Edição No. 22 (Agosto de 2005) - Ano IX

 
 

 

 

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DAS MATRIZES ARCAICAS


Um Novo Enfoque Psicanalítico e Psicopatológico


Mário Catão Guimarães

Histórico do Encontro das Matrizes


Estávamos procurando fatores que poderiam ser responsáveis pelo otimismo ou o pessimismo, que no fundo corresponderiam às origens do bom humor ou do mau humor, e chegamos ao seguinte ponto: quando tudo corre muito bem em termos de nutrição, afeto, etc., temos o otimismo, o bom humor; se tudo corre mal em termos de nutrição, afeto, etc., temos o pessimismo e o mau humor (Guimarães, 2004c).

Resolvemos introduzir uma alteração nos acontecimentos como a que segue: Se
ora tudo vai bem e se ora tudo vai mal, de modo alternado, mas no mesmo dia, o que é que iria resultar? A primeira resposta que nos veio foi que o bebê teria dúvidas em relação aos objetos e em relação aos acontecimentos. Percebemos que a tônica era a incerteza. Como o otimismo estava e está relacionado com o amor ou à capacidade de amar e o pessimismo e o mau humor estavam de certo modo ligados à capacidade de odiar, vimos que encontrávamos de posse de três elementos: Amor, Ódio e Dúvida, que haviam surgido em função de nossa hipotética alteração. Esses três elementos nos levaram a pensar que estávamos com as mãos na raiz da neurose obsessiva e, melhor ainda, com a origem oral da neurose obsessiva. O tema está detalhado no artigo III.

Se a neurose obsessiva tem origem oral, sendo ela uma “neurose anal”, procurar a raiz das demais neuroses na fase oral foi a idéia que nos ocorreu (Freud, 1913).


Da Riqueza do Período Oral

A importância do período oral está em Freud, quando considera que a normalidade da vida sexual do adulto é uma conseqüência do que ocorreu durante o período de amamentação (Freud, 1905); quando aborda o tema luto e melancolia e mostra o aspecto regressivo dos quadros depressivos à fase oral canibalística (Freud, l916) e na ocasião em que trata do tema narcisismo (Freud, 1914), levando-se em conta que o narcisismo primário está no período oral, e mostra sua importância na formação de diversos quadros psicopatológicos. A valorização do período oral está em Abranham (l924), quando estuda a formação do caráter no período oral e até usa a expressão tipos arcaicos de formação do caráter; em Spitz (l970), na ocasião em que aborda os aspectos do primeiro ano de vida da criança. Não poderíamos deixar de falar de Katarina Kempler que em suas palestras sempre valorizou de maneira enfática a vivência do arcaico no contexto psicanalítico e em M. Klein (1964,) que valorizou tanto o período oral que acabou por concentrar toda a psicanálise neste espaço de tempo (Baranger, 1971).


A Matriz Arcaica - Conceito

A matriz arcaica contém o gérmen da sintomatologia, ou seja, os elementos que vão gerar ou explicar, de modo lógico e racional, as manifestações sintomatológicas de uma patologia qualquer, desde que sua origem seja de base psicogenética. Ela começa a se formar já desde os primeiros dias do nascimento e sua estrutura definitiva vai depender da soma de fatores que o lactente vai recebendo durante sua evolução e, ali pêlos 8, 9, 10 meses, a matriz de todas as patologias já está completamente formada.

Podemos afirmar que esta logicidade e racionalidade, mencionadas acima, foram possíveis graças ao importante papel de auxílio que estes três elementos, amor, ódio e medo, descendentes de Eros, Tânatos e Hórus, respectivamente, tiveram em conjunto, na estruturação das Matrizes Arcaicas (Guimarães, 2004a).

Existe uma correspondência biunívoca entre os elementos componentes da matriz arcaica e os sintomas da entidade nosológica correlata. A gênese dos sintomas de uma patologia qualquer se encontra na matriz arcaica. Em outra oportunidade, falamos que a matriz arcaica precede a formação dos sintomas.

Fatores Formadores da Matriz Arcaica

No Roteiro Freudiano falamos sobre a formação dos sintomas. O leitor deve ter percebido que sobre o tema não cabe uma conclusão unitária. É como se cada patologia tivesse uma maneira própria de formar seus sintomas. É claro que pode haver e há pontos comuns, mas o que é válido para a histeria não é totalmente válido para a neurose obsessiva.
No caso das matrizes arcaicas a situação é de certo modo semelhante. Existem vários fatores que constituem a matriz e estes fatores podem estar presentes em várias matrizes. Em que pese a existência destes pontos comuns, torna-se possível estabelecer uma estrutura para cada matriz. É como se estivéssemos afirmando que existe uma matriz específica para cada patologia.

Vamos apresentar resumidamente os fatores formadores das matrizes arcaicas: Um dos fatores mais importantes, o instintivo, está presente em todas as matrizes. No artigo III já falamos no aspecto quantitativo e qualitativo. Agora vamos somente dizer que as estruturações dos aspectos afetivos em sete grupos servem para mostrar que as relações afetivas com os objetos são variadas e não estão presas somente ao aspecto amoroso. A não aceitação ou recusa do objeto corre, também, por conta das emoções de medo ou de ódio. O medo provoca a fuga e é o principal fator que impede a progressão, provocando na criança, pontos de fixação.

Fixação - A fixação, que é possível acontecer em períodos diversos, pode ser referida em termos de desenvolvimento da libido ou em termos de relações de objetos, tem papel importantíssimo na estruturação das matrizes arcaicas.
Identificação - A identificação, responsável pela moldagem individual, tem grande importância na formação das matrizes arcaicas. Fenichel diz que o Eu é um conjunto de identificações precoces (Fenichel, 1966).

Relações objetais - As relações objetais, tanto no que diz respeito à evolução normal quanto no que se refere às alterações patológicas, constituem outro fator importante na estruturação das matrizes arcaicas. Determinadas formas de relações de objeto são específicas de certas patologias, mas não estão expressas na estrutura da matriz arcaica, uma vez que já são conseqüências dela.

Como as relações de objeto implicam em evolução, podemos ter fixações, regressões e desvios. Parece-nos que a grande causa da regressão, da fixação e ou da não progressão, é um inadequado relacionamento objetal. O objeto pode ser amado, odiado ou temido, dependendo das circunstâncias afetivas. Em que pese o ódio ter importância, o medo é a emoção que mais perturba uma adequada relação de objeto.

A maioria das patologias sexuais graves, incluída no grupo das psicopatologias da vida sexual, apresenta alterações mais significativas no que se refere às relações objetais, juntamente com as fixações e identificações.


Outros Fatores que Complementam a Formação das Matrizes Arcaicas.


1 - A associação emocional ou instintiva e a relação quantitativa entre os componentes envolvidos nesta associação.

2 - A dúvida primitiva como geradora da impossibilidade de uma determinação afetiva clara, se de ódio ou amor, em relação a um objeto.

3 - A mescla ou amálgama dos instintos ou afetos.

4 - O desenlace, que tanto pode ser feliz ou infeliz, na matriz patológica está sempre dando um tom infeliz, seguido a um período que foi considerado muito bom.

5 - O fator internalização ou exteriorização do componente emocional em função do objeto.
Existem outros fatores que compõem a matriz arcaica, já mencionados anteriormente.


Formação das Matrizes Arcaicas

De posse desses fatores assinalados estamos em condições de estabelecer o que vamos chamar de matriz psicopatológica arcaica. Esta matriz seria feita mediante a associação de elementos principais que iriam configurar a forma embrionária de uma patologia qualquer.

A título de exemplo vamos tomar a neurose obsessiva: A matriz arcaica da neurose obsessiva seria a dúvida primitiva associada ao conjunto emocional predominante, amor e ódio.

Outro exemplo de matriz arcaica que poderíamos fornecer seria a da histeria, cuja matriz é constituída pelo predomínio do amor sobre o medo, no que se refere ao aspecto emocional, associado ainda à fixação libidinosa predominantemente corporal, no período pré-objetal.

No caso das matrizes é de fundamental importância a referência específica e não genérica. Por esta razão, no exemplo que demos na matriz da histeria, fomos bem explícitos: fixação da libido no período pré-objetal, em que o objeto é o próprio corpo já que o Eu é bastante rudimentar; predominância do amor sobre o medo.

Exemplo de formulações genéricas:

A sintomatologia histérica está ligada ao somático. Os sintomas da neurose obsessiva estão ligados ao psíquico e os da fobia ou histeria ansiosa estão associados ao aspecto afetivo.


O Problema da Acidentalidade na Estruturação da Matriz Arcaica.

A maioria dos fatores que já apontamos podem ocorrer ao indivíduo sem que ele tenha participação alguma. Essas ocorrências ou acontecimentos têm caráter puramente acidental e esta acidentalidade é que vai gerar e formar a matriz arcaica.

Os fatores já enumerados podem ser associados, mesmo ao acaso. Pode-se fazer uma seleção a título de teste, tomando três ou quatro desses fatores aleatoriamente e ver que eles estruturam uma matriz conhecida ou desconhecida, porém com possibilidade de ser geradora de uma patologia qualquer.

O problema da eleição da neurose é no fundo um problema acidental. Do mesmo modo que a matriz arcaica é formada de maneira acidental, a neurose, que é formada em cima ou a partir da matriz arcaica, também o é. A matriz arcaica apesar de imprimir um caráter de logicidade às patologias que gera, acaba por se formar a partir de fatores aleatórios.

A criança não tem uma postura ativa frente aos acontecimentos ou fatores geradores da matriz arcaica. Aqui está uma diferença entre nosso modo de ver as coisas e como M Klein as vê. A criança de M. Klein é extremamente atuante.

Acreditamos ter fornecido sucintamente os elementos que atuam no processo de formação das matrizes arcaicas. Vamos apresentar, a seguir, as matrizes das patologias mais estudadas pela psicanálise.

1- Histeria- Predominância do amor (libido) sobre a emoção do medo. Fixação narcisística da libido em sua modalidade corporal difusa, iniciada no período pré-objetal.
2- Fobia- Predomínio do medo sobre o amor e o ódio. Fixação no objeto parcial, situada no período de formação dos objetos.
3- Doença do pânico. Presença do medo instalado no período pré-objetal. Predominância do medo sobre as emoções de amor e ódio.
4- Sadismo. Predomínio absoluto do amor e do ódio sobre o medo e presença da característica de amálgama entre as emoções de amor e ódio.
5- Masoquismo. Predominância do amor e ódio com característica de amálgama e presença da emoção de medo, que lhe confere o caráter de passividade.
6- Neurose Obsessiva. Dúvida primitiva associada ao conjunto emocional predominante, amor e ódio, sem característica de amálgama. Presença da emoção de medo. Uso abusivo do pensamento mágico.
7- Esquizoidia. Fixação libidinosa narcisística, instalada no período pré-objetal. Predomínio das emoções de ódio e medo sobre o amor. Presença de certo grau de dissociação do EU.
8- Doenças Psicossomáticas. Amor e ódio fixados no próprio corpo, no período pré-objetal, sem características de amálgama. Predominância do amor sobre o ódio e o medo.
9- Normal. Predomínio do amor sobre as emoções de ódio e medo. Ausência de fixações no período arcaico. Adequada ligação amorosa com o objeto total.
10- Homossexualismo. Inversão no que se refere à escolha do objeto. A identificação sexual se faz com o sexo oposto ao do objeto escolhido. Possibilidade de mesclagem de qualquer outra matriz arcaica na matriz do homossexualismo. Fixação da libido em zonas erógenas variadas.
11- Esquizofrenia. Fixação narcisística da libido instalada no período pré-objetal. Presença de dissociação do EU em grau intenso. Ódio e medo predominando sobre o amor. Inadequado relacionamento com o objeto total.
12- Depressão. Predominância do amor e ódio sobre a emoção de medo. Adequada ou satisfatória evolução emocional no período da formação das relações de objeto, seguido de ocorrência de desenlace infeliz - perda do objeto.
13- Mania. Predomínio do amor e ódio sobre a emoção de medo. Ótima evolução emocional no período pré-objetal. Adequada evolução emocional, no período da formação das relações de objeto, seguida de desenlace infeliz.
14- Hipomania. Predomínio do amor sobre o ódio e medo. Ótima evolução emocional verificada no período pré-objetal e seguida de adequada evolução emocional, no período da formação das relações objetais, sem ocorrência de desenlace infeliz.
15- Psicose Maníaco Depressiva. A mescla da matriz arcaica da mania com a da depressão configura a matriz arcaica da PMD.
16- Mesmo que o leitor não aceite as psicoses depressivas e maníaco depressivas como de origem psicogenética, não pode negar que a matriz arcaica das mesmas lhe conferem o formato das patologias.
17- A mescla de matrizes. É comum que um paciente apresente um quadro misto, sendo até raro a existência de um quadro clínico puro ou chamado “figura de livro”, na gíria médica. Nestes casos é possível ou necessário fazer o levantamento das matrizes de cada patologia que apresenta o paciente em questão. Falamos acima na possibilidade de mesclagem de qualquer outra matriz arcaica com a matriz do homossexualismo que, além de ser um acontecimento freqüente, é percebido de modo fácil.
18- Dado um quadro clínico qualquer ou um dos inúmeros que não foram apresentados aqui, é possível fazer a matriz arcaica deste quadro clínico.
19- As inúmeras perversões sexuais têm alguns pontos comuns em termos de matrizes. Apresentam em geral uma fixação libidinosa instalada no período arcaico e alteração no que se refere às relações de objeto neste mesmo período. A mescla com outras patologias é também um acontecimento freqüente. Quando tratarmos do tema perversão seremos mais explícitos.

Discussão
Parte da discussão versará sobre a diferença entre as matrizes arcaicas, outra parte abordará o papel interativo das emoções e a importância do fator quantitativo dessas emoções na formação das matrizes arcaicas e, para finalizar, será abordado as relações de objetos e o fator orgânico atuando em alguns quadros clínicos importantes.

A - Diferenças entre as Matrizes Arcaicas

Como se trata de um tema que pode gerar alguma dúvida, acreditamos ser útil estabelecer diferenças entre as matrizes arcaicas de algumas patologias que apresentam maior semelhança em sua composição.

1 - Diferença entre matrizes de uma pessoa normal e um masoquista.
Ambos têm presentes as três emoções, amor, medo e ódio. A diferença fundamental é que o normal tem predominância do amor sobre o ódio e o medo. No masoquista ainda temos o amálgama da emoção de ódio com a emoção de amor (libido).

2 - Diferença entre a Neurose Obsessiva e o Sadismo.
Nas duas patologias temos a predominância do amor e ódio, mas na neurose obsessiva existe a dúvida primitiva e no sadismo temos o amálgama do amor e do ódio, deixando a diferença entre as matrizes arcaicas de uma e outra patologia bastante nítida.

3 - Diferença entre a Matriz Arcaica da Neurose Obsessiva com a da "PMD". Em ambas patologias temos a predominância do amor e do ódio. Na neurose obsessiva existe a dúvida primitiva que estabelece a diferença. Cabe-nos ainda acrescentar que na "PMD" existe o problema do desenlace infeliz, tornando mais clara a diferença.

4 - A diferença entre a fobia e a histeria se estabelece com base no fator predominância. Na histeria há clara predominância do amor sobre o medo ao passo que na fobia há nítida predominância do medo sobre o amor. Insistir em que na histeria há fixação da libido no período pré-objetal ou fixação narcisística da libido, pode fortalecer a diferença entre as patologias em pauta.

5 - Diferença entre doenças psicossomáticas e fobias.
Na doença psicossomática temos o amor e ódio como emoções predominantes. O amor se encontra relativamente fixado no período pré-objetal e somos levados a admitir que o ódio, também. A diferença com a fobia em termos instintivos pode ser feita somente pela presença do medo aumentado, uma característica da neurose fóbica.

6 - Diferença entre a Matriz Arcaica de uma pessoa normal e de um esquizóide.
No indivíduo normal estão presentes as três emoções, amor, ódio e medo, mas com nítida predominância do amor, além deste ser dirigido para o objeto externo completo. Na esquizoidia há predominância do ódio e medo sobre o amor (libido) e este último está parcialmente ou totalmente dirigido ao Eu e apresenta relativa fixação no período pré-objetal.

7 - Diferença entre as Matrizes Arcaica do Sadismo e da PMD.
Ambas as patologias apresentam predominância do amor e do ódio, mas no sadismo há a existência do amálgama entre as emoções e, para ampliar a diferença, na PMD existe o desenlace afetivo infeliz na sua configuração.

8-Diferença entre a Matriz Arcaica do Masoquismo e da Doença Psicossomática.
As duas patologias podem ser totalmente semelhantes em termos emocionais, pois a emoção de medo pode estar presente também na doença psicossomática. O que estabelece a diferença entre as Matrizes do masoquismo e da doença psicossomática é o seguinte: No masoquismo temos a presença obrigatória da emoção de medo e que é responsável pelo seu aspecto passivo. Além disto existe o caráter de amálgama entre o amor e o ódio. Na doença psicossomática houve a fixação da libido e da agressividade no período pré-objetal, mas sem o caráter de amálgama. A emoção de medo pode estar presente.


9- Diferença entre doença psicossomática e esquizoidia.
Na doença psicossomática há predomínio do amor e ódio, com fixação de ambas emoções no período pré-objetal. Na esquizoidia há predomínio do ódio e medo sobre o amor (libido) e este último está parcialmente ou totalmente dirigido ao Eu.

A Matriz Arcaica da esquizoidia é muito semelhante à matriz da esquizofrenia. Difere somente pelo grau de dissociação do Eu. Os valores no plano puramente emocional devem variar, porém é difícil expressar este tipo de quantificação.
Difícil é decidir o que é que leva a um caminho ou a outro. Mas, como já falamos, a matriz é estruturada de modo aleatório.

Com base no que foi dito acima caberia a seguinte pergunta: Se existe a matriz arcaica da mania, conforme a fornecida anteriormente, como seria a matriz da hipomania? Como o leitor pode concluir, as matrizes arcaicas das duas patologias são praticamente iguais e o que varia nelas é o fator quantitativo. Dentro do mesmo tema, isto é, a importância do fator quantitativo, tivemos a oportunidade de mostrar que a diferença entre o sadismo socialmente tolerável e o serial killer é o predomínio absoluto do ódio sobre o amor, neste último.


10 –Diferença entre a Matriz Arcaica do Homossexualismo com Aspectos Genéticos Diferentes.
Na matriz arcaica do homossexualismo não temos condições de estabelecer diferenças entre a escolha de objeto no período fetal, em que atuaria o componente hormonal - e neste caso o fator biológico teria decidido sobre a escolha do objeto - ou se esta escolha se fez após o nascimento e aqui o fator psicológico é que teria decidido sobre a escolha do objeto. De qualquer modo não há modificação na matriz que fornecemos para o homossexualismo.

Aparentemente este assunto está sendo tratado de maneira muito simplificada. Cabe-nos acrescentar que a matriz arcaica da homossexualidade pode ser acrescida de qualquer das matrizes arcaicas já apresentadas e referentes a outras patologias. Quero dizer com isto que uma pessoa homossexual pode ser histérica, obsessiva, esquizóide, masoquista, etc., ou simplesmente não apresentar nenhuma outra alteração da personalidade que não a homossexual.

Parece-nos que apresentamos os grupos mais semelhantes ou passíveis de estabelecer alguma dúvida sobre suas matrizes arcaicas. Os demais grupos que poderiam ser formados são muito diferentes em termos de matrizes e não precisam ser citados.

B - O Papel Interativo das Emoções na Formação das Matrizes Arcaicas.

Quando apontamos que em uma patologia predomina o ódio e o amor poderia surgir a seguinte pergunta: E qual é a situação do medo? Tudo vai depender é da importância desta emoção no contexto da patologia em foco. Na PMD falamos em amor e ódio, mas não tocamos na emoção de medo. Ele é de pequena importância no contexto da PMD. Já no sadismo falamos em predomínio de amor e ódio e às vezes explicitamos a ausência do medo. A ausência do medo no sadismo é importante e sua presença no masoquismo é fundamental, pois é o medo que confere ao masoquismo a passividade inerente a esta patologia.

Usamos o termos medo ao invés de angústia pela seguinte razão: considerando a
definição de angústia como a emoção que se sente frente a um perigo, está claro que há necessidade da criança possuir certo juízo crítico da realidade para ficar adequado o uso do termo angústia. Como nosso garoto está em torno de zero a cinco ou seis meses, o termo medo nos parece mais adequado.

C - A Importância do Fator Quantitativo


Para se ter idéia da importância do predomínio de uma emoção sobre a outra basta lembrar que às vezes é o fator quantitativo que decide a estruturação da matriz arcaica. Vamos ver a histeria como exemplo:
Predomínio do amor e presença importante do medo. O medo do objeto vai manter o bebê com a libido fixada no período primário (no caso, narcisismo primário). Exemplo com a fobia. O raciocínio é o mesmo. Como na fobia predomina o medo sobre o amor, há razões de sobra para o desenvolvimento de uma fobia e não de uma histeria. Por outro lado, a possibilidade de desenvolvimento da doença do pânico depende da inteira predominância do medo sobre o amor e ódio, no período pré-objetal.


Vamos discutir a importância que tem a emoção de medo como fator de fixação. Na oportunidade consideraremos o período de sua atuação e sua intensidade.
O medo frente ao objeto funciona como um importante obstáculo à progressão, tornando-se um gerador de fixações.

Na hipótese de o medo ter se fixado no período que vai de zero a 2,5 meses, isto é, no período pré-objetal, e com intensidade suficiente, o caso poderia evoluir para um quadro de doença do pânico.

O medo, instalado ou surgido com intensidade aumentada, ali pelos 2,5 a três meses, vai provocar fixação no período pre-objetal das emoções restantes, ou seja, amor e ódio, com suas respectivas associações. Se as duas emoções estiverem juntas e com a característica de amálgama, teremos a matriz arcaica do masoquismo erógeno.Se, ao contrário, as duas emoções estiverem separadas, teremos duas situações diferentes. Se o ódio ficar fixado, e com predominância do mesmo sobre as demais emoções, teremos uma variedade da matriz da doença psicossomática e que é uma situação equivalente à permanência do masoquismo primário. É bom lembrar que a simples permanência do masoquismo primário (ódio fixado no período pré-objetal) não configura o masoquismo erógeno, porque este depende do amálgama entre o amor e o ódio. Continuando o tema, se for a emoção de amor que permanecer fixada e com predominância dela sobre as demais, fica configurada a matriz histérica.

Neste momento, caberia a seguinte pergunta: Porque na histeria só a libido fica fixada e o ódio não? A resposta inicial é que na histeria há clara predominância da libido (amor) sobre o ódio e o medo. A segunda resposta é que, não havendo a característica de amálgama, o ódio não precisa obrigatoriamente ficar fixado no período pré-objetal. Ele pode ter livre curso e se dirigir aos objetos externos. Tudo vai depender é da intensidade do medo.

A título de mera especulação, poderíamos considerar uma nova situação: O medo também poderia ficar fixado no período pré-objetal, juntamente com as demais emoções?

Que patologia seria resultante da fixação do amor, medo e ódio no período pré-objetal?

Sem considerar outros fatores, a resposta não seria única.

a) Pode vir a constituir a matriz da doença do pânico.
b) Pode ser a matriz do masoquismo, se houver amálgama entre o amor e o ódio.
c) Estabelecimento de uma Matriz Esquizóide com notável componente hipocondríaco.
d) Pode haver uma regressão ao período do pré-nascimento.

e) Não sei se um indivíduo nesta situação poderia continuar vivo. Ele não tem
caminho para regredir, a menos que o leitor sugira que ele poderá fazer uma regressão ao período fetal, conforme apontamos na letra d). Seria esta a matriz das psicoses esquizofrênicas? Não sabemos, meu caro leitor.

Novamente nos deparamos com os aspectos orgânicos versus aspectos psicogenéticos nas neuroses e psicoses. Acreditamos que o problema das psicoses está ligado à bioquímica em seus aspectos mais sutis, mas nesta área o homem apenas começou a engatinhar, apesar de manifestações pretensiosas sobre o tema emitidas por pessoas que acreditam dominar a matéria.

O problema das psicoses pode estar ligado à bioquímica, mas deve estar ligado também à ocorrência do Eu estar mal estruturado, ou sem estrutura, como se poderia esperar de um Eu no período pré-natal.

Cabe-nos ainda discutir o fato de estarmos considerando as depressões melancólicas e as manias como doenças de origem psicogenética, sem levar em conta que elas podem ser consideradas também como doenças de base orgânica, hereditária.


Em todas as matrizes tem que se colocar as relações de objeto ou só quando necessário?

Nós vemos o tema assim: Determinados quadros necessitam que explicitemos a alteração ou a situação da relação objetal, enquanto que outros não, pois, nestes últimos, a própria estrutura da matriz já aponta como é a relação de objeto ou como esta será.

Ainda dentro do tema relações objetais, falamos que a presença da emoção de medo com intensidade significativa é um fator de perturbação da relação objetal madura ou completa, gerando sempre uma fixação no objeto parcial. Sendo assim, patologias tais como a fobia e esquizoidia apresentam, invariavelmente, fixação no objeto parcial.

Na onda do organicismo, determinados psicanalistas argumentam que quando as manifestações neuróticas fogem aos aspectos sócio culturais é porque elas são de natureza orgânica (Portela, l997). Os fatores que apontamos aqui como responsáveis pela formação das matrizes arcaicas, são fatores que podem acontecer a um bebê, seja ele residente no México, Japão ou Brasil. É claro que se pode argumentar que a mãe é a representante do meio sócio-cultural. Concordamos, mas argumentaremos que, em sua maioria, certos comportamentos ou determinados fenômenos fogem ou não estão ao alcance dos fatores sociais, porque aconteceram em um período muito arcaico e eles independem, até certo ponto, dos aspectos considerados propriamente sociais ou sócio-culturais.

Comentários Finais

Nossa intenção inicial era percorrer com o pânico primário, narcisismo primário e o masoquismo primário pelas diversas fases do desenvolvimento individual ou, como queira o leitor, pelas fases do desenvolvimento da libido, de modo conjunto e não isoladamente como é o usual.

Cada emoção apresenta manifestações diferentes em cada fase do desenvolvimento da sexualidade. Assim é que o masoquismo primário e a angústia também passam por todas as fases do desenvolvimento da libido (Freud, 1924).

Vamos lembrar ao leitor que estamos tentando incluir o ódio (masoquismo primário) e o medo (pânico primário) em pé de igualdade, até certo ponto, com o amor ou libido (narcisismo primário).

No artigo II apontamos a dificuldade para tal tarefa (Guimarães, 2004b). Acontece que, felizmente, através da matriz arcaica fica muito mais fácil percorrer o caminho pelas referidas fases.

A criança, ali pêlos 8, 9, 10 meses, vai percorrer com a matriz arcaica as diversas etapas do desenvolvimento e esta matriz será modificada para melhor ou para pior em termos de futura saúde mental. Nos 2, 3, 4 anos seguintes, a criança ainda é muito sensível aos acontecimentos que lhe cercam e adquire importantes acréscimos, que diferem dos primeiros meses de nascimento, para interagir com o ambiente, por exemplo, a linguagem e a capacidade de locomoção.

O indivíduo com sua matriz arcaica já inscrita vai viver, de acordo com a estrutura de sua matriz, parte da fase oral, a fase anal e a fase fálica. Viverá ou reviverá o problema edipal e fará a consolidação do superego. Em síntese, ele vai viver de acordo com a estrutura de sua matriz qualquer acontecimento de sua vida.

Conclusões


1. A Matriz Arcaica permite percorrer com facilidade as diversas fases do desenvolvimento individual, tomando em conjunto as três emoções principais: amor, ódio e medo.

2. A Matriz Arcaica permite o estudo íntimo da formação dos sintomas de cada patologia.

3. São vistos com mais clareza como se formaram, a partir da Matriz Arcaica, os diversos quadros psicopatológicos.

4. A Matriz Arcaica permite perceber, de modo evidente, a logicidade na geração das diversas patologias.

5. A interpretação na situação terapêutica, com base na Matriz Arcaica, pode ter implicações vantajosas no que se refere à melhora do paciente.

6. A constatação de uma origem específica para cada quadro nosológico foi conseguida graças à Matriz Arcaica.

Referências Bibliográficas


1 ABRAHAM, K. La influencia del erotismo oral sobre la formación del caráter (l924).In: Abraham K. Psicoanálisis Clínico. Buenos Aires: Ediciones Hormé, l959. p. 301-18.

2 BARANGER, W. Posición y Objeto en la Obra de Melanie Klein. Buenos Aires: Ediciones Kargieman, 1971.406 p.

3 FENICHEL, O. Teoria Psicoanalítica de las Neurosis, 3. ed. Buenos Aires: Paidós, l966. 814 p.

4 FREUD, S. La Metamorfosis de la Puberdad (1905). In: Freud, S. Obras Completas. Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, 1948. Vol.I, p. 815-32.

5 FREUD, S. La Disposicion a la Neurosis Obsesiva (1913). In: Freud, S. Obras Completas. Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, l948. Vol. I, p. 1001-05.

6 FREUD, S. Introducion al Narcisismo (1914). In: Freud, S. Obras Completas. Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, 1948. Vol I, p. 1097-170.

7 FREUD, S. La Aflicción y la Melancolia (1916). In: Freud, S. Obras Completas. Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, 1948. Vol. I, p. 1087-95.

8 FREUD, S. El Problema Econômico Del Masoquismo (1924). In: Freud. S. Obras Completas. Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, l948, Vol I, p.1036-41.

9 GUIMARÃES, M. C. Doença do Pânico e sua Vertente Psicogenética. Jornal Mineiro de Psiquiatria. Belo Horizonte, 2004a, Ano VI, n.l8. Disponível em <www. jmpsiquiatria.com.br> Acesso em: l3 maio 2005.

10 GUIMARÃES, M. C. O Narcisismo Primário, O Masoquismo Primário e o Pânico Primário no Contexto Psicopatológico. Jornal Mineiro de Psiquiatria. Belo Horizonte, 2004b, Ano VI, n.19. Disponível em www.jmpsiquiatria.com.br. Acesso em l3 maio 2005.

11 GUIMARÃES. M. C. A Importância dos Fatores Quantitativos na Estrutura da Matriz Arcaica. Jornal Mineiro de Psiquiatria. Belo Horizonte, 2004c, Ano I, n. 20. Disponível em www.jmpsiquiatria.com.br. Acesso em: 13 Maio 2005.

12 KLEIN, M. El Psicoanálisis de Niños. Buenos Aires: Ediciones Hormê, 1964, 311 p.


13 PORTELA, J.M. Jarbas Portela Fala ao JMP. Jornal Mineiro de Psiquiatria, Belo Horizonte, l997, Outubro, Ano I, n.l , p.16-9,14c.

14 SPITZ, R. A. El Primer Año de Vida Del Niño: Gênesis de las Primeras Relaciones Objetales. Madrid: Aguilar, l970. 132 p.


 
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