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ano VIII - edição 20 - belo horizonte - mg

Pseudociência


Verdadeiro versus falso


versão revista e aumentada
Alan Neil Ditchfield
1o de janeiro de 2002

" As massas sucumbem a uma mentira grande
com mais facilidade do que a uma pequena.”
Adolf Hitler (1889-1945), Mein Kampf,
vol. 1, capítulo. 10 (1925)

Nota à primeira versão (publicada neste site em 15 de dezembro de 2001): -- O dr. Alan Neil Ditchfield, de Curitiba, que conheci quando ele estrava traduzindo Senso Incomum do físico Alan Cromer para a Editora da UniverCidade, onde então eu trabalhava, é um dos homens mais inteligentes deste país. Filho de um engenheiro inglês que veio morar no Brasil, é ele próprio engenheiro,além de empresário e, querendo ou não, filósofo. Observador arguto da maluquice nacional e mundial, de vez em quando ele me envia umas notas simplesmente deliciosas, que eu teria de ser um mórbido egoísta para sonegar aos visitantes deste site. Eis a mais recente delas. – Olavo de Carvalho*



NOTA
A CONTROVÉRSIA A PROPÓSITO DO AQUECIMENTO GLOBAL, ORA IMPUTADO À ATIVIDADE ECONÔMICA HUMANA, SURGIU POR CAUSA DA PRECARIEDADE DAS OBSERVAÇÕES DAS FORÇAS NATURAIS QUE ESTÃO A MOLDAR O CLIMA DO PLANETA. SÃO ALARDEADAS PREVISÕES CATASTRÓFICAS GERADAS EM MODELOS MATEMÁTICOS DE CLIMA GLOBAL, CARENTES DE BASE EMPÍRICA. A AMBIGÜIDADE ALIMENTA TODA SORTE DE PENSAMENTO ESPECULATIVO, QUE SERVE A AGENDAS POLITICAS PARA CERCEAR A LIBERDADE. URGE, POIS, MELHORAR A QUALIDADE DE DADOS SOBRE CLIMA.
O GLOBO TERRESTRE, DA CAPA, É ENVOLVIDO POR UMA FIGURA GEOMÉTRICA QUE FECHA A ESFERA COM 750 ARCOS DE IGUAL COMPRIMENTO, 7°58' 32''. FOI CRIADA PELO AUTOR, E APRESENTADA À CONFERÊNCIA INTERNACIONAL SOBRE REFERENCIAMENTO GEOGRÁFICO CONVOCADA EM MARÇO DE 2000 PELA UNIVERSITY OF CALIFORNIA – SANTA BARBARA. SERÁ ÚTIL PARA NOVO PADRÃO INTERNACIONAL DE REFERÊNCIA DE POSIÇÕES, NECESSÁRIO PARA LIDAR COM A EXPANSÃO DO TRÁFEGO DE DADOS DE IMAGENS USADAS EM ESTUDOS DE RECURSOS NATURAIS, DE CLIMA E DE MEIO-AMBIENTE. A ANTIGA DESIGNAÇÃO DE POSIÇÕES, COM LATITUDES E LONGITUDES, ESTÁ FICANDO INADEQUADA.
ALAN NEIL DITCHFIELD
ALAMEDA PRINCESA IZABEL 2640 / 24
CURITIBA PR BRASIL 80730-080
TEL (+55 41) 339 1571
alanneil@ig.com.br

Apresentação

É persistente a investida da autocracia contra a liberdade. Ruy Barbosa execrou o poder arbitrário como “o bramir de um oceano de barbárie ameaçando as fronteiras de nossa nacionalidade”. Contra os vagalhões da barbárie ele ergueu seu Credo Político:
• Creio na Liberdade onipotente, criadora das nações robustas;
• Creio na Lei, o seu órgão capital, a primeira de suas necessidades;
• Creio que, neste regime, o soberano é o Direito interpretado pelos tribunais.
• Creio que a própria soberania popular necessita de limites, e que estes limites vêm a ser as suas Constituições, por ela mesma criadas, nas suas horas de inspiração jurídica, em garantia contra seus impulsos de paixão desordenada;
• Creio que a República decai, porque se deixou estragar confiando-se no regime de força;
• Creio que a federação perecerá se continuar a não saber acatar e elevar a justiça; porque da justiça nasce a confiança; da confiança o trabalho, do trabalho a produção, da produção o crédito, do crédito a opulência, da opulência a respeitabilidade, a duração, o vigor.
• Creio na tribuna sem fúrias e na imprensa sem restrições porque creio no poder da razão e da verdade;
• Creio na moderação e na tolerância, no progresso e na tradição, no respeito e na disciplina, na impotência fatal dos incompetentes e no valor insuprível das capacidades.
• Rejeito as práticas de arbítrio;
• Abomino as ditaduras de todo o gênero, militares ou científicas, coroadas ou populares;
• Detesto os estados de sítio, as suspensões de garantias, as razões de Estado, as leis de salvação pública;
• Odeio as combinações hipócritas do absolutismo dissimulado sob formas democráticas e republicanas;
• Oponho-me aos governos de seita, aos governos de facção, aos governos de ignorância.
Os adeptos de governos de ignorância lançam mão de falácias alardeadas como verdades científicas. Este ensaio trata da pseudociência, das inverdades mais invocadas para fundamentar esquemas de poder autocráticos que ameaçam a vida de todo cidadão. Para tanto:
• Conceitua e contrasta a Ciência e sua antítese, a pseudociência;
• Recapitula falácias da pseudociência, com largo uso político;
• Aponta o aquecimento global como fenômeno sociológico, não físico
• Comenta o Protocolo de Kyoto e Limites do Crescimento;
• Passa em revista conseqüências do cerceamento da liberdade;
• Ilustra o uso do ridículo como arma contra a pseudociência.

MOTIVO DO ENSAIO
A consciência liberal fica angustiada pela exploração de inverdades com o propósito de cercear a liberdade e proscrever a democracia. O estado de direito é hoje universalmente reconhecido como palco essencial ao funcionamento eficiente de uma economia, com capacidade para criar a fartura que supera as carências da coletividade. Todavia, é caluniado por inimigos da liberdade como antagônico aos pobres, aos humildes, aos excluídos, aos deserdados. Na verdade, é antagônico apenas aos interesses à espreita para seqüestrar o poder público e colocá-lo a serviço do próprio bolso. Neste ensaio declaro-me inimigo da pseudociência que serve de arrazoado para o exercício do poder arbitrário, uma inimizade que remonta aos primeiros anos de vida. Minha educação, em Teoria Geral do Estado, começou cedo e foi marcada por três episódios em que aprendi o que é governo, como exerce controle sobre a vida alheia, e identifiquei os interesses servidos por tais controles.
Quando eu tinha sete anos via, à porta da escola, um pipoqueiro de cabelos brancos que lá ganhava a vida honestamente, exposto à chuva e ao sol. Era periodicamente achacado por uma dupla de fiscais da prefeitura, que confiscavam o carrinho, gritavam imprecações e faziam ameaças à garotada. Vestiam roupa de bandido: chapéu panamá de aba larga, terno azul listrado, paletó jaquetão, arma ostensivamente à cintura. O velhinho voltava no dia seguinte, visivelmente mais pobre. Os garotos mais velhos explicavam que o governo fazia aquela maldade. Eu não sabia o que é governo; passou a ser algo maligno, encarnado naquela dupla de facínoras. Nunca mais mudou a má impressão inicial. Através da vida vi a repetição do mesmo enredo de abuso de poder para extorquir dinheiro de quem trabalha e produz; mudaram os atores e os palcos, mas o enredo foi sempre o mesmo.
Aos onze anos passei a tratar pessoalmente do emplacamento anual de minha bicicleta, o que foi minha experiência introdutória ao mundo cartorário. À época, tudo que rodava era emplacado, para melhor controle das autoridades. O ato inicial era o requerimento encerrado com as palavras cabalísticas, P. Deferimento, selado com um selo azul e um vermelho, assinatura aposta aos selos; firma reconhecida. Como menor de idade, não tinha carteira de identidade para provar que existia, por isso precisava do sucedâneo: fotocópia autenticada de certidão de nascimento. Pagamento de taxas em coletoria no centro da cidade; emplacamento em bairro distante. Filas em todos as etapas. Foi minha introdução à via sacra de: licença, alvará, permissão, concessão, autorização, homologação, certidão, aprovação, autenticação, regulamentação, inspeção, fiscalização, controles que rimam com corrupção porque não podem concordar com nada construtivo. Para completar a rima nunca é demais repetir que a ocasião faz o ladrão: se um carimbo for colocado na mão de um funcionário público, surge preço pela carimbada.
Minha instrução em Teoria Geral do Estado foi completada em nível universitário quando fui obrigado a tratar com o Banco do Brasil, monopolista de operações de câmbio, o único estabelecimento para a compra ou venda legal de dólares. Estava em vigor o Regime de Licença Prévia; qualquer transação em moeda estrangeira precisava da aprovação do Banco do Brasil, para ter validade jurídica. O regime fora instituído em nome da austeridade, para evitar o malbaratamento de dólares com importações supérfluas; só seriam admitidos gastos de divisas para compras essenciais ao país. Eu comprava livros de engenharia em livraria de Nova York, que fornecia catálogos das grandes editoras de livros técnicos, e despachava os pedidos. Constatei que os sábios do serviço público conceituavam livros de engenharia como artigo supérfluo, de compra tolerada até o limite de dez dólares mensais, o que me obrigava a ir todo mês ao Banco do Brasil, munido de documentação, catálogos, listas de preços, para explicar o que faria com os dólares. A perda de tempo e as demoras eram os inconvenientes menores; o pior era ter que ouvir desaforo, porque desejava comprar livros profissionais com recursos próprios. E isto tornou-se intolerável quando o licenciador do Banco do Brasil passou a exercer censura sobre minhas leituras. Aconteceu quando postulei a compra do livro clássico de resistência de materiais, Strength of Materials, de Stephen Timoshenko, cientista russo radicado na California. Por razão que desconheço o licenciador montou uma cena de indignação: “esses dólares que você sempre está a comprar não estão sendo usados para compra de livros, mas para outra finalidade que não sei qual é. Vê-se logo que nada tem a ver com engenharia, com a construção de casas. Que assunto será esse, ora, Resistência de Imateriais? Só faltou acrescentar que é proibida a compra de livros de religião por quem não for padre, com anuência escrita do bispo da diocese. Desisti da legalidade. Passei a comprar dólares no câmbio negro para contrabandear livros de que precisava como estudante de engenharia. Corri o risco de pena de prisão pelo crime de evasão de divisas, na forma de lei ainda vigente, com desdouro à legislação.
Ora, entendo que não preciso das luzes do Banco do Brasil para bem escolher meus livros, e que nenhuma pessoa de bem precisa de oscurantistas para nada; quem não dispensa controles de governo sobre atividades lícitas são seus beneficiários: os monopolistas, mancomunados com licenciadores corruptos. E eu não era o único com queixas contra o Banco do Brasil. Diariamente passava em frente a um pátio onde via equipamentos de construção parados por falta de peças importadas. A Ford fechou sua linha de montagem de caminhões, tantas eram as arbitrariedades a interromper o trabalho. E o país ia parando para “poupar divisas”. A imprensa passou a noticiar o que se fazia com aqueles dólares administrados pelo Banco do Brasil, em memorável série de escândalos sobre as milhares de fortunas instantâneas feitas com um papel de privilégio: a licença de importação. Seletividade significava que os selecionadores do Banco do Brasil selecionavam seletos negócios para um selecionado de sua seleção (sócios, parentes, amantes e amigos). O Rio de Janeiro tornara-se uma feira de tráfego de influência. A torrente de denúncias desaguou no mar de lama de que falou Getúlio Vargas antes de morrer. Formei então doutrina sobre a intervenção do estado na vida privada: sou resolutamente contra. Ressalvo que considero utópica a aspiração anarquista por um mundo sem governo; é antes inevitável, como o jogo e a prostituição, atividades toleradas, mantidas sob rédeas curtas para evitar danos maiores à sociedade. O lado de fora do balcão de atendimento do Banco do Brasil formara um liberal.
Recém-formado, trabalhei como engenheiro em projeto e construção de obras grandes nos Estados Unidos. A vida cotidiana reforçou minha convicção de que o aparato da República Cartorial (de que fala o sociólogo Hélio Jaguaribe) era meramente safado. Lá vi um país que funcionava bem, sem submeter o cidadão ao vexame de apresentar atestados, certidões negativas, folha corrida de antecedentes criminais, a cada ato corriqueiro. Era país sem cartórios, que não tinha uso algum para assinatura reconhecida; país sem licença para importar, licença para exportar, autorização para comprar ou vender moeda estrangeira; sem carteira de identidade (a constituição sabiamente proíbe sua criação). É frívolo e injusto invocar diferenças culturais, que fariam do americano um ser naturalmente honesto; afinal, a humanidade de lá é também a humanidade de cá. Há diferenças nos quadros institucionais, liberais num e opressivos noutro. O quadro desejável de instituições liberais, produto de séculos de evolução política, lá sempre está sob ameaça das mesmas forças autoritárias que atuam em todo o mundo. Sob o calor do atentado ao World Trade Center o congresso americano não pôde negar o pedido de órgãos de segurança, por leis draconianas a pretexto de combater o terrorismo. O atenuante é que o congresso teve a visão de limitar a quatro anos a vigência de tais leis.
Os americanos quase sempre souberam escudar a atividade econômica contra a injunção política. A intervenção estatal inaugurada sob as pressões da Grande Depressão e reforçada pelas emergências da Segunda Guerra Mundial chegou a ser tida como permanente, mas rapidamente caiu em descrédito, de início nos países de língua inglesa, depois na Europa Ocidental, e finalmente no mundo comunista. O planejamento econômico estatal falhou pela razão apontada por Leon Trotsky, ao apreciar a execução do primeiro plano qüinqüenal de Stalin: “O planejador, para ser bem sucedido, deveria ter a Mente Universal descrita por Pierre Laplace; mente com capacidade para prever as posições futuras de cada partícula do universo. O planejador começaria por ditar que área seria dedicada à alimentação do gado e terminaria ditando que botões deveriam ser pregados em cada paletó.” Mostra que, sem preços de mercado, torna-se impossível exercer critério econômico na escolha entre alternativas. Estava viva na memória de Trotsky o insucesso de Lenin, ao decretar que todo gênero seria vendido a preço de custo. Tentativa para elaborar uma tabela preços revelou uma lista de mais de dois milhões de ítens. Revelou também diferenças brutais entre custos de um produtor eficiente e o ineficiente, entre rendimentos agrícolas em solos pobres ou ricos; entre jazidas de minério de baixo ou alto teor; entre o frete em distância continental ou na mesma rua.
Há trinta anos começou a surgir a causa do meio-ambiente, como sucessora de um desmoralizado intervencionismo econômico, para saciar a ambição de poder dos de índole autocrática. O que foi comício de barbudos esfarrapados que fumavam maconha transformou-se numa atividade organizada que, nos Estados Unidos, emprega dezenas de milhares. As maiores organizações de meio-ambiente hoje têm orçamentos de centenas de milhões de dólares, são dirigidas por executivos com salários usuais em grande indústria, os quais empregam todas as artimanhas das agências publicitárias de Madison Avenue para tornar máxima sua renda. Tão grandes são suas custas de processos judiciais que alguns movimentos de meio-ambiente mais parecem escritórios de advocacia, que carregam a reboque uma organização não governamental para criar casos. Se no Brasil já havia a figura do advogado de porta de xadrez, na América surgiu o seu equivalente: o advogado de portão de indústria. Mas os tribunais americanos são severos na exigência de provas materiais de danos, nas conexões de efeito e causa. Surgiu, em resposta à demanda, um grande corpo de peritos de meio-ambiente para medir, calcular e dar veracidade a alegações.
“O que vem a ser Verdade? Perguntou o cínico Pôncio Pilatos – e não esperou para ouvir a resposta”, escreveu Francis Bacon, num ensaio sobre o tema. É tema oportuno numa época em que o meio intelectual está permeado pelo relativismo inconseqüente de “cientistas” sociais . Tão grande é o prestígio da ciência que ela vem sendo elogiada com imitações de má qualidade, mas com defeitos óbvios ao bom senso.
Ciência e pseudociência é objeto da primeira seção deste ensaio. A seguir são dados cinco exemplos da exploração da credulidade popular, mediante a criação do que Olavo de Carvalho denominou O Imbecil Coletivo. Uma especulação corrente, o aquecimento global por atividade humana, está rebatido na íntegra do artigo de Richard Lindzen, professor titular de meteorologia do Massachusetts Institute of Technology. Mas nem este instituto de tecnologia, o mais renomado do mundo, fica imune à pseudociência. Em 1972 esteve associado à publicação de Limits to Growth, obra basilar do movimento ecológico, com uma tiragem de milhões de exemplares, com previsões catastróficas que o tempo desmentiu. É hoje lembrado como exemplo das limitações de modelos matemáticos exercidos em computadores, no trato de questões complexas. Mesmo os supercomputadores atuais não têm capacidade para algo mais simples, a explicação e previsão confiável de fenômenos climáticos. Há impaciência com o requisito de prova cientificamente válida, com apoio de dados empiricamente observados. Há propensão a absolver o modelo e descartar os dados, como na pseudociência marxista, que diz ter na lógica dialética uma ciência tão perfeita, que dispensa comprovação experimental para transformar hipótese em tese científica. O custo, para a humanidade, da “verdade” estabelecida pelo arbítrio dos donos de partidos totalitários é explicado na penúltima seção, e o antídoto na úlltma: Ridendo castigat mores.
O científico e o pseudocientífico
Pseudo significa falso. O caminho para identificar uma inverdade passa pela reunião de conhecimento sobre o tema, neste caso sobre a própria ciência. Saber ciência não significa conhecer apenas fatos científicos, por exemplo, a distância da terra ao sol; a idade da terra; as diferenças entre espécies. Significa conhecer a natureza da ciência, configurada nas etapas do método científico: observação do fenômeno; formulação da hipótese; concepção de experiências significativas; avaliação de alternativas; requisito de prova válida; comprovação experimental; construção de teorias e sua divulgação por canais apropriados. É procedimento que torna possível derivar conclusões fidedignas e relevantes sobre fenômenos do universo físico.
Em oposição à ciência os meios de comunicação despejam uma contracorrente de disparates, fantasia, desinformação, e confusão; todas alardeadas como “fatos verdadeiros”. É trabalho quase sobre-humano distinguir o verdadeiro do falso neste turbilhão. Para abreviá-lo é útil ficar atento a alguns dos sintomas da pseudociência, pois a troca de fatos por fantasia e tolice deixa pistas que quase todos podem aprender a reconhecer. Estão listadas a seguir alguns dos mais comuns sintomas da pseudociência. A presença de um ou mais destes em qualquer matéria a identifica como pseudociência. Todavia, há idéias que não exibem nenhum destes sintomas mas podem ser pseudociência -os interessados estão sempre a inventar modos novos para enganar. O que segue é um conjunto de atributos, antes suficientes do que necessários, para caracterizar a pseudociência.
PSEUDOCIÊNCIA: exibe soberba indiferença a fatos. Quem escreve tende a inventar falsos fatos -algo que Norman Mailer simplesmente apelidou de "factóides" -para remediar a omissão de investigação direta ou consulta a obras de referência, até mesmo quando os factóides forem centrais ao argumento do pseudocientista e suas conclusões. Isto também pode ser visto no fato de pseudocientistas raramente submeterem o que escrevem à revisão. A primeira edição de qualquer livro de pseudociência é quase sempre a última, embora o livro venha a ser reimpresso por décadas ou séculos a fio. Até mesmo um livro com enganos óbvios, erros, e erratas em muitas páginas é reimpresso no estado em que está, por várias vezes. Compare-se isto ao que ocorre com livros de ensino de ciência, os quais freqüentemente têm edição nova a cada poucos anos por causa do acúmulo rápido de fatos novos, idéias, e abordagens em ciência.
PSEUDOCIÊNCIA: é quase invariavelmente uma exegese mascarada de pesquisa. O pseudocientista recorta artigos de jornais, coleta opiniões avulsas, lê o que outro pseudocientista escreveu, ou se debruça sobre a interpretação de obras religiosas antigas ou lendas mitológicas. O pseudocientista não faz investigação independente para conferir a solidez de suas fontes; elas são aceitas com credulidade. Ou então mitos e textos velhos são interpretados simbolicamente como se fossem uma mancha de Rorschach, a qual o pseudocientista interpreta como imagina.
PSEUDOCIÊNCIA: começa com uma hipótese atraente ao pseudocientista, por razão emocional, ainda que improvável, que o induz a procurar apenas as publicações que parecem apoiá-la. Evidência contrária é censurada. Falando de modo geral, a meta da pseudociência é a de justificar convicções fortes, em lugar de investigar e descobrir o que de fato ocorre, ou ensaiar explicações alternativas. O pior ocorrre quando o pseudocientista saca conclusões para servir a beneficiários de ideologias e mentiras politicamente corretas.
PSEUDOCIÊNCIA: é insensível a requisitos de prova válida. A ênfase não é colocada em experimentos significativos, controlados, repetíveis; repousa, ao contrário, na palavra inverificável de testemunha ocular, em histórias inverosímeis, boatos, rumores e enredos dúbios. Não há referência a trabalhos anteriores em periódico científico conceituado. Os pseudocientistas nunca apresentam qualquer evidência válida para sustentar suas reivindicações.
PSEUDOCIÊNCIA: confia na “prova” subjetiva. Uma pessoa põe gelatina em sua cabeça e a enxaqueca cessa. Para a pseudociência significa que a gelatina cura enxaquecas. Para a ciência não significa nada, de vez que que nenhuma experiência válida foi realizada. Muitas coisas aconteciam quando a enxaqueca desapareceu -a lua estava cheia, era uma sexta-feira, a janela estava aberta, vestia sua camisa vermelha, etc. - e a enxaqueca teria cessado em qualquer caso. Válida seria uma experiência controlada que põe um número grande de pessoas que sofrem de enxaquecas em circunstâncias idênticas, com exceção da presença ou ausência da cura que se testa, e compara os resultados que teriam alguma chance de serem significativos. Uma mulher lê o horóscopo de seu jornal e diz que deve haver algo verdadeiro na astrologia porque o horóscopo a descreve perfeitamente. Mas quando o examinamos, vemos um texto com validade geral que descreve todo ser humano que já existiu, e não tem nada a ver com aquela mulher ou as estrelas sob as quais nasceu. Estes são exemplos de convalidação subjetiva, uma das razões principais da aceitação popular da pseudociência.
PSEUDOCIÊNCIA: depende de convenções culturais arbitrárias, em lugar de regularidades previsíveis observadas na natureza. Por exemplo, as interpretações de astrologia dependem dos nomes de coisas, as quais são acidentais e que variam de cultura a cultura. Se os antigos tivessem dado para o nome de Marte ao planeta que chamamos Júpiter, e vice-versa, seria indiferente à astronomia, mas a astrologia teria de ser totalmente reformulada, por depender somente de nomes que não tem nada a ver com as propriedades físicas dos planetas e as vidas das pessoas.
PSEUDOCIÊNCIA: sempre encontra uma explicação estranha ao procurá-la com tenacidade. Talvez os adivinhos possam intuir, por algum modo, a presença de água ou minerais no subsolo, mas quase todos alegam adivinhar igualmente bem num mapa. Talvez Uri Geller tenha “poderes paranormais" mas são eles realmente irradiados por um disco voador do planeta Hoova, como diz Uri? Talvez plantas tenham atributos "psíquicos" mas por que uma tigela de barro responde exatamente do mesmo modo, na mesma "experiência"?
PSEUDOCIÊNCIA: sempre evita submeter suas alegações a teste significativo. Os pseudocientistas também nunca fazem experiências cuidadosas, metódicas, convincentes, e desprezam resultados de experiências levadas a cabo por cientistas com métodos reconhecidos. Pseudocientistas também nunca dão continuidade às observações. Se um pseudocientista reivindica ter feito experiências (por exemplo, os "estudos perdidos sobre biorritmo”, de Hermann Swoboda, que é tido como base da pseudociência de biorrítmos), nenhum outro tenta duplicar ou o conferi-las, até mesmo quando os resultados originais estiverem perdidos ou forem questionáveis. Também, quando um pseudocientista reivindica ter feito uma experiência com resultado notável, ele nunca a repete para confirmar resultados e procedimentos. Isto contraste com a ciência verdadeira em que as experiências cruciais são repetidas pelo próprio cientista e por cientistas no mundo inteiro, com precisão sempre crescente.
PSEUDOCIÊNCIA: se contradiz freqüentemente, até mesmo nas próprias premissas. São desprezadas as contradições lógicas ou são explicadas com sofismas. Cria mistério onde nenhum existe, omitindo informação crucial e detalhes importantes. Qualquer coisa pode ser tornada "misteriosa," se for omitido o que se conhece sobre assunto, ou for apresentada à luz de detalhes irrelevantes. Livros sobre o “Triângulo das Bermudas” são exemplos disso.
PSEUDOCIÊNCIA: não progride e nada acrescenta. Há modas que vêm e passam, e o pseudocientista salta de uma moda a outra (de fantasmas a pesquisa de Percepção Extra-Sensória, de discos voadores a estudos psíquicos, de pesquisa do paranormal à procura de monstros). Mas dentro de um determinado tópico não se registra avanço, nenhuma informação é acrescentada à conhecida; teorias novas não são formuladas; conceitos velhos nunca são revistos ou descartados levando em conta descobertas novas, de vez que nada há de novo na pseudociência. Quanto mais velha a idéia mais parece merecedora de respeito. Nenhum fenômeno natural ou processo antes desconhecido à ciência foi alguma vez descoberto por pseudocientistas. Realmente, os pseudocientistas quase sempre partem de fenômeno bem conhecido aos cientistas, mas com pouca divulgação ao grande público que, desarmado, fica propenso a aceitar o arrazoado que o pseudocientista fizer sobre o fenômeno. Exemplos: o poder de andar sobre brasas, fotografia “Kirliana".
PSEUDOCIÊNCIA: prefere a propaganda, o cochicho de bastidores, a falsa representação, em lugar de apresentar evidência válida (a qual presumivelmente não existe.) A pseudociência oferece exemplos de quase todo tipo de atentado à lógica e à razão conhecidos aos estudiosos, e inventa alguns próprios. Uma artimanha favorita é a do non sequitur, em que o pseudocientista compara-se a Galileu, e diz que da mesma maneira que é incompreendido, Galileu também o foi pelos seus contemporâneos; então o pseudocientista também deve ter razão, como Galileu a teve. Claramente a conclusão não segue às premissas. Além do mais, qualquer um que tenha ouvido falar de Galileu sabe que suas idéias foram testadas, verificadas, e aceitas prontamente pelos seus contemporâneos cientistas. Quem rejeitou as descobertas de Galileu foi o clero da religião oficial, que preferiu a pseudociência que conhecia à descoberta de Galileu que a contradizia.
PSEUDOCIÊNCIA: argúi com base no incógnito, numa falácia primária. Em outras palavras, os pseudocientistas fundam suas alegações no caráter incompleto da informação disponível sobre uma questão, em lugar de as fundarem no que é conhecido. Mas nenhuma alegação é sustentável na falta de informação. O fato de fulano ter visto algo inexplicável no céu significa apenas que ele não consegue explicar o que viu. Não se pode usar este fato como prova de que aqueles discos voadores vêm do espaço exterior, de vez que não temos nenhuma evidência de que ele viu um disco voador- ou se teve ilusão de ótica. A frase, “A ciência não explica…” é comum em literatura de pseudociência. Em muitos casos, a ciência não explica o suposto fenômeno porque não há evidência de que exista; e em outros casos, a explicação científica é bem conhecida e bem estabelecida, mas o pseudocientista não a quer ou a desconsidera para criar mistério.
PSEUDOCIÊNCIA: cita exceções, anomalias, eventos estranhos ou paranormais, e razões questionáveis, mas não com base em regularidades bem observadas da natureza. A experiência de cientistas nos últimos 400 anos é que as alegações e relatórios que descrevem comportamento estranho de coisas bem conhecidas tendem, após investigação, a comprovar fraudes, enganos honestos, registros falhos, mal-entendidos, falsificações descaradas, e asneiras. Não é prudente aceitar informação sem a conferir. Os pseudocientistas sempre tomam quaisquer informações como verdadeiras, sem submetê-las a crítica independente.
PSEUDOCIÊNCIA: apela à falsa autoridade, à emoção, ao sentimento, ou à desconfiança sobre fato estabelecido. Uma celebridade teatral jura que é verdade, então assim deve ser. Um estudante que abandonou estudos de escola secundária pontifica como perito em arqueologia, sem ter feito qualquer estudo sobre o assunto. Um psicanalista é tido como conhecedor de tudo de história universal, além de física, astronomia, e mitologia, apesar de suas afirmações serem incompatíveis com o conhecido nos quatro campos. As façanhas do paranormal Smoori Mellars são genuínas, como testemunha um físico que não seria enganado com truques de magia (ainda que o físico nada saiba sobre passes de prestidigitador). Apelos emotivos são comuns: "No fundo seu coração você sabe que é verdadeiro”, "O que lhe faz sentir-se bem, deve ser verdadeiro". Caso pitoresco foi oferecido por uma congressista americana, frustrada pela negativa de cientistas em endossar suas opiniões radicais sobre o tema de aquecimento global: “cientistas podem divergir, mas ouvimos a Natureza e ela chora.” Os pseudocientistas são apegados a teorias conspirativas: “muita evidência comprova a existência de discos voadores mas o governo mantém segredo". Invocam irrelevâncias: "Cientistas não sabem tudo " - mas não estávamos a falar sobre tudo, apenas discutíamos a existência de disco voador, alegadamente visto no céu.
PSEUDOCIÊNCIA: faz alegações incomuns e avança teorias fantásticas que contradizem tudo que se sabe sobre a natureza. Não só omite evidência para apoiar a alegação como verdadeira como também descarta todas investigações anteriores que conduziram à conclusão oposta. Exemplos: “disco voadores têm que vir de algum lugar e como a terra é oca eles devem vir de dentro". "A faísca que faço com este aparelho elétrico não é mesmo faísca, mas a manifestação sobrenatural de energia psico-espiritual." “Todo humano é cercado por uma aura impalpável de energia eletromagnética, a auréola oval de que falam os místicos hindus antigos, a qual espelha todo o humor e condição do homem".
PSEUDOCIÊNCIA: faz uso de um jargão obscuro em que os neologismos criados não têm sentido preciso ou definições unívocas, termos que não definem coisa alguma. O ouvinte é induzido a interpretar os termos de acordo com seus próprios preconceitos. Por exemplo, o que vem a ser "energia biocósmica”? Ou um "sistema de amplificação psicotrônica”? Os pseudocientistas acreditam que um arremedo de nomenclatura científica, com som vagamente “técnico”, reforça sua credibilidade.
PSEUDOCIÊNCIA: invoca o critério de verdade da metodologia científica, enquanto nega sua validade. Assim, um procedimento experimental inválido que parece mostrar que a astrologia acerta, é proposto pelo pseudocientista como “prova” de que a astrologia é válida, mas descarta milhares de experiências sérias que não comprovam acertos em qualquer forma ou sentido. O fato de que alguém teve sucesso em iludir, com truques de prestidigitação, dada platéia de cientistas “comprova” que ele é um super-homem psíquico, enquanto é omitido o fato de ter sido pilhado em outras platéias onde seus truques foram percebidos.
PSEUDOCIÊNCIA: alega que o fenômeno estudado é ciumento. O fenômeno só ocorre sob certas condições vitais vagamente especificadas (i.e., na ausência dos descrentes inveterados ou de certas pessoas; quando ninguém estiver olhando; quando o “fluidos” estiverem certos; em data propícia). A atitude científica é que todos os fenômenos são passíveis de verificação por qualquer pessoa devidamente equipada, e que procedimentos de estudo válidos devem levar a resultados consistentes. Nenhum fenômeno natural conhecido tem “ciúmes". Não há modo de construir um aparelho de televisão ou um rádio que só funciona quando nenhum cético estiver presente. Um homem que diz ser violinista de concerto, mas não parece ter possuído um violino e que se recusa a tocar onde alguém puder ouvi-lo, está provavelmente mentindo sobre sua habilidade de tocar o violino.
PSEUDOCIÊNCIA: tende a recorrer a explicações limitadas a um só cenário. Em outras palavras, ouvimos uma versão e nenhuma alternativa plausível; não encontramos qualquer descrição de processo físico. Por exemplo, o pseudocientista Velikovsky ganhou boa divulgação para venda do livro, Mundos em Colisão, em que aventou a hipótese de que outro planeta teria passado perto da terra e causado uma inversão do eixo da terra. Isto é tudo que ele afirma. Ele não explicou qual o mecanismo. Mas o mecanismo é de importância capital, porque as leis da física descartam tal inversão como impossível. Segundo as leis da mecânica, a mera aproximação de um planeta não pode inverter o eixo de outro planeta. Se Velikovsky tivesse descoberto algum modo como um planeta pode mudar o eixo de outro, ele presumivelmente teria descrito a mecânica. A declaração calva, sem descrição do mecanismo subjacente, nada informa. Em outra página, Velikovsky diz que Vênus era uma vez um cometa, o qual foi lançado ao espaço por um vulcão em Júpiter. Ora, planetas de nenhuma maneira se assemelham a cometas, os quais são bolas de de gelo e pedras e que nada têm a ver com vulcões. Como são desconhecidos vulcões em Júpiter (que nem mesmo tem superfície sólida), não há nenhum processo físico que fundamente as afirmações de Velikovsky. Ele nos dá palavras, encadeia uma a outra em orações, mas as relações são alheias ao universo em que vivemos e nenhuma explanação nos é oferecida de como estas relações funcionam ou possam existir. Ele escreveu história de ficção, não teoria científica. Publicou-a na imprensa ordinária e ganhou muito dinheiro com o estardalhaço, mas nunca conseguiu publicar suas idéias num periódico científico.
PSEUDOCIÊNCIA: explora a antiga propensão humana à explicação mágica. Magia, feitiçaria, bruxaria- estão baseadas em semelhança espúria, falsa analogia, e conexões sem nexo de causa-e-efeito. Desta forma, influências inexplicáveis e conexões entre coisas são dadas como premissas e não estabelecidas através de investigação. Comer folhas com forma de coração faz bem a quem sofre de doenças cardíacas; irradiar luz vermelha no corpo aumenta a produção de sangue; cabras são agressivas e assim alguém nascido no signo de Capricórnio será agressivo; peixe é alimento do cérebro porque carne de peixe se assemelha a tecido de cérebro; se você pisar numa rachadura na calçada sem pronunciar certo encanto, sua mãe rachará um osso; etc.
PSEUDOCIÊNCIA: preza pensamento anacrônico. Quanto mais velha a idéia, mais atraente. Para a pseudociência trata-se da sabedoria dos antigos - e especialmente se a idéia for patentemente errônea, há muito descartada pela ciência.
Até esta altura foi discutida a pseudociência sem qualquer comparação com a ciência propriamente dita. Porém, é instrutivo fazer um confronto direto, ponto por ponto. Por exemplo:
CIÊNCIA: A publicação científica é orientada a leitores cientistas. Há prévia revisão por pares do pesquisador, e há padrões rigorosos para lisura e precisão.
PSEUDOCIÊNCIA: A literatura é dirigida ao público geral. Não há revisão, padrão, verificação anterior a publicação, nenhuma exigência de precisão.
CIÊNCIA: São exigidos resultados que possam ser reproduzidos; devem ser minuciosamente descritas as experiências de forma que possam ser repetidas por qualquer pesquisador, ou mesmo melhoradas.
PSEUDOCIÊNCIA: Resultados não podem ser reproduzidos ou verificados. Estudos, se é que existem, são vagamente descritos; não se pode entender o que foi feito ou como.
CIÊNCIA: Razões de insucessos são interpretadas e estudadas minuciosamente. Acidentalmente as teorias incorretas podem levar a previsões corretas mas nenhuma teoria correta fará previsões incorretas.
PSEUDOCIÊNCIA: Fracassos são esquecidos, desculpados, ocultados, menosprezados, descontados, explicados com sofismas, evitados a todo custo.
CIÊNCIA: Com o passar do tempo mais fica conhecido sobre os processos físicos sob estudo.
PSEUDOCIÊNCIA: É estéril. Nunca esclarece fenômenos físicos ou processos; não há progresso efetivo e nada de concreto fica conhecido.
CIÊNCIA: Deficiências pessoais, idiossincrasias e equívocos de vários investigadores se compensam sem afetar o conteúdo do tema sob estudo.
PSEUDOCIÊNCIA: Defeitos, idiossincrasias e equívocos de pseudocientistas se somam em nada.
CIÊNCIA: Convence por recurso à evidência, com argumentos fundados no raciocínio lógico ou matemático, até o limite que os dados permitam. Quando evidência nova contradiz idéias velhas, elas são abandonadas.
PSEUDOCIÊNCIA: Busca convencer por apelo à fé e à crença. A pseudociência tem elemento quase-religioso: tenta converter, não convencer. Você é levado a aceitar, apesar dos fatos não por causa deles. A idéia original nunca é abandonada, qualquer que seja a evidência.
CIÊNCIA: Nenhum conflito de interesse; o cientista não tem ganho financeiro pessoal em jogo no resultado de seus estudos.
PSEUDOCIÊNCIA: Conflitos óbvios de interesse. O pseudocientista geralmente tem algo a ganhar e alguns até vivem da venda de serviços, por exemplo, com horóscopos e adivinhações.
Os jornalistas, em particular, parecem incapazes de compreender este último ponto. Um repórter típico que recebesse pedido para escrever um artigo sobre astrologia acharia suficiente entrevistar seis astrólogos e um astrônomo. O astrônomo diz que astrologia é bobagem; os seis astrólogos dizem que é valioso conhecimento que realmente funciona e, mediante pagamento de módica quantia, eles se propõem a fazer um horóscopo. É patente o interesse. Para o repórter, e aparentemente para o editor e leitores, a investigação consagra a astrologia por seis votos a um. Se o repórter tivesse tido o bom senso de perceber que deveria ter entrevistado seis astrônomos (os quais são conhecedores dos planetas e suas interações e podem ser objetivos por serem desinteressados em astrologia) ele teria colhido seis condenações da astrologia como asneira.
Listas comparativas do tipo aqui apresentado poderiam ser estendidas indefinidamente, porque nada há em comum entre a ciência e a pseudociência em qualquer tema. Elas são visões antagônicas sobre a natureza. A ciência confia e persiste em difíceis e rigorosos procedimentos de indagação, em testar e pensar analiticamente, o que restringe o auto-engano ou a cegueira a fatos. Por outro lado, pseudociência preserva os primitivos e irracionais modos de pensar sem objetividade, os quais são dezenas de milhares de anos mais velhos do que a ciência; os modos de pensar que deram origem à maioria das superstições e idéias fantásticas e equivocadas sobre o homem e natureza, do animismo ao racismo; da terra plana num universo feito casa, com Deus no sótão, Satanás no porão e a humanidade no piso térreo; de rituais mandachuva; de torturas de doente mental para exorcizar os demônios que o possuem. A pseudociência encoraja as pessoas a acreditar no que quiserem, e oferece argumentos falaciosos com os quais uma pessoa pode se iludir, ao pensar que sua convicção contém algo válido, apesar de todos os fatos demonstrarem o contrário. Ciência começa por exigir a abstração do que intuímos, para tentar, por pesquisa, descobrir o que de fato é verdadeiro. São rotas que não convergem; levam a direções completamente divergentes.
Alguma desorientação é causada pelo que podemos chamar de invasão de seara alheia. Ciência não é um título honorário que confere poderes; é uma atividade que se exerce. Sempre que cessa a atividade, deixa-se de agir como cientista. Muita pseudociência é gerada por cientistas genuínos ou auto-proclamados, com maneira que vale lembrar. Um cientista quase invariavelmente acaba fazendo pseudociência quando muda de um campo, no qual é formado e competente, para mergulhar noutro campo no qual é ignorante. Um físico que reivindica ter achado um princípio novo de biologia -ou um biólogo que reivindica ter achado um princípio novo de física, está quase sempre a fazer pseudociência. Um cientista torna-se um pseudocientista quando sustenta uma idéia contra toda evidência e experiência, por estar emocional ou ideologicamente engajado. Um cientista que adultera dados, ou os suprime quando não concordam com seus preconceitos, ou recusa-se a deixar que outros os examinem para avaliação independente, torna-se um pseudocientista. Ciência é um cume alto de integridade intelectual, imparcialidade, e racionalidade. Para levar a analogia adiante, o cume é íngreme e escorregadio. Exige árduo esforço para nele permanecer. Mas qualquer relaxamento leva a pessoa a cair na pseudociência. Muito desta é gerado por pessoas que receberam treinamento científico superficial ou instrução técnica estreita e especializada. Não são cientistas profissionais, pensam que o são, mas não tiveram oportunidade para compreender a natureza do empreendimento científico. Vezeiros nisto são certos médicos e engenheiros, e também psicanalistas e técnicos de um tipo ou outro e, mais recentemente, os tais cientistas de computador, construtores de modelos matemáticos de clima.
Pode-se indagar se não há exemplos noutra direção; isso é, de idéias de pessoas que foram injustamente julgadas como pseudocientistas mas que eventualmente acabaram aceitas como ciência válida. Do pouco esboçado, é improvável que isto aconteça, se é que algum dia aconteceu. De fato, nenhuma pessoa informada sabe de qualquer caso nas centenas de anos em que o método científico pleno foi exercido por pesquisadores. Em alguns casos pensou-se inicialmente que um cientista estaria equivocado, mas com idéias cujo mérito acabou reconhecido. A microbiologia criada por Louis Pasteur revolucionou a medicina, mas foi no início rejeitada por pseudocientistas da classe médica com o argumento corporativista de que Pasteur era químico, não habilitado para estudar temas de medicina.
Um cientista pode formar uma opinião sem ter suficiente evidência para convencer seus pares de que ele está certo. Tal pessoa não se torna pseudocientista, a menos que continue sustentando que suas idéias estão corretas contra toda evidência que mostra o contrário.
É inevitável errar ou se iludir, pois somos humanos e expostos a equívocos e juízos falhos. Porém, um cientista deve estar alerta à possibilidade de enganos, e deve ser rápido em sua correção, quando equívocos, não identificados e rejeitados a tempo, colocarem estudos correntes sobre bases falsas. Em resumo, o cientista que estiver em erro apontado por seus colegas, abandonará suas idéias errôneas. Um pseudocientista nunca o fará. De fato, uma breve definição de pseudociência seria a de que se trata de método para escudar e sustentar preconceitos sobre o homem e natureza – para justificar, defender e preservar erros de crença pessoal.
É vital que cada cidadão aprenda a distinguir ciência da pseudociência. Não se trata de exercício acadêmico mas de obrigação cívica. Numa democracia todo eleitor deveria ter acesso a fontes de informação vitais e ser capaz de verificá-las. A pseudociência é frequentemente vista por pessoas instruídas e racionais como absurdo por demais óbvio para ser levado a sério, antes uma piada do que motivo para medo. Esta é uma atitude negligente pois a pseudociência pode ser extremamente perigosa. Quando infiltra sistemas políticos passa a justificar atrocidades em nome da pureza racial; ao minar o sistema educacional expulsa a ciência do currículo; ao desorientar a profissão médica sentencia milhares à morte ou sofrimento desnecessário; ao perverter uma religião, gera fanatismo, intolerância, e guerras santas; ao dominar meios de comunicação, barra aos eleitores informação efetiva de capital importância - uma situação que no momento atinge proporções catastróficas, a induzir más escolhas por milhões com poder de voto. É preciso distinguir o verdadeiro do falso.
*Publicado originalmente no site www.olavodecarvalho.org

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