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ano VIII - edição 20 - belo horizonte - mg

Editorial - Novo??? (Por Humberto Campolina)

NOVO???

Por Humberto Campolina

(A única novidade é o Hollywood com filtro.” Rubem Braga, nos idos anos 60)

  O grupo que detém o poder atual na Associação Mineira de Psiquiatria (e, de resto, em toda a psiquiatria mineira) já o faz há longos 15 anos. Em uma das “eleições” (as aspas se devem ao fato de que, exceto uma vez, todos os sufrágios foram à base de candidatura única) a chapa oficial se autodenominou “Entre Nós”; assim, ao tentar fazer um trocadilho tipicamente lacaniano (uma das doutrinas que norteiam esses companheiros de viagem), na verdade conseguiu cometer um ato falho antológico. Entre Nós, ou seja, entre eles – sempre.

   Os Entre Nós foram os únicos responsáveis pela organização do Congresso Brasileiro de Psiquiatria de 1996. Na ocasião, para profundo desgosto do grupo, escrevi um artigo no principal jornal do Estado denunciando as intenções antipsiquiátricas do evento encerradas em um cavalo-de-tróia que denominavam “Interlocução” (palavra inspirada no pós-estruturalismo francês). O título do meu trabalho não poderia ser outro: “Presente de Grego”.

   Coincidência ou não, nunca mais houve outro congresso brasileiro da especialidade em que membros da diretoria da Associação Brasileira de Psiquiatria não fizesse parte das comissões organizadora e científica.  É com esse esquema que o XXIII Congresso Brasileiro de Psiquiatria vem a Belo Horizonte, em 2005, intitulado “Diretrizes em Psiquiatria, Nova Clínica, Novas Instituições, Novas Intervenções”, denominação na qual – a lógica assim faz crer – não vejo as digitais dos membros da ABP da comissão organizadora.

   A primeira coisa que chama a atenção é a quantidade de vezes (três!) em que o termo “nova” aparece no título. Ao ler a publicação da AMP, O Risco, dedicado ao congresso, o que me veio à cabeça instantaneamente foi: “Como um grupo com a alma encharcada de Lacan, Foucault e Basaglia, autores que tiveram seus booms nos anos 60 do século passado, pode falar em “novo”?

   Deixemos de lado passagens pitorescas colhidas na referida publicação, tais como “Vivemos em um mundo insanamente moderno” (p. 7), seja lá o que isso signifique, ou “Em psiquiatria, como em filosofia grega, pensar é agir” (p. 8), que vale uma sugestão ao autor da frase para estudar mais filosofia grega, e ainda “Valorizemos a praça e a nossa velha roça onde repousamos da civilização” (p. 9), que soa como uma confissão de provincianismo, e “Muito de nossa loucura vem de sermos brasileiro” (p. 21), que sinceramente não entendi. Convido o leitor a um exercício de desvelamento do sonho novidadeiro dos Entre Nós.

   A mim me parece que esse grupo de (anti)psiquiatras nutre particular antipatia pelo DSM (“...por certo não deixaremos de dar umas boas gargalhadas ao pensarmos [nos] manuais de diretrizes diagnósticas...”, p. 2), pela ciência (“Entretanto, a teima obstinada na busca de se normatizar [a psiquiatria] em um modelo médico-científico acaba por limitá-la, provocando conseqüências desastrosas... ” p. 26), pelos hospitais psiquiátricos que o grupo equipara aos manicômios (“...o modelo manicomial mais arcaico, sob a forma de convênios públicos e privados com hospitais psiquiátricos”, p. 24; é notável que o autor dessa frase conte entre suas propriedades justamente... um hospital psiquiátrico!) e, last not least, estão enamorados de algo que chamam “ética” (“Esse modelo [médico-científico] não tem método para decidir sobre questões éticas e, em sua objetividade, exclui o sujeito” p. 26). Vamos pela ordem.

    É estranho como o DSM se tornou um Judas unânime (recentemente ouvi um psiquiatra biológico vociferando contra ele).  De minha parte, nada tenho contra esse projeto taxonômico. Apenas não o levo para dentro do meu consultório, onde se encontram, entre outros, Jaspers, Alonso-Fernandéz, Ibor, Ey, Freud, Frankl, Leme Lopes, Kaplan, Jung e Bion. Mas se rasgássemos o manual, o que faríamos com a massa de pesquisas (já imaginaram quantas centenas de milhares?) dos últimos vinte e tantos anos (caberiam na lixeira do genro do Lacan?) feitas e publicadas na esteira do DSM? Ademais, trata-se, como escrevi, de um projeto, ou seja, em vias de ser aperfeiçoado!

   Achar que a ciência exclui o sujeito, das duas uma: é ignorância ou má-fé. No primeiro caso comete-se equívoco típico de inteligências pouco sutis: confunde-se ciência com cientificismo. No segundo, bem... nesse caso prefiro abster-me de comentários.

   Quanto aos hospitais psiquiátricos, bastaria citar o exemplo da USP. Enquanto o governo municipal, sob orientação de antipsiquiatras, tem fechado leitos psiquiátricos, e assim privando os pobres do SUS de um equipamento terapêutico ético e, às vezes, absolutamente necessário (ao mesmo tempo em que os ricos se internam em clínicas extraordinárias, algumas no exterior), confinando-os em CAPS que vão aos poucos se transformando em mini-hospitais estatais desprovidos de infra-estrutura (já aparecem descritos os primeiros usuários crônicos de CAPS), em São Paulo o Hospital das Clínicas da USP inaugura um complexo para tratamento psiquiátrico, no qual está inserida uma unidade para internação equipada com 160 leitos, além de ambulatórios e hospital-dia. Imaginem a massa da população beneficiada, a quantidade de trabalhos científicos produzidos, etc...

   E por último a ética. Como falam em ética esses Entre Nós! E com que boca! Nesse O Risco custou-me achar uma página em que essa palavrinha não estivesse presente. Na p. 8, em sete linhas, lá está ela cinco vezes! Quase uma por linha! E o que querem significar com a danada? Como nunca o dizem claramente, sinto-me no direito de fazer hipóteses: trata-se de fetiche ou de instrumento hipnótico. Se o primeiro caso, deixo para o Freud o trabalho de explicar. O segundo, faz-me lembrar um certo partido político que muito se utilizou do termo para subir ao poder e, para dele não descer, faz pacto com os “éticos” Paulo Maluf, Orestes Quércia, Newton Cardoso, Sarney e ACM. Aguardo esclarecimento que me façam mudar essas hipóteses.

   Em meus artigos, tenho chamado a doutrina professada pelos Entre Nós de “neo-antipsiquiatria”. Peço perdão aos puristas por ter perpetrado tal palavrão (refiro-me à extensão do vocábulo...). E explico o apodo: a antipsiquiatria original, dos anos 60/70, de Laing, Cooper e caterva, possuía semelhantes cacoetes: era anticientífica, antimédica, antinosográfica e anti-hospitalar; asseveravam que ciência, médico, diagnóstico e hospital não tratavam dos doentes, apenas o oprimiam. Tais características induziam-na a uma ética peculiar: os indivíduos bem adaptados e ausentes de sintomas psiquiátricos são os verdadeiros insanos; os loucos (lá, como cá, utilizavam esse termo) seriam poetas excluídos pelo “sistema”, e ao antipsiquiatra caberia a missão messiânica de libertá-los. O que aconteceu em seguida era previsível (um antipsiquiatra alemão acabou na cadeia...), e é história. O que dificilmente se poderia prever é que mais de 30 anos depois, em outro século, em um país chamado Brasil, num Estado de nome Minas Gerais e em uma cidade com a formosa denominação de Belo Horizonte, um grupo de profissionais pretendesse seguir caminho tão pouco dessemelhante àquele daqueles tempos. E, ainda por cima, dessem a isso o qualificativo de “novo”! 

Post Scriptum:

 Parafraseando o velho Braga, a única novidade é a esperança de que o poder escape das mãos dos que caninamente o mantêm. Chama-se alternância do poder. Também conhecido por democracia. Mas nesses tempos, alguém ainda liga para isso?   

 Este artigo se atém a textos publicados, a fatos notórios ou sabidos e à experiência decorrente de 30 anos de lida na psiquiatria mineira. Em momento algum quer de referir a pessoas em suas vidas particulares ou profissionais. Esse assunto pouco interessa ao autor.

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