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Editorial
De maracutaia em maracutaia
Por Humberto Campolina
Cueca e dinheiro
o outono da ideologia
do vil companheiro.
(Reinaldo de Azevedo)
O leitor pode estar se perguntando o que artigos de
cunho estritamente político (“De cordeiro a cidadão”, “O
super-último-homem”) estão fazendo em um jornal de
psiquiatria. Respondo que talvez não estivessem neste JMP caso
a psiquiatria mineira fosse comandada por profissionais dedicados à nossa
disciplina sem qualquer outro, digamos, ganho secundário (v. “O
uso político da psiquiatria” nesta edição).
Mas infelizmente não é o que acontece.
O establishment psiquiátrico mineiro é originário
da mesma cepa e feito da mesma substância que compõe o partido
que levantou a bandeira da “ética na política” e
agora, enterrado até o nariz na lama da corrupção, assiste
impotente a máscara cair e despedaçar ao rés da sarjeta.
Só um tolo ou ingênuo não vê nenhuma semelhança
entre essa “bandeira” com as palavras-de-ordem (neo)antipsiquiátricas
que infernizaram (e infernizam) a psiquiatria mineira.
Estaria sendo cômico, se não fosse trágico, ver a tropa-de-choque
de um partido que se proclamou “dos trabalhadores” defender na
CPI dos Correios o rico empresário e lobista Marcos Valério Gonçalves
de Souza, ao mesmo tempo em que tenta fazer picadinho da humilde secretária
desempregada que lá está apenas a contar que viu as nádegas
nuas do rei. Só um tolo ou ingênuo não vê alguma
semelhança com a tropa que, em nome da “ética” e
do “resgate de cidadania dos loucos”, acusou criminalmente um cidadão
pacato pelo simples fato de ele ser diretor de um hospital psiquiátrico.
E somente um tolo ou ingênuo não vê que no final, como sempre
acontece, quem vai pagar a conta (já está pagando) é o
cidadão comum, o mesmo em nome do qual é produzido o discurso “estamos
aqui para libertar-te”, “queiras ou não queiras tu”,
acrescentaria eu .
PS1: Certa vez em uma reunião para avaliar os estragos que a nomenklatura
da saúde mental estava fazendo aos pacientes psiquiátricos (pobres)
com o fechamento indiscriminado de hospitais em nome de uma abstração
(e aberração) já invalidada na prática da saúde
mental dos países mais civilizados (v. “Psiquiatrofobia” também
nesta edição), um psiquiatra ligado à Associação
Mineira da Psiquiatria levantou a questão: “Somos então
os reacionários da ocasião?” Ao que incontinenti respondi: “Reacionários,
me parece, são os que detêm o poder e, para de lá não
apearem, topam qualquer coisa”. Não sei se o colega me entendeu
naquele bate-pronto . Mas certamente há de ter um insigth se, nos dias
de hoje, lembrar do caso ao assistir pela televisão o flagrante do sujeito
tentando embarcar no aeroporto de São Paulo com a cueca cheia... de
dólares.
PS2: A entrevista com um psiquiatra mineiro falando sobre os miúdos,
como diria Rosa, da nossa sofrida e maltratada psiquiatria mineira, que inicialmente
estava programada para sair neste número, fica adiada sine die. É que
o profissional entrevistado está ao alcance do longo braço stalinista
do status quo da saúde mental mineira, e achou mais prudente
abster-se (por enquanto). Em compensação, o leitor vai ter acesso
a uma entrevista do maior poeta brasileiro vivo, Bruno Tolentino, que fala
sobre a miséria da cultura nacional. O que, venhamos e convenhamos,
no fundo trata-se do mesmo mal, ou melhor, este é causa daquele.
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