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Insensatez
por João Luiz Mauad em 02 de maio de 2005
Resumo: Obrigar as companhias farmacêuticas
a operar como organizações beneficentes irá eliminar
todo o incentivo ao desenvolvimento de novas drogas.
Morreu no mês de abril, nos Estados Unidos, o Dr. Maurice Hilleman, sem
que a grande imprensa de Pindorama tivesse gasto com o fato uma só linha.
Hilleman foi um dos maiores cientistas do Século XX. Numa extraordinária
e produtiva carreira, ele e seus assistentes desenvolveram dezenas de vacinas,
dentre as quais destacam-se aquelas contra o sarampo, a caxumba, a catapora
e as hepatites A e B. Estima-se que somente a vacina anti-sarampo tenha salvado
cerca de um milhão de vidas humanas anualmente, desde a sua descoberta
há 40 anos.
Grande parte das realizações deste homem notável sobreveio,
como bem resumiu o Dr. Andrew Bernstein, do Instituto Ayn Rand, enquanto ele
prestou serviços à gigante farmacêutica Merck, que colocou à sua
disposição toda a infra-estrutura necessária - capital,
laboratórios, equipamentos, assistentes de pesquisa, etc. -, sem a qual
aquela admirável carreira talvez não tivesse sido tão
profícua. Esta é uma observação de grande importância,
principalmente para que não nos esqueçamos de que a quase totalidade
dos avanços da farmacologia, como de resto do progresso em geral, é produto
do capitalismo, o único modelo econômico que admite, incentiva
e estimula as realizações, o sucesso e o lucro individual.
Por outro lado, adverte Bernstein, em razão da progressiva socialização
dos sistemas de saúde ao redor do mundo, principalmente nos EUA, os
fabricantes de vacinas têm encontrado severas dificuldades para recuperar
os seus elevadíssimos investimentos. Isto se dá, em grande parte,
por conta das dificuldades e, em certos casos, da impossibilidade, de obtenção
de novas patentes. Porém, é também decorrência da
limitação da demanda, nos diversos mercados, a um só cliente,
o governo. Como resultado, proeminentes empresas do ramo, como a Pfizer, já abandonaram
as atividades voltadas para a medicina preventiva. Caso a Merck decida seguir
o mesmo caminho, o que será das futuras mentes brilhantes como a de
Hilleman?
Mas este não é o único motivo de preocupação.
A crescente hostilidade anti-capitalista contra os laboratórios tornou
também a pesquisa e o desenvolvimento de novos medicamentos contra a
AIDS e outras doenças, de caráter endêmico ou epidêmico,
uma aventura demasiadamente arriscada. Toda a indústria farmacêutica
tem estado sob imensa pressão para baixar os seus preços nos
países sub-desenvolvidos, chegando mesmo, em alguns casos extremos,
como no Brasil, a ter suas patentes "quebradas" (eufemismo tipicamente
tupiniquim para "expropriadas") pelas próprias autoridades
governamentais, num caso típico de "pirataria estatal".
Infelizmente, toda essa volúpia demagógica acaba convertendo-se
numa grande ameaça aos portadores de AIDS, comenta Abner Mason, Diretor
Executivo da AIDS Responsibility Project. Ante os drásticos controles
de preços de venda em mercados importantes, como o Canadá, e
abertas violações aos direitos de propriedade em diversas outras
economias menores, a pergunta que se coloca é: por que a indústria
farmacêutica continuaria investindo somas absurdamente altas na pesquisa
e desenvolvimento de novos medicamentos?
A manutenção do livre mercado, que premia as empresas por seus
descobrimentos, é essencial para o progresso da medicina. Merck e todos
os demais laboratórios não estão obrigados a investir
em novas vacinas ou na cura da AIDS. O farão somente enquanto isto for
uma atividade lucrativa. Ao contrário do que pensa a maioria dos políticos,
burocratas e ativistas em geral, não se pode ter tudo ao mesmo tempo.
Ou bem teremos uma grande variedade de medicamentos novos e efetivos, porém
caros, ou antiquadas drogas a preços baixos. Essas são as únicas
alternativas. Não há uma "terceira via".
De acordo com dados da Secretaria de Comércio para a Propriedade Intelectual
dos Estados Unidos, apenas em 2002 as companhias farmacêuticas investiram
perto de 30 bilhões de dólares em pesquisa e desenvolvimento.
Em média, para cada cinco mil produtos pesquisados, somente cinco alcançam
o estágio de testes clínicos e apenas um desses é aprovado
para uso terapêutico. Como resultado, o custo médio de cada novo
medicamento posto no mercado é de aproximadamente 500 milhões
de dólares. Considerando ainda o tempo que leva para a aprovação
de cada novo produto pelos órgãos competentes, as empresas dispõem
de um período de tempo muito curto para recuperar os custos durante
a vida útil de uma patente. Por causa disso, somente três de cada
dez drogas patenteadas geram suficiente receita para cobrir ou exceder os custos
médios de pesquisa e desenvolvimento.
Em vista dos números acima mencionados, comenta James E. Rogan, diretor
do Escritório de Marcas e Patentes norte-americano, a "quebra" dessas
patentes, ou mesmo a sua suspensão, é como falar aos fabricantes: “obrigado
por gastar bilhões de dólares em pesquisa e desenvolvimento.
Obrigado por manter todos aqueles cientistas trabalhando, anos a fio, a um
custo horário altíssimo. Porém, agora que você possui
algo que irá possibilitar a obtenção de algum lucro, nós
queremos permitir que os seus competidores, que não tiveram que investir
um só centavo, ignorem a sua patente (propriedade) e produzam o medicamento
por uma ínfima fração do seu custo real, porque nós
entendemos que isto é a coisa certa a fazer”.
Obrigar as companhias farmacêuticas a operar como organizações
beneficentes irá eliminar todo o incentivo ao desenvolvimento de novas
drogas. Isso é tão óbvio quanto irrefutável. Se
nós quisermos um mundo em que os bons medicamentos serão coisas
do passado, tudo o que precisamos fazer é impedir que os indivíduos
que investem na criação dessas drogas tenham oportunidade de,
por um período limitado, recuperar os seus custos e obter algum lucro.
Eu, particularmente, acredito que isto seria extremamente insensato.
O autor é empresário e formado em
administração de empresas pela FGV/RJ.
Esse artigo foi publicado no www.olavodecarvalho.org
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