Edição No. 22 (Agosto de 2005) - Ano IX

 
 

 

Editorial

De maracutaia em maracutaia

Por Humberto Campolina

Cueca e dinheiro
o outono da ideologia
do vil companheiro.
(Reinaldo de Azevedo)

O leitor pode estar se perguntando o que artigos de cunho estritamente político (“De cordeiro a cidadão”, “O super-último-homem”) estão fazendo em um jornal de psiquiatria. Respondo que talvez não estivessem neste JMP caso a psiquiatria mineira fosse comandada por profissionais dedicados à nossa disciplina sem qualquer outro, digamos, ganho secundário (v. “O uso político da psiquiatria” nesta edição). Mas infelizmente não é o que acontece.
O establishment psiquiátrico mineiro é originário da mesma cepa e feito da mesma substância que compõe o partido que levantou a bandeira da “ética na política” e agora, enterrado até o nariz na lama da corrupção, assiste impotente a máscara cair e despedaçar ao rés da sarjeta. Só um tolo ou ingênuo não vê nenhuma semelhança entre essa “bandeira” com as palavras-de-ordem (neo)antipsiquiátricas que infernizaram (e infernizam) a psiquiatria mineira.
Estaria sendo cômico, se não fosse trágico, ver a tropa-de-choque de um partido que se proclamou “dos trabalhadores” defender na CPI dos Correios o rico empresário e lobista Marcos Valério Gonçalves de Souza, ao mesmo tempo em que tenta fazer picadinho da humilde secretária desempregada que lá está apenas a contar que viu as nádegas nuas do rei. Só um tolo ou ingênuo não vê alguma semelhança com a tropa que, em nome da “ética” e do “resgate de cidadania dos loucos”, acusou criminalmente um cidadão pacato pelo simples fato de ele ser diretor de um hospital psiquiátrico.
E somente um tolo ou ingênuo não vê que no final, como sempre acontece, quem vai pagar a conta (já está pagando) é o cidadão comum, o mesmo em nome do qual é produzido o discurso “estamos aqui para libertar-te”, “queiras ou não queiras tu”, acrescentaria eu .
PS1: Certa vez em uma reunião para avaliar os estragos que a nomenklatura da saúde mental estava fazendo aos pacientes psiquiátricos (pobres) com o fechamento indiscriminado de hospitais em nome de uma abstração (e aberração) já invalidada na prática da saúde mental dos países mais civilizados (v. “Psiquiatrofobia” também nesta edição), um psiquiatra ligado à Associação Mineira da Psiquiatria levantou a questão: “Somos então os reacionários da ocasião?” Ao que incontinenti respondi: “Reacionários, me parece, são os que detêm o poder e, para de lá não apearem, topam qualquer coisa”. Não sei se o colega me entendeu naquele bate-pronto . Mas certamente há de ter um insigth se, nos dias de hoje, lembrar do caso ao assistir pela televisão o flagrante do sujeito tentando embarcar no aeroporto de São Paulo com a cueca cheia... de dólares.
PS2: A entrevista com um psiquiatra mineiro falando sobre os miúdos, como diria Rosa, da nossa sofrida e maltratada psiquiatria mineira, que inicialmente estava programada para sair neste número, fica adiada sine die. É que o profissional entrevistado está ao alcance do longo braço stalinista do status quo da saúde mental mineira, e achou mais prudente abster-se (por enquanto). Em compensação, o leitor vai ter acesso a uma entrevista do maior poeta brasileiro vivo, Bruno Tolentino, que fala sobre a miséria da cultura nacional. O que, venhamos e convenhamos, no fundo trata-se do mesmo mal, ou melhor, este é causa daquele.

 

 
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Responsável pela edição:
Humberto Campolina França Junior
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