Edição No. 24 (Outubro de 2006) Ano X

 

Psiquiatria desequilibrada*

                                

                                                                                                          Por Ulysses Pernambucano de Mello **

 

   Sempre que lemos tratados e compêndios de psiquiatria, vemos, na descrição dos autores, que, quando o distúrbio estudado se agrava em excesso, o paciente é encaminhado à hospitalização.

   O mesmo encontramos nos variados artigos publicados nas mais famosas revistas psiquiátricas em circulação na atualidade. No Brasil, com a reforma da psiquiatria, o que vemos? Nos casos de adoecimentos psíquicos moderados os pacientes são referidos aos CAPS - Centros de Apoio Psicossocial - estabelecimentos de cuidados intermediários pensados dentro da louvável intenção de evitar a progressão do mal de que foi acometido o que os procuram. Quando, entretanto, os casos se agravam e evoluem para intensos transtornos psicopatológicos e comporta-mentais, com risco de suicídio e agressão dirigida à população em geral além da família, a escolha recai sobre a hospitalização tal como recomendado nos tratados, compêndios e artigos de boas revistas médicas.

   Mas, aí, surge um grave problema. No Brasil, os hospitais psiquiátricos do SUS, diferentemente do que acontece com os CAPS, são absurdamente mal remunerados, conseqüentemente transformados em ambiente de carência e escassez. Sendo parte do sistema de atenção à saúde mental, seria de se esperar que estivessem emparelhados aos demais equipamentos que se destinam a este f i m.

   O SUS, que deveria financiá-los de modo decente, não o faz e compra seus serviços. Uma contradição para um governo que se orgulha -não sem razão - de ter-se voltado intensamente para a saúde e para a saúde mental, em particular. Como então explicar à população que venha a necessitar dos serviços das unidades de saúde mental o estado de pobreza em que se encontram os hospitais? O contraste entre estes e os demais equipamentos comunitários de saúde? A fragmentação que desfavorece a integração que deveria existir entre hospitais, CAPS, RESIDÊNCIAS TERAPÊUTICAS E PROGRAMA DE SAÚDE DA FAMÍLIA? Qual a razão de estarem completamente desvinculados, em termos físicos, dos demais membros do cuidado ao paciente (hospital; Caps; Programa de Saúde da Família; Residências Terapêuticas)? Logo aquele (hospital) que cuida dos doentes acometidos dos mais severos estados psicopatológicos e comporta-mentais? As enfermarias dos hospitais se encontram lotadas e com uma demanda crescente por seus leitos.

   Esse estado de empobrecimento atinge o doente mental grave - que é aquele que povoa os hospitais, gente simples, pobre, sem visibilidade social - mas agrava também os profissionais que trabalham no ambiente dessas unidades. Estes últimos, forçados a conviver com a realidade de miséria em que se encontram seus ambientes de trabalho, revoltam-se contra o sistema SUS e o governo, mas frequentemente calam-se, temerosos de represálias que possam vir a sofrer em outros serviços onde complementam suas minguadas rendas.

   No mundo inteiro ainda estamos distantes do dia em que prestaremos nossos serviços médicos sem o concurso do hospital psiquiátrico na retaguarda do sistema de atenção à saúde mental. Urge que o SUS resolva tirar psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, farmacêuticos e nutricionistas, além dos auxiliares de enfermagem do caos em que se acham quando nos hospitais. Isto para deixar para o final o calvário do brasileiro pobre, que adoece gravemente da mente e precisa internar-se e encontra como suporte para suas dores - numa ocasião decisiva de suas existências - o hospital arruinado, empobrecido, desconfortável, com seus funcionários mal remunerados e suas instalações sem a mínima possibilidade de comparação com as dos CAPS, instituições corre-tamente financiadas pela mesma instituição que deixa a pão e água os hospitais. Que candidato ousaria usar as instalações de algum hospital psiquiátrico para suas propagandas eleitorais, já que estamos em ano eleitoral?

 

 

*    Artigo publicado no Psiquiatria Hoje 2 2006

 ** Médico Psiquiatra