enxerga: cai sobre ela, e enrosca-se.
Uma rapariga de Coimbra, que não fala senão de um retracto, tem de estar de colete porque marinha pelas grades.
Aquela, de Lamego, que dá pancadas em quem apanha, atira com o pão em pedaços – para as almas!
Esta, de Guimarães – com certo ar de astúcia maquiavélica no fundo da loucura -, está doida um dia sim, um dia não. No dia em que não está doida, trabalha. É uma alienação à maneira das sezões.
- Como está? – pergunta-lhe o director.
- Sempre estou boa! – responde ela.
- Ah! E então?
- Então: sardinha com pão!
E, sem mais nada, enfurece-se, grita, ameaça, quer saltar, terrível, hedionda, como se a noite e as Parcas lhe desenhassem no semblante as caretas da loucura.
Um moço esbelto e forte conserva-se de gravata de couro, para não poder dobrar o pescoço – porque se morde. Um velho grita por tal forma que, ás vezes, de noite, as patrulhas de Arroios têm ido, sem saber o que é, em procura do sítio de onde vêm aqueles ais...
Passados dias – por não haver trazido apontamentos dos furiosos na primeira visita que fiz a Rilhafoles – tive de voltar ali.
A tarde declinava, e os últimos raios do Sol iam a despedir-se daquelas tristes paredes. Ao passar com o sr. dr. Guilherme Abrantes, que teve ainda a bondade de me acompanhar, por um daqueles corredores que serpenteiam ali em todas as direcções, vi dois homens sentados à porta de um quarto.
- Estão de guarda ao cadáver! – disse-me o director. Entrámos no quarto, vi um embrulho no chão, como que o corpo de um homem amortalhado – um boneco, supuz eu -, e duas tochas ao lado.
Não era boneco, era deveras um cadáver.
Na véspera falecera em Rilhafolhes um doido israelita. Prevenidos os seus, mandou o presidente da Sociedade Hebraica dois homens para envolverem o cadáver num lençol, depositá-lo num quarto isolado, de cara e ventre para baixo, sem caixão, e ficarem de guarda de guarda à porta. Como era sábado – dia santo para eles – não lhe mexiam enquanto não fossem nove horas. Haviam pedido, para a noite, café, pão, manteiga, genebra e cigarros. Na madrugada deviam partir para levarem o cadáver e enterrá-lo no alto do Varejão.
Aquele era talvez o mais feliz de quantos ali ficaram nessa noite. Já não ouvia sequer os clamores de raiva, os rugidos da paixão, os arrancos de desespero e de fúria dos companheiros. Estes estão mortos também, de alguma maneira; mas é de mais, e é pouco! Se aqueles braços que se agitam, se aquelas vozes que estrugem, se aqueles dentes que rangem são a matéria – que é da alma?...
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À saída, o jardim é triste, triste; e os pingos de chuva, que ficam nas pétalas das flores, brilham que parecem lágrimas. Depois, se se levanta a cabeça, estremece-se ao ver o céu, como contraste – por cima daquela miséria contínua!...

 

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