Edição No. 22 (Agosto de 2005) - Ano IX

 
 

 

 

PSIQUIATROFOBIA

Por Humberto Campolina


(“Os grandes lugares-comuns conduzem o mundo.” Tocqueville)


Um olhar atento aos movimentos antimanicomiais (MA) e verifica-se sem muito esforço que eles têm um cunho preferencialmente político e não científico, sendo na maioria das vezes anticientífico mesmo. Isso pode se ver nos conceitos que utilizam: são produzidos menos para a elucidação de determinado dado da realidade – como necessariamente deve ser toda e qualquer conceituação científica – e mais (ou exclusivamente) para impor dogmaticamente uma “realidade”. O filósofo grego Aristóteles, 400 anos antes de Cristo, sabia que premissas falsas geram logicamente conclusões falsas. Aí reside o ponto de partida dos MAs. Produziram premissas, que jamais tiveram comprovação científica, como se fossem verdades auto-evidentes, de onde deveria surgir como conseqüência uma nova ética com o corolário de todo um conjunto de medidas jurídicas, legislativa e técnicas. As duas premissas básicas são:


1) O hospital psiquiátrico é um mal em si mesmo. Ex.: “O hospital enquanto existir sempre terá um caráter asilar, tutelar, cronificante.”(1) (Passos, 2003). (Confesso minha curiosidade em saber qual a extensão da experiência clínica da autora, que lhe produziu certeza tão inabalável...).

2) A psiquiatria é perversa em teoria e prática. Ex.: “Não se trata, portanto apenas de questionarmos radicalmente essa instituição [o hospital psiquiátrico], mas de questionarmos radicalmente a psiquiatria sobre seus conhecimentos, poderes e códigos de comportamento.” (2) (Rotelli, 1991; deste nós sabemos a extensão de experiência... política).

Aqui, então, ficamos sabendo de onde surgiram os neologismos desospitalização e despsiquiatrização (correspondente a psiquiatrização), que funcionam como jargão e palavra de ordem política tão caros aos MAs.
Outro aspecto digno de nota nos MAs são seus ideólogos: a imensa maaioria é formada por profissionais não-psiquiatras. Passos (2003) fez uma pesquisa(3) sobre trabalhos acadêmicos (teses e dissertações). Num total de 39 obras, encontrou apenas 09 oriundos de faculdades de medicina (não necessariamente produzidos por psiquiatras, portanto). O restante foram 16 oriundos de faculdades de enfermagem, 08 de escolas de saúde pública, 04 de faculdades de psicologia, 01 de faculdade de sociologia. Fui aos LILACS (Latin American and Caribbens Health Sciences) e ao Medline com a expressão “reforma psiquiátrica” e encontrei respectivamente 176 e 09 trabalhos. O número de autores psiquiatras que apareceram na sondagem é ínfimo, havendo para minha surpresa uma grande quantidade de enfermeiro, por exemplo, 05 dos 09 no Mediline (mais de 50%!). Muito presentes também psicólogos, assistentes sociais e terapeutas ocupacionais. Não encontrei nenhum trabalho assinado pelos psiquiatras mais eminentes do País (sei que alguns deles escreveram sobre o tema, por ex. Valentim Gentil e Carol Sonenreich (4,5), mas aqui estou me referindo a conteúdos antipsiquiátricos). A conclusão inarredável é que quem estudou a fundo psiquiatria não se interessou pelo assunto MA ou se posicionou contra.
Por último, deve-se ressaltar duas características presentes em praticamente 100% dos MAs: a estatolatria e a estatofilia. Todos os líderes e simpatizantes desse movimento idolatram o Estado, pelo qual sentem uma atração irresistível, e têm desprezo e até repugnância pela iniciativa privada. Acreditam religiosamente que o Estado possa resolver todas as questões de saúde mental da população. E para isso precisam de quê? Verbas, claro. Igual ao delegado de polícia nelson-rodrigueano que brada “Polícia é verba!”, o MA grita “Saúde mental é verba!” Rotelli (1991), por ex., escreve: “Somente hoje, onze anos depois, [...] foram destinados 1 bilhão de dólares para implementar, nos próximos três anos, uma parte dos serviços alternativos ao hospital psiquiátrico...” (2). O psicólogo Vechi (2004) pontifica em trabalho feito sobre Trieste, a cidade do Basaglia: “Apesar de existirem clínicas psiquiátricas particulares, os serviços de saúde mental italianos são, a maior parte, públicos. Há, inclusive, uma reconhecida superioridade na qualidade tecnológica [sic] e de recursos humanos da instituição pública quando comparada à privada”(6) (isso dito sem que o pesquisador tenha feito sequer uma visita a alguma instituição italiana privada...). É comovente a credulidade dos nossos MAs: depois de um século em que todas as iniqüidades políticas e sociais foram cometidas pelo Estado (nazi-fascismo e comunismo são exemplos mais visíveis, mas não os únicos), esse ainda lhes parece merecedor de todo crédito.
O escritor e humorista Millôr Fernandes disse certa vez que as ideologias quando saem de moda na Europa mudam-se para o Brasil. Normalmente 30 anos depois. Esse é o caso do movimento político autodenominado “antimanicomial” que este jornal vem achando mais apropriado chamar de movimento neo-antipsiquiátrico.
O MA brasileiro é bisneto da antipsiquiatria inglesa dos anos 60 do século passado, e filhote do MA italiano da década de 70, dois ativismos políticos que mais contribuíram para a disseminação de condutas antipsiquiátricas na saúde mental da Europa e dos EUA nos anos que se seguiram. Ora, acontece que nesses dois continentes o movimento perdeu fôlego e o anterior tônus radical. Por um motivo bem prosaico: o que parecia libertador e humanitário na teoria, revelou-se, para dizer o mínimo, um fiasco quando foi posto em prática (paises civilizados têm a estranha mania de jogar fora o que não dá certo...). A resultante das práticas antipsiquiatras naquelas paragens foi o que o italiano Rotelli denominou “loucos em ruas” (1991) (2) . Vejam bem: quem está falando não é um satânico psiquiatra, não. É simplesmente o dr. Franco Rotelli, filhotinho dileto do então poderoso Franco Basaglia, o inspirador-mor do MA. Leiam o que ele, Rotelli, escreveu:
“ Infelizmente, nos EUA, por exemplo, a palavra desinstitucionalização transformou numa caricatura disso, ou seja, acabou significando ‘desospitalização’, o fechamento de hospitais, um atirar as pessoas na rua. (...) A situação inglesa, assim como a italiana, demonstrou-nos que essa tentativa fracassou” (2).
Naturalmente Rotelli, à moda esquerdista, depositou a culpa pelo fracasso nos ombros de outros: não seguiram sua cartilha e do mestre Basaglia. Um “desvio”, possivelmente, semelhante ao ocorrido nas Repúblicas Socialistas Soviéticas, na República Popular da China, na República Democrática da Alemanha, República Popular da Coréia do Norte e até na nossa velha conhecida República de Cuba, regimes genocidas (assassinaram nada menos que cem milhões de pessoas)(7) incensados pelo partido a que pertenciam discípulo e mestre.

 

Bibliografia:
(1) Passos, Izabel C. Friche. Desinstitucionalização em psiquiatria: um estudo de caso. J.Bras. Psiquiatria 52 (4) págs. 313-322, 2003
(2) Rotelli, Franco. A lei 180 de reforma psiquiátrica: os problemas de sua aplicação. Divulg. Saúde debate (4) pags. 119-122, 1991
(3) Passos, Izabel C. Friche. Cartografia da publicação brasileira em saúde mental. Psicol. Teor. Pesqui. 19(3) pags. 231-239, 2003
(4) Gentil, Valentim. A USP Vs. Projeto Delgado: Entrevista com o prof. Valentim. Jornal Mineiro de Psiquiatria 12, pags. 3-6, 2000
(5) Sonenreich, Carol. Desospitalização. J. Bras. Psiq. 44 (4) 159-167, 1995
(6) Vechi, Gustavo Luís. Princípios de atendimento de um centro de saúde mental 24 horas em Trieste, Itália: um estudo etnográfico. J. Bras. Psiqui. 53 (6) 383-392, 2004.
(7) Courtois, Stephane. Werth, Nicolas. Panne, Jean-louis. O Livro Negro do Comunismo. Bertrand Brasil: São Paulo. 1999

 

 
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Responsável pela edição:
Humberto Campolina França Junior
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