Edição No. 24 (Outubro de 2006) Ano X

Risco ou riso?

 

(“Tudo indica que as diretrizes teóricas da psiquiatria mineira nas últimas décadas foram produzidas por sujeitos ativistas pseudo-intelectuais ou vice-versa. Ou menos do que isso.” João França Netto*)                            

 

 

     Como editorial deste número do JMP, pretendia escrever uma análise crítica de O Risco de agosto/06, publicação oficial da Associação Mineira de Psiquiatria. Mas o que dizer de um jornal dito de psiquiatria que perpetra um artigo com o título sugestivo de "Uma clínica de antecipação do sujeito" (pág.4) no qual os autores preconizam – a sério! – o "atendimento psicanalítico do bebê com risco de autismo e outras graves psicopatogias" (uau! Atenção jovens mamães, que os autores chamam de "agente maternante" [sic!]: se seu bebê está chorando demais, não perca tempo e corra até o psicanalista mais próximo, não esquecendo de levar o bercinho para que o pimpolho não despenque do divã ...)**, ou onde se lê frases de estilo empolado significando nada, tais como "Parcerias entre saúde mental e o programa saúde da família é um trabalho em ato", (???) pág.6 , ou acacianas, kitschs e tolas (e também empoladas) como "É do acontecimento contingente que trata a psicanálise, se a subjetividade for excluída, será desastroso para o paciente", pág. 9,  (preciso dizer a quem o autor está acusando de "excluir a subjetividade" do paciente? Quem disse "a psiquiatria" ganhou um pirulito...) e "Ouvir significa dar importância ao outro" , pág. 14, (eta sabedoria!).

   Não, não tenho paciência, pra não dizer outra coisa, para o besteirol lacaniano. No coments, nada mais a dizer. Só ressaltar que para ninguém deveria ser surpresa a onipotência em se arvorar a fazer “reforma” na psiquiatria em profissionais que acreditam poder levar bebês para o divã psicanalítico.

   Assim, faço economia do meu já mui escasso tempo (afinal, diferentemente da maioria dos politicólogos, ganho meu suado dinheirinho no trabalho duro de sol a sol) e faço editorial do JMP nº 24 o artigo Psiquiatras, uni-vos! que publiquei no site da AAP-MG, a pedido da presidente dra Mercêdes Jurema, e que escrevi com muito prazer. E, pensando bem, é um artigo que vem a calhar.

 

* Psiquiatra gaúcho radicado em Minas.

**A psiquiatria mineira é alvo freqüente de chacotas por profissionais de outros Estados. Não sei por quê...

(HC)

 

                                                 Psiquiatras, uni-vos!

 

 

                                                                  Por Humberto Campolina

 

                         (“Não há nenhum pensamento importante que a burrice não saiba usar. Ela é móvel para todos os lados e pode vestir todos os trajes da verdade.” - Robert Musil)

 

   Há alguns anos, lendo um artigo de um profissional lacaniano, que havia vencido um pleito eleitoral de associação de classe de forma, digamos assim, não muito ortodoxa, notei que ele grafara a palavra "ética" aproximadamente uma vez a cada três linhas de seu texto. Às vezes eu tinha a impressão de que usaria o vocábulo no lugar da vírgula. Então me ocorreu que essa é a técnica comezinha do ilusionismo. O sujeito repete incansavelmente uma palavra ou ato para adormecer a consciência do espectador e assim fazer a mágica. Vivíamos os tempos da "ética na política" – lembram-se? – que depois deu no que todo mundo sabe.

   Ao ler agora a Portaria Interministerial N° 1055 de 17 de maio de 2006, na qual o Ministério da Saúde juntamente com a Secretaria de Direitos Humanos (que não mexeu uma palha no caso do caseiro brasiliense que  recentemente teve o sigilo bancário violado por motivos políticos) instituíram um grupo de trabalho para a constituição do “Núcleo Brasileiro de Direitos Humanos e Saúde Mental” (???), deparo-me com fenômeno parecido com o do lacaniano: a expressão "direitos humanos" aparece na mesma proporção do texto antes referido: uma vez a cada três linhas! Outras, digamos, coincidências: a portaria contém, como no outro caso, frases inusitadas (e hilariantes) como "Considerando a transversalidade [sic e argh!] dos direitos humanos e da saúde mental" e um viés (ops!) nitidamente antipsiquiátrico, como se vê no seguinte parágrafo: "Considerando a necessidade de aperfeiçoamento dos mecanismos de monitoramento e avaliação das instituições de confinamento como hospitais psiquiátricos...”  (grifo meu).

   Recentemente a Secretaria de Saúde da Prefeitura de Belo Horizonte ignorou olimpicamente o parecer da câmara técnica do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais que considerou a chamada "hospitalidade noturna" dos CERSAMs  um serviço antiético por infringir pelo menos dois artigos do Código de Ética Médica, e "incompatível com o exercício ético da profissão médica, pelos riscos que traz à saúde da população do município".  A Secretaria de Saúde  da PBH não deu a menor bola pro CRM, o que dá a medida do respeito que essa gente tem pelas instituições.

   Duas semanas atrás, houve uma convenção sediada no campus da UFMG com o objetivo de traçar estratégias para a implantação da hospitalidade noturna e da reforma psiquiátrica. Quem estava patrocinando o evento juntamente com a Secretaria de Saúde da PBH? Alguma instituição médica ou psiquiátrica? Não. O patrocinador e interessadíssimo na reforma psiquiátrica era nada mais nada menos que o Conselho Regional de Psicologia (já para o Conselho Regional de Medicina não estão nem aí, entenderam?).

   Mas afinal, poderia perguntar o leitor: quem é “essa gente”? Que pessoas são essas que estão tentando excluir (ops!) os psiquiatras da reforma psiquiátrica?

   Primeiramente umas palavrinhas sobre essa expressão. A rigor não é possível fazer reforma em uma ciência por decreto: seria o mesmo que tentar revogar a lei da gravidade. O que o Brasil carece é de uma reforma da assistência psiquiátrica, assim como também da assistência cardiológica, da oftalmológica, da ginecológica, enfim da assistência médica in totum (atenção: estamos falando do setor público, estatal!). Contudo engana-se quem supõe tratar-se de um ato falho o uso da supracitada expressão. Nada disso. O que os antis querem  é, sim, reformar a Ciência Psiquiátrica. E sem o incômodo da presença de psiquiatras... Meu amigo psiquiatra dr.José Maria costuma dizer que eles são muito bonzinhos: “Imagine só, Humberto --  diz ele -- vão fazer todo o trabalho pra gente!”

   Mas ainda não respondi ao leitor: quem são, afinal, esses nossos benfeitores?

   Bem, tenho abordado esse tema desde 1997, quando lançamos o primeiro número do Jornal Mineiro de Psiquiatria. Quem teve paciência e gentileza de me acompanhar durante todos esses anos sabe que desde o início identifiquei como autora da benfeitoria a associação entre o interesse corporativista de outras categorias profissionais próximas ao trabalho psiquiátrico (ler a publicação mensal do Conselho Regional de Psicologia é de chorar de ri, se você tiver estômago para a bobajada) e o interesse de pseudopsiquiatras com (de)formação em pseudociências, que decidiram  sacrificar a psiquiatria no altar da deusa política.  Desconheço qual dos dois é o interesse preponderante, mas sei que ambos são sórdidos.

   Com todas essas aberrações técnicas e científicas, a psiquiatria brasileira pode se vangloriar de ter na Associação Brasileira de Psiquiatria uma defensora competente contra os ataques  contumazes e sinuosos (quase sempre espertamente escondidos em eufemismos e jogos de palavras sedutores significando nada) que tem sofrido da antipsiquiaria. Nem sempre a ABP foi assim. Anos antes, não me lembro mais sob o comando de quem, ficou de namoricos com a antipsiquiatria, e até hoje usa alguns das tais palavras ocas e bobocas (a própria expressão “saúde mental” é um primor de indefinição e ambigüidades muito convenientes para os profissionais da militância...). A atual diretoria da ABP, no início da sua gestão, andou se oferecendo ao Ministério da Saúde para trabalhar conjuntamente na tal reforma. Como resposta, teve a portaria acima referida, que praticamente decide que reforma psiquiátrica  não é coisa pra psiquiatra. A reação do presidente da instituição foi em alto e bom som. Escreveu um artigo para o jornal O Globo dando nome aos bois, e instituiu um grupo de estudos sério sobre a  reforma da assistência psiquiátrica brasileira.

  A Associação Acadêmica de Psiquiatria também, logo depois de sua fundação , andou de mãos dadas com a Associação Mineira de Psiquiatria, na época intensamente aparelhada pela antipsiquiatria. Agora, a atual presidente dra. Mercêdes Jurema parece querer pôr as coisas nos devidos lugares. Gracias. Se eu pudesse falar algo para o presidente de alguma associação de psiquiatras, diria: siga o conselho do poeta Auden: não tente cavalgar um tigre, pois você pode acabar no estômago dele. E, com a burrice e o atraso, jamais faça acordo.