Edição No. 24 (Outubro de 2006) Ano X

 

150 ANOS DE FREUD*

 

                                                                      Por Nivaldo Cordeiro

 

Pode-se questionar a obra de Freud de muitas formas, a começar pela discutível obtenção de resultados terapêuticos da psicanálise aplicada, pelos métodos de pesquisa que não resistem a um exame poperiano, pelos reducionismo absurdo à questão da sexualidade enquanto gênese do “mal estar da civilização”. Endosso todas essas críticas. Pode-se inclusive alargá-las na abordagem que ele fez do problema das religiões, algo inaceitável sob todos os aspectos, errada.

Ele tem, todavia grandes méritos. Além do notável escritor, Freud contribuiu decisivamente para a ciência da psicologia, trazendo-a para o centro dos debates. Entendo que Freud, o freudismo e as diversas psicologias dele derivadas refletem uma necessidade dos tempos. Freud foi a resposta da razão aos problemas da unilateralidade que o Ego alcançou com a modernidade, especialmente na sua dimensão filosófica. Com o trio Descarte, Kant e Nietzsche o Ego foi elevado ao centro criador da própria realidade, assassinando-se Deus no processo. No âmbito da ciência, as conquistas da astronomia, da física, da matemática e a teoria da evolução pareciam dar a certeza de que a mente era o centro de tudo e que a “hipótese de Deus” era uma relíquia bárbara de povos incultos. Destruiu-se assim a metafísica, todo o saber acumulado por milênios por homens extraordinários foi declarado falso.

O filho do Homem passou a ser o demiurgo solitário a comandar a própria realidade, a literalmente criá-la. O despertar de cada dia passou a ser uma recriação contínua das coisas na cabeça desses homens arrogantes, para quem o Universo era mental. Penso, logo tudo existe foi o reducionismo absurdo contra o qual Freud sublevou-se. Do suposto Universo mental adveio o relativismo moral, a falsificação do direto natural, a contra-cultura da Nova Era, o relativismo do próprio saber. Afinal, o saber científico é, por definição, provisório e destinado a ser superado. E, pior, o projeto de aperfeiçoar a natureza humana pela engenharia social, de triste e macabra memória.

A sua abordagem propondo levar a sério a interpretação dos sonhos, à moda do Antigo Testamento, fez desmoronar as certezas todas. O filho do Homem, por Freud, descobriu que não era senhor de sua própria casa, que havia uma falha essencial ao alcance da observação direta de cada um, que ninguém havia levado em conta entre os modernos: o inconsciente. Mas Freud o postula tentando manter uma abordagem racionalista e cientificista e não notou que lutava precisamente contra essa unilateralidade dos tempos modernos. A palavra inconsciente (ou subconsciente, o que é ainda pior) é, ela mesma, uma forma de depreciar o desconhecido mais conhecido de todas os tempos, o elemento transcendente. Freud “descobriu” que boa parte da nossa vida é passada a dormir e os processos psíquicos continuam nesse estágio da vida, a despeito da morte aparente do Ego, que ressurge ao despertar. Provocou uma revolução epistemológica.

Mas há uma segunda coisa importante na obra de Freud. Ele descobriu que o Ego inflado precisava de terapia, que o filho do Homem estava mentalmente doente e era uma doença de toda a civilização. Também pudera, com a inflação desmedida a equipará-lo a Deus, fez-se necessário que alguém de gênio viesse dizer que havia algo escuro, elementar, irracional sobre o qual se assentava o Ego, de um lado, e, do outro, que havia a necessidade de se buscar um equilíbrio, uma ordem psíquica e que, para tal, o demiurgo orgulhoso deveria fazer uma confissão das suas faltas, deitar-se frágil no divã, entregar a alma – o Ego ele mesmo – a outrem para trazê-la de volta à realidade. Deitar-se no divã equivale a uma genuflexão dos tempos medievos no confessionário. É preciso dizer que Freud foi sensacional nesse intento e nos legou um caminho para a prática da mais difícil das virtudes, a humildade. Desde então as cabeças coroadas, os homens de ciência, as personalidades célebres tiveram um meio de descer de suas falsas alturas e enfrentar a pequeneza própria dos seres criados sem fazer o sacrifício de entrar em um templo religioso.

Mas foi um homem do seu tempo, tentando falar em linguagem científica para os cientistas. Vivia-se a plena ditadura dos laboratórios. A metafísica havia sido suplantada pela física, morreu. Filósofos haviam se rebaixados à condição de epistemólogos dos pesquisadores, especialmente dos físicos. Seu grande mérito não foi maior porque, voltando aos tempos dos profetas com as suas interpretações de sonhos, desconheceu que é sabedoria imemorial que esse é um dos caminhos pelo qual o Criador “conversa” com a criatura. Seu materialismo, seu desprezo ao religioso, seu repúdio ao judaísmo e às religiões em geral mostram a mais viva contradição que um homem de gênio poderia enfrentar. Deve ter sofrido muito, pois o abismo em que viveu deve ter sido insuportável. Ele fez o diagnóstico, apontou a falha essencial, soube retornar nos próprios passos da humanidade em busca do caminho. Mas, infelizmente, ficou prisioneiro dos preconceitos do seu tempo, que ajudou a combater, em paradoxo formidável.

Hoje é um dia especial. Que Deus o tenha.

 

* Publicado originalmente no site do autor (www.nivaldocordeiro.org)