Jornal Mineiro de Psiquiatria

Invasões bárbaras

Por Humberto Campolina

 

No Diário Oficial da União de 30/01/2008, foi publicada a resolução de número 377 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), de 14/06/2007, que elenca as entidades que deverão compor a Comissão Intersetorial de Saúde Mental (CISM), órgão instituído em 1999 para, entre outras coisas, acompanhar a política de saúde mental em nível nacional, dar sustentabilidade à reforma psiquiátrica (sic). A composição da referida comissão é, resumidamente, a seguinte:
-Coordenação: a cargo da Liga Brasileira da Lésbicas (não é piada...).
-Coordenação adjunta: cargo pertencente a um representante do Conselho Federal de Psicologia.
- Membros titulares: dez representantes ao todo, entre os quais destaco os seguintes movimentos e/ou instituições: o autodenominado Movimento Nacional da Luta Antimanicomial, a Federação Nacional dos Psicólogos, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira e a Central Única dos Trabalhadores (CUT).
Bem, a pergunta inevitável e que não quer calar: E os psiquiatras, os médicos da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e/ou do Conselho Federal de Medicina? Para esses, umazinha vaga: a ABP poderá ocupar o cargo de suplente, ao lado, por exemplo, de um representante da Associação Brasileira de Odontologia. Em suma, para o CNS psiquiatra entende tanto de saúde mental quanto dentista...
Este artigo poderia ser finalizado por aqui com um no comments e destacando a vocação brasileira para o surrealismo na política. Afinal, o que tem a ver a Liga das Lésbicas, a CUT e as organizações indígenas amazônicas com assistência a doentes mentais, transtornos e tratamentos psiquiátricos e quetais? Por que os especialistas em doenças mentais são truculentamente empurrados para fora de uma comissão de acompanhamento da assistência a doentes mentais enquanto, por exemplo, os psicólogos que -- vamos deixar hipocrisia! -- tendo uma formação deficiente em psicopatologia, se comparados aos psiquiatras, abocanham dois cargos, inclusive o de coordenador adjunto? É como se num congresso de cirurgia cardíaca fossem excluídos justamente... os cirurgiões cardíacos!
Confrontado com a questão do porquê dessa, sim senhor, discriminação aos médicos, numa entrevista concedida ao Notícias da ABP, o presidente da associação, João Alberto Carvalho, pareceu-me algo atordoado, e pediu que fizessem a pergunta às autoridade incrustadas no poder da saúde mental do país.
Não foi uma boa resposta, presidente, se me permite muito respeitosamente opinar. O presidente da associação dos psiquiatras do Brasil deveria, sim, saber responder a essa pergunta, com todas as letras e em alto e bom som.
Quem acompanha este jornal sabe por que ocorreu a exclusão dos psiquiatras, e não se surpreendeu. Há mais de dez anos, o editor do JMP vem denunciando ad nauseam um ativismo antipsiquiátrico sorrateiramente “ocupando os espaços” da administração pública em saúde mental (se quiserem, podem chamar também de “aparelhamento”). O conteúdo do discurso do movimento é uma mistura indigesta de Lacan, Foucault e Basaglia, mas a estratégia é puro Gramsci; para quem não conhece, trata-se do filósofo italiano Antonio Gramsci (1891-1937) que se arvorou em ser o Maquiavel do séc. XX. Mas o príncipe desse maquiavélico moderno não é um sujeito de carne e osso: é o Partido. E a estratégia é esta que estamos assistindo: através da tática de infiltração de militantes (nem todos têm consciência do processo; há os inocentes úteis) na máquina pública, nas instituições culturais e na mídia; o objetivo é o que o próprio Gramsci denominou de hegemonia cultural, ou seja, as “verdades” da causa vão lenta mas inexoravelmente tomando conta do ambiente sociocultural até chegar num ponto em que passam a ser “a” Verdade, não sobrando espaços para divergências. Em uma palavra: usam a democracia para solapar a democracia, na boa frase do jornalista Reinaldo Azevedo.
A chamada “saúde mental”, pela importância cultural que tem, é um alvo muitíssimo visado. Os psiquiatras (não os pseudos...) são vistos como inimigos a serem batidos, pois estão interessados somente em fazer... psiquiatria – não pensam que nessa disciplina (ou na saúde mental) se configura algum instrumento apropriado para a “salvação do mundo”.
Aqui em Belo Horizonte, todo o atendimento público está aparelhado por militantes gramscianos (nos cargos de coordenação; os profissionais que são incumbidos dos atendimentos, coitados, sofrem tanto quanto os doentes). Uma das afiliadas da ABP, presidente João Alberto, a Associação Mineira de Psiquiatria, teve um papel proeminente nesse processo, inclusive quando esteve nas mãos de dois colaboradores que o Sr. chamou para fazer parte da sua diretoria. Gramciano, presidente, é água misturada com ácido: infiltra e corrói. Como dizem lá na minha terra, é gente danada de esperta.

 

 

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