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PSIQUIATROFOBIA
Por Humberto Campolina
(“Os grandes lugares-comuns conduzem o mundo.” Tocqueville)
Um olhar atento aos movimentos antimanicomiais (MA) e verifica-se sem muito
esforço que eles têm um cunho preferencialmente político
e não científico, sendo na maioria das vezes anticientífico
mesmo. Isso pode se ver nos conceitos que utilizam: são produzidos
menos para a elucidação de determinado dado da realidade – como
necessariamente deve ser toda e qualquer conceituação científica – e
mais (ou exclusivamente) para impor dogmaticamente uma “realidade”.
O filósofo grego Aristóteles, 400 anos antes de Cristo, sabia
que premissas falsas geram logicamente conclusões falsas.
Aí reside o ponto de partida dos MAs. Produziram premissas, que jamais
tiveram comprovação científica, como se fossem verdades
auto-evidentes, de onde deveria surgir como conseqüência uma nova ética
com o corolário de todo um conjunto de medidas jurídicas, legislativa
e técnicas. As duas premissas básicas são:
1) O hospital psiquiátrico é um mal em si mesmo. Ex.: “O
hospital enquanto existir sempre terá um caráter asilar, tutelar,
cronificante.”(1) (Passos, 2003). (Confesso minha curiosidade em
saber qual a extensão da experiência clínica da autora,
que lhe produziu certeza tão inabalável...).
2) A psiquiatria é perversa em teoria e prática.
Ex.: “Não se trata, portanto apenas de questionarmos
radicalmente essa instituição [o hospital psiquiátrico],
mas de questionarmos radicalmente a psiquiatria sobre seus conhecimentos,
poderes e códigos de comportamento.” (2) (Rotelli,
1991; deste nós sabemos a extensão de experiência...
política).
Aqui, então, ficamos sabendo de onde surgiram
os neologismos desospitalização e despsiquiatrização
(correspondente a psiquiatrização), que funcionam como
jargão e palavra de ordem política tão caros aos
MAs.
Outro aspecto digno de nota nos MAs são seus ideólogos: a imensa
maaioria é formada por profissionais não-psiquiatras. Passos
(2003) fez uma pesquisa(3) sobre trabalhos acadêmicos (teses e dissertações).
Num total de 39 obras, encontrou apenas 09 oriundos de faculdades de medicina
(não necessariamente produzidos por psiquiatras, portanto). O restante
foram 16 oriundos de faculdades de enfermagem, 08 de escolas de saúde
pública, 04 de faculdades de psicologia, 01 de faculdade de sociologia.
Fui aos LILACS (Latin American and Caribbens Health Sciences) e ao Medline
com a expressão “reforma psiquiátrica” e encontrei
respectivamente 176 e 09 trabalhos. O número de autores psiquiatras
que apareceram na sondagem é ínfimo, havendo para minha surpresa
uma grande quantidade de enfermeiro, por exemplo, 05 dos 09 no Mediline (mais
de 50%!). Muito presentes também psicólogos, assistentes sociais
e terapeutas ocupacionais. Não encontrei nenhum trabalho assinado pelos
psiquiatras mais eminentes do País (sei que alguns deles escreveram
sobre o tema, por ex. Valentim Gentil e Carol Sonenreich (4,5), mas aqui estou
me referindo a conteúdos antipsiquiátricos). A conclusão
inarredável é que quem estudou a fundo psiquiatria não
se interessou pelo assunto MA ou se posicionou contra.
Por último, deve-se ressaltar duas características presentes
em praticamente 100% dos MAs: a estatolatria e a estatofilia. Todos os líderes
e simpatizantes desse movimento idolatram o Estado, pelo qual sentem uma atração
irresistível, e têm desprezo e até repugnância pela
iniciativa privada. Acreditam religiosamente que o Estado possa resolver todas
as questões de saúde mental da população. E para
isso precisam de quê? Verbas, claro. Igual ao delegado de polícia
nelson-rodrigueano que brada “Polícia é verba!”,
o MA grita “Saúde mental é verba!” Rotelli (1991),
por ex., escreve: “Somente hoje, onze anos depois, [...] foram destinados
1 bilhão de dólares para implementar, nos próximos três
anos, uma parte dos serviços alternativos ao hospital psiquiátrico...” (2).
O psicólogo Vechi (2004) pontifica em trabalho feito sobre Trieste,
a cidade do Basaglia: “Apesar de existirem clínicas psiquiátricas
particulares, os serviços de saúde mental italianos são,
a maior parte, públicos. Há, inclusive, uma reconhecida superioridade
na qualidade tecnológica [sic] e de recursos humanos da instituição
pública quando comparada à privada”(6) (isso dito
sem que o pesquisador tenha feito sequer uma visita a alguma instituição
italiana privada...). É comovente a credulidade dos nossos MAs: depois
de um século em que todas as iniqüidades políticas e sociais
foram cometidas pelo Estado (nazi-fascismo e comunismo são exemplos
mais visíveis, mas não os únicos), esse ainda lhes parece
merecedor de todo crédito.
O escritor e humorista Millôr Fernandes disse certa vez que as ideologias
quando saem de moda na Europa mudam-se para o Brasil. Normalmente 30 anos depois.
Esse é o caso do movimento político autodenominado “antimanicomial” que
este jornal vem achando mais apropriado chamar de movimento neo-antipsiquiátrico.
O MA brasileiro é bisneto da antipsiquiatria inglesa dos anos 60 do
século passado, e filhote do MA italiano da década de 70, dois
ativismos políticos que mais contribuíram para a disseminação
de condutas antipsiquiátricas na saúde mental da Europa e dos
EUA nos anos que se seguiram. Ora, acontece que nesses dois continentes o movimento
perdeu fôlego e o anterior tônus radical. Por um motivo bem prosaico:
o que parecia libertador e humanitário na teoria, revelou-se, para dizer
o mínimo, um fiasco quando foi posto em prática (paises civilizados
têm a estranha mania de jogar fora o que não dá certo...).
A resultante das práticas antipsiquiatras naquelas paragens foi o que
o italiano Rotelli denominou “loucos em ruas” (1991) (2) . Vejam
bem: quem está falando não é um satânico psiquiatra,
não. É simplesmente o dr. Franco Rotelli, filhotinho dileto do
então poderoso Franco Basaglia, o inspirador-mor do MA. Leiam o que
ele, Rotelli, escreveu:
“ Infelizmente, nos EUA, por exemplo, a palavra desinstitucionalização
transformou numa caricatura disso, ou seja, acabou significando ‘desospitalização’,
o fechamento de hospitais, um atirar as pessoas na rua. (...) A situação
inglesa, assim como a italiana, demonstrou-nos que essa tentativa fracassou” (2).
Naturalmente Rotelli, à moda esquerdista, depositou a culpa pelo fracasso
nos ombros de outros: não seguiram sua cartilha e do mestre Basaglia.
Um “desvio”, possivelmente, semelhante ao ocorrido nas Repúblicas
Socialistas Soviéticas, na República Popular da China, na República
Democrática da Alemanha, República Popular da Coréia do
Norte e até na nossa velha conhecida República de Cuba, regimes
genocidas (assassinaram nada menos que cem milhões de pessoas)(7) incensados
pelo partido a que pertenciam discípulo e mestre.
Bibliografia:
(1) Passos, Izabel C. Friche. Desinstitucionalização
em psiquiatria: um estudo de caso. J.Bras. Psiquiatria 52 (4) págs.
313-322, 2003
(2) Rotelli, Franco. A lei 180 de reforma psiquiátrica: os problemas
de sua aplicação. Divulg. Saúde debate (4) pags. 119-122,
1991
(3) Passos, Izabel C. Friche. Cartografia da publicação brasileira
em saúde mental. Psicol. Teor. Pesqui. 19(3) pags. 231-239, 2003
(4) Gentil, Valentim. A USP Vs. Projeto Delgado: Entrevista com o prof. Valentim.
Jornal Mineiro de Psiquiatria 12, pags. 3-6, 2000
(5) Sonenreich, Carol. Desospitalização. J. Bras. Psiq. 44 (4)
159-167, 1995
(6) Vechi, Gustavo Luís. Princípios de atendimento de um centro
de saúde mental 24 horas em Trieste, Itália: um estudo etnográfico.
J. Bras. Psiqui. 53 (6) 383-392, 2004.
(7) Courtois, Stephane. Werth, Nicolas. Panne, Jean-louis. O Livro Negro do
Comunismo. Bertrand Brasil: São Paulo. 1999
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