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ano VIII - edição 20 - belo horizonte - mg

Psicanálise

A Importância dos Fatores Quantitativos na
Estrutura da Matriz Arcaica

Mário Catão Guimarães

Introdução

O tema que vamos abordar é um tanto quanto árido. Começaremos por lembrar ao leitor de um trabalho de M. Klein (1969), em que trata das alegrias de um bebê se deleitando no seio materno, onde a nutrição e a libido se encontram numa associação feliz e prazerosa. Freud (1916-1918) descreve quadro semelhante. As coisas, porém, não são sempre assim. Há um interessante trabalho de Middlemore (1974) onde mostra as dificuldades que surgem entre os primeiro contatos entre mãe e filho e em várias situações vamos falar em Spitz (1970a), que também trata do tema. Seria útil citar o trabalho de Abranham (1924a) sobre o erotismo oral, atuando sobre a formação do caráter e, como final, lembramos o excelente trabalho de Fairbairn (1940) sobre as bases esquizóides da personalidade.
Predominância
O predomínio de uma emoção sobre a outra é encontrado em inúmeros autores. A idéia do predomínio emocional pode ser vista como conseqüência dos mais variados fatores, mas ela também pode ser vista como causa ou fator importante na configuração das psiconeuroses e outras patologias. É o predomínio de um aspecto emocional sobre os outros, ou de dois aspectos sobre uma outra emoção, que vai determinar, em grande parte, o formato de uma patologia qualquer.
Quando falamos que uma emoção predomina sobre a outra ou duas sobre uma terceira, não queremos dizer que estas outras deixaram de existir. A emoção excluída está em menor intensidade e tem pequena participação na patologia como um todo.
Em nosso trabalho anterior (Guimarães, 2004), demos ênfase à Associação dos aspectos instintivos e afetivos. Neste, nossa atenção vai recair sobre a quantidade dos mesmos e suas relações entre si.
Ao falarmos em predominância de uma emoção sobre a outra, nada mais razoável que determos no tema que se refere aos fatores ou situações que levam a variações afetivas. Estes fatores ou estas situações são, em geral, formadas ou constituídas por acontecimentos que fogem a uma rotina adequada.
Sobre a Procura do Aumento Relativo das Emoções
O amor (libido) pode não aumentar de maneira visível ou é difícil levantar suas causas de aumento ou diminuição, porém, o medo e o ódio, que têm um caráter de reação, permitem que se fale de aumento ou diminuição em função das mais variadas causas ou circunstâncias. Já falamos, anteriormente, que enquanto Eros tem caráter de necessidade, Hórus e Tânatos têm caráter reativo (Guimarães, 2004).
Uma pergunta que se pode fazer é a seguinte:
Desenvolveria, aumentaria ou diminuiria a libido a partir de bons contatos, maus contatos ou ausência de contatos?
Em função de estímulos, as emoções poderiam aumentar ou diminuir no período de desenvolvimento inicial?
Assim como os estímulos físicos desenvolvem as estruturas nervosas, estímulos emocionais seriam desenvolvidos de modo semelhante?
A todas estas perguntas, a resposta pode ser afirmativa, apesar de sabermos de sua insuficiência.
Causas do Aumento do Medo
O que vamos dizer deve ser entendido desde o período pré-objetal. A dor constante ou experiências dolorosas demoradas são geradoras de medo. A crise de dor, dor aguda ou de pequena duração, é geradora do susto.
Quando falamos em experiências demoradas, desagradáveis e dolorosas, nos lembramos do caso de uma criança que nasceu, começou a chorar e continuou chorando pelo período de dois meses. Após dois meses, foi feito o diagnóstico de fratura de bacia, por intermédio de radiografias. Podemos imaginar que esta criança viveu, por dois meses, em estado de pânico. Para uma criança, o fator mais importante para desencadear o medo, seja ele de pequena ou grande intensidade, é a dor física.
Uma criança até os três meses de idade (entenda ou considere o dado de modo aproximado ou próximo à média) não tem clara noção do mundo externo. A vivência de susto, medo ou que seja pânico é uma vivência interna e sem condições de ser atribuída a nada ou a ninguém.
A solidão, reforço concreto da sensação de desamparo, seria outra importante causa do aumento do medo.
Iniciado o período em que tem início a formação dos objetos, além do que já apontamos, as causas que provocam o medo são inúmeras, mas de difícil sistematização. Claro que os objetos têm a participação mais importante (Barangler, 1971).
Para concluir, cabe-nos dizer que não apresentaremos exemplo de um psicanalista que mostra a estreita relação entre medo e dor. Vamos nos deter apenas no aspecto institucional; a Inquisição e os torturadores modernos ligados a Instituições detentoras do poder são exemplos que atestam que a dor é a grande geradora do medo (Gaspari, 2003).
Causas do aumento da agressividade
Qualquer fator incômodo, irritante ou frustrante é gerador do aumento do ódio. Enfim, qualquer situação desagradável ou de desconforto, por exemplo, muito calor ou muito frio, etc., pode ser geradora do aumento da emoção de ódio.
É desnecessário dizer que um fator, para ter influência no aumento de uma emoção ou instinto, precisa atuar com determinada intensidade e duração.
Fome
Tem importância no que se refere às três emoções. Atua no amor (sexualidade) porque é sobre a nutrição que a libido se apóia. Sobre a forme como geradora ou fator responsável pelo aumento da agressividade (ódio), diremos que, se ela tem o significado de frustração oral de pequena intensidade e não tem implicações no aspecto nutricional, ela é geradora de sentimentos de ódio. Nas ocasiões, porém, em que ela tem implicações nutricionais evidentes, atingindo o fundo endotímico vital, ela atua sobre o instinto de conservação individual e torna-se geradora de medo.
É claro que se partirmos da hipótese organicista ou constitucionalista, tudo ficaria de certo modo simplificado e não estaríamos perdendo nosso tempo e nem impacientando o leitor. Porém, mesmo que tenhamos em mãos uma perfeita medida das quantidades instintivas e afetivas, obtidas através de dados genéticos ou hereditários completos, estaríamos de posse de um importante componente das matrizes arcaicas, mas não estaríamos com a total solução do problema.
O fator quantitativo ou predominância tem, isoladamente, em determinadas circunstâncias, um valor decisório. É o caso da fobia e da histeria, afecções em que há presença das emoções de amor e medo, no que se refere à associação emocional. O que vai decidir a estrutura da matriz arcaica será o fator quantitativo. Na fobia, há predominância do medo sobre o amor. Na histeria, há predominância do amor sobre o medo.
Outro exemplo: um certo tipo de sadismo que pode ser até socialmente tolerável tem, na outra ponta, o Serial Killer. O que vai decidir o que é um ou outro é a grande predominância do ódio sobre a libido, nesta última categoria. O fator agressividade tem grande importância para a normalidade do indivíduo. Freud (1892-1938) chega a dizer que se houver falta do componente agressivo, o indivíduo se tornará sexualmente impotente.
Vamos repetir que os fatores quantitativos relativos aos aspectos instintivos e afetivos, apesar de terem importante papel na estruturação de uma patologia, nem sempre, ou isoladamente, tem participação decisória nesta estruturação.
Os aspectos instintivos e afetivos além de sua participação quantitativa têm, também, que ser considerados sobre o ponto de vista funcional, conforme se verá no evoluir do texto.
Como exemplo, vamos citar a emoção de medo, que, se for intensa, vai impedir a progressão do indivíduo de uma fase para a outra e, logicamente, será responsável pelas fixações. Esta emoção, tendo valor importante nas fixações, vai influir no processo evolutivo da criança.
Existe uma correspondência entre as emoções primárias, amor e ódio e medo e os aspectos mais complexos da afetividade. O melhor modo de ver a correspondência é através de pares contraditórios desta afetividade mais complexa. Confiança, desconfiança, otimismo, pessimismo, coragem, covardia e muitos outros.
Então, pelo estudo ou encontro do aumento ou diminuição das emoções complexas, estaríamos avaliando o grau ou a intensidade das emoções primárias.
Desconfiança e Otimismo
Desconfiança – Traço predominante no adulto que teve uma péssima fase pré-objetal. Espera o pior das pessoas e diríamos que houve predominância do pânico primário. No caso do otimismo, temos que supor que atrás dele está a emoção de amor predominando sobre a de ódio.
Se os acontecimentos (agradáveis ou desagradáveis) surgem no período pré-objetal, muito provavelmente a criança vai entrar em contato com o mundo exterior com o que se pode chamar de expectativas otimistas ou pessimistas, de confiança ou desconfiança frente aos objetos.
Importa ainda dizer que a expectativa positiva ou otimista dirige o indivíduo para a normalidade, enquanto que a expectativa pessimista ou negativa delineia sinais de graves anormalidades.
Por trás da expectativa otimista está o amor e tudo relativo ao agradável. Atrás da expectativa pessimista, ao contrário, está o medo, o ódio e tudo relativo ao desagradável.
As expectativas, otimistas ou pessimistas, já se formam no período pré-objetal e vão logicamente determinar a qualidade das relações de objeto.
A importância da expectativa negativa, por exemplo, na estruturação ou como fator de estruturação de uma patologia ou traço de caráter, pode ser encontrado na esquizoidia, mas, sobre este tema, melhor é ver Fairbairn (1940) no texto fatores esquizóides na personalidade e Kretschmer (1967) sobre personalidade esquizóide.
O que foi dito anteriormente tem valor relativo ou pouco acrescenta ao tema valores quantitativos e estava, de certo modo, no terreno das hipóteses. Um trabalho de Abraham (1924) sobre o erotismo oral na formação do caráter nos permite sair do terreno hipotético. Neste trabalho, nos interessou, de modo especial, o tópico relativo ao otimismo.
Abraham diz que, se no período de sucção (1ª fase oral) não ocorrer nenhuma perturbação e for altamente agradável (prazerosa), as pessoas que estiveram nesta situação trazem consigo uma convicção arraigada de que tudo correrá bem. Enfrentam a vida com otimismo imperturbável e isto lhes ajuda a conseguir seus propósitos. Outro grupo, em total contraste com o anterior, enfrenta a vida com melancólica seriedade que se transforma em marcado pessimismo. São pessoas ansiosas ante a vida, destacam sempre o pior das coisas e encontram dificuldades na execução de tarefas as mais simples. Este grupo pertence ao daquelas pessoas que tiveram decepção em seus desejos orais. Em cima dos dados fornecidos por Abraham, nos ocorreu a seguinte pergunta:
Como seria um indivíduo que ora tivesse um tratamento igual ao primeiro (adequado) e que este tratamento fosse alternado, no mesmo dia ou horas depois, por um tratamento inadequado igual ao segundo e que esta situação se repetisse por um mês, dois e por aí vai? O resultado deste tipo de tratamento só poderia levar a criança a um tipo de expectativa que se pode chamar de desconcertante ou duvidosa.
É usual, frente a situações opostas como as fornecidas por Abraham, introduzir uma infinidade de graduações entre as mesmas. Resolvi fugir a este esquema e introduzir um novo tipo, provocando a ruptura de um padrão. Este novo tipo de atendimento seria aquele que levaria a uma reação que chamei de desconcertante.
Seria lógico supor que as relações objetais neste indivíduo se formariam também de maneira alternada, isto é, ora a criança sente amor e ora sente ódio em relação ao mesmo objeto. Apressadamente, poder-se-ia pensar que aí está a raiz da ambivalência. Não, meu caro leitor. Aí está a raiz da dúvida primitiva.
O leitor poderia estar percebendo uma certa obscuridade nos últimos parágrafos. Vamos tentar clarear as coisas. Estávamos tratando das expectativas otimistas e pessimistas ou do otimismo e do pessimismo. Estes dois aspectos afetivos, que no fundo são indicadores de expectativas, são resultado de uma seqüência ou de um conjunto de acontecimentos, tais como:
Atendimento adequado, feito a tempo e a hora, seja com mamadeira ou através do seio materno, em quantidade suficiente e carinhosamente, resulta em uma expectativa otimista.
Se tudo acontecer ao contrário do que foi dito acima, ou seja, tudo correr mal, isto resultará em uma expectativa pessimista.
Um terceiro modo (ou caso) seria aquele em que o atendimento ora seria adequado e ora seria inadequado. Geraria uma expectativa desconcertante.
A expectativa desconcertante surgiria no caso em que o bom atendimento, como já se disse acima, fosse alternado com um atendimento inadequado, por exemplo, fora do momento da fome ou às pressas ou com irritação por parte da mãe, etc.
Na categoria expectativa otimista, nota-se que a emoção predominante é o amor. Na categoria expectativa pessimista, percebe-se que há um misto de emoções: a emoção de ódio e de medo. No tipo de expectativa “desconcertante” ou duvidosa, diríamos que as emoções predominantes ou aparentes seriam ora o ódio e ora o amor.
Dentro da linha de selecionar tipos básicos, poderíamos ser tentados a dizer que indivíduos com expectativa otimista tenderiam ao tipo básico maníaco (com predominância do amor) e que os indivíduos com expectativa pessimista tenderiam para o “tipo básico esquizóide” (com predominância do ódio e do medo). Já a categoria expectativa “desconcertante” ou duvidosa e nas quais nota-se a presença ou predomínio do amor e do ódio, diríamos que este tipo está muito próximo à neurose obsessiva ou nos lembra a neurose obsessiva.
Com estes dados nos foi possível pensar igualmente se este tipo de formação, expectativa duvidosa mais as emoções de ódio e amor, não seria a raiz das relações objetais do neurótico obsessivo. Um relacionamento fundamentado na incerteza de ora amar ou ora odiar. A esta expectativa duvidosa gerada pela incerteza denominamos de dúvida primitiva. A dúvida primitiva associada às emoções de amor e ódio (ora amor, ora ódio) nos levou a supor se não estaria aí a raiz oral da neurose obsessiva e ainda: se a neurose obsessiva tiver uma raiz oral, provavelmente as demais neuroses e as outras patologias teriam também raiz nesta mesma fase. Daí para frente, resolvemos fixar nossa atenção, de modo especial, na fase oral e, como o leitor vai perceber, é a fase em que se estruturam as matrizes arcaicas.
A Matriz Arcaica
A matriz arcaica contém o gérmen da sintomatologia, ou seja, os elementos que vão gerar ou explicar, de modo lógico e racional, as manifestações sintomatológicas de uma patologia qualquer. Ela começa a se formar já desde os primeiros dias do nascimento e sua estrutura definitiva vai depender da soma de fatores que o lactente vai recebendo durante sua evolução e, por volta dos 8, 9, 10 meses, a matriz de todas as patologias já está completamente formada.
É claro que, nos meses seguintes ou nos anos seguintes, a matriz arcaica, que já se encontra inscrita no indivíduo, vai seguir pelo resto do desenvolvimento individual e sofrer os efeitos que a vida vai lhe provocar.
A matriz arcaica da neurose obsessiva é a dúvida primitiva associada ao predomínio das emoções de amor e ódio sobre o medo.
A partir destes três principais componentes será formado o quadro clínico desta neurose. Outros elementos poderão ser acrescidos a eles, por exemplo, a persistência do pensamento mágico.
Uma pequena estória
Suponhamos que um fiscal de uma entidade qualquer fosse avaliar três restaurantes. No primeiro foi muito bem atendido, a comida estava de primeira, a higiene perfeita, etc. Enfim, teve um ótimo atendimento em todos os dias em que foi ao restaurante. O restaurante foi aprovado.
No segundo estabelecimento, o fiscal foi atendido pessimamente em todos os dias de sua visita. Comida péssima, higiene precária, etc. O restaurante foi desaprovado.
No terceiro estabelecimento, o fiscal foi muito bem tratado e tudo estava de primeira qualidade, no primeiro dia de visita. No segundo dia de visita ao mesmo estabelecimento, foi muito mal tratado e tudo estava com péssima qualidade. No terceiro dia de visita ao mesmo restaurante, tudo correu muito bem. Foi muito bem tratado, a comida estava excelente, a higiene perfeita. Nos dias subseqüentes, a história se repetiu. Era impossível estabelecer um padrão de qualidade, mas, por questão de justiça, não poderia assinalar nem aprovado e nem desaprovado. Imaginem, então, um lactente em situação semelhante.
Com receio de não termos sido claros, voltemos a Abraham:
Os elementos fornecidos por Abraham, com base em casos que foram analisados com profundidade e que permitiriam chegar à expectativa otimista e à expectativa pessimista, são os mesmos elementos que determinam as relações objetais de amor e ódio. Resumindo:
O tipo de atendimento que leva à situação de otimismo é o mesmo que gera as relações objetais fundamentadas no amor.
Já a qualidade de atendimento que provoca situações de pessimismo é a mesma que desenvolve as relações objetais fundamentadas no ódio.
Está implícito, em ambas situações, a existência de um padrão temporal longo e a uniformidade em termos de qualidade de atendimento.
Do Inocente Cotidiano à Dúvida Primitiva
Na abordagem que segue, o leitor verá que é o fator tempo que influirá na qualidade do atendimento.
Um acontecimento que pode estar na rotina de qualquer mamífero e que pode ocorrer tanto no período pré-objetal como no período seguinte está ligado ao tempo em que o lactente humano é atendido, a partir do momento em que manifesta estar com fome.
O atendimento à solicitação da criança que, em geral, se manifesta por meio do choro, pode ser feito sem demora alguma, mas pode também ser feito com variável atraso e baseado em razões as mais diversas. Estes dois tipos de atendimento vão gerar resultados diferentes e que vamos chamar de expectativa positiva ou negativa dos acontecimentos.
Alguém poderia argumentar que esta situação, atendimento adequado alternado por um atendimento inadequado, é muito rara e só acontece com a mãe ambivalente. Nosso ponto de vista é exatamente outro. Vamos ver o que nos diz René Spitz (1970b), em sua obra El Primer Año de Vida Del Niño, abordando o tema relativo aos modos de como se pode fazer a amamentação.
Spitz, avisando que não falará nas inúmeras atitudes possíveis de diferentes mães, focaliza sua atenção sobre atitudes culturais neste processo. Nos Estados Unidos, durante o período que seguiu a Primeira Guerra Mundial, até 1935, o mau objeto estava acentuado pela intervenção do psicólogo Watson e do Behaviorismo. Naquela época, se alimentava a criança de peito seguindo um severo horário e com quantidades estabelecidas sem se preocupar se a criança estava satisfeita ou não. Ao mesmo tempo, se aconselhava às mães que não mimassem os filhos e se abstivessem de acariciá-los (pág. 58 e segs.).
Esta história em proporções menos drásticas continua até hoje.
Os pediatras são responsáveis, em parte, por este fato, com o hábito de prescrever mamadas de tantas em tantas horas, como se faz com as prescrições de gotas medicamentosas.
Um bando de mães seguindo à risca estas prescrições geraria uma legião de neuróticos obsessivos.
Sabe-se que, até por comodidade, o horário rígido das mamadas é seguido à risca.
Com este comportamento ou com esta prática, ter-se-á a chance matemática de em 50% das vezes fazer o atendimento adequado e em 50% de não fazê-lo.
Isso configura novamente o que estamos chamando de alternância do padrão de atendimento que é geradora de incerteza. O atendimento da necessidade oral da criança será feito ora de maneira adequada, ora de maneira inadequada.
Caso o leitor concorde com esta versão da neurose obsessiva, vai ver que inúmeras explicações sobre esta neurose vão sofrer significativas alterações, embora os aspectos clínicos ou sintomatológicos permaneçam constantes.
A matriz arcaica da neurose obsessiva é constituída pela dúvida primitiva associada às emoções de amor e ódio em caráter predominante sobre o medo. Na neurose obsessiva o fator dúvida é muito importante, pois a criança é uma pessoa extremamente dependente do objeto (mãe). A dúvida de uma criança é muito diferente da de um adulto independente. Na criança, ela é vital. Não se pode odiar ou é perigoso ou penoso odiar alguém de quem se depende totalmente, por se tratar de uma questão de sobrevivência. Mas também é difícil amar de modo incondicional alguém que merece ou faz por ser odiado.
Os dados fornecidos por Spitz nos mostram que a mistura ou alternância de um atendimento adequado e inadequado é muito mais freqüente do que se pensa. Baseando-nos neste fato, podemos afirmar que a neurose obsessiva foi muito mais freqüente entre os Norte-Americanos do que entre os Brasileiros, considerando os nascidos no período mencionado.
Spitz nos permite perceber que alternância entre o atendimento adequado e o inadequado pode estar inserido dentro de um inocente cotidiano. Como se pode ver neste caso, o aspecto temporal ficou reduzido a um dia, ou melhor, a horas. Este acontecimento vai configurar o que estamos chamando de alternância do padrão de atendimento, gerador da dúvida primitiva.
Pensamento Mágico
Em decorrência da alternância gratificação frustração, a criança fica de frente a um jogo em que a margem de acerto e erro está em torno de 50%. Este tipo de acontecimento, o jogo, acaba por desenvolver na criança, de modo arraigado, o hábito do pensamento mágico iniciado através de atos rudimentares e pensamentos rudimentares, com o intuito de conseguir a gratificação almejada, que, no presente caso, é saciar a fome.
Poderíamos acrescentar à matriz arcaica da neurose obsessiva o uso abusivo ou compulsivo do pensamento mágico.
Há necessidade de se discutir sobre o mau atendimento e o atendimento que gera a noção de realidade.
Freud fala que a noção de realidade surge em crianças mais velhas (Brenner, 1969).
Vários autores falam na importância da dosagem do atendimento.
O simples fato de que o atendimento de um bebê nem sempre surge a tempo e a hora, por fatores mais variados, pode dar a noção de realidade. O que acreditamos que vai gerar problemas entre amar e odiar é uma atitude rígida, partindo de um pressuposto correto ou adequado, alimentado às vezes por forte componente agressivo por parte da mãe em relação ao bebê e com caráter sistemático.
Também não acreditamos na tentativa consciente de dosagem do bom ou do mau atendimento, conforme preconizam Abraham (1924a) e Spitz (1970a), para evitar o crescimento de uma criança sem garra – medida que julgamos ser tão verdadeira quanto inócua, por crermos na impossibilidade de alguém conseguir fazer esse tipo de dosagem.
O Desenlace
No desenlace, não está em pauta aumento ou diminuição de aspectos afetivos. O que existe é a ruptura de um padrão emocional já estabelecido por alguns meses ou em um determinado período de tempo.
O desenlace engloba a separação ou a perda do objeto de amor, sendo estes dois aspectos de importância capital no que se refere aos futuros transtornos do humor.
A separação tem ou pode ter o caráter provisório, enquanto que a perda tem um desfecho definitivo.
O desenlace é o resultado da ruptura de um padrão já estabelecido durante um determinado período relativamente longo ou constante e que, de um momento para o outro, é interrompido, dando lugar a um outro padrão também com o caráter de maior duração ou constância. O desenlace pode ter dois tipos de evolução ou término: ou se trata de um desenlace no sentido catastrófico ou pode ser um desenlace feliz.
É o caso de um bebê bem nutrido e amado pela mãe nos primeiros meses e, de repente, o leite seca, a mãe tem uma brutal infecção mamária, ou que entra em profunda depressão, ou que seja acidentada e se afaste do bebê em razão de hospitalização, ou que morra por um meio qualquer. São infinitas as possibilidades de que haja uma interrupção de um curso que era promissor para o bebê e que foi cortado por uma razão qualquer.
Rocha (1999), em um completo trabalho sobre depressão no puerpério, aborda as conseqüências danosas sobre crianças que viveram a ausência da mãe em virtude de depressões graves e que provocaram o inevitável afastamento por razão de internações. Spitz (1970c) trata do tema e Freud (1916) e Abraham (1024b) mostram sua conexão com os estados depressivos e maníacos depressivos.
Finalização
Do ponto em que estamos, temos dois caminhos a seguir: ou partimos para o tema relações objetais, ou para o tema fixações. Após a abordagem destes temas, já estaremos em condições de tratar, de modo mais específico, das matrizes arcaicas.
Para não dar ao leitor a impressão de que isto é novela mexicana, já podemos adiantar que se pode fazer a montagem das matrizes arcaicas com base nos elementos já apontados: as associações emocionais, o fator predominância ou fator quantitativo, a dúvida primitiva e os desenlaces.
Vamos apresentar, a seguir, exemplos de algumas matrizes arcaicas:
1 – Histeria – Predominância do amor (libido) sobre a emoção do medo. Fixação narcisística da libido em sua modalidade corporal difusa, iniciada no período pré-objetal.
2 – Fobia – Predomínio do medo sobre o amor e o ódio. Fixação no objeto parcial, situada no período de formação dos objetos.
3 – Doença do Pânico – Presença do medo instalado no período pré-objetal. Predominância do medo sobre as emoções de amor e ódio.
4 – Neurose Obsessiva – Dúvida primitiva associada ao conjunto emocional predominante, amor e ódio, sem característica de amálgama. Presença da emoção de medo. Uso abusivo do pensamento mágico.
5 – Normal – Predomínio do amor sobre as emoções de ódio e medo. Ausência de fixações no período arcaico. Adequada ligação amorosa com o objeto total.
6 – Depressão – Predominância do amor e do ódio sobre a emoção de medo. Adequada ou satisfatória evolução emocional de natureza amorosa no período da formação das relações de objeto, seguido de ocorrência de desenlace infeliz.
Com estes exemplos, o leitor já pode testar as importantes alterações que vão ocorrer na interpretação do universo sintomatológico de cada patologia.
O tema matrizes arcaicas ficará inteiramente concluído mediante a apresentação do próximo texto intitulado Introdução ao Estudo das Matrizes Arcaicas: Um novo enfoque psicanalítico e psicopatológico.

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