Edição No. 25 (Junho de 2007) Ano XI

 

 

 

 

 
 

Jornal da Associação Médica Brasileira – ano 40 - # 1347

 

EDITORIAL

 

Chega ao Congresso o que se tem denominado, no jargão parlamentar, "mensagem" do Presidente. Trata-se da submissão de um acordo diplomático entre Cuba e o nosso País, prevendo, na prática, reconhecimento automático dos brasileiros graduados pela ELAM (Escola Latino-Americana de Medicina).Abre-se o assunto em audiência pública e vêm à tona, em poucas horas de discussão, os aspectos obscuros da intrigante proposta.

Por que tratamento assim privilegiado àquela escola cubana? Estudantes brasileiros formados em Harvard, Yale, Princeton, Sorbonne, Pádua, Porto, Lisboa, Coimbra, Cambridge ou Oxford nunca foram objeto de tanta consideração. E os milhares de brasileiros que hoje estudam nas faculdades bolivianas?

Estes têm de passar por uma análise de equivalência curricular e, somente após a verificação da compatibilidade dos programas, submeterem-se a exame de qualificação.

Qual o real objetivo deste programa e quais as razões desta proposta?

Por que os estudantes estrangeiros da ELAM não são selecionados por meio dos mesmos critérios adotados para os cubanos, mas recomendados por partidos políticos ou movimentos sociais?

Por que o Itamarati, neste particular, foge do paradigma da bilateralidade? Os estudantes estrangeiros da ELAM não são autorizados a exercer medicina em Cuba, pois a escola visa formar quadros destinados a atuar no exterior. Dos pretextos levantados para a aprovação deste disparate surge a qualidade do ensino médico em Cuba. Mas, por que o índice de aprovação dos alunos que se candidatam a exames de qualificação é tão baixo?

 

Outro falacioso argumento é a falta de médicos dispostos a assistir as populações das regiões mais remotas do Brasil? Não se cogita, no entanto, que os médicos assim "importados" poderão (pelo menos enquanto prevalecer por aqui o democrático direito de ir e vir) escolher viver em outras regiões. Exatamente como fazem os outros 310 mil colegas em atividade no Brasil. Isto porque também não se cogita estruturar a assistência nas regiões remotas e nelas integrar a prática médica. E muito menos elaborar plano de carreira que, à semelhança do Judiciário, distribua equanimente recursos humanos na área da saúde.

Onde estamos? Para onde vamos?

Diz-se que não importa quão profundo lhe pareça o buraco em que você se encontra, enquanto não houver terra por cima, há esperança.

Há propostas que chegam como uma pá de terra.

 

 José Luiz Gomes do Amaral

      Presidente da AMB