Jornal Mineiro de Psiquiatria

 

Mal contingente e mal essencial (*)

Por Reinaldo Azevedo

 

É claro que é revoltante saber que um dos psiquiatras responsáveis pelo laudo que permitiu a saída do detento Ademir Oliveira do Rosário, acusado de matar os dois garotos na serra da Cantareira, é o mesmo que assinou o laudo usado para defender a liberdade de Champinha, assassino da estudante Liana Friedenbach, 16, e de seu namorado, Felipe Caffé, 19, mortos em 2003. O Ministério Público reagiu, e se impediu o absurdo. No caso de agora, a coisa seguiu adiante, e os irmãos Josenildo José Ferreira de Oliveira e Franciso Ferreira de Oliveira Neto estão mortos.

Trata-se do psiquiatra Charles Louis Kiraly, que também recomendou a libertação, em 1997, de João Acácio Pereira da Costa, o “Bandido da Luz Vermelha”, preso havia 30 anos. Quatro meses depois, ele se envolveu numa briga e foi assassinado. Lembro-me de ter visto uma entrevista com João Acácio. Sua loucura estava estampada no rosto, nos gestos, nas palavras. O médico Kiraly, pelo visto, discordava.

Olhem, resta evidente que essa história de avaliação psiquiátrica é mesmo uma piada, e a responsabilidade pelo bagunça geral não deve ser atribuída só ao doutor em tela. A Justiça e a Secretaria de Administração Penitenciária têm de se mobilizar para resolver o problema estrutural. Hospício de verdade é este em que essa gente vive. Dito isso, ponto parágrafo.

Ninguém obriga o doutor Kiraly a assinar um laudo, por mais precárias que sejam as condições em que ele trabalhe. Assina porque quer. Gostaria de ouvir este senhor. Sou tentado a achar que ele pertence a certa corrente da psiquiatria — que já se chamou “antipsiquiatria” e caiu em descrédito — que não reconhece a loucura como um risco à sociedade; que não confere à pscopatia o estatuto de... psicopatia. O francês Michel Foucault (1926-1984), só um literato meia-bomba para quem busca justificativas teóricas para desregrar os sentidos (em bom português: “enfiar o pé na jaca”) foi o mais lustroso — mais lustroso do que sua lustrosa careca — defensor da tese de que a loucura é um “discurso” socialmente construído. Mais ainda: construído — claro, claro — pela civilização do capital, entendem? Assim, lugar de louco e na rua, junto com os apenas “considerados” normais, embora loucos de verdade: nós.

Ah, sim, talvez sejamos todos meio maluquetes, com nossas obsessões e esquisitices. Mas qual é o mal que elas causam? Se o tal Rosário tivesse sido diagnosticado pelo que é — psicopata —, não estaria em Franco da Rocha, certo?, em regime-aberto. O médico viu nele apenas um leve retardo. Qual é? Ele molestou 11 garotos. É evidente que seus mecanismos de culpa e de reconhecimento do “outro” inexistem ou estão prejudicados. E isso, infelizmente, não tem cura. Qualquer psiquiatra que não tenha sido contaminado por teorias esdrúxulas sabe disso. Kiraly não percebeu? Errou o diagnóstico? Três erros, assim, tão brutais?

Com a devida vênia, a tese de que a loucura é socialmente construída é uma patacoada politicamente correta, já desmoralizada no mundo inteiro. Cumpre investigar o erro médico social e politicamente construído. Aí está o mal essencial. Libertários e esquerdopatas gostam de soltar bandidos e loucos. E o estado preguiçoso gosta que assim seja. Afinal, ele se desobriga, uma vez mais, de proteger a sociedade, embora seja pago pra isso.

(*)Publicado originalmente no blog do autor (www.veja.abril.com.br/blogs/reinaldo).