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A Importância
dos Fatores Quantitativos na
Estrutura da Matriz Arcaica
Mário
Catão Guimarães
Introdução
O tema
que vamos abordar é um tanto
quanto árido. Começaremos
por lembrar ao leitor de um trabalho
de M. Klein (1969), em que trata das
alegrias de um bebê se deleitando
no seio materno, onde a nutrição
e a libido se encontram numa associação
feliz e prazerosa. Freud (1916-1918)
descreve quadro semelhante. As coisas,
porém, não são
sempre assim. Há um interessante
trabalho de Middlemore (1974) onde
mostra as dificuldades que surgem
entre os primeiro contatos entre mãe
e filho e em várias situações
vamos falar em Spitz (1970a), que
também trata do tema. Seria
útil citar o trabalho de Abranham
(1924a) sobre o erotismo oral, atuando
sobre a formação do
caráter e, como final, lembramos
o excelente trabalho de Fairbairn
(1940) sobre as bases esquizóides
da personalidade.
Predominância
O predomínio de uma emoção
sobre a outra é encontrado
em inúmeros autores. A idéia
do predomínio emocional pode
ser vista como conseqüência
dos mais variados fatores, mas ela
também pode ser vista como
causa ou fator importante na configuração
das psiconeuroses e outras patologias.
É o predomínio de um
aspecto emocional sobre os outros,
ou de dois aspectos sobre uma outra
emoção, que vai determinar,
em grande parte, o formato de uma
patologia qualquer.
Quando falamos que uma emoção
predomina sobre a outra ou duas sobre
uma terceira, não queremos
dizer que estas outras deixaram de
existir. A emoção excluída
está em menor intensidade e
tem pequena participação
na patologia como um todo.
Em nosso trabalho anterior (Guimarães,
2004), demos ênfase à
Associação dos aspectos
instintivos e afetivos. Neste, nossa
atenção vai recair sobre
a quantidade dos mesmos e suas relações
entre si.
Ao falarmos em predominância
de uma emoção sobre
a outra, nada mais razoável
que determos no tema que se refere
aos fatores ou situações
que levam a variações
afetivas. Estes fatores ou estas situações
são, em geral, formadas ou
constituídas por acontecimentos
que fogem a uma rotina adequada.
Sobre a Procura do Aumento Relativo
das Emoções
O amor (libido) pode não aumentar
de maneira visível ou é
difícil levantar suas causas
de aumento ou diminuição,
porém, o medo e o ódio,
que têm um caráter de
reação, permitem que
se fale de aumento ou diminuição
em função das mais variadas
causas ou circunstâncias. Já
falamos, anteriormente, que enquanto
Eros tem caráter de necessidade,
Hórus e Tânatos têm
caráter reativo (Guimarães,
2004).
Uma pergunta que se pode fazer é
a seguinte:
Desenvolveria, aumentaria ou diminuiria
a libido a partir de bons contatos,
maus contatos ou ausência de
contatos?
Em função de estímulos,
as emoções poderiam
aumentar ou diminuir no período
de desenvolvimento inicial?
Assim como os estímulos físicos
desenvolvem as estruturas nervosas,
estímulos emocionais seriam
desenvolvidos de modo semelhante?
A todas estas perguntas, a resposta
pode ser afirmativa, apesar de sabermos
de sua insuficiência.
Causas do Aumento do Medo
O que vamos dizer deve ser entendido
desde o período pré-objetal.
A dor constante ou experiências
dolorosas demoradas são geradoras
de medo. A crise de dor, dor aguda
ou de pequena duração,
é geradora do susto.
Quando falamos em experiências
demoradas, desagradáveis e
dolorosas, nos lembramos do caso de
uma criança que nasceu, começou
a chorar e continuou chorando pelo
período de dois meses. Após
dois meses, foi feito o diagnóstico
de fratura de bacia, por intermédio
de radiografias. Podemos imaginar
que esta criança viveu, por
dois meses, em estado de pânico.
Para uma criança, o fator mais
importante para desencadear o medo,
seja ele de pequena ou grande intensidade,
é a dor física.
Uma criança até os três
meses de idade (entenda ou considere
o dado de modo aproximado ou próximo
à média) não
tem clara noção do mundo
externo. A vivência de susto,
medo ou que seja pânico é
uma vivência interna e sem condições
de ser atribuída a nada ou
a ninguém.
A solidão, reforço concreto
da sensação de desamparo,
seria outra importante causa do aumento
do medo.
Iniciado o período em que tem
início a formação
dos objetos, além do que já
apontamos, as causas que provocam
o medo são inúmeras,
mas de difícil sistematização.
Claro que os objetos têm a participação
mais importante (Barangler, 1971).
Para concluir, cabe-nos dizer que
não apresentaremos exemplo
de um psicanalista que mostra a estreita
relação entre medo e
dor. Vamos nos deter apenas no aspecto
institucional; a Inquisição
e os torturadores modernos ligados
a Instituições detentoras
do poder são exemplos que atestam
que a dor é a grande geradora
do medo (Gaspari, 2003).
Causas do aumento da agressividade
Qualquer fator incômodo, irritante
ou frustrante é gerador do
aumento do ódio. Enfim, qualquer
situação desagradável
ou de desconforto, por exemplo, muito
calor ou muito frio, etc., pode ser
geradora do aumento da emoção
de ódio.
É desnecessário dizer
que um fator, para ter influência
no aumento de uma emoção
ou instinto, precisa atuar com determinada
intensidade e duração.
Fome
Tem importância no que se refere
às três emoções.
Atua no amor (sexualidade) porque
é sobre a nutrição
que a libido se apóia. Sobre
a forme como geradora ou fator responsável
pelo aumento da agressividade (ódio),
diremos que, se ela tem o significado
de frustração oral de
pequena intensidade e não tem
implicações no aspecto
nutricional, ela é geradora
de sentimentos de ódio. Nas
ocasiões, porém, em
que ela tem implicações
nutricionais evidentes, atingindo
o fundo endotímico vital, ela
atua sobre o instinto de conservação
individual e torna-se geradora de
medo.
É claro que se partirmos da
hipótese organicista ou constitucionalista,
tudo ficaria de certo modo simplificado
e não estaríamos perdendo
nosso tempo e nem impacientando o
leitor. Porém, mesmo que tenhamos
em mãos uma perfeita medida
das quantidades instintivas e afetivas,
obtidas através de dados genéticos
ou hereditários completos,
estaríamos de posse de um importante
componente das matrizes arcaicas,
mas não estaríamos com
a total solução do problema.
O fator quantitativo ou predominância
tem, isoladamente, em determinadas
circunstâncias, um valor decisório.
É o caso da fobia e da histeria,
afecções em que há
presença das emoções
de amor e medo, no que se refere à
associação emocional.
O que vai decidir a estrutura da matriz
arcaica será o fator quantitativo.
Na fobia, há predominância
do medo sobre o amor. Na histeria,
há predominância do amor
sobre o medo.
Outro exemplo: um certo tipo de sadismo
que pode ser até socialmente
tolerável tem, na outra ponta,
o Serial Killer. O que vai decidir
o que é um ou outro é
a grande predominância do ódio
sobre a libido, nesta última
categoria. O fator agressividade tem
grande importância para a normalidade
do indivíduo. Freud (1892-1938)
chega a dizer que se houver falta
do componente agressivo, o indivíduo
se tornará sexualmente impotente.
Vamos repetir que os fatores quantitativos
relativos aos aspectos instintivos
e afetivos, apesar de terem importante
papel na estruturação
de uma patologia, nem sempre, ou isoladamente,
tem participação decisória
nesta estruturação.
Os aspectos instintivos e afetivos
além de sua participação
quantitativa têm, também,
que ser considerados sobre o ponto
de vista funcional, conforme se verá
no evoluir do texto.
Como exemplo, vamos citar a emoção
de medo, que, se for intensa, vai
impedir a progressão do indivíduo
de uma fase para a outra e, logicamente,
será responsável pelas
fixações. Esta emoção,
tendo valor importante nas fixações,
vai influir no processo evolutivo
da criança.
Existe uma correspondência entre
as emoções primárias,
amor e ódio e medo e os aspectos
mais complexos da afetividade. O melhor
modo de ver a correspondência
é através de pares contraditórios
desta afetividade mais complexa. Confiança,
desconfiança, otimismo, pessimismo,
coragem, covardia e muitos outros.
Então, pelo estudo ou encontro
do aumento ou diminuição
das emoções complexas,
estaríamos avaliando o grau
ou a intensidade das emoções
primárias.
Desconfiança e Otimismo
Desconfiança – Traço
predominante no adulto que teve uma
péssima fase pré-objetal.
Espera o pior das pessoas e diríamos
que houve predominância do pânico
primário. No caso do otimismo,
temos que supor que atrás dele
está a emoção
de amor predominando sobre a de ódio.
Se os acontecimentos (agradáveis
ou desagradáveis) surgem no
período pré-objetal,
muito provavelmente a criança
vai entrar em contato com o mundo
exterior com o que se pode chamar
de expectativas otimistas ou pessimistas,
de confiança ou desconfiança
frente aos objetos.
Importa ainda dizer que a expectativa
positiva ou otimista dirige o indivíduo
para a normalidade, enquanto que a
expectativa pessimista ou negativa
delineia sinais de graves anormalidades.
Por trás da expectativa otimista
está o amor e tudo relativo
ao agradável. Atrás
da expectativa pessimista, ao contrário,
está o medo, o ódio
e tudo relativo ao desagradável.
As expectativas, otimistas ou pessimistas,
já se formam no período
pré-objetal e vão logicamente
determinar a qualidade das relações
de objeto.
A importância da expectativa
negativa, por exemplo, na estruturação
ou como fator de estruturação
de uma patologia ou traço de
caráter, pode ser encontrado
na esquizoidia, mas, sobre este tema,
melhor é ver Fairbairn (1940)
no texto fatores esquizóides
na personalidade e Kretschmer (1967)
sobre personalidade esquizóide.
O que foi dito anteriormente tem valor
relativo ou pouco acrescenta ao tema
valores quantitativos e estava, de
certo modo, no terreno das hipóteses.
Um trabalho de Abraham (1924) sobre
o erotismo oral na formação
do caráter nos permite sair
do terreno hipotético. Neste
trabalho, nos interessou, de modo
especial, o tópico relativo
ao otimismo.
Abraham diz que, se no período
de sucção (1ª fase
oral) não ocorrer nenhuma perturbação
e for altamente agradável (prazerosa),
as pessoas que estiveram nesta situação
trazem consigo uma convicção
arraigada de que tudo correrá
bem. Enfrentam a vida com otimismo
imperturbável e isto lhes ajuda
a conseguir seus propósitos.
Outro grupo, em total contraste com
o anterior, enfrenta a vida com melancólica
seriedade que se transforma em marcado
pessimismo. São pessoas ansiosas
ante a vida, destacam sempre o pior
das coisas e encontram dificuldades
na execução de tarefas
as mais simples. Este grupo pertence
ao daquelas pessoas que tiveram decepção
em seus desejos orais. Em cima dos
dados fornecidos por Abraham, nos
ocorreu a seguinte pergunta:
Como seria um indivíduo que
ora tivesse um tratamento igual ao
primeiro (adequado) e que este tratamento
fosse alternado, no mesmo dia ou horas
depois, por um tratamento inadequado
igual ao segundo e que esta situação
se repetisse por um mês, dois
e por aí vai? O resultado deste
tipo de tratamento só poderia
levar a criança a um tipo de
expectativa que se pode chamar de
desconcertante ou duvidosa.
É usual, frente a situações
opostas como as fornecidas por Abraham,
introduzir uma infinidade de graduações
entre as mesmas. Resolvi fugir a este
esquema e introduzir um novo tipo,
provocando a ruptura de um padrão.
Este novo tipo de atendimento seria
aquele que levaria a uma reação
que chamei de desconcertante.
Seria lógico supor que as relações
objetais neste indivíduo se
formariam também de maneira
alternada, isto é, ora a criança
sente amor e ora sente ódio
em relação ao mesmo
objeto. Apressadamente, poder-se-ia
pensar que aí está a
raiz da ambivalência. Não,
meu caro leitor. Aí está
a raiz da dúvida primitiva.
O leitor poderia estar percebendo
uma certa obscuridade nos últimos
parágrafos. Vamos tentar clarear
as coisas. Estávamos tratando
das expectativas otimistas e pessimistas
ou do otimismo e do pessimismo. Estes
dois aspectos afetivos, que no fundo
são indicadores de expectativas,
são resultado de uma seqüência
ou de um conjunto de acontecimentos,
tais como:
Atendimento adequado, feito a tempo
e a hora, seja com mamadeira ou através
do seio materno, em quantidade suficiente
e carinhosamente, resulta em uma expectativa
otimista.
Se tudo acontecer ao contrário
do que foi dito acima, ou seja, tudo
correr mal, isto resultará
em uma expectativa pessimista.
Um terceiro modo (ou caso) seria aquele
em que o atendimento ora seria adequado
e ora seria inadequado. Geraria uma
expectativa desconcertante.
A expectativa desconcertante surgiria
no caso em que o bom atendimento,
como já se disse acima, fosse
alternado com um atendimento inadequado,
por exemplo, fora do momento da fome
ou às pressas ou com irritação
por parte da mãe, etc.
Na categoria expectativa otimista,
nota-se que a emoção
predominante é o amor. Na categoria
expectativa pessimista, percebe-se
que há um misto de emoções:
a emoção de ódio
e de medo. No tipo de expectativa
“desconcertante” ou duvidosa, diríamos
que as emoções predominantes
ou aparentes seriam ora o ódio
e ora o amor.
Dentro da linha de selecionar tipos
básicos, poderíamos
ser tentados a dizer que indivíduos
com expectativa otimista tenderiam
ao tipo básico maníaco
(com predominância do amor)
e que os indivíduos com expectativa
pessimista tenderiam para o “tipo
básico esquizóide” (com
predominância do ódio
e do medo). Já a categoria
expectativa “desconcertante” ou duvidosa
e nas quais nota-se a presença
ou predomínio do amor e do
ódio, diríamos que este
tipo está muito próximo
à neurose obsessiva ou nos
lembra a neurose obsessiva.
Com estes dados nos foi possível
pensar igualmente se este tipo de
formação, expectativa
duvidosa mais as emoções
de ódio e amor, não
seria a raiz das relações
objetais do neurótico obsessivo.
Um relacionamento fundamentado na
incerteza de ora amar ou ora odiar.
A esta expectativa duvidosa gerada
pela incerteza denominamos de dúvida
primitiva. A dúvida primitiva
associada às emoções
de amor e ódio (ora amor, ora
ódio) nos levou a supor se
não estaria aí a raiz
oral da neurose obsessiva e ainda:
se a neurose obsessiva tiver uma raiz
oral, provavelmente as demais neuroses
e as outras patologias teriam também
raiz nesta mesma fase. Daí
para frente, resolvemos fixar nossa
atenção, de modo especial,
na fase oral e, como o leitor vai
perceber, é a fase em que se
estruturam as matrizes arcaicas.
A Matriz Arcaica
A matriz arcaica contém o gérmen
da sintomatologia, ou seja, os elementos
que vão gerar ou explicar,
de modo lógico e racional,
as manifestações sintomatológicas
de uma patologia qualquer. Ela começa
a se formar já desde os primeiros
dias do nascimento e sua estrutura
definitiva vai depender da soma de
fatores que o lactente vai recebendo
durante sua evolução
e, por volta dos 8, 9, 10 meses, a
matriz de todas as patologias já
está completamente formada.
É claro que, nos meses seguintes
ou nos anos seguintes, a matriz arcaica,
que já se encontra inscrita
no indivíduo, vai seguir pelo
resto do desenvolvimento individual
e sofrer os efeitos que a vida vai
lhe provocar.
A matriz arcaica da neurose obsessiva
é a dúvida primitiva
associada ao predomínio das
emoções de amor e ódio
sobre o medo.
A partir destes três principais
componentes será formado o
quadro clínico desta neurose.
Outros elementos poderão ser
acrescidos a eles, por exemplo, a
persistência do pensamento mágico.
Uma pequena estória
Suponhamos que um fiscal de uma entidade
qualquer fosse avaliar três
restaurantes. No primeiro foi muito
bem atendido, a comida estava de primeira,
a higiene perfeita, etc. Enfim, teve
um ótimo atendimento em todos
os dias em que foi ao restaurante.
O restaurante foi aprovado.
No segundo estabelecimento, o fiscal
foi atendido pessimamente em todos
os dias de sua visita. Comida péssima,
higiene precária, etc. O restaurante
foi desaprovado.
No terceiro estabelecimento, o fiscal
foi muito bem tratado e tudo estava
de primeira qualidade, no primeiro
dia de visita. No segundo dia de visita
ao mesmo estabelecimento, foi muito
mal tratado e tudo estava com péssima
qualidade. No terceiro dia de visita
ao mesmo restaurante, tudo correu
muito bem. Foi muito bem tratado,
a comida estava excelente, a higiene
perfeita. Nos dias subseqüentes,
a história se repetiu. Era
impossível estabelecer um padrão
de qualidade, mas, por questão
de justiça, não poderia
assinalar nem aprovado e nem desaprovado.
Imaginem, então, um lactente
em situação semelhante.
Com receio de não termos sido
claros, voltemos a Abraham:
Os elementos fornecidos por Abraham,
com base em casos que foram analisados
com profundidade e que permitiriam
chegar à expectativa otimista
e à expectativa pessimista,
são os mesmos elementos que
determinam as relações
objetais de amor e ódio. Resumindo:
O tipo de atendimento que leva à
situação de otimismo
é o mesmo que gera as relações
objetais fundamentadas no amor.
Já a qualidade de atendimento
que provoca situações
de pessimismo é a mesma que
desenvolve as relações
objetais fundamentadas no ódio.
Está implícito, em ambas
situações, a existência
de um padrão temporal longo
e a uniformidade em termos de qualidade
de atendimento.
Do Inocente Cotidiano à Dúvida
Primitiva
Na abordagem que segue, o leitor verá
que é o fator tempo que influirá
na qualidade do atendimento.
Um acontecimento que pode estar na
rotina de qualquer mamífero
e que pode ocorrer tanto no período
pré-objetal como no período
seguinte está ligado ao tempo
em que o lactente humano é
atendido, a partir do momento em que
manifesta estar com fome.
O atendimento à solicitação
da criança que, em geral, se
manifesta por meio do choro, pode
ser feito sem demora alguma, mas pode
também ser feito com variável
atraso e baseado em razões
as mais diversas. Estes dois tipos
de atendimento vão gerar resultados
diferentes e que vamos chamar de expectativa
positiva ou negativa dos acontecimentos.
Alguém poderia argumentar que
esta situação, atendimento
adequado alternado por um atendimento
inadequado, é muito rara e
só acontece com a mãe
ambivalente. Nosso ponto de vista
é exatamente outro. Vamos ver
o que nos diz René Spitz (1970b),
em sua obra El Primer Año de
Vida Del Niño, abordando o
tema relativo aos modos de como se
pode fazer a amamentação.
Spitz, avisando que não falará
nas inúmeras atitudes possíveis
de diferentes mães, focaliza
sua atenção sobre atitudes
culturais neste processo. Nos Estados
Unidos, durante o período que
seguiu a Primeira Guerra Mundial,
até 1935, o mau objeto estava
acentuado pela intervenção
do psicólogo Watson e do Behaviorismo.
Naquela época, se alimentava
a criança de peito seguindo
um severo horário e com quantidades
estabelecidas sem se preocupar se
a criança estava satisfeita
ou não. Ao mesmo tempo, se
aconselhava às mães
que não mimassem os filhos
e se abstivessem de acariciá-los
(pág. 58 e segs.).
Esta história em proporções
menos drásticas continua até
hoje.
Os pediatras são responsáveis,
em parte, por este fato, com o hábito
de prescrever mamadas de tantas em
tantas horas, como se faz com as prescrições
de gotas medicamentosas.
Um bando de mães seguindo à
risca estas prescrições
geraria uma legião de neuróticos
obsessivos.
Sabe-se que, até por comodidade,
o horário rígido das
mamadas é seguido à
risca.
Com este comportamento ou com esta
prática, ter-se-á a
chance matemática de em 50%
das vezes fazer o atendimento adequado
e em 50% de não fazê-lo.
Isso configura novamente o que estamos
chamando de alternância do padrão
de atendimento que é geradora
de incerteza. O atendimento da necessidade
oral da criança será
feito ora de maneira adequada, ora
de maneira inadequada.
Caso o leitor concorde com esta versão
da neurose obsessiva, vai ver que
inúmeras explicações
sobre esta neurose vão sofrer
significativas alterações,
embora os aspectos clínicos
ou sintomatológicos permaneçam
constantes.
A matriz arcaica da neurose obsessiva
é constituída pela dúvida
primitiva associada às emoções
de amor e ódio em caráter
predominante sobre o medo. Na neurose
obsessiva o fator dúvida é
muito importante, pois a criança
é uma pessoa extremamente dependente
do objeto (mãe). A dúvida
de uma criança é muito
diferente da de um adulto independente.
Na criança, ela é vital.
Não se pode odiar ou é
perigoso ou penoso odiar alguém
de quem se depende totalmente, por
se tratar de uma questão de
sobrevivência. Mas também
é difícil amar de modo
incondicional alguém que merece
ou faz por ser odiado.
Os dados fornecidos por Spitz nos
mostram que a mistura ou alternância
de um atendimento adequado e inadequado
é muito mais freqüente
do que se pensa. Baseando-nos neste
fato, podemos afirmar que a neurose
obsessiva foi muito mais freqüente
entre os Norte-Americanos do que entre
os Brasileiros, considerando os nascidos
no período mencionado.
Spitz nos permite perceber que alternância
entre o atendimento adequado e o inadequado
pode estar inserido dentro de um inocente
cotidiano. Como se pode ver neste
caso, o aspecto temporal ficou reduzido
a um dia, ou melhor, a horas. Este
acontecimento vai configurar o que
estamos chamando de alternância
do padrão de atendimento, gerador
da dúvida primitiva.
Pensamento Mágico
Em decorrência da alternância
gratificação frustração,
a criança fica de frente a
um jogo em que a margem de acerto
e erro está em torno de 50%.
Este tipo de acontecimento, o jogo,
acaba por desenvolver na criança,
de modo arraigado, o hábito
do pensamento mágico iniciado
através de atos rudimentares
e pensamentos rudimentares, com o
intuito de conseguir a gratificação
almejada, que, no presente caso, é
saciar a fome.
Poderíamos acrescentar à
matriz arcaica da neurose obsessiva
o uso abusivo ou compulsivo do pensamento
mágico.
Há necessidade de se discutir
sobre o mau atendimento e o atendimento
que gera a noção de
realidade.
Freud fala que a noção
de realidade surge em crianças
mais velhas (Brenner, 1969).
Vários autores falam na importância
da dosagem do atendimento.
O simples fato de que o atendimento
de um bebê nem sempre surge
a tempo e a hora, por fatores mais
variados, pode dar a noção
de realidade. O que acreditamos que
vai gerar problemas entre amar e odiar
é uma atitude rígida,
partindo de um pressuposto correto
ou adequado, alimentado às
vezes por forte componente agressivo
por parte da mãe em relação
ao bebê e com caráter
sistemático.
Também não acreditamos
na tentativa consciente de dosagem
do bom ou do mau atendimento, conforme
preconizam Abraham (1924a) e Spitz
(1970a), para evitar o crescimento
de uma criança sem garra –
medida que julgamos ser tão
verdadeira quanto inócua, por
crermos na impossibilidade de alguém
conseguir fazer esse tipo de dosagem.
O Desenlace
No desenlace, não está
em pauta aumento ou diminuição
de aspectos afetivos. O que existe
é a ruptura de um padrão
emocional já estabelecido por
alguns meses ou em um determinado
período de tempo.
O desenlace engloba a separação
ou a perda do objeto de amor, sendo
estes dois aspectos de importância
capital no que se refere aos futuros
transtornos do humor.
A separação tem ou pode
ter o caráter provisório,
enquanto que a perda tem um desfecho
definitivo.
O desenlace é o resultado da
ruptura de um padrão já
estabelecido durante um determinado
período relativamente longo
ou constante e que, de um momento
para o outro, é interrompido,
dando lugar a um outro padrão
também com o caráter
de maior duração ou
constância. O desenlace pode
ter dois tipos de evolução
ou término: ou se trata de
um desenlace no sentido catastrófico
ou pode ser um desenlace feliz.
É o caso de um bebê bem
nutrido e amado pela mãe nos
primeiros meses e, de repente, o leite
seca, a mãe tem uma brutal
infecção mamária,
ou que entra em profunda depressão,
ou que seja acidentada e se afaste
do bebê em razão de hospitalização,
ou que morra por um meio qualquer.
São infinitas as possibilidades
de que haja uma interrupção
de um curso que era promissor para
o bebê e que foi cortado por
uma razão qualquer.
Rocha (1999), em um completo trabalho
sobre depressão no puerpério,
aborda as conseqüências
danosas sobre crianças que
viveram a ausência da mãe
em virtude de depressões graves
e que provocaram o inevitável
afastamento por razão de internações.
Spitz (1970c) trata do tema e Freud
(1916) e Abraham (1024b) mostram sua
conexão com os estados depressivos
e maníacos depressivos.
Finalização
Do ponto em que estamos, temos dois
caminhos a seguir: ou partimos para
o tema relações objetais,
ou para o tema fixações.
Após a abordagem destes temas,
já estaremos em condições
de tratar, de modo mais específico,
das matrizes arcaicas.
Para não dar ao leitor a impressão
de que isto é novela mexicana,
já podemos adiantar que se
pode fazer a montagem das matrizes
arcaicas com base nos elementos já
apontados: as associações
emocionais, o fator predominância
ou fator quantitativo, a dúvida
primitiva e os desenlaces.
Vamos apresentar, a seguir, exemplos
de algumas matrizes arcaicas:
1 – Histeria – Predominância
do amor (libido) sobre a emoção
do medo. Fixação narcisística
da libido em sua modalidade corporal
difusa, iniciada no período
pré-objetal.
2 – Fobia – Predomínio do medo
sobre o amor e o ódio. Fixação
no objeto parcial, situada no período
de formação dos objetos.
3 – Doença do Pânico
– Presença do medo instalado
no período pré-objetal.
Predominância do medo sobre
as emoções de amor e
ódio.
4 – Neurose Obsessiva – Dúvida
primitiva associada ao conjunto emocional
predominante, amor e ódio,
sem característica de amálgama.
Presença da emoção
de medo. Uso abusivo do pensamento
mágico.
5 – Normal – Predomínio do
amor sobre as emoções
de ódio e medo. Ausência
de fixações no período
arcaico. Adequada ligação
amorosa com o objeto total.
6 – Depressão – Predominância
do amor e do ódio sobre a emoção
de medo. Adequada ou satisfatória
evolução emocional de
natureza amorosa no período
da formação das relações
de objeto, seguido de ocorrência
de desenlace infeliz.
Com estes exemplos, o leitor já
pode testar as importantes alterações
que vão ocorrer na interpretação
do universo sintomatológico
de cada patologia.
O tema matrizes arcaicas ficará
inteiramente concluído mediante
a apresentação do próximo
texto intitulado Introdução
ao Estudo das Matrizes Arcaicas: Um
novo enfoque psicanalítico
e psicopatológico.
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