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Entrevista: um
retrospecto de sete anos
de existência do JMP
O
primeiro número do Jornal Mineiro
de Psiquiatria saiu em outubro de
1997, e o entrevistado foi o psicanalista
Jarbas Portela. Desde então
mais 18 psiquiatras foram entrevistados
(a discordância dos números
deve-se ao número especial
dedicado à eleição
para a AMP, em que houve uma entrevista
coletiva, e o último número
cuja entrevistada foi D. Edna de Souza
presidente da Associação
dos Amigos dos Portadores de Transtornos
Mentais). Recentemente, relendo as
entrevistas, fiquei admirado (e orgulhoso
como editor do jornal) ao notar, desde
a primeira entrevista, como continuam
valendo. Não perderam em nada
a atualidade. Cobrem todos os assuntos
relevantes da psiquiatria atual (a
mineira em particular), de seus fundamentos
teóricos à prática
clínica, de suas concepções
políticas aos seus postulados
científicos edificantes, de
suas desviantes perversas às
suas correções críticas.
Tudo feito fora do campo pessoal,
longe das fulanizações
mesquinhas, atendo-se tão-somente
ao campo das idéias. Representantes
de todas as correntes foram ouvidos:
os clínicos, os fenomenologistas,
o biológico, os psicanalistas.
Apenas uma ausência: a neo-antipsiquiatria.
Essa não compareceu porque
não quis, pois foi chamada.
Presumo que a falta é resultado
menos da carência de argumentos
do que da índole totalitária
que o movimento possui. O totalitarismo
fecha-se em si mesmos, a começar
pela língua: usa uma linguagem
amaneirada e hermética (lembram-se
da “novilíngua” do Big Brother?)
com a qual constrói a “realidade”,
e assim permanece acomodado na caverna
platônica, suspicaz de qualquer
luz proveniente de fora. Extra Ecclesiam,
nulla salus, fora da igreja não
há salvação,
diriam com S. Cipriano.
Leiam
a seguir trechos das principais entrevistas.
JMP:
Como você vê a psiquiatria
hoje em Minas?
Jarbas
Portela: Em Minas Gerais
estão confundindo psiquiatria
com psicanálise. E só
com a psicanálise, porque não
é com a psicologia cognitiva
que hoje tem uma importância
muito grande no mundo inteiro. Eu,
como psicanalista, valorizo a psicanálise,
evidentemente, mas pelo fato de ser
psicanalista não sou obrigado
a achar que o mundo se resume no quintal
da minha casa. O mundo é muito
grande. Há uma confusão
que não serve nem a uma, nem
à outra disciplina, porque
são duas coisas diferentes,
que devem dialogar, colaborar, contribuir
uma com a outra, respeitar, mas nenhuma
tem de se ajoelhar diante da outra.
(...) Há uma banalização
ao se fazer psicanálise em
Minas, uma panacéia.
JMP:
Qual será o futuro da psiquiatria?
Jarbas
Portela: Primeiro deve-se
saber que o tempo das grandes teorias
acabou. Acabaram os grandes autores.
O último, a meu ver, foi Henri
Ey. A psiquiatria não tem teoria
própria. Vive das neurociências
e da psicologia, seja esta qual for.
Kuhn disse que as ciências têm
um tempo de estabilidade outro de
tormento. As psicologias, há
muitos anos, estão num movimento
estável. Acrescentam uma coisa
ou outra. Hoje há uma situação
de tormenta nas neurociências.
Não há o que negar.
O cérebro é um continente
negro. Aí é que está;
é de onde nós devemos
esperar mais. Aquelas pessoas que
são mais acomodadas ou menos
atormentadas podem até ficar
satisfeitas com o que as psicologias
dão. Mas aquelas mais atormentadas
olham para o futuro, não podem
deixar de perceber de onde vão
sair as coisas nestes próximos
50 anos: serão das neurociências.
São os estudos do lobo pré-frontal,
do circuito límbico, é
por aí. Eu acredito que a psiquiatria
vai ser cada vez mais caudatária
das neurociências. As neurociências
são ciências de ponta.
Quando eu falo em neurociência
quero deixar bem claro, todos vocês
sabem, mas eu já notei em conversa
mais informal, que às vezes
que neurociência é mesmo
que neurologia. Não é.
Neurociência está interessada
em como se produz o pensamento, qual
a relação do pensamento
com as emoções, e do
pensamento e das emoções
com as decisões. Com os comportamentos,
lingüísticos ou não.
Como isso se passa. Aquilo que Freud
chamava de Id. O que acontece com
alguma coisa que é informação
bioquímica, bio-elétrica,
se transforma numa ação
comunicacional lingüística.
Como é essa tradução?
O que acontece nesses níveis?
É isso que interessa à
neurociência. Não tem
nada a ver com neurofisiologia ou
neurologia.
JMP:
Fazendo um exercício
fantástico de futurologia,
pelo que você conhece da trajetória
de Freud, o que ele poderia estar
pensando hoje? Complementando
a pergunta, você acha que a
Neurociência vai colocar a Psicanálise
no museu, como o próprio Freud
parece que pensava?
Jarbas
Portela: Eu não
acredito nisso. Mesmo que desapareça
a Psicanálise daqui a 50 anos,
vai ficar o espírito daquilo
que Freud disse. O espírito,
pelo menos. Eu acho que está
havendo uma confluência de uma
certa leitura de Freud e os achados
das neurociências. Existe
uma inspiração de Freud
de que “o homem não é
senhor de sua própria casa”.
Ele foi um mestre da desconfiança.
Quais foram os mestres da desconfiança?
Marx, que disse que o homem não
era o dono de sua própria história;
Nietzsche, que o homem, na sua virtude
estava apenas fazendo uma reversão
de suas tendências negativas
e destrutivas, e Freud que nos diz
que nossa história individual
é apenas efeito de sentido
de um território, estrangeiro
incrustado na psique.
Se
Freud vivesse hoje, acho que ele não
rejeitaria a frase seguinte: “O DNA
é o inconsciente do ser vivo
e o inconsciente é o DNA da
mente”. Essas duas coisas são
absolutamente homólogas, o
inconsciente está para a mente,
assim como o DNA está para
a vida. Assim como o inconsciente
movimenta as representações
pré-conscientes, o DNA movimenta,
produz as proteínas.
JMP:
Viotti, eu queria perguntar o seguinte:
a gente sabe que a residência
de psiquiatria, em Minas, iniciou
em 68 no Galba, posteriormente em
70 no Raul Soares, 74 no Santa Clara
e na Universidade somente em 86. A
que você atribui esse silêncio
em relação à
residência durante todos esses
anos, na Universidade?
Maurício
Viotti: Durante 10 anos?
Mais, quase 20 anos! Para mim tem
primeiro uma causa, uma razão
simplérríma. É
uma dos raros departamento de psiquiatria
de uma grande Universidade que não
tem enfermaria, que não tem
um hospital psiquiátrico, como
a USP tem seu departamento no Hospital
das Clínicas de São
Paulo. Isso aí eu acho que
é uma das razões da
classe científica psiquiátrica
de Minas estar atrás da Bahia,
do Rio Grande do Norte, até
do Ceará, onde publicam mais
do que a gente, sem falar em São
Paulo, Rio, Rio Grande do Sul. É
que nós não temos acoplado
ao departamento de psiquiatria da
Faculdade de Medicina um hospital,
um instituto onde a prática
possa ser combinada com a teoria e
daí surgirem grandes trabalhos,
revistas e os mestres. Quem sabe,
no futuro, não haja um andar
no Hospital das Clínicas. Então,
pra mim, essa é a primeira
causa, básica, elementar de
a gente ter um atraso científico,
não clínico, nós
temos excelentes clínicos,
todo mundo sabe disto. Cientista,
gente que publica, é raridade,
exceção, um ou dois
por aí, estamos muito mal por
causa disso: falta um Instituto de
Psiquiatria na Universidade.
JMP:
Fale sobre o ensino de psiquiatria
na Alemanha.
Viotti:
Bem, vamos começar pelo início:
no primário. O cara entra
no primário, são três,
quatro anos de estudos, ele já
vai concorrer com os coleguinhas para
ver quem tira as melhores notas. Os
que tirarem as melhores notas vão
para as melhores instituições
de ensino, e os outros de notas mais
baixas, para as piores. Na infância
é onde começa a competição,
que é acirrada pelo resto da
vida do alemão. Os que
tiraram as maiores notas dos que tiraram
as maiores notas optam pelos cursos
que eles querem fazer. Quando chega
a idade universitária, a maioria
opta por medicina que é o curso
mais valorizado. E na medicina os
melhores dos melhores optam por Heidelberg
ou Munique que são as melhores
faculdades de medicina. Então,
lá aonde eu fui formado, se
for pensar bem, é uma concentração
de geninhos, pelo menos em termos
de notas. São aqueles mais
competitivos, que estudam dia e noite.
É um ambiente louco, que mal
um cumprimenta o outro, ninguém
toma um chope igual eu estou tomando
aqui. Na psiquiatria o cara tem de
fazer no mínimo quatro anos,
tempo em que roda em torno de dez
serviços, de enfermaria geral,
ambulatório, enfermaria de
psicogeriatria, enfermaria de crônicos,
de reabilitação, tudo
muito interessante. Pelo menos seis
meses em cada serviço. E o
curso varia; para receber o diploma,
em torno de quatro a seis anos; para
virar psiquiatra, no mínimo
quatro. Agora, para ele se manter,
uma vez ter entrado lá, que
é dificílimo, geralmente
já têm que ter doutorado,
concluído ou quase concluindo,
e as melhores notas das melhores notas.
O contrato é renovado a cada
um ano, e o diretor tem plena autonomia
de mandar todo mundo embora, na hora
em que ele quiser. Se o cara
não produziu, não publicou
e não investigou nada, não
cresceu, não rendeu, não
renova. Tem uma fila de quarenta neguinhos
querendo entrar. A clínica
não é valorizada do
modo como a gente faz aqui no Brasil.
O alemão é bem organizado.
Ë tão organizado que eles
têm que quebrar a organização
deles com a organização.
Então eles estabeleceram que
dez por cento dos alunos de medicina,
entram ao ocaso, isto é uma
coisa mais recente. Noventa por cento
dos que têm as melhores notas,
mas dez por cento eles selecionam
daqueles que têm as piores notas,
qualquer um. Para quebra a rigidez. Na
anamnese, para você ter uma
idéia, eles não escrevem;
tudo é ditado numa fitinha,
todo mundo tem seu aparelhinho. Sujeito
pergunta e dita numa fitinha, igual
esta daqui, e tem secretárias
lá, que batem páginas
por minutos, numa agilidade que você
não acredita e cada paciente
que entra lá em Heidelberg,
sai com um livro. Um livro dele, cheio
de minúcias, tem tudo, desde
o primeiro ano da vida dele, até
o dia em que ele saiu de lá,
diagnóstico CID-10, DSM-IV,
carta de encaminhamento, cada um sai
com um livro, é uma coisa impressionante
o rendimento deles.
JMP:
Qual é a maior influência
psiquiátrica em Heidelberg
hoje?
Viotti:
Se você pensar bem,
lá passaram Kraepelin, Jaspers,
Kurt Schneider. Eu poderia dizer que
na história geral da psiquiatria,
Heidelberg são cinqüenta
por cento. Hoje há uma disputa
lá, os que defendem mais a
tradição alemã,
fenomenológica, o subjetivo,
não no sentido psicanalítico,
mas no sentido jaspersiano de compreender. E
a linha empírica, de influência
americana, DSM, essas coisas. Atualmente
o diagnóstico é da DSM
mesmo, CID, lá quem quiser
fazer carreira tem de fazer um estudo
empírico, quem quiser doutorado
tem de fazer esse estudo empírico,
para ganhar maior nota, senão
nada feito. Se não ganhar maior
nota não será professor
ali nunca. Meu estudo, por exemplo,
eu sabia que não ia ganhar
maior nota, era estudo sobre história,
psicopatologia, estava descartado.
Se eu fosse alemão, se eu tivesse
alguma pretensão de virar professor
em Heidelberg, o tema que escolhi
já estava fora, porque a Universidade
não dá notas máximas
para esses estudos. Eles valorizam
o empírico. Que é a
moda.
JMP:
Vamos voltar para o Brasil.
Fale um pouco da psiquiatria que você
tem visto aqui.
Viotti:
Eu acho que SP é o centro principal
de pesquisa, ciência. Que é
o papel da universidade: pesquisar. Não
se deve confundir uma coisa com a
outra. Residências em outros
lugares, que não universidades,
têm que voltar para a clínica,
tem que formar bons clínicos.
A universidade tem um compromisso
com pesquisa. Acho que a USP está
muito bem. O Rio era muito bom, mas
houve uma certa decadência.
Agora, há serviços muito
bons lá, que eles tentam manter,
apesar da queda do nível da
cidade, de um modo geral. SP tem a
USP, a Escola Paulista de Medicina
que são dois pesos pesados
da psiquiatria brasileira. Minas Gerais
tem aquele problema que já
falei, que é a universidade
estar dissociada da assistência
hospitalar. Isso é um atraso.
JMP:
Não dá para mudar esse
fato?
Viotti:
A gente tem tentado, já
houve, por várias vezes, tentativas
de se criar enfermarias no Hospital
das Clínicas, seria um grande
avanço, mas as questões
burocráticas são enormes.
A crise atualmente do Hospital das
Clínicas está muito
séria em todos os setores,
nesse sentido é até
muita sorte a gente ter atividades
no Galba Veloso, que não está
sofrendo tanto a crise, mas a gente
espera que a situação
seja contornada. Outra coisa
que a gente poderia pensar seria uma
associação com algum
hospital beneficente. O ideal seria
o Raul Soares, que é ali pertinho.
Só que a mentalidade das pessoas
é um pouco diferente. O Raul
Soares sempre foi muito voltado para
a “psiquiatria social”, para a psicanálise,
e atualmente, Lacan. Então,
hoje, a Lei Carlão e a psicanálise,
— isso eu creio que está mudando,
diante das evidências dos fatos.
Mas acho que eles têm uma linha
que gostariam de preservar, não
sei se eles topariam ceder espaço
para a Universidade, pura e simplesmente. Tem
de se criar um hospital novo, com
moldes modernos, quem sabe se a psiquiatria
mineira não se une diante dessa
denúncia minha, a de que nosso
atraso é devido à ausência
de instituto de psiquiatria na Universidade.
E é mesmo. Temos mais
de um milhão de argumentos
para a gente ganhar o nosso Instituto.
Está aí em aberto, a
quem quiser e tiver força política,
que quiser integrar aquilo ali, mas
tem de ser na Universidade, porque
é onde existe mestrado, doutorado,
onde se tem interesse maior pela ciência.
JMP:
A Universidade sozinha não
consegue isso?
Viotti:
Não, porque há
disputa interna muito grande entre
as diversas disciplinas. O (hospital)
Borges da Costa está lá
com alunos que talvez mudem para outro
lugar e ele vai ficar livre para se
transformar em enfermaria. Mas há
outros setores que, por já
terem crescido mais nas últimas
décadas, acabam passando a
perna na psiquiatria. Mesmo o Juarez
(de Castro) sendo diretores do HCL,
nós somos poucos professores,
meia dúzia, enquanto a clínica
médica é constituída
por 80, pediatria 80, 100. Estes setores
têm muito mais força
na Universidade para na hora em que
surgir um espaço desses, eles
pegarem pra eles. Então, se
houver um movimento político
global, a gente pode até sugerir
de repente que se envolvam todos os
psiquiatras e se envolva a Associação
Brasileira de Psiquiatria, a Associação
Biológica, e tudo, e vão
tirar a psiquiatria de Minas de um
lugar relativamente atrasado, que
ela não merece. Faço
a ressalva de que temos ótimos
clínicos.
JMP:
Afinal, o que é Psiquiatria
Biológica e quais os autores
que mais a influenciaram?
Delcir
Costa: A Psiquiatria Biológica
não é outra coisa senão
a própria Psiquiatria. O adjetivo
“biológica” não passa
de uma tautologia. Isso foi necessário
devido ao fato de a psiquiatria ao
longo dos anos vir perdendo sua identidade,
tornando-se uma verdadeira colcha
de retalhos. A psiquiatria psicodinâmica
apossou-se da psiquiatria médica.
Em 1946, em contraposição
a esse calamitoso acontecimento, um
grupo de psiquiatras, neurologistas,
neurofisiologistas e bioquímicos
acrescentaram o adjetivo "biológica"
ao termo "psiquiatria" como
tentativa de restaurar uma psiquiatria
que se aproximasse do modelo médico.
Nesta época foi fundada a primeira
sociedade de psiquiatria biológica
no mundo, e isto ocorreu nos EUA,
país onde a psiquiatria foi
mais desfigurada pelas correntes psicodinâmicas.
Sem dúvida, esse movimento
tocou na ferida da psiquiatria mundial,
e psiquiatras como Jorge Thompson,
Torres Flores, Deley, Deniker, Huber,
Lopes Igor, Angst, Fischer, Mendelevicks,
Hippius, Honório Delgado, Madalena,
passaram a constituir os pilares teóricos
dessa retomada da psiquiatria científica.
JMP:
Fale o que acha da psiquiatria
mineira. Sua história e como
ela está, hoje, comparada aos
outros Estados do Brasil.
Delcir:
Acredito que até os
anos 50 a psiquiatria mineira não
se destacou no cenário brasileiro
nem internacional como uma psiquiatria
que pudesse acrescentar algo. A partir
dos anos 60, houve uma revolução,
com residências psiquiátricas,
psicofarmacologia sistematizada, a
psicanálise e outras linhas
de psicoterapia. Mas, como psiquiatria
stricto sensu sempre foi pouco produtiva
em que pese ser em MG o berço
brasileiro de movimentos ideológicos
importantes como a socio-psiquiatria,
a politiquiatria e a psiquiatria biológica.
Isso mostra que os mineiros contradizem
a fama de estar sempre em cima do
muro: têm, na verdade, um desejo
de mudanças radicais.
Em
termos de Universidade, estamos engatinhando.
No mundo inteiro, hoje, é a
Universidade que dá diretrizes
para a psiquiatria científica.
Mas somos muito jovens. Belo Horizonte
fez 100 anos outro dia; não
pode ser comparada a São Paulo,
Rio, Recife, Salvador e Porto Alegre,
onde a tradição universitária
ultrapassa muito nossa idade.
JMP:
Qual o futuro da psiquiatria?
Delcir:
Em 1964, quando entrei para a Escola
de Medicina, um célebre professor
de biofísica disse em aula:
“A psiquiatria é a especialidade
do futuro”. Passaram-se 33 anos e
eu continuo dizendo que a psiquiatria
é a especialidade do futuro.
Levando em consideração
o interesse e avanço das pesquisas
sobre o cérebro e sua correlação
com o comportamento humano, é
de se esperar que dentro de alguns
anos não se terá muito
espaço para especulações.
A psiquiatria seguirá o rumo
da medicina e o psiquiatra perderá
o direito de fazer o seu próprio
diagnóstico e assumir uma conduta
individual, uma vez que teremos cânones
para uma conduta cientificamente padronizada.
É claro, quanto ao modo do
comportar humano, nós psiquiatras
sabemos tanto quanto um menino de
rua. Conduta assertiva e errática
é o grande problema do ser
humano, e talvez isso nunca será
resolvido. A morte, a loucura e a
criatividade são fundamentais
no ser humano, e isso a psiquiatria
não pode dar um jeito.
JMP:
Você tem viajado pelo mundo.
Como está a psiquiatria nos
países mais desenvolvidos?
Delcir:
Nos países mais desenvolvidos
culturalmente existe uma psiquiatria
completamente diferente. Não
por ser uma psiquiatria mais avançada,
mas uma psiquiatria onde o homem é
tratado com respeito a seus direitos
de cidadão e com muita dignidade.
Infelizmente, isso não se dá
aqui, onde somente quem tem dinheiro
consegue bom atendimento. Embora haja
também grandes diferenças
tecnológicas dos países
ricos para os países pobres.
JMP:
Dê sua opinião sobre:
movimento antimanicomial, Lei Carlão,
hospital psiquiátrico, DSM
(este, é um avanço ou
um retrocesso?).
Delcir:
Quero deixar claro que sempre fui
contra manicômios. São
campos de concentração
modernos. No meu ponto de vista, animalizam
os doentes.
Quanto
à Lei Carlão, o que
posso dizer é que já
temos um Código de Ética
Médica, portanto essa lei é,
para dizer o mínimo, redundante.
Acho oportunismo pessoas estranhas
ao meio criarem regras para outros
profissionais cumprirem. Isto mostra,
a nós psiquiatras, nossa fraqueza
em assumir nossa responsabilidade
e nosso papel na sociedade.
O hospital
psiquiátrico é necessário
para os pacientes agudos ou em crise,
que corram riscos de vida ou ameacem
a vida de terceiros. Mas, devo dizer
que tenho pouca prática de
internista; meu trabalho é
quase sempre realizado em consultório.
Finalmente,
o DSM não deixa de ser um avanço
quando aplicado diretamente à
pesquisa; é um retrocesso quando
aplicado na clínica e uma burrice
quando usado com compêndio de
psiquiatria.
JMP:
Você fez um comentário,
durante o congresso internacional
no Rio de Janeiro, no mínimo
intrigante: o de que, para você,
teria sobrado somente a clínica.
O que significa isso?
Marco
Aurélio Baggio: Acho
que fiquei angustiado durante 20 anos
com a questão da ciência:
eu sou cientista? Eu faço ciência?
Psicanálise é ciência?
Fiquei dilacerado anos a fio com esta
questão. Um dia me peguei sentindo
o seguinte: eu não sou um cientista,
eu sou um clínico. E clínica
é esta arte, esta prática
humana de você atender seres
humanos. De repente, isto surgiu pra
mim como coisa muito importante. Porque
na medida que a humanidade vai ficando
mais rica e nós não
precisamos mais lutar pela comida,
pela habitação, pela
roupa e até pelo dinheiro,
o que o ser humano vai ter que fazer
é um tratar do outro. A humanidade
dispõe da mãe como a
grande figura social da cultura. Aquela
que cuida da criança até
que ela desabroche como um ser humano
razoavelmente consistente. Agora,
desde que a gente se torne adulto,
ficamos muito desamparados. Veja a
quantidade de seres humanos que estão
fracassando. Diria que é mais
de 50% da humanidade. Trata-se de
gente boa, que não precisava
estar falida, amargurada, alcoolizada,
drogada, desesperançada, sofrendo
patologias mentais. No Brasil se dá
valor as certas insígnias:
o ator de novela, o jogador de futebol,
o político corrupto, o cara
que ganha dinheiro fácil etc.
Aqui não se dá valor
ao cuidado humanístico. Então,
eu vejo o clínico como a atividade
nobre que nós psiquiatras fazemos
na clínica, vamos usar todos
os recursos legítimos da psiquiatria,
de psicopatologia, da psicofarmacologia,
da música, da literatura, das
artes, dos conceitos das diversas
correntes de conhecimento consistentes,
de valor comprovado, hoje disponíveis.
Descobri o seguinte: eu sou um tratador
de gente.
JMP:
Pelo que você disse, a cultura
tem tanta importância quanto
à técnica em psiquiatria.
Baggio:
Quando o pessoal começou
a mexer com Lacan, eu resolvi estudar
Guimarães Rosa. Foi em 1984.
Eu já tinha 19 anos de formado,
não era mais um calouro. Hoje
acho que Guimarães Rosa é
tão importante quanto Freud
e muitíssimo mais importante
que Lacan. Talvez ele tenha sido o
segundo homem mais importante do ocidente.
Primeiro Sheakespeare, depois Guimarães
Rosa. Passei, então, a me utilizar
muito da literatura. Por acaso, me
fascinei muito com Humberto Eco e
o grande livro dele que é,
ao meu ver, “O Pêndulo de Foucault”.
Este livro acabou com meus fantasmas
esquizo-paranóides. Ali ele
examina a teoria conspirativa da história,
desmitificando-a. O ser humano só
ascende para novos patamares de humanização
se ultrapassar sua base esquizóide
e superar sua dimensão paranóide.
JMP:
Você diz que a psicanálise
não é mais ponta de
lança no campo psíquico.
O que é ponta de lança,
hoje?
Baggio:
A ponta de lança eu
só encontro na cultura. Por
exemplo, o estudo da sexualidade está
Camile Paglia, e quantos psicanalistas
em Belo Horizonte leram Camile Paglia?
Ela se baseia em Freud e vai muito
além. Ela faz um levantamento
da sexualidade em toda a literatura.
A ponta de lança é a
Cultura Ocidental, sobretudo a literatura
e as artes. Parafraseando Jesus de
Nazaré, fora da Cultura Ocidental
não há salvação.
JMP:
E a Neurociência?
Baggio:
A neurociência é uma
pretensão que está aí
e vai ter que mostrar serviço.
Acho que a neurociência é
ainda muito incipiente. Mais uma promessa
do que a realidade.
JMP:
Freud deixou nas entrelinhas que a
farmacologia poria a psicanálise
no museu.
Baggio:
Freud era um sujeito muito lúcido,
mas acontece o seguinte: nós
não vamos pôr a psicanálise
no museu, nunca. Uma certa psicanálise,
sim, já está no museu.
Mas o cerne, o método psicanalítico,
confio que ainda dará contribuições
relevantes.
JMP:
Mas você está falando
da morte dela o tempo todo.
Baggio:
Não, não falo
de morte, falo das restrições.
A psicanálise não vai
morrer, não. Ela é como
o teatro: insuficiente, em crise constante,
mas imortal. Veio para ficar. Ela
deve deixar de ser referencial para
trás e passar a tratar das
coisas que estão aqui. Nós
estamos precisando de renascimento.
Temos de colocar o ser humano em primeiro
plano de cogitação.
Foi o que Freud fez. Freud foi um
grande clínico. Não
dá mais para você tratar
psicose esquizofrênica só
com psicanálise, é absolutamente
errado isto, hoje. Não dá
pra pretender que o patrimônio
de conhecimentos erigidos pela psicanálise
até nos anos setenta possa
dar conta, conceitualmente, das coisas
e dos eventos de hoje, dos anos noventa.
JMP:
O que Lacan fez com Freud?
Baggio:
Lacan era um sujeito muito inteligente,
muito esperto e ele sabia que quando
você quer fazer valer seu pensamento,
você usa o epígono anterior.
Eu sou Freudiano, vocês podem
ser Lacanianos, ele disse. Lacan era
um trapaceiro. Com todo o respeito,
um grande trapaceiro. Um sujeito muito
inteligente, muito brilhante, ficou
muito rico e deu uma contribuição
que a mim não interessa absolutamente.
O que ele fez foi criar uma outra
psicanálise, gongórica,
barroca, cheia de retornilhos, de
tautologias, de trocadilhos, dentro
de uma cultura que tem muito pouco
a ver com a nossa. Lacan tem um estilo
pretensamente brilhante. Sou fã
de Elis Regina, ela fez um show chamado
“Falso Brilhante”. Para mim Lacan
é um falso brilhante. Li e
não gostei. Não é
citado por nenhum intelectual substantivo
do Ocidente.
JMP:
Na psiquiatria mineira, quem você
acha que está com a história
na não?
Baggio:
A grande figura da psiquiatria
mineira é o Paprocki. Foi o
mestre de todos nós. Devemos
todos a ele parte daquilo que somos.
A psiquiatria mineira tem umas três
dúzias de gente muito boa e
muito séria. Mas nós
ficamos meio desarticulados. Nós
não sabemos bem o que cada
um faz e não criamos dispositivos
de trocas de idéias. As instituições
não se fortaleceram, nenhuma
delas: as universidades, os hospitais,
as casas de saúde, os centros
de estudos, os círculos...
JMP:
Dê uma receita de uma boa residência
em psiquiatria.
Baggio:
Residência tem que ter professor.
Um professor que tenha o que Leme
Lopes tinha: sujeito culto, que entendia
de psiquiatria, que seja claro, que
dê aulas boas e que goste de
ensinar. Tem que ter Mestre, aquele
capaz de propor ordenação
ágil e eficaz do conhecimento.
Ser autodidata é uma canseira.
Evoluir segundo seu próprio
desejo é uma grande balela.
A residência precisa de alunos
interessados, que estejam em processo
de aperfeiçoamento individual.
A residência tem que ter campo
de trabalho, ambulatório e
hospital psiquiátrico. Sem
hospital psiquiátrico você
não forma ninguém. Tem
que haver condições
dignas e dinheiro. Sem dinheiro não
se faz nada. A Residência
deve alcançar uma política
e uma postura metodológica
de beber água de todos os rios.
Uma residência tem que ter neurociência,
psicopatologia, clínica, psicoterapia,
neurologia, clínica médica
e, sobretudo, a capacidade do indivíduo
se interessar pelo que os seres humanos
produzem de melhor...
JMP:
Cultura?
Baggio:
Cultura! Arte, literatura, cinema,
teatro, vídeo, escultura, história
dos processos, ensino, criatividade
e consciência. Visando espaventar
ignorâncias, descrer de superstições
e iluminar obscuridades.
JMP:
O que você pensa do movimento
antimanicomial?
Baggio:
O Movimento Antimanicomial foi uma
idéia boa que se tornou histérica.
Resquícios de Basaglia e outras
idéias velhas da década
de 70, que na prática resultou
em desproteger os doentes mentais
que hoje perambulam pelas praças
e pelas estações da
Europa. No ataque aos hospitais pelos
antimanicomiais há um ataque
ao psiquiatra como ser, como pessoa.
A lei Carlão é um anacronismo,
um verdadeiro retrocesso policialesco
e burocratizante, é absurda,
é um samba do crioulo doido.
JMP:
O que você pensa da
psiquiatria mineira?
Gustavo
Julião: Quanto à
Psiquiatria em si, acredito que vai
muito bem. Basta pesquisar e estudar
inúmeros temas para constatarem-se
os avanços inestimáveis
de nossa especialidade, principalmente
nas áreas de psicofarmacologia,
genética e pesquisa nosográfica
e que têm contribuído
para aliviar o sofrimento de milhões
de pessoas em todo o mundo. Desse
modo, não se pode falar, em
sã consciência, da Psiquiatria
mineira como uma atividade médica
“dividida” ou “cindida”. O que existe,
na realidade, é uma grande
maioria de psiquiatras mineiros que
procura exercer dignamente sua profissão,
trabalhando corretamente, estudando
e se atualizando, apesar dos baixos
salários, das precárias
condições de trabalho,
das pressões da sociedade e
das aviltantes remunerações
de prestação de serviço
a convênios. De outro lado,
situam-se certos grupelhos, verdadeiras
“panelinhas”, que se especializaram
em fabricar supostas crises da Psiquiatria
em nosso meio. Na verdade, são
agremiações ideológicas
que pregam e perseveram, à
exaustão, sobre o “fim” da
Psiquiatria, a nocividade dos hospitais
psiquiátricos e dos psicofármacos,
dentre outras pérolas de sabedoria
que vêm copiando, há
muito, de intelectuais de ocasião,
tais como Foucault, Lacan, Althusser
e Basaglia, todos eles, na atualidade,
relegados ao mais completo esquecimento.
Evidentemente, esses grupelhos festivos
também estão condenados
a uma rápida extinção,
simplesmente porque seu discurso é
anacrônico, arcaico e destituído
de qualquer vestígio de seriedade.
JMP:
Como você vê
a situação das residências
de psiquiatria de MG?
Gustavo:
Parece que o fato de que Residências
de Psiquiatria em Minas Gerais tenham
nascido e se desenvolvido à
margem da Universidade e desvinculadas
do ensino acadêmico propiciou,
após certo tempo, seu completo
isolamento da comunidade científica.
Desse modo, a maioria dos professores
passou a não ter qualquer compromisso
com a ciência ou com uma mínima
postura científica exigida,
abandonando, de vez, seu dever de
ensinar com seriedade e de formar
psiquiatras competentes e atualizados.
Ao contrário, começaram
a se dedicar a toda sorte de diletantismos
filosóficos, a charmosas hermenêuticas
semióticas e a palavras de
ordem ideológicas, tudo isso
ao sabor das últimas modas
intelectuais de Paris. Aparentemente,
limitaram-se a pregar aos residentes
uma estranha doutrina, uma espécie
de miscelânea de dogmas políticos
esquerdistas, máximas e adágios
de gurus idolatrados e a ininteligível
psicanálise lacaniana, além
de banirem as terapêuticas biológicas
do ensino médico arbitrariamente,
a pretexto de defender os direitos
humanos dos doentes mentais. Por exemplo,
a eletroconvulsoterapia(ECT) é,
literalmente, um tema-tabu e sua realização
é praticamente impossível
em alguns hospitais públicos.
Eu, mesmo, já tive a oportunidade
de observar pacientes catatônicos
internados em um desses hospitais,
a cargo da Residência, numa
situação indigna e humilhante,
que contrariava os mais elementares
princípios de cidadania e de
direitos humanos ou, mesmo, de caridade.
Permaneciam imóveis no leito,
estuporosos, alucinados, em grande
sofrimento, com dolorosas e incômodas
sondas, enquanto os residentes sequer
cogitavam de realizar a terapêutica
indicada, isto é, ECT. Considero
muito grave uma Residência de
Psiquiatria não ensinar a verdadeira
Psiquiatria, mas, ao contrário,
escamotear a verdade, doutrinando
os jovens alunos com uma mixórdia
de idéias e preceitos confusos
e estapafúrdios, incompatíveis
com a realidade clínica cotidiana
e com a própria vida real.
JMP:
O que tem a dizer aos jovens estudantes
de medicina em relação
à formação básica
em psiquiatria e aos jovens psiquiatras
em relação especialização?
Gustavo:
Em primeiro lugar, além de
estudar a fundo os autores clássicos
da Psiquiatria, creio que é
necessário ler os clássicos
da Literatura, tais como o nosso Machado
de Assis, Eça de Queiroz, Flaubert,
Dostoiévski, Stendhal e muitos
outros. Nessas grandes obras está
catalogado o inventário universal
das paixões humanas, dos tipos
caracterológicos, dos temperamentos,
das reações vivenciais,
dos sonhos, das fantasias, enfim,
da saga da condição
humana. Por outro lado, tenho a convicção
de que a entrevista psiquiátrica
tradicional jamais será substituída
inteiramente pelas entrevistas estruturadas
ou pela mensuração de
marcadores biológicos. O médico
sempre deverá rastrear e pesquisar
todos os dados possíveis a
respeito de seu paciente e isso só
poderá ser obtido através
de uma relação médico-paciente
alicerçada na aliança
terapêutica, isto é,
por meio de um relacionamento que
tenha como princípios a empatia,
a honestidade, a confiança
e a cooperação. Somente
dessa maneira, ou seja, conversando
e interrogando o seu paciente com
cuidado, tato, paciência e respeito,
o psiquiatra conseguirá atingir
um grau satisfatoriamente fidedigno
de penetração psicológica
e apreensão fenomenológica
de suas vivências.
JMP:
O Movimento Antimanicomial (e seu
subproduto mais conhecido, a Lei Carlão)
é bom ou ruim para o doente
mental?
Gustavo:
Costumo dizer que o movimento antimanicomial
foi uma espécie de ‘livro vermelho’
da Psiquiatria. Sabe-se que os chineses,
durante a época da Revolução
Cultural maoísta, acreditavam
que ele podia curar dores de cabeça
e achaques através do toque
com as regiões afetadas do
corpo. De modo semelhante, os seguidores
dessa ideologia parecem acreditar,
piamente, que a extinção
dos hospitais psiquiátricos
representará o advento do paraíso
para os doentes mentais. Pregam que
os pacientes são torturados
e maltratados nos hospitais e que
as doenças mentais não
existem, sendo meras invenções
da indústria farmacêutica.
Trata-se de uma concepção
ingênua, oriunda do movimento
contracultural dos anos sessenta e
que, já há muito tempo,
não é mais levada a
sério no meio intelectual e
pela comunidade científica
mundial. Entretanto, é lamentável
presenciar-se verdadeiros desfiles
de pobres doentes mentais nas passeatas
do movimento, fantasiados como bobos
da corte, indefesos e nitidamente
desassistidos. De maneira idêntica,
a ‘Lei Carlão’, inspirada na
mesma doutrina, reza que a doença
mental pode desaparecer pela simples
promulgação de um decreto.
Trata-se de um grande absurdo, de
um equívoco mal intencionado
que prejudicará os pacientes
psiquiátricos, privando-os
de assistência especializada.
Além disso, a lei coloca a
prática psiquiátrica
sob suspeição, praticamente
extinguindo os recursos terapêuticos
biológicos e submetendo a conduta
médica ao patrulhamento de
outros profissionais leigos. Em suma,
é uma lei paranóide
e surrealista e, acima de tudo, ilegal
e inconstitucional.
JMP:
Qual é a diferença entre
psiquiatria e psicanálise?
Arlindo
Pimenta: A psiquiatria é
uma especialidade médica e
como tal, pelo seu objeto de estudo
- o homem enfermo psíquico
- é também uma disciplina
de fronteira. Quando estudei medicina,
diziam na faculdade o seguinte: “O
clínico é aquele que
sabe tudo e não resolve nada;
o cirurgião é o que
não sabe nada e resolve tudo
e o psiquiatra é o que não
sabe nada e não resolve nada”.A
psiquiatria é uma ovelha negra
da medicina, porque aborda fenômenos
complexos que não são
resolvidos pelos métodos tradicionais
das especialidades irmãs, a
saber, a farmacologia e cirurgia. A
psicanálise partiu do fato
que não se achava uma etiologia
orgânica para a histeria, que
era considerada uma simulação.
Freud observou que o sintoma histérico,
ao contrário de outros sintomas
(e Freud tinha sido um excelente histologista
e neurologista), continha uma mensagem
cifrada que merecia ser decodificada. Com
o desenvolvimento de seus estudos,
criou a psicanálise primeiro
como um tratamento para as neuroses,
para depois ampliar seu alcance como
ciência do inconsciente. Portanto,
é uma ciência que tem
como objeto formal, abstrato, o conceito
de inconsciente. Completando: enquanto
a psiquiatria é uma disciplina
médica cujo objeto é
o doente mental, a psicanálise
(além de sua prática
terapêutica) se preocupa com
o ser humano como um todo, vislumbrando-o
como um ser incompleto, que habita
uma existência que é
e sempre será incompleta. Na
verdade, o ser humano não tem
salvação, tem atenuante,
e a psicanálise sabe disso
e isso também é objeto
da psicanálise.
JMP:
É possível ser ao mesmo
tempo psiquiatra e psicanalista? Não
existe aí um certo conflito
de identidade profissional?
Arlindo:
Bem, acho que é possível
ser ao mesmo tempo psiquiatra e psicanalista.
O problema é ter claro uma
coisa e outra. O conflito existe;
o importante é não se
perder nele e, sim, tirar partido
dele. Acho enriquecedor poder contar
com os dois referenciais.
JMP:
Camille Paglia diz em um de seus livros
(“Sexo, arte e cultura americana”)
que Lacan é apenas um longo
comentário sobre Freud. Em
termos concretos, o que Lacan acrescentou
à obra de Freud?
Arlindo:
Lacan foi um leitor privilegiado da
obra de Freud. E fez isso utilizando
instrumentos dos quais Freud não
dispunha, a saber: a Topologia, a
Lógica, a Lingüística
— e a filosofia que Freud, no compromisso
de fundar uma ciência, se recusava
a utilizar. Então, acho que
Lacan representa um avanço
na leitura de Freud, e muito acrescentou
à obra freudiana. Agora, Lacan,
bom francês, seguindo a tradição
racionalista afastou Freud do empirismo
inglês e, com isso, pôs
a leitura de Freud longe de sua vinculação
corporal, gerando uma psicanálise
metafórica com horror à
biologia.
A linguagem
metaforizante de Lacan tem um efeito
colateral ideológico terrível.
O lacanismo é uma peste no
mau sentido da palavra: provoca um
“apartheid” na psicanálise
que está a exigir um Nelson
Mandela da vida. A linguagem gongórica
funciona como um “latim psicanalítico”
que fascina ertos fanáticos
e oportunistas e seduz imensamente
os universitários principalmente
da área não médica.
JMP:
Qual o papel que a psicanálise
tem a desempenhar nas psicoses?
Arlindo:
Freud achava que o campo específico
da psicanálise era o tratamento
das neuroses. Embora tenha dado importância
a outras patologias, seu estudo mais
importante sobre as psicoses não
é um caso clínico, mas
uma autobiografia (o caso Schreber).
Lacan propõe que ospsicanalistas
não recuem frente às
psicoses. Particularmente, acho que
a psicanálise tem a contribuir
com o, digamos assim, lado extrabiológico
da psicose. Mas não vejo possibilidade
de tratar um quadro psicótico
sem recorrer à psicofarmacologia
e, às vezes, à terapia
biológica.
JMP:
Qual o papel que as terapias farmacológicas
e biológicas têm para
o psicanalista?
Arlindo:
Têm um papel auxiliar importante.
O fenômeno psíquico não
pode ser abordado de uma só
vertente. É uma questão
de privilegiar mais um espaço
que outro, o que varia de caso para
caso. A psicanálise enfatiza
mais o registro simbólico,
mas não pode desconhecer outros
espaços. Esta sempre foi a
posição de Freud.
JMP:
Qual o futuro da psicanálise?
Arlindo:
A psicanálise privilegia
o singular, o desejo, é um
método, por assim dizer, artesanal.
Neste mundo pós-moderno, tecnológico
até a medula, do ganhar tempo,
da competição etc.,
parece um método meio caduco.
Entretanto, penso que se formos engolfado
por esse sistema onde a máquina
é sempre mais competitiva e
de menor custo, o futuro não
só da psicanálise, como
também do ser humano, tende
a um, como e diz em medicina, prognóstico
reservado. A psicanálise ao
mirar a dimensão do desejo
humano preserva o único espaço
onde o humano se sobressai em relação
à máquina: a capacidade
de CRIAR. A psicanálise será
sempre, penso eu, um entrave à
“maquinizaçào”do ser
humano.
JMP: O ponto mais
polêmico do Projeto Delgado
- que prevê a extinção
progressiva dos manicômios e
sua substituição por
outros recursos assistenciais - parece
ser a proibição da construção
de novos hospitais psiquiátricos
públicos e a contratação
ou financiamento de novos leitos psiquiátricos
pelo SUS. Como ficou essa questão?
Valentim
Gentil - O Substitutivo do
Senado, embora mais flexível
e abrangente, manteve a proibição
da construção de hospitais
e contratação de novos
leitos psiquiátricos, favorecendo
uma espécie de reserva de mercado
que em nada contribuirá para
aperfeiçoar o modelo assistencial.
A confusão conceitual entre
asilo e hospital também permaneceu.
Pergunta:
Qual é a diferença?
Valentim
- Manicômio e asilo não
são sinônimos de hospital.
Muitos dos que hoje estão internados
em hospitais psiquiátricos
poderiam se beneficiar de um bom asilo
e não necessitam de hospital,
mas das demais funções
tradicionais do asilo: refúgio
e reabilitação. Entretanto,
modernos hospitais não-asilares
são indispensáveis para
o atendimento médico-psiquiátrico.
Esses ainda não existem no
Brasil e serão proibidos por
essa lei.
Pergunta:
Qual o principal argumento para proibir
a construção de novos
hospitais?
Valentim
- O argumento econômico de que
essa proibição é
a única maneira de viabilizar
a construção e o financiamento
de uma rede assistencial extra-hospitalar.
Essa economia é irrelevante
diante dos custos médico-sociais
e econômicos de proibir modernos
hospitais. Na verdade, o argumento
é mesmo ideológico,
decorrente da psiquiatria basagliana
da década de 60 e da antipsiquiatria.
Discuto esses e outros argumentos
no artigo “Uma leitura anotada do
projeto brasileiro de reforma psiquiátrica”,
na Revista USP n° 43, disponível
na biblioteca do Ipq e nas grandes
bancas.
Pergunta:
Do seu ponto de vista, quais os pontos
principais a serem modificados para
tornar essa lei aceitável?
Valentim
– Sugerimos o investimento
em uma rede diversificada que inclua
ambulatórios, hospitais especializados
e asilos não-hospitalares.
Ao contrário dos antipsiquiatras,
acho que a psiquiatria tem muito a
oferecer. Ambulatórios psiquiátricos
capacitados a administrar lítio
e os modernos tratamentos e medicamentos
fariam enorme diferença para
milhares de pessoas que hoje são
internadas e reinternadas.
Além
disso, a construção
de novos hospitais psiquiátricos
públicos e o financiamento,
pelo Poder Público, de novos
leitos em hospitais psiquiátricos
deve ser autorizada quando isso representar
efetivo aperfeiçoamento do
modelo assistencial. Uma legislação
específica para a admissão
de portadores de transtornos psiquiátricos
em instituições asilares,
não-hospitalares e a verificação
periódica da adequação
das internações involuntárias
(que devem ser explicitadas). Finalmente,
o comprometimento do governo de destinar
pelo menos 5% dos recursos orçamentários
de saúde para assistência
em saúde mental é indispensável
para não inviabilizar o modelo.
JMP:
O Sr.
poderia iniciar esta entrevista nos
dizendo sucintamente o que vem a ser
Psiquiatria Baseada em Evidências
(PBE)?
Maurício
Silva de Lima: PBE é
um termo derivado da expressão
“Medicina Baseada em Evidências”,
que tem sido definida como o conjunto
de estratégias combinadas,
resultantes de avanços nas
áreas de informática
e epidemiologia clínica, cujo
objetivo é assegurar que o
cuidado individual do paciente seja
baseado na evidência mais atualizada,
resultando no melhor desfecho possível.
JMP:
Quais os principais métodos,
derivados da epidemiologia, bioestatística
e informática, que são
utilizados para prática de
PBE?
MSL:
Vamos tomar o caso das intervenções
terapêuticas como exemplo das
ferramentas de pesquisa que, uma vez
adequadamente utilizadas, resultam
na produção de evidência
científica de qualidade. Os
ensaios clínicos randomizados
representam o ‘padrão-ouro’
como delineamento para avaliar eficácia
e tolerabilidade. Nestes estudos prospectivos,
os pacientes são alocados aleatoriamente
– ao acaso – para cada um dos grupos
em estudo. Isso permite que os grupos
sejam comparáveis em tudo,
e difiram apenas no tratamento adotado.
Ao final do estudo a performance dos
dois grupos será comparada
através de estatística
apropriada.
Já a revisão sistemática
da literatura é uma forma de
síntese das informações
disponíveis em dado momento,
sobre um problema específico,
de forma objetiva e reproduzível,
através do método científico.
Os dados obtidos podem permitir a
quantificação do efeito
dos tratamentos através de
técnicas estatísticas
– a meta-análise, que permite
que os resultados sejam integrados,
com um maior poder estatístico
resultante, ou seja, uma maior capacidade
de identificar diferenças quando
elas realmente existem.
JMP:
Quais são as vantagens e desvantagens
da PBE em relação a
uma psiquiatria tradicional?
MSL:
A importância de se
buscar a melhor evidência para
o tratamento do paciente é
reforçada por uma série
de tratamentos psiquiátricos
inicialmente aceitos, que, com o tempo,
mostraram-se ineficazes ou até
mesmo capazes de causar mais dano
do que benefício (como a lobotomia,
o coma insulínico e o tratamento
com altas doses de neurolépticos).
É preciso lembrar que, ainda
hoje, a prática psiquiátrica
caracteriza-se tanto pelo uso exagerado
de intervenções para
as quais a evidência de efetividade
é escassa ou nula (como o uso
de associações de antidepressivos),
quanto pela subutilização
de tratamentos reconhecidamente eficazes
(como o uso de antidepressivos no
tratamento do pânico). Portanto,
a prática de PBE pode resultar
na adoção de regimes
terapêuticos com efetividade
e tolerabilidade conhecidos, em abordagens
padronizadas e reproduzíveis
e em uma melhor assistência
ao paciente.
No entanto, muitas vezes torna-se
difícil a prática de
PBE, em função da dificuldade
de extrapolação para
a população clínica
de resultados de ensaios clínicos
randomizados. A prática, na
qual os pacientes apresentam diversas
comorbidades, desistem dos tratamentos
precocemente por motivos diversos
e utilizam tratamentos alternativos
concomitantes, costuma ser bastante
diferente da pesquisa, onde os pacientes
são incluídos com base
em uma série de critérios
de inclusão e exclusão
(o paciente “ideal”). Outro problema
é que muitas vezes, ainda que
não exista evidência
científica disponível,
precisamos fazer alguma coisa pelo
paciente, e nesse sentido a PBE não
pode ser tirânica, ou seja,
nos levar a só agir quando
temos absoluta convicção
sobre um determinado tratamento. Com
freqüência, temos que nos
valer do melhor nível de evidência
disponível para poder fazer
alguma coisa pelo paciente.
JMP:
Nos seus textos, fica evidente uma
discordância fundamental com
Freud, a aceitação de
Jung, embora o ache insuficiente,
e um desprezo por Lacan, o qual o
sr. nem se dá ao trabalho de
citar. Em compensação,
o Sr. respeita profundamente o psiquiatra
vienense Vicktor E. Frakl, um autor
praticamente desconhecido dos "trabalhadores
da saúde mental" deste
País. Explique-nos isso,
por favor.
Olavo
de Carvalho: Não é
bem assim. Não aceito de maneira
alguma as doutrinas de Jung, que reduzem
o espiritual às dimensões
da "psique" e, em vez da
autêntica ascese espiritual,
propõem uma caricatura chamada
"individuação".
Jung fala muito de alquimia, mas nunca
entendeu que os processos alquímicos
só são alquímicos,
precisamente, porque não se
reduzem a fatos psíquicos.
Tudo aquilo que se passe só
na mente, sem uma contrapartida material
na natureza, não é alquímico.
A essência da arte alquímica
é a revelação
das ligações reais,
efetivas, entre matéria, psique
e espírito. Uma alquimia sem
matéria é, para dizer
o mínimo, um insulto. Mas o
mais danoso é a ascese junguiana,
uma ascese invertida, diabólica
no sentido estrito da palavra. Já
Freud é muito menos perigoso,
justamente porque é materialista
e não se aventura a ir muito
fundo nessas investigações
pretensamente esotéricas. Minha
principal objeção a
Freud é que, no seu esquema,
o nascimento da consciência
está muito mal explicado. No
sistema dele, a estrutura id-ego-superego
é constituída de tal
modo que o elemento intermediário
surge dos outros dois e permanece
subordinado a eles a não ser
na hipótese de o sujeito ser
psicanalisado. O eu, por si, não
tem o poder de se tornar autônomo
sem o auxílio da psicanálise.
Ou seja, a psicanálise, como
técnica, desempenharia um papel
decisivo na constituição
do eu enquanto instância autônoma.
Para aceitar isso, temos de admitir
que, antes do advento da psicanálise,
não houve eus autônomos,
e que os eus constituídos depois
dessa data são qualitativamente
diferentes dos anteriores. A psicanálise,
portanto, não seria só
uma teoria, mas um elemento constitutivo
fundamental da estrutura do eu - elemento
faltante até a chegada do dr.
Freud, presente depois dessa data
magna. Essa hipótese -- pressuposto
oculto de todo o sistema -- é
suficientemente idiota para não
merecer atenção. E,
se a rejeitamos, todo o edifício
da psicanálise é abalado.
Pior ainda é Freud como filósofo
da cultura. Ao reinterpretar toda
a história da cultura como
um sistema de manifestações
do "inconsciente", o que
Freud está dizendo é
que a significação real
dos atos humanos de todas as épocas
foi outra que não a da intenção
expressa com que foram realizados
por seus protagonistas; vale dizer
que ninguém soube exatamente
o que estava fazendo, até que
veio o Dr. Freud e lançou pela
primeira vez luz sobre as trevas.
Chamo a isso "ilusão do
desvelamento". Muitas teorias,
do século XIX até agora,
se apresentam como desvelamentos do
"verdadeiro" enredo da história
humana, subtraído ao campo
de visão dos personagens mesmos
e subitamente posto à mostra
por um observador esperto. Para Marx,
tudo o que os homens fizeram foi luta
de classes, sem que o percebessem.
Para Jung, foi expressão do
inconsciente coletivo. Para Whorf,
foi repetição mecânica
de idéias já contidas
nas estruturas das línguas.
E assim por diante. Nenhum desses
teóricos tem sequer a prudência
de imaginar que sua teoria, longe
de poder abranger o processo desde
cima, é apenas mais um capítulo
do processo; que ela é explicada
pelo processo em vez de poder explicá-lo.
Quanto a Frankl, o que me faz admirá-lo
é o seguinte. Para mim, o conhecimento
válido da alma depende de o
investigador captar com finura o lugar
intermediário dela entre a
natureza e o espírito. É
uma coisa sutil, que escapa por entre
os dedos. Dos grandes nomes da psiquiatria
e da psicologia neste século,
só dois souberam manter-se
elegantemente em pé nesse fio
de navalha, e um deles é Viktor
Frankl. Frankl sabia que o equilíbrio
da psique depende de uma coisa chamada
"sentido da vida", e que
o sentido é algo que transcende
infinitamente a dimensão da
psique e não pode ser "captado"
por ela, mas ao contrário,
ela é que é captada
por ele no processo de servir de meio
para a sua realização.
A saúde da psique consiste
em transcender-se, em unificar-se
em direção ao sentido.
O outro que captou bem isso foi o
psiquiatra húngaro Lipot Szondi.
Ele desenvolve todo um sistema antropológico
que começa com o determinismo
genético e culmina na abertura
para a liberdade do espírito,
passando pelos determinismos parciais
da educação, da cultura,
etc. Entre os sistemas de Frankl e
Szondi e a psicanálise, por
exemplo, a diferença é
a de um céu aberto para um
porão fechado. Comparado a
eles, Freud é um provinciano,
firmemente empenhado em fazer o mundo
caber dentro de um esqueminha simplório.
Mas não posso deixar de assinalar
que, no campo da psicanálise
"strictu sensu", pelo menos
um grande teórico também
encontrou uma abertura para fora e
para cima da psique. Foi W. R. Bion.
Suas obras devem ser estudadas com
atenção e respeito.
De Lacan não tenho grande coisa
a dizer, porque o conheço muito
pouco, mas me parece que, na tentativa
de expressar lingüisticamente
as micro-estruturas infinitamente
confusas do inconsciente, ele se deixa
comer por elas e se torna ele próprio
inconsciente. No fim já não
se sabe o que, nos seus escritos,
é teoria e o que é sintoma.
O leitor de Jacques Lacan tem de acabar
psicanalisando Jacques Lacan. Eu,
da minha parte, tenho coisas mais
interessantes a fazer. Que Freud,
Jung e Lacan sejam mais conhecidos
que Bion, Szondi e Frankl, é
fenômeno que se explica pelas
mesmas razões que fazem de
Paulo Coelho um romancista mais lido
do que Jacob Wassermann ("O Processo
Maurizius"), Hermann Broch ("A
Morte de Virgílio") ou
Albert Cohen ("Belle du Seigneur").
Estes são só para quem
sabe prestar atenção.
P:
Qual a relação
que existe entre ciência e Filosofia
e, em particular, entre psiquiatria
e filosofia?
O.
de C.: A tese que tenho defendido
a respeito é a seguinte: Não
existe "ciência empírica
autônoma" em relação
à filosofia. "Ciências
empíricas" são
apenas estabilizações
provisórias de determinados
campos de conhecimento, nos quais,
por sorte, se tornou possível
prosseguir durante algum tempo as
investigações segundo
métodos e critérios
consensualmente admitidos, até
que essas mesmas investigações
levem novamente a questões
de princípio que exijam a dissolução
dessas cristalizações
temporárias e um retorno aos
questionamentos filosóficos
de base. A condição
para que esta tese seja refutada é
demonstrar que existe um campo do
conhecimento experimental que possa
abranger, ao mesmo tempo e pelos mesmos
métodos, o seu objeto empírico
e a sua própria constituição
lógica -- o que é impossível
por definição. Do ponto
de vista da psiquiatria, essa dependência
da ciência em relação
à filosofia se revela de maneira
ainda mais clara na prática
de todos os dias e creio que os exemplos
de Frankl, Szondi e Bion bastam para
demonstrá-lo.
JMP:
A atual política do
Ministério da Saúde
representa algum avanço?
Jorge
Paprocki: Infelizmente o
avanço é muito pequeno.
A lei 9.787/99 ou Lei dos Genéricos
foi promulgada pelo presidente Fernando
Henrique Cardoso em 10/02/99 e entrou
em vigor em 10/08/99. Portanto há
2 (dois) anos. Esta lei teria como
objetivo principal propiciar a industrialização
de medicamentos iguais aos originais,
porém mais baratos e, portanto,
mais acessíveis à população.
A Lei dos Genéricos aprovada
no Brasil é bastante semelhante
às existentes nos Estados Unidos,
Canadá, Inglaterra, Alemanha,
Dinamarca. Nesses países o
medicamento inovador ou de marca tem
a exclusividade de comercialização
garantida, por períodos variáveis,
geralmente de 15 (quinze) a 20 (vinte)
anos, de acordo com a duração
da patente. Durante este período
a indústria que lançou
o medicamento novo detém o
monopólio de sua comercialização.
Após expirar o período
da patente, outras indústrias
podem produzir e vender o mesmo medicamento,
com o nome genérico, provocando,
assim, considerável redução
de seu preço. Esta estratégia
mostrou-se eficaz para atenuar o monopólio
da indústria farmacêutica,
nos países onde foi aplicada.
Este esclarecimento torna-se indispensável
já que o assunto dos genéricos,
freqüentemente é apresentado
ou discutido entre nós como
se a Lei dos Genéricos fosse
uma invenção muito original
do atual governo ou do atual Ministério
da Saúde e não como
algo que existe em outros países
há algumas décadas.
Na época da promulgação
da Lei foram omitidos alguns dados
muito importantes para a análise
dos acontecimentos e dos resultados
da medida. Estes dados são
os seguintes: a) Que, nos países
onde a lei existe, ela foi precedida
por alguns anos de negociações
entre os governos destes países
e a indústria farmacêutica
que resultaram em concessões
mútuas: de uma maneira geral
a indústria farmacêutica
recebeu a garantia de patentes mais
longas por parte dos governos desses
países. b) Que os resultados
da lei, no sentido de abaixamento
de preços dos medicamentos,
somente se fizeram sentir após
alguns anos. Nos Estados Unidos da
América, após cinco
anos, a partir da data de promulgação.
c) Que os resultados dependeram de
inúmeros fatores como: interesse
de indústrias idôneas
para produzir os genéricos;
interesse das farmácias em
comercializá-los com um lucro
menor; interesse e confiança
dos médicos em prescrevê-los
e o mais importante, confiança
da comunidade e dos médicos
nas agências de fiscalização,
ao analisar e avalizar estes medicamentos
como confiáveis. d) Mesmo em
países muito ricos e industrializados,
a simples existência de produtos
com um nome genérico e a obrigatoriedade
de prescrever pelo nome genérico
não se mostraram eficazes para
implantar esses produtos. A confiança
e o interesse dos médicos sempre
foi um elemento primordial, já
que eles, os médicos, em última
instância, são os formadores
de opinião da população
nesse setor. e) O não reconhecimento
de patentes ou o congelamento de preços
também nunca se mostraram eficazes
para atenuar o monopólio da
indústria farmacêutica,
em nenhum país do mundo. No
Brasil essas práticas continuam
sendo adotadas. Após dois anos
e meio de existência da Agência
Nacional de Vigilância Sanitária
(ANVISA) e de cerca de dois anos de
vigência da Lei 9.787 ou Lei
dos Genéricos o balanço
não é muito animador:
a) Existem 22 (vinte e duas) indústrias
nacionais envolvidas na produção
de medicamentos genéricos e
35 indústrias planejando entrar
no mercado. As principais produtoras
são a EMS - Sigma Pharma, a
Biosintética e o Laboratório
Teuto-Brasileiro. b) Em junho de 2001
estavam sendo fabricados no Brasil
cerca de 90 (noventa) produtos genéricos
com 237 (duzentos e trinta e sete)
apresentações o que
representa apenas 3% (três por
cento) do mercado total de medicamentos.
c) Os preços desses medicamentos
apresentam-se com uma diferença
média de 30% (trinta por cento)
a 50% (cinqüenta por cento) a
menos em relação aos
medicamentos originais, de marca.
d) A permissão de troca de
medicamentos originais por genéricos,
nas farmácias, está
dando oportunidade para uma troca
de originais por medicamentos similares,
pelo balconista de farmácia,
o que não é permitido
por lei. e) A Agência Nacional
de Vigilância Sanitária
tem se mostrado omissa quanto a informar
aos médicos e à comunidade
acerca de alguns aspectos fundamentais
de seu funcionamento e dos resultados,
cujo conhecimento é indispensável
para seu sucesso. 1. A Anvisa já
sabe qual a quantidade de fármacos
e medicamentos registrados e fabricados
no Brasil? (15.000, 20.00, 25.000)?
Bolívia, Venezuela e Argentina
sabem! 2. No momento do registro de
um genérico a matéria-prima
é submetida sempre a testes
de biodisponibilidade e bioequivalência
ou é aceita a documentação
de seu país de origem (Canadá,
China, Índia, Israel, Portugal,
Alemanha)? 3. No momento da renovação
de registro de medicamentos similares
são exigidos testes de bioequivalência
e biodisponibilidade como dos genéricos,
ou não? 4. Qual é a
percentagem de medicamentos vendidos
sem prescrição nas farmácias?
Era de 70% (setenta por cento) antes
de 1999. 5. Qual é a percentagem
atual de medicamentos falsificados.
Era de 20% (vinte por cento) antes
de 1999. 6. Qual o número de
farmácias no Brasil que não
tem farmacêutico responsável?
No estado de São Paulo era
de 50% (cinqüenta por cento)
antes de 1999. 7. Qual é o
ritmo de fiscalização
das farmácias: semanal, quinzenal,
mensal? 8. Qual o controle sobre os
medicamentos B.O . - bonificados,
ou bons para otários vendidos
nas farmácias em troca dos
originais. 9. Existe alguma forma
de fiscalização sobre
os 7.000 distribuidores de medicamentos?
de que tipo e com qual periodicidade?
10. As farmácias de manipulação
estão comprovando a origem
das matérias-primas e a qualidade
do produto final? Como? 11. Qual o
ritmo de fiscalização
das indústrias farmacêuticas:
era uma vez por ano, por sorteio e
abarcava 2% (dois por cento) dos medicamentos
ou das indústrias. 12. Existe
alguma forma de fiscalização
ou auditagem sobre os fiscais? De
que tipo e com qual periodicidade?
Ou parte-se do princípio que
Anvisa e o Ministério da Saúde
são incorruptíveis?
JMP:
Os medicamentos manipulados hoje em
MG são confiáveis?
Paprocki:
Therezinha Coelho Barbosa
Tomassini, chefe do setor de medicamentos
do Instituto Nacional de Controle
de Qualidade em Saúde (INCQS)
da Fundação Oswaldo
Cruz, alerta para o fato de que um
dos principais focos do problema dos
medicamentos está no próprio
momento da manipulação
nas farmácias, onde falhas
múltiplas podem ser detectadas:
leitura equivocada da fórmula,
introdução de outras
substâncias, erros de dosagem,
utilização de matérias-primas
impuras de origem desconhecida ou
sem efeito terapêutico. O professor
Nelson Guimarães Proença
publica um artigo no Jornal da Associação
Paulista de Medicina, em outubro de
2000 onde aborda o tema "Ervas
chinesas, doença renal e câncer
de rim". Neste artigo o professor
menciona o seguinte: "Para muita
gente, remédios industrializados
são venenos, enquanto que a
medicina alternativa pode não
curar tudo, mas pelo menos não
mata. Por entender que os recursos
desta última são pelo
menos inócuos, não foram
criados os mecanismos de controle
que poderiam proteger melhor a população
usuária. E, no entanto, também
neste campo podem ocorrer riscos para
os pacientes. Um artigo mais recente,
de autoria do professor de farmacologia
Márcio M. Coelho, da Faculdade
de Farmácia da UFMG, publicado
no Jornal do Sindicato dos Médicos
do Estado de Minas Gerais (SINMED-MG)
em agosto/setembro de 2000, trata
do mesmo tema, que envolve farmácias
de manipulação, medicina
alternativa e ação da
Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (ANVISA), bem como
alguns aspectos legais e morais do
emprego de "fórmulas para
emagrecimento". Em um ponto de
seu artigo o professor Márcio
afirma: "a inclusão de
outros componentes nas fórmulas
de emagrecimento, principalmente plantas
como carqueja, alcaçuz, alcachofra,
garcinia etc., não é
compreendida, pois não há
estudos que permitam definir uma possível
utilidade destas plantas no tratamento
da obesidade. Na verdade, pouco se
conhece sobre a atividade farmacológica
destas plantas e das reações
adversas que seu uso pode causar.
Em relação à
carqueja, há uma preocupação
associada com seu uso, pois há
estudos mostrando que esta planta
pode induzir tumores em animais experimentais".
Existem alguns autores que acreditam
que remédios e farmácias
de manipulação são
um anacronismo que tem sucesso apenas
nas camadas menos informadas da população.
Talvez por isto o número destas
farmácias é tão
grande no Nordeste. Como sabemos a
taxa de analfabetismo nesta região
é de 27,5% (vinte e sete e
meio por cento) enquanto a média
no Brasil é de apenas 13,5%
(treze e meio por cento). O analfabetismo
funcional, que na região sul
e sudeste é de 23% (vinte e
três por cento) no nordeste
é de 47,5% (quarenta e sete
e meio por cento). Anacronismo ou
não, deve ser lucrativo. A
revista Veja, em sua edição
1696, de 18 de abril de 2001, noticia
que a empresa de cosméticos
Natura acaba de adquirir o laboratório
carioca Flora Medicinal, que na primeira
metade do século passado chegou
a ter 300 (trezentas) fórmulas
em seu catálogo. Alguns produtos
fabricados até hoje pela Flora
Medicinal são Alcachofra, Boldo,
Camomila, Catuaba, Jurubeba. A Natura
pretende entrar no mercado com fórmulas
de 50 (cinqüenta) anos atrás
e colocar no mercado cerca de 100
(cem) medicamentos naturais até
o fim do ano. Vamos lembrar que em
setembro de 1998 foram interditados
pela Vigilância Sanitária
de São Paulo, o laboratório
Veafarma e a farmácia de manipulação
Botica Veado d'Ouro. Os donos de ambas
empresas foram indiciados e presos
por fabricarem e venderem o remédio
Androcur, usado para tratamento de
câncer de próstata. Isto
ocorreu na maior cidade da América
do Sul, onde supõe-se a existência
de uma estrutura organizada de fiscalização
eficiente, com razoável número
de fiscais competentes. Temos medo
de imaginar o que pode ocorrer em
pequenas cidades do interior, onde
são freqüentemente as
farmácias de manipulação
e onde a fiscalização
é precária ou inexistente.
Este é apenas um exemplo da
possível situação
nessa área. Inseridas em um
mercado competitivo e nem sempre submetidas
a uma fiscalização rigorosa,
essas farmácias de manipulação
tendem a produzir as mesmas mazelas
encontradas em outras atividades.
Ao lado de profissionais sérios,
multiplicam-se os aproveitadores incompetentes
e ou desonestos, com risco de saúde
e às vezes de vida para o usuário.
A rigor não sabemos quantas
farmácias de manipulação
existem, onde existem, e como são
fiscalizadas. Sabemos que além
de atender a manipulação
de fórmulas magistrais, anunciam
e vendem, por preços baratos,
produtos muito complexos como antidepressivos,
ansiolíticos e antipsicóticos.
Freqüentemente essas farmácias
de manipulação comportam-se
como mini-indústrias, com envio
de folhetos com preços, anúncios
em jornais e "representantes"
que visitam médicos e oferecem
literatura. Não sabemos qual
a origem da matéria-prima que
essas farmácias utilizam (Índia,
Hong-Kong, Taiwan) para manufaturar
os medicamentos, e se esta matéria-prima
é produzida por indústrias
confiáveis. Não sabemos
como é realizada a avaliação
e o controle de qualidade dessa matéria-prima.
Não sabemos também quais
são os planos e projetos da
atual Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (ANVISA) para abordar
e abortar esta situação.
O fato é que as farmácias
de manipulação e os
medicamentos manipulados bem como
as chamadas medicinas alternativas,
não têm sido objeto da
mesma vigilância que cerca a
terapêutica apoiada em bases
científicas. Daí a necessidade
de chamarmos a atenção
para o fato que a mesma não
é tão inócua
quanto parece. Como podemos ver, o
problema não é apenas
de Minas Gerais.
JMP:
E os genéricos? São
de qualidade aqui no Brasil? Que diferença
há entre os genéricos
daqui e dos EUA?
Paprocki:
A estratégia de comercialização
de medicamentos pelo nome da marca
ou comercial é responsável,
em grande parte, pelo sucesso de vendas
da indústria farmacêutica,
já que assegura a fidelidade
a um nome de marca, por parte do médico
que prescreve o medicamento. A indústria
farmacêutica investe na promoção
de seus produtos cerca de 20% (vinte
por cento) de seu faturamento e o
alvo principal desta agressiva promoção
é o médico. Em 1970
estava claro para a sociedade e para
os governos dos países industrializados
que o poder de monopólio das
indústrias farmacêuticas
multinacionais havia adquirido dimensões
inusitadas e intoleráveis.
A partir desta data alguns países
desenvolvidos passaram à legislar
e estabelecer políticas que
pudessem fazer frente a este monopólio.
Todas as medidas tentadas, baseadas
no combate ao abuso de poder econômico,
congelamento de preços e não
reconhecimento de patentes, mostraram-se
ineficientes e inoperantes. A idéia
de que o mercado poderia ser suprido
por medicamentos de nome genérico,
sem marca, após o vencimento
do período de patente do produto
com nome comercial e que isto poderia
reduzir o preço dos medicamentos,
foi colocada em prática pela
primeira vez, em 1984, nos Estados
Unidos da América. Neste ano,
o Congresso americano promulgou uma
lei, conhecida como Waxman Hatch Act,
que criou as bases para uma indústria
de produtos com nomes genéricos,
após o vencimento da patente
do produto original, com nome comercial.
Como compensação, à
lei contemplava a indústria
que produzia os medicamentos originais
com uma extensão maior do período
de vigência das patentes. Dois
anos após começaram
a aparecer os primeiros resultados
na redução de preços
de alguns medicamentos. Os genéricos
- a sua definição é
a seguinte: remédio intercambiável
com outro medicamento original ou
de referência ou inovador. Para
comprovar a sua intercambialidade,
o medicamento genérico é
submetido a dois testes: o de bioequivalência
e o de biodisponibilidade. A bioequivalência
informa que, na mesma dosagem, o genérico
tem os mesmos efeitos do produto original.
A biodisponibilidade informa que o
genérico, na mesma concentração
do produto de referência, tem
a mesma velocidade e extensão
de absorção pelo organismo.
As normas de bioequivalência
permitem assegurar ao medicamento
genérico sua intercambialidade
com o medicamento inovador. Ou seja,
através de estudos "in
vitro" (equivalência farmacêutica)
e estudos realizados "in vivo"
em voluntários sadios (bioequivalência),
verifica-se a performance do medicamento
genérico em relação
à do medicamento inovador.
Ao prescrever um fármaco com
nome genérico, que passou obrigatoriamente
por essa bateria de testes, o médico
terá a garantia de que aquele
medicamento deverá apresentar
o mesmo efeito terapêutico obtido
pelo produto inovador. Além
disso, o produto deve obter o registro
específico, na Agência
Nacional de Vigilância Sanitária
(ANVISA), ser apresentado em embalagem
padronizada e jamais possuir marca
comercial - ele deve ser comercializado
pelo nome da sua substância
ativa. Em fevereiro de 2000 foram
lançados os primeiros seis
medicamentos genéricos. Em
agosto de 2000 a relação
dos genéricos aprovados pela
Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (ANVISA) continha
115 (cento e quinze) produtos, sendo
apenas quatro psicofármacos;
um hipnótico (Zolpidem), um
antiparkinsoniano (Biperideno), um
ansiolítico (Diazepam) e um
antidepressivo (Fluoxetina). A matéria-prima
com que são produzidos os medicamentos
genéricos é importada
de outros países: A Sigma Pharma
está associada à indústria
farmacêutica canadense Apotex.
A biosintética irá importar
da indústria israelense Theva.
A Davidson Química Farmacêutica
Ltda., do Rio de Janeiro, importa
matéria-prima da indústria
indiana Ranbexy. A Hexal do Brasil
Ltda., de São Paulo, importa
de sua matriz alemã. A revista
Época, em seu número
141, de 29 de janeiro de 2001 noticia
que existem 172 (cento e setenta e
dois) medicamentos genéricos
comercializados nas farmácias
e 57 (cinqüenta e sete) aguardam
aprovação da Agência
Nacional de Vigilância Sanitária
(ANVISA). Este número representa
3,5% (três e meio por cento)
do mercado nacional de medicamentos.
A diferença básica entre
os genéricos produzidos nos
Estados Unidos, Canadá, Inglaterra,
Alemanha e Dinamarca é que
eles são produzidos em sua
maioria, pelas próprias indústrias
que introduziram os medicamentos originais
ou de marca. No Brasil, como foi mencionado
acima, eles ainda são produzidos
por indústrias nacionais que
importam a matéria-prima de
outros países, freqüentemente
sem tradição em química
fina.
JMP:
O sr. conviveu com laboratórios
na década de 70. De lá
para cá o marketing tem se
tornado cada vez mais agressivo. Gostaria
de saber sua opinião sobre
a ética na relação
psiquiatra-indústria farmacêutica.
Paprocki:
Uma maneira de classificar
as indústrias farmacêuticas
seria de acordo com o estágio
que elas atuam. Segundo Jacob Frenkel,
cada estágio corresponde a
um conjunto de atividades e conhecimentos
específicos e diferentes entre
si: No primeiro estágio a indústria
é capaz de pesquisar e de desenvolver
novos fármacos. Esse estágio
incluí a obtenção
do fármaco, a realização
de testes pré-clínicos
e testes clínicos, com suas
diferentes etapas. No segundo estágio
realiza-se a industrialização.
O fármaco que, na fase anterior,
era limitado a pequenas quantidades,
para atender apenas a demanda de testes,
passa a ser produzido em escala industrial,
em grandes quantidades, para ser comercializado.
No terceiro estágio que é
chamado de formulação,
o fármaco adquire a forma final
de remédio ou medicamento que
chegará ao consumidor. Este
pode ter a forma de cápsula,
comprimido, ampola, supositório,
xarope, pomada ou creme. Segue-se
a embalagem. Nesse estágio
o fármaco já não
sofre nenhuma alteração
em suas características químicas.
O quarto estágio é o
de comercialização e
marketing. A propaganda que é
dirigida para a classe médica
tem características bem diferentes
daquela que é dirigida diretamente
ao consumidor. Trata-se de uma propaganda
muito cara e que freqüentemente
consome o dobro de recursos que são
destinados à pesquisa. No Brasil
não existe nenhuma empresa
multinacional ou nacional que opere
na primeira fase, isto é, de
pesquisa e obtenção
de fármacos, com exceção
das estatais que trabalham com vacinas
e soros, como a Fundação
Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) e o Instituto
Butantan. A grande maioria das indústrias
multinacionais opera excepcionalmente
no segundo e usualmente no terceiro
e quarto estágios. A quase
totalidade das indústrias nacionais
opera apenas nos dois últimos
estágios, isto é, formulação
e comercialização. No
Brasil todos os remédios e
medicamentos são produzidos
por 485 (quatrocentos e oitenta e
cinco) indústrias farmacêuticas
multinacionais, nacionais e estatais,
e por um número desconhecido
de farmácias de manipulação.
Eles são entregues nas farmácias
por 7.000 (sete mil) distribuidores.
Sua venda no varejo é feita
por 55.000 (cinqüenta e cinco
mil) farmácias. Isto significa
que no Brasil existe uma farmácia
para cada 3.000 (três mil) habitantes.
A Organização Mundial
de Saúde (OMS) preconiza que
basta uma farmácia para cada
10.000 (dez mil) habitantes. Deve
ser um bom negócio vender remédios
no Brasil! A estratégia de
comercialização de medicamentos
pelo nome da marca ou comercial é
responsável, em grande parte,
pelo sucesso de vendas da indústria
farmacêutica, já que
assegura a fidelidade a um nome de
marca, por parte do médico
que prescreve o medicamento. A indústria
farmacêutica investe na promoção
de seus produtos cerca de 20% (vinte
por cento) de seu faturamento e o
alvo principal desta agressiva promoção
é o médico. Isto posto,
vamos lembrar que a Indústria
Farmacêutica Multinacional,
tem um departamento de Pesquisa e
Desenvolvimento (P&D) e departamentos
de industrialização,
formulação, comercialização
e de marketing. A indústria
nacional somente tem departamentos
de formulação, comercialização
e marketing. O departamento de pesquisa
e desenvolvimento tem um comportamento
absolutamente ético junto aos
investigadores de dentro e de fora
da empresa. Os departamentos de comercialização
e de promoção têm
como meta principal vender o produto
e comportam-se, freqüentemente,
de maneira agressiva, como ocorre
com qualquer empresa que vende automóveis,
televisões, geladeiras ou hambúrgueres.
Os funcionários envolvidos
nessas atividades são remunerados
em função da quantidade
de vendas que realizam. A realidade
é que o nível desses
funcionários, bem como seu
treinamento, tem piorado muito ao
longo da última década.
Sucintamente, todos psiquiatras sabem
que, em qualquer relação,
existem pelo menos dois agentes que
participam do jogo e que são
igualmente responsáveis: o
sedutor e o seduzido, o explorador
e o explorado, o subornador e subornado
e assim por diante. O ministro Serra,
o Dr. Veccina Netto da ANVISA, os
senhores deputados da CPI dos Medicamentos
declaram publicamente que os médicos
são subornados pelas multinacionais
com viagens, presentes, brindes. Na
minha vida profissional, seja como
investigador, seja na atividade didática
como expositor ou conferencista, seja
na minha atividade clínica,
de consultório, nunca recebi
uma proposta indecorosa da indústria
farmacêutica multinacional ou
nacional. Presentemente, recebo representantes
no consultório uma vez por
mês, em horário marcado.
Aqueles que me trazem literatura séria
são bem vindos e bem tratados.
Aqueles que me trazem folhetos coloridos
promocionais ou fazem considerações
pouco pertinentes não são
bem vindos.
JMP:
Qual o papel atual da chamada
indústria farmacêutica
nacional?
Paprocki:
O período compreendido
entre 1968 e 1974 foi caracterizado
por uma grande disponibilidade de
capital externo e por taxas relativamente
baixas de inflação.
Estes dois fatos somados à
determinação dos governos
militares de tornar o Brasil uma potência
emergente, possibilitaram pesados
investimentos em infra-estrutura e
em indústrias de base e de
transformação como papel,
alumínio, produtos químicos
e fertilizantes. Nesta época,
na visão de governos militares,
o domínio do mercado de medicamentos
e seus insumos por umas poucas indústrias
multinacionais, ameaçavam a
segurança nacional. Com o intuito
de promover e fortalecer a indústria
farmacêutica nacional o governo
decidiu, em 1971, não reconhecer
mais as patentes no setor de medicamentos.
O propósito e a esperança
é que esta medida propiciaria
a pesquisa em geral e na área
de química fina e em particular.
Como sabemos, isto não ocorreu,
da mesma maneira e pelos mesmos motivos,
como não ocorreu por ocasião
da reserva de mercado em informática.
Mais tarde, a proliferação
de indústrias farmacêuticas
nacionais limitou-se à criação
de unidades que permaneceram no terceiro
e quarto estágios de industrialização.
Lembramos que o terceiro estágio
de industrialização
limita-se na transformação
de matéria-prima, importada,
em cápsulas, comprimidos, xaropes,
pomadas e ampolas. O quarto estágio
compreende a embalagem e a comercialização
desses produtos. Não houve
investimento em aprimoramento de tecnologia,
de mão-de-obra qualificada
ou do desenvolvimento de química
fina e muito menos de pesquisa. A
dependência de produtos manufaturados
deu lugar à dependência
de matéria-prima. Segundo tudo
indica, após a Lei dos Genéricos,
estamos correndo o risco de uma dependência
de grandes produtores de genéricos,
como Canadá, Estados Unidos,
Itália, China, Israel e Índia.
Acreditamos que está última
política não contribuirá
em nada para o aprimoramento da indústria
farmacêutica nacional, ainda
que possa reduzir, a curto prazo,
o preço de alguns medicamentos.
Atualmente, a indústria farmacêutica
nacional ou doméstica é
constituída por cerca de 400
(quatrocentas) pequenas, médias
e grandes empresas que são
responsáveis por aproximadamente,
15% (quinze por cento) do mercado
brasileiro de medicamentos. As empresas
pequenas produzem em sua maioria,
apenas produtos populares, que não
exigem prescrição médica.
As empresas médias e grandes,
além dos produtos populares,
industrializam os medicamentos chamados
éticos, que exigem prescrição
médica: isto é, os similares
e agora os genéricos. A seguir,
alguns exemplos dessas empresas. Indústrias
pequenas, às vezes com apenas
dois ou três produtos, como
o Laboratório Vitex, do Rio
de Janeiro que fabrica o Rhum Creosotado,
que contém creosoto de faia
e o Pó de Matricária
com vitamina A e D. O Laboratório
Farmahaz Beta Atalaia, também
do Rio de Janeiro, que entre outros
produtos fabrica o Capivarol, composto
de catuaba, guaraná e óleo
de capivara. A pequena, mas muito
bem sucedida DM Indústria Farmacêutica
Ltda, de Barueri, São Paulo,
que fabrica o Engov, o Doril, o Gelol
e o Vitasay e que se permite ter,
como garoto propaganda, nada menos
que o Senhor Edson Arantes do Nascimento,
Pelé. Algumas indústrias
médias como o Laboratório
Ducto Indústria Farmacêutica
Ltda, de Anápolis, Goiás
e o Medley S. A . Indústria
Farmacêutica, de Campinas, São
Paulo, ambos já com alguns
produtos genéricos no mercado.
O Davidson Química Farmacêutica
Ltda, do Rio de Janeiro, que pretende
importar genéricos da indústria
indiana Ranbaxy e já tem 13
(treze) produtos aguardando liberação
pela Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (ANVISA). A Hexal
do Brasil Ltda, de São Paulo,
que pretende importar genéricos
da sua matriz alemã. A Biosintética
que vai importar genéricos
da indústria israelense Teva.
Entre as indústrias grandes
vamos mencionar o Laboratório
Teuto Brasileiro Ltda, de Anápolis,
Goiás, e o Grupo EMS Sigma
Pharma, de Hortolândia, São
Paulo. O Laboratório Teuto
Brasileiro, Anápolis, tem 1.500
(um mil e quinhentos) funcionários
e um faturamento anual de 250 (duzentos
e cinqüenta milhões de
reais). Industrializa 198 (cento e
noventa e oito) produtos em 400 (quatrocentas)
apresentações. Em agosto
de 2000, o laboratório industrializava
20 (vinte) apresentações
de medicamentos genéricos.
O grupo EMS Sigma Pharma compreende
a Sigma Pharma, responsável
pela produção de produtos
que exigem prescrição,
a Novomed que é responsável
pela produção de produtos
populares, ou não éticos,
vendidos sem prescrição,
e a Nature's Plus que cuida da linha
de produtos de higiene pessoal e beleza.
Logo após a sua fundação
a Sigma Pharma incorporou a Novaquímica,
outra indústria nacional e,
em 1999 adquiriu toda a linha cardiológica
da indústria Wyeth. A empresa
industrializa 50 (cinqüenta)
produtos em 106 (cento e seis) apresentações.
Dispõe de 700 (setecentos)
propagandistas que visitam um universo
de 180.000 (cento e oitenta mil) médicos.
Esta empresa é a segunda indústria
farmacêutica do país
e foi a primeira a receber autorização
da Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (ANVISA) para produzir
medicamentos genéricos.
JMP:
Qual é o papel político
da psiquiatria?
Paprocki:
Segundo Rui Barbosa "a política
é arte de gerir o Estado, segundo
princípios definidos, regras
morais, leis escritas ou tradições
respeitáveis". Em seu
livro "Teoria Política"
este autor trata de tópicos
como o caráter impessoal do
estado, conceito de constituição,
democracia, socialismo, liberdade,
direito à revolução,
a natureza e a lógica da escravidão
e muitos outros, que sabemos que não
são ensinados nos cursos de
medicina ou nas residências
de psiquiatria. Vamos lembrar que
os cursos universitários da
área técnica são
eminentemente profissionalizantes
e que, freqüentemente os profissionais
formados, ainda que tecnicamente habilitados,
nem sempre são cultos, em um
sentido amplo. As disciplinas que
forneceriam um embasamento cultural
e habilitariam o profissional médico
a ser detentor de uma boa capacidade
de análise crítica,
são negligenciados e raramente
fazem parte do currículo de
formação. No caso do
profissional de psiquiatria, conhecimentos
básicos de antropologia, epistemologia,
história, sociologia, biologia,
estatística, etologia, epidemiologia,
genética e metodologia de pesquisa,
são indispensáveis para
o bom entendimento dos fenômenos
psíquicos e sociais. São
esses conhecimentos que realmente
diferenciam o profissional culto e
maduro do técnico, apto apenas
a repetir determinadas rotinas aprendidas
na Faculdade. Uma grande parcela de
profissionais de medicina e de psiquiatria
freqüentou universidades, mas
recebeu informações
insuficientes e uma formação
humanística precária.
Esta formação deficiente
e inadequada, em termos de aculturamento
geral, não propicia uma capacitação
para análise crítica,
da teoria ou doutrina política
e não capacita para o exercício
da mesma. Por isso tudo creio que
podemos afirmar que, enquanto especialidade
estritamente médica, o papel
político da psiquiatria e o
mesmo da proctologia ou da urologia,
isto é, absolutamente nenhum.
JMP:
Como você está vendo
a psiquiatria mineira atualmente?
Ronan
Rêgo: Vejo com preocupação
e tristeza o fato de não aparecer
no programa oficial do Congresso Brasileiro
de Psiquiatria 2002, nenhuma vez,
a sigla MG. Atualmente, mesmo estados
como Rio Grande do Sul, Bahia e Pernambuco,
se destacam mais na Psiquiatria Brasileira
do que nosso Estado. Podemos creditar
parte disto à nossa timidez
mineira, mas com certeza o mais importante
é a nossa desorganização.
Temos aqui bons psiquiatras, mas geralmente
caminhando sozinhos.
JMP:
Gostaria que você comentasse
a afirmativa do psiquiatra Marco Aurélio
Baggio, de que o movimento antimanicomial
foi uma boa idéia que acabou
histérica.
O que você pensa da acusação
feita por certos profissionais aos
diretores dos hospitais psiquiátricos
de seqüestro em cárcere
privado em relação aos
pacientes que, apesar de estarem de
alta médica, continuam internados
devido a abandono familiar? Dê
sua opinião sobre a desospitalização
que se está fazendo em BH.
Ronan:
Minha condição é
muito confortável para falar
a este respeito. Isto porque sou um
Psiquiatra que nunca fui vinculado
a nenhum hospital psiquiátrico,
a não ser como estagiário
ou residente, e ainda, por raramente
internar um paciente psiquiátrico.
Não por ser contra os hospitais,
mas sim por pouco precisar deles.
Claro que sou privilegiado, ao atender
apenas pacientes cujas famílias
podem assumir o custo de um tratamento,
que geralmente tem disponibilidade
de tempo (ou contratam profissionais)
para os cuidados com o paciente em
crise.
Mesmo tendo hoje, recursos terapêuticos
para tirar um paciente de um surto
psicótico em cerca de 2 semanas,
mantendo-o em casa, existem casos
nos quais é um grande risco
não interná-los. William
Styron, autor de Escolha de Sofia,
em seu livro Perto das Trevas onde
descreve sua vivência da depressão,
atribui irresponsabilidade a seu psiquiatra
que o manteve em casa, enquanto ele
ruminava idéias de suicídio.
No caso de um paciente em crise aguda,
sem recursos financeiros, o que é
o habitual, que não dispõe
de acompanhantes e, sobretudo, se
moram fora de Belo Horizonte, o hospital
se faz necessário.
Fui supervisor hospitalar pelo INAMPS,
depois SUS, e nunca vi seqüestro
de pacientes. Sempre foi uma queixa
dos hospitais em relação
ao PUP Galba Velloso que mandava (a
palavra cabe, porque não poderia
haver recusa) os pacientes sem acompanhantes,
e às vezes sem endereço,
o que freqüentemente resultava
em pacientes abandonados.
Os hospitais nunca foram bonzinhos
e nem realizavam uma psiquiatria de
qualidade, mas, me parece, davam uma
assistência compatível
com a pobreza (em sentido amplo) dos
pacientes, com a qualificação
muitas vezes restrita de muitos psiquiatras
credenciados pelo INAMPS, e com a
pequena remuneração
que recebiam.
O que aconteceu com nosso colega Sandoval
de Castro Filho foi uma verdadeira
caça às bruxas. Nesta
época, eu não trabalhava
mais no SUS, portanto não posso
afirmar, mas estou convicto que o
tal seqüestro em cárcere
privado se trata dos mesmos pacientes
abandonados, que sempre existiram
em todos os hospitais. Os pacientes
recebiam alta, não apareciam
familiares e muitas vezes o endereço
não era localizado.
Quanto ao início da desospitalizacão
em Belo Horizonte, tenho uma visão
um pouco diferente do que vem sendo
dito pelos antimanicomiais.
Na década de oitenta, o INAMPS,
a meu ver a título de contenção
de gastos, e até mesmo sob
a influência de mudanças
na assistência psiquiátrica,
começou a fazer reduções
nas cotas de internações
dos hospitais psiquiátricos.
Eu fui portador (as decisões
me chegavam prontas), por vezes sucessivas,
da seguinte comunicação:
O teto de internações
deste hospital foi reduzido para...
Os Hospitais foram fechando suas portas,
como a Clínica Boa Esperança,
Santa Margarida, Santa Clara, ou se
descredenciando do SUS como o André
Luiz e bem depois o Santa Maria. Ou
seja, quando o movimento começou
em Belo Horizonte, o processo de desospitalização
já estava em curso. O que quero
dizer é que os Psiquiatras
que se engajaram neste movimento,
poderiam ter participado da evolução
natural da especialidade, aprendendo
e ensinando Psiquiatria, ao invés
de atacarem do lado de fora (muitas
vezes de forma histérica, e
aí concordo com o Marco Aurélio),
o que levou a uma divisão entre
nós.
Acho sem sentido o movimento antimanicomial,
como teria sido um movimento anti-sanatórios
de tuberculosos. Eles acabaram porque
a medicina evoluiu.
Ainda hoje, é bastante alta
a incidência de reinternações
de doenças crônicas,
diabetes por exemplo, nos hospitais
gerais. São pessoas que procuram
agravar suas doenças em casa,
para retornarem ao hospital, onde
terão mais conforto e não
se sentirão sozinhas. Penso
que isto só irá desaparecer
com a mudança sócio-econômica-cultural
de nosso povo e avanços na
assistência, como um Programa
Saúde da Família, e
não com mais um movimento anti-hospitais.
A Unidade Psiquiátrica no Hospital
Geral é, sem dúvida,
uma boa alternativa, e vem se mostrando
eficiente. A propósito, a que
temos aqui funcionando, foi implantada
em 1975, pelo Psiquiatra Fernando
Velloso, e nada tem a ver com a Lei
Carlão.
O que não consigo entender
é a permanência dos chamados
hospitais de crônicos que são
aberrações na psiquiatria.
Gostaria de comentar sobre o CERSAM.
Também uma boa idéia,
mas pelo que sei, foi implantado de
forma equivocada. Temos visto no Ambulatório
Bias Fortes do HC alguns pacientes
muito mal conduzidos quanto a diagnóstico
e terapêutica, que lá
se tratavam.
Parece que a filosofia do serviço
é que o paciente, ao chegar,
será atendido por um profissional,
não necessariamente um psiquiatra,
e este profissional irá conduzir
o caso. Solicitará o psiquiatra
se achar necessário. Nada mais
democrático, mas também
irresponsável. É de
responsabilidade do médico
o exercício da medicina, e
ele não pode deixar para outros
profissionais, por mais competentes
que sejam, a condução
do tratamento. O trabalho em equipe
interdisciplinar é a forma
mais adequado do atendimento médico,
mas o médico continua sendo
o responsável pelo doente.
Claro que não estou falando
de sofrimento psíquico, que
é uma condição
que todos nós vivemos, mas
de doença.
JMP: O que você
pensa dos seguintes equipamentos terapêuticos:
internação hospitalar,
ECT, psicocirurgia?
Gostaria de ouvir sua opinião
sobre a lei da Reforma Psiquiátrica
que passou no Parlamento e foi sancionada
pelo Presidente da República
e a Lei Carlão.
Ronan
Rego: Roland Khun nos deu
a Imipramina, e a seguir surgiram
todos os antidepressivos, que são
hoje considerados os medicamentos
mais importantes depois dos antibióticos.
Delay, a clorpromazina, e hoje, chegamos
aos neurolépticos atípicos.
Isto colocou milhares de pacientes
fora dos hospitais.
Jaspers e Schneider nos deram um método
para entendermos o que é e
o que não é uma doença
mental.
E quem são os senhores Carlão
e Paulo Delgado? Para mim são
estranhos que se intrometem em uma
ciência para a qual não
se prepararam. Querem nos cercear,
no exercício de nossa profissão,
dizendo quando e onde podemos internar
e que métodos terapêuticos
podemos usar. Como se sentiriam nossos
colegas cardiologistas se surgisse
uma lei proibindo a eletroconversão?
É direito e dever dos nossos
parlamentares verificar a qualidade
do ensino na nossa especialidade,
a ética no exercício
da profissão, a condição
de trabalho e remuneração
dos psiquiatras, os lucros exorbitantes
da indústria farmacêutica.
Outra coisa que eles poderiam contribuir
é averiguar esta coisa maravilhosa
que está acontecendo, que é
a distribuição de antipsicóticos
atípicos. Não sou contra
estes medicamentos e muito menos a
sua distribuição, mas
sim ao fato de faltarem medicamentos
baratos e tão necessários
como os antidepressivos tricíclicos
e genéricos da linha dos IRSS.
Às vezes fico pensando se não
seria melhor tomar haloperidol e ter
uma casinha para morar, do que receber
a cada mês o equivalente a dois
ou três salários mínimos
em medicamentos e morar debaixo da
ponte. Acho que eles têm coisas
mais importantes para cuidar!
JMP:
Como você percebe o
ensino psiquiátrico mineiro?
Se possível, comente as diversas
residências psiquiátricas
do Estado.
Ronan:
Conheço bem a Residência
do IPSEMG onde fui preceptor por vinte
anos, e a do HC-UFMG, onde estou há
cinco. As dezenas de residentes com
quem tive contato foram, em sua maioria,
pessoas interessadas, responsáveis
e com vontade de aprender. Tiveram
que conviver com professores empenhados
e comprometidos com a Residência,
mas na maioria, sem uma formação
específica para o ensino. Pelo
retorno que venho tendo, saíram
com boa iniciação para
o exercício da psiquiatria.
A minha impressão, a partir
de contato com ex-residentes da Residência
do Raul Soares, é que ela deixa
a desejar, no que se refere à
parte médica da Psiquiatria.
JMP:
O que você pensa da atual AMP?
E da Associação dos
Acadêmicos recém-fundada?
Compare as duas.
Ronan:
Penso que a AMP, dos últimos
anos, não representa o pensamento
da maioria dos psiquiatras mineiros.
A diretoria atual tem mostrado, ultimamente,
algum interesse em Clínica
Psiquiátrica, mas sabemos que
o interesse primordial deles não
é este.
Trata-se de um grupo minoritário,
mas muito bem articulado. Se estão
no comando há anos, é
pela competência política
deles, e pela passividade da maioria,
que fica apenas lamentando de longe.
Quanto à Associação
dos Acadêmicos, da qual também
sou associado, é uma nova opção
que possibilita a aglutinação
em torno de temas psiquiátricos.
O nome da Associação,
para mim, sugere elitismo, mas nada
impede que ele possa ser revisto.
Parece-me, também, que o estatuto
ainda é fechado, privilegiando
os professores.
JMP:
O que você pensa do fato de
90% dos colegas psiquiatras não
terem freqüentado o último
Congresso Mineiro de Psiquiatria?
Ronan:
Isto parece confirmar o fato da AMP
não representar a maioria dos
psiquiatras.
Uma pergunta então se impõe:
onde está essa maioria? |