Edição No. 25 (Junho de 2007) Ano XI
 

                                                  Os “Fatos” da ciência *                                                               

                                                                                       por Claudio Andrés Téllez 

 

Resumo: A mídia contribui para a politização da ciência, transformando-a em instrumento de ativismo para correntes ideológicas e afastando a investigação científica de sua verdadeira natureza.

 

Em sua edição de 23 de dezembro de 2005, a prestigiosa revista norte-americana Science destaca a Teoria da Evolução como um dos grandes avanços da ciência no ano. O artigo ressalta, naturalmente, a polêmica em torno da Teoria da Evolução gerada por alguns segmentos da sociedade americana, que teriam lutado para “diluir o ensino de até mesmo os fatos básicos da teoria” [1]. Essa teria sido a razão para colocar Darwin sob a luz dos holofotes na edição da revista que destaca os maiores avanços científicos de 2005.

Ao mesmo tempo, o portal de notícias MSN Brasil informa que “Science escolhe teoria da evolução como fato científico de 2005” [2]. O artigo original é da Reuters, mas na edição em português publicada pelo MSN Brasil a palavra inglesa “breakthrough”, que significa “avanço” (na ciência), foi traduzida como “fato”.

Este artigo tem como objetivo principal mostrar como a mídia contribui para a politização da ciência, transformando-a em instrumento de ativismo para correntes ideológicas e afastando a investigação científica de sua verdadeira natureza. Ao mesmo tempo, ilustrarei através de dois exemplos (Supercondutividade e Teoria da Evolução) como a ciência, pelo menos da maneira como ela é feita hoje em dia, em seus patamares mais fundamentais sustenta-se sobre conceitos definidos aprioristicamente.

Ao tentar atribuir a teorias científicas o status de fatos científicos, a exemplo do que podemos verificar no título da notícia do portal MSN Brasil [2], cria-se deliberadamente uma perigosa confusão nas terminologias. Devo ressaltar, aqui, que mesmo o artigo original da revista Science [1] utiliza a expressão “(...) fatos básicos da teoria”.

Vamos tentar entender o que significam três termos distintos. Teorias são teorias, fatos são fatos e teoremas são teoremas. As teorias científicas (nas ciências naturais) têm a característica de serem testáveis, isto é, sujeitas às provas da experimentação. A correspondência com a realidade é requisito fundamental para o avanço da ciência e, diante de novas evidências experimentais, ou seja, mediante a característica de testabilidade, as teorias científicas podem ser aprimoradas ou mesmo abandonadas.

Talvez possamos dizer que demonstrar teoremas seja basicamente a atividade dos matemáticos. Devo ressaltar aqui que a Matemática não é uma ciência natural como a Física ou a Biologia. Diferentemente das teorias científicas, os teoremas não são testáveis, mas sim demonstráveis, a partir de postulados, axiomas ou outras ferramentas apriorísticas. Enquanto nas ciências naturais utiliza-se o confronto com a realidade como critério de validação, os matemáticos deduzem seus resultados (teoremas) a partir das regras da lógica e de certos conceitos determinados a priori.

O que vem a ser um fato? A palavra vem do latim, “factum, -i”. Tem o mesmo significado do adjetivo “factus, -a, -um”, ou seja, algo feito, executado. Na nossa linguagem de hoje, fatos são aceitos pelas pessoas como verdades, como correspondentes à realidade.

Afirmar que uma teoria é um fato, portanto, é uma maneira sutil de identificar com a realidade aquilo que se testa mediante a própria correspondência com a realidade. Em outras palavras, desvirtua-se a testabilidade e as pessoas são induzidas a acreditarem que a atividade científica produz verdades definitivas. Os resultados de pesquisas científicas passam a ser aceitos cegamente pelas pessoas, quase como “dogmas”, e são repetidos como se fossem mantras do palpiteirismo politicamente correto.

Um exemplo bem atual é a hipótese científica do aquecimento global ter causas antropogênicas. Há diversos pesquisadores que defendem essa hipótese e eles utilizam a experimentação para isso. Mas também há pesquisadores que contestam essa hipótese e eles também utilizam a metodologia de trabalho das ciências naturais para esse fim. Muito longe de ser uma “verdade absoluta”, seja ou não o aquecimento global causado pela ação humana, essa hipótese é defendida e difundida como sendo verdadeira e incontestável por ativistas políticos, com o natural apoio da “grande mídia”. É daí que vêm as polêmicas sobre o falido Protocolo de Kyoto e os ataques ao governo de G. W. Bush pela destruição causada pelo furacão Katrina, apenas para citar dois exemplos bem conhecidos.

A Supercondutividade é uma teoria científica. Testes rigorosamente controlados podem ser realizados e repetidos em laboratórios. O Efeito Josephson, só para citar um exemplo, foi observado pela primeira vez em 1963 e é um dos pilares da Supercondutividade. Quando interpretada como um fenômeno quântico, a teoria científica da Supercondutividade encontra sustentação em conceitos como aleatoriedade. Fenômenos aleatórios são tratados pelo campo matemático da Probabilidade, uma importante área da Matemática Pura.

A Probabilidade é uma porção de um universo matemático maior chamado de "Teoria" da Medida (em Matemática, a palavra “teoria” tem um sentido diferente do que vem sendo utilizado ao longo deste artigo). Como toda a Matemática, a “Teoria” da Medida começa a partir de certos axiomas e, a partir daí, deduz logicamente os seus resultados. As "leis" da Probabilidade, como por exemplo a "Lei dos Grandes Números", nada mais é do que um teorema e portanto, não pode ser obtido pelos meios de investigação das ciências naturais que se baseiam na experimentação. Trata-se de um resultado que decorre logicamente a partir de deduções realizadas a partir de axiomas definidos a priori.

A Teoria da Evolução é outra teoria científica, onde a metodologia de pesquisa é, em parte, diferente da utilizada no caso da Supercondutividade, já que não é tão fácil repetir experimentos em laboratórios sob condições rigorosamente controladas. Os pesquisadores da Teoria da Evolução utilizam métodos estatísticos, refinam seus dados, aprimoram as suas observações. É um verdadeiro arsenal de técnicas que a fortalece enquanto teoria científica, sem dúvida, mas qualquer pessoa familiarizada com os conceitos básicos da Teoria da Evolução sabe que ela tem como um de seus pilares o conceito matemático de aleatoriedade (assim como a interpretação quântica da Supercondutividade).

É na Probabilidade, e portanto na Matemática Pura, que as teorias científicas das ciências naturais se encontram com os teoremas. A testabilidade, a iteração, a repetição das observações, os números extraídos das experiências realizadas nos laboratórios, enfim, tudo o que confere “força estatística” às duas teorias científicas que utilizei como exemplos vêm de conceitos matemáticos e de proposições que são demonstráveis logicamente, mas não testáveis.

Em seus fundamentos, a atividade científica geralmente esbarra em elementos de natureza apriorística. É por isso que um pouco mais de critério é desejável antes de saírmos dizendo por aí que teorias científicas são fatos, já que essa é uma das melhores maneiras de contribuir para a politização vulgar da ciência.

 

*Artigo baseado em um post no blog O Insurgente: http://oinsurgente.blogspot.com e publicado no www.midiasemmascara.com.br.

 
 

Referências:

[1] – Science Magazine, 23/12/2005. BREAKTHROUGH OF THE YEAR: Evolution in Action. Disponível em: http://www.sciencemag.org/cgi/content/full/310/5756/1878

[2] - Science escolhe teoria da evolução como fato científico de 2005. MSN Brasil, 22/12/2005. Disponível Aqui.