|
|
Verdadeiro
versus falso
versão revista e aumentada
Alan Neil Ditchfield
1o de janeiro de 2002
" As massas sucumbem a uma mentira
grande
com mais facilidade do que a uma pequena.”
Adolf Hitler (1889-1945), Mein Kampf,
vol. 1, capítulo. 10 (1925)
Nota à primeira versão
(publicada neste site em 15 de dezembro
de 2001): -- O dr. Alan Neil Ditchfield,
de Curitiba, que conheci quando ele
estrava traduzindo Senso Incomum do
físico Alan Cromer para a Editora
da UniverCidade, onde então
eu trabalhava, é um dos homens
mais inteligentes deste país.
Filho de um engenheiro inglês
que veio morar no Brasil, é
ele próprio engenheiro,além
de empresário e, querendo ou
não, filósofo. Observador
arguto da maluquice nacional e mundial,
de vez em quando ele me envia umas
notas simplesmente deliciosas, que
eu teria de ser um mórbido
egoísta para sonegar aos visitantes
deste site. Eis a mais recente delas.
– Olavo de Carvalho*
NOTA
A CONTROVÉRSIA A PROPÓSITO
DO AQUECIMENTO GLOBAL, ORA IMPUTADO
À ATIVIDADE ECONÔMICA
HUMANA, SURGIU POR CAUSA DA PRECARIEDADE
DAS OBSERVAÇÕES DAS
FORÇAS NATURAIS QUE ESTÃO
A MOLDAR O CLIMA DO PLANETA. SÃO
ALARDEADAS PREVISÕES CATASTRÓFICAS
GERADAS EM MODELOS MATEMÁTICOS
DE CLIMA GLOBAL, CARENTES DE BASE
EMPÍRICA. A AMBIGÜIDADE
ALIMENTA TODA SORTE DE PENSAMENTO
ESPECULATIVO, QUE SERVE A AGENDAS
POLITICAS PARA CERCEAR A LIBERDADE.
URGE, POIS, MELHORAR A QUALIDADE DE
DADOS SOBRE CLIMA.
O GLOBO TERRESTRE, DA CAPA, É
ENVOLVIDO POR UMA FIGURA GEOMÉTRICA
QUE FECHA A ESFERA COM 750 ARCOS DE
IGUAL COMPRIMENTO, 7°58' 32''.
FOI CRIADA PELO AUTOR, E APRESENTADA
À CONFERÊNCIA INTERNACIONAL
SOBRE REFERENCIAMENTO GEOGRÁFICO
CONVOCADA EM MARÇO DE 2000
PELA UNIVERSITY OF CALIFORNIA – SANTA
BARBARA. SERÁ ÚTIL PARA
NOVO PADRÃO INTERNACIONAL DE
REFERÊNCIA DE POSIÇÕES,
NECESSÁRIO PARA LIDAR COM A
EXPANSÃO DO TRÁFEGO
DE DADOS DE IMAGENS USADAS EM ESTUDOS
DE RECURSOS NATURAIS, DE CLIMA E DE
MEIO-AMBIENTE. A ANTIGA DESIGNAÇÃO
DE POSIÇÕES, COM LATITUDES
E LONGITUDES, ESTÁ FICANDO
INADEQUADA.
ALAN NEIL DITCHFIELD
ALAMEDA PRINCESA IZABEL 2640 / 24
CURITIBA PR BRASIL 80730-080
TEL (+55 41) 339 1571
alanneil@ig.com.br
Apresentação
É persistente a investida da
autocracia contra a liberdade. Ruy
Barbosa execrou o poder arbitrário
como “o bramir de um oceano de barbárie
ameaçando as fronteiras de
nossa nacionalidade”. Contra os vagalhões
da barbárie ele ergueu seu
Credo Político:
• Creio na Liberdade onipotente, criadora
das nações robustas;
• Creio na Lei, o seu órgão
capital, a primeira de suas necessidades;
• Creio que, neste regime, o soberano
é o Direito interpretado pelos
tribunais.
• Creio que a própria soberania
popular necessita de limites, e que
estes limites vêm a ser as suas
Constituições, por ela
mesma criadas, nas suas horas de inspiração
jurídica, em garantia contra
seus impulsos de paixão desordenada;
• Creio que a República decai,
porque se deixou estragar confiando-se
no regime de força;
• Creio que a federação
perecerá se continuar a não
saber acatar e elevar a justiça;
porque da justiça nasce a confiança;
da confiança o trabalho, do
trabalho a produção,
da produção o crédito,
do crédito a opulência,
da opulência a respeitabilidade,
a duração, o vigor.
• Creio na tribuna sem fúrias
e na imprensa sem restrições
porque creio no poder da razão
e da verdade;
• Creio na moderação
e na tolerância, no progresso
e na tradição, no respeito
e na disciplina, na impotência
fatal dos incompetentes e no valor
insuprível das capacidades.
• Rejeito as práticas de arbítrio;
• Abomino as ditaduras de todo o gênero,
militares ou científicas, coroadas
ou populares;
• Detesto os estados de sítio,
as suspensões de garantias,
as razões de Estado, as leis
de salvação pública;
• Odeio as combinações
hipócritas do absolutismo dissimulado
sob formas democráticas e republicanas;
• Oponho-me aos governos de seita,
aos governos de facção,
aos governos de ignorância.
Os adeptos de governos de ignorância
lançam mão de falácias
alardeadas como verdades científicas.
Este ensaio trata da pseudociência,
das inverdades mais invocadas para
fundamentar esquemas de poder autocráticos
que ameaçam a vida de todo
cidadão. Para tanto:
• Conceitua e contrasta a Ciência
e sua antítese, a pseudociência;
• Recapitula falácias da pseudociência,
com largo uso político;
• Aponta o aquecimento global como
fenômeno sociológico,
não físico
• Comenta o Protocolo de Kyoto e Limites
do Crescimento;
• Passa em revista conseqüências
do cerceamento da liberdade;
• Ilustra o uso do ridículo
como arma contra a pseudociência.
MOTIVO DO ENSAIO
A consciência liberal fica angustiada
pela exploração de inverdades
com o propósito de cercear
a liberdade e proscrever a democracia.
O estado de direito é hoje
universalmente reconhecido como palco
essencial ao funcionamento eficiente
de uma economia, com capacidade para
criar a fartura que supera as carências
da coletividade. Todavia, é
caluniado por inimigos da liberdade
como antagônico aos pobres,
aos humildes, aos excluídos,
aos deserdados. Na verdade, é
antagônico apenas aos interesses
à espreita para seqüestrar
o poder público e colocá-lo
a serviço do próprio
bolso. Neste ensaio declaro-me inimigo
da pseudociência que serve de
arrazoado para o exercício
do poder arbitrário, uma inimizade
que remonta aos primeiros anos de
vida. Minha educação,
em Teoria Geral do Estado, começou
cedo e foi marcada por três
episódios em que aprendi o
que é governo, como exerce
controle sobre a vida alheia, e identifiquei
os interesses servidos por tais controles.
Quando eu tinha sete anos via, à
porta da escola, um pipoqueiro de
cabelos brancos que lá ganhava
a vida honestamente, exposto à
chuva e ao sol. Era periodicamente
achacado por uma dupla de fiscais
da prefeitura, que confiscavam o carrinho,
gritavam imprecações
e faziam ameaças à garotada.
Vestiam roupa de bandido: chapéu
panamá de aba larga, terno
azul listrado, paletó jaquetão,
arma ostensivamente à cintura.
O velhinho voltava no dia seguinte,
visivelmente mais pobre. Os garotos
mais velhos explicavam que o governo
fazia aquela maldade. Eu não
sabia o que é governo; passou
a ser algo maligno, encarnado naquela
dupla de facínoras. Nunca mais
mudou a má impressão
inicial. Através da vida vi
a repetição do mesmo
enredo de abuso de poder para extorquir
dinheiro de quem trabalha e produz;
mudaram os atores e os palcos, mas
o enredo foi sempre o mesmo.
Aos onze anos passei a tratar pessoalmente
do emplacamento anual de minha bicicleta,
o que foi minha experiência
introdutória ao mundo cartorário.
À época, tudo que rodava
era emplacado, para melhor controle
das autoridades. O ato inicial era
o requerimento encerrado com as palavras
cabalísticas, P. Deferimento,
selado com um selo azul e um vermelho,
assinatura aposta aos selos; firma
reconhecida. Como menor de idade,
não tinha carteira de identidade
para provar que existia, por isso
precisava do sucedâneo: fotocópia
autenticada de certidão de
nascimento. Pagamento de taxas em
coletoria no centro da cidade; emplacamento
em bairro distante. Filas em todos
as etapas. Foi minha introdução
à via sacra de: licença,
alvará, permissão, concessão,
autorização, homologação,
certidão, aprovação,
autenticação, regulamentação,
inspeção, fiscalização,
controles que rimam com corrupção
porque não podem concordar
com nada construtivo. Para completar
a rima nunca é demais repetir
que a ocasião faz o ladrão:
se um carimbo for colocado na mão
de um funcionário público,
surge preço pela carimbada.
Minha instrução em Teoria
Geral do Estado foi completada em
nível universitário
quando fui obrigado a tratar com o
Banco do Brasil, monopolista de operações
de câmbio, o único estabelecimento
para a compra ou venda legal de dólares.
Estava em vigor o Regime de Licença
Prévia; qualquer transação
em moeda estrangeira precisava da
aprovação do Banco do
Brasil, para ter validade jurídica.
O regime fora instituído em
nome da austeridade, para evitar o
malbaratamento de dólares com
importações supérfluas;
só seriam admitidos gastos
de divisas para compras essenciais
ao país. Eu comprava livros
de engenharia em livraria de Nova
York, que fornecia catálogos
das grandes editoras de livros técnicos,
e despachava os pedidos. Constatei
que os sábios do serviço
público conceituavam livros
de engenharia como artigo supérfluo,
de compra tolerada até o limite
de dez dólares mensais, o que
me obrigava a ir todo mês ao
Banco do Brasil, munido de documentação,
catálogos, listas de preços,
para explicar o que faria com os dólares.
A perda de tempo e as demoras eram
os inconvenientes menores; o pior
era ter que ouvir desaforo, porque
desejava comprar livros profissionais
com recursos próprios. E isto
tornou-se intolerável quando
o licenciador do Banco do Brasil passou
a exercer censura sobre minhas leituras.
Aconteceu quando postulei a compra
do livro clássico de resistência
de materiais, Strength of Materials,
de Stephen Timoshenko, cientista russo
radicado na California. Por razão
que desconheço o licenciador
montou uma cena de indignação:
“esses dólares que você
sempre está a comprar não
estão sendo usados para compra
de livros, mas para outra finalidade
que não sei qual é.
Vê-se logo que nada tem a ver
com engenharia, com a construção
de casas. Que assunto será
esse, ora, Resistência de Imateriais?
Só faltou acrescentar que é
proibida a compra de livros de religião
por quem não for padre, com
anuência escrita do bispo da
diocese. Desisti da legalidade. Passei
a comprar dólares no câmbio
negro para contrabandear livros de
que precisava como estudante de engenharia.
Corri o risco de pena de prisão
pelo crime de evasão de divisas,
na forma de lei ainda vigente, com
desdouro à legislação.
Ora, entendo que não preciso
das luzes do Banco do Brasil para
bem escolher meus livros, e que nenhuma
pessoa de bem precisa de oscurantistas
para nada; quem não dispensa
controles de governo sobre atividades
lícitas são seus beneficiários:
os monopolistas, mancomunados com
licenciadores corruptos. E eu não
era o único com queixas contra
o Banco do Brasil. Diariamente passava
em frente a um pátio onde via
equipamentos de construção
parados por falta de peças
importadas. A Ford fechou sua linha
de montagem de caminhões, tantas
eram as arbitrariedades a interromper
o trabalho. E o país ia parando
para “poupar divisas”. A imprensa
passou a noticiar o que se fazia com
aqueles dólares administrados
pelo Banco do Brasil, em memorável
série de escândalos sobre
as milhares de fortunas instantâneas
feitas com um papel de privilégio:
a licença de importação.
Seletividade significava que os selecionadores
do Banco do Brasil selecionavam seletos
negócios para um selecionado
de sua seleção (sócios,
parentes, amantes e amigos). O Rio
de Janeiro tornara-se uma feira de
tráfego de influência.
A torrente de denúncias desaguou
no mar de lama de que falou Getúlio
Vargas antes de morrer. Formei então
doutrina sobre a intervenção
do estado na vida privada: sou resolutamente
contra. Ressalvo que considero utópica
a aspiração anarquista
por um mundo sem governo; é
antes inevitável, como o jogo
e a prostituição, atividades
toleradas, mantidas sob rédeas
curtas para evitar danos maiores à
sociedade. O lado de fora do balcão
de atendimento do Banco do Brasil
formara um liberal.
Recém-formado, trabalhei como
engenheiro em projeto e construção
de obras grandes nos Estados Unidos.
A vida cotidiana reforçou minha
convicção de que o aparato
da República Cartorial (de
que fala o sociólogo Hélio
Jaguaribe) era meramente safado. Lá
vi um país que funcionava bem,
sem submeter o cidadão ao vexame
de apresentar atestados, certidões
negativas, folha corrida de antecedentes
criminais, a cada ato corriqueiro.
Era país sem cartórios,
que não tinha uso algum para
assinatura reconhecida; país
sem licença para importar,
licença para exportar, autorização
para comprar ou vender moeda estrangeira;
sem carteira de identidade (a constituição
sabiamente proíbe sua criação).
É frívolo e injusto
invocar diferenças culturais,
que fariam do americano um ser naturalmente
honesto; afinal, a humanidade de lá
é também a humanidade
de cá. Há diferenças
nos quadros institucionais, liberais
num e opressivos noutro. O quadro
desejável de instituições
liberais, produto de séculos
de evolução política,
lá sempre está sob ameaça
das mesmas forças autoritárias
que atuam em todo o mundo. Sob o calor
do atentado ao World Trade Center
o congresso americano não pôde
negar o pedido de órgãos
de segurança, por leis draconianas
a pretexto de combater o terrorismo.
O atenuante é que o congresso
teve a visão de limitar a quatro
anos a vigência de tais leis.
Os americanos quase sempre souberam
escudar a atividade econômica
contra a injunção política.
A intervenção estatal
inaugurada sob as pressões
da Grande Depressão e reforçada
pelas emergências da Segunda
Guerra Mundial chegou a ser tida como
permanente, mas rapidamente caiu em
descrédito, de início
nos países de língua
inglesa, depois na Europa Ocidental,
e finalmente no mundo comunista. O
planejamento econômico estatal
falhou pela razão apontada
por Leon Trotsky, ao apreciar a execução
do primeiro plano qüinqüenal
de Stalin: “O planejador, para ser
bem sucedido, deveria ter a Mente
Universal descrita por Pierre Laplace;
mente com capacidade para prever as
posições futuras de
cada partícula do universo.
O planejador começaria por
ditar que área seria dedicada
à alimentação
do gado e terminaria ditando que botões
deveriam ser pregados em cada paletó.”
Mostra que, sem preços de mercado,
torna-se impossível exercer
critério econômico na
escolha entre alternativas. Estava
viva na memória de Trotsky
o insucesso de Lenin, ao decretar
que todo gênero seria vendido
a preço de custo. Tentativa
para elaborar uma tabela preços
revelou uma lista de mais de dois
milhões de ítens. Revelou
também diferenças brutais
entre custos de um produtor eficiente
e o ineficiente, entre rendimentos
agrícolas em solos pobres ou
ricos; entre jazidas de minério
de baixo ou alto teor; entre o frete
em distância continental ou
na mesma rua.
Há trinta anos começou
a surgir a causa do meio-ambiente,
como sucessora de um desmoralizado
intervencionismo econômico,
para saciar a ambição
de poder dos de índole autocrática.
O que foi comício de barbudos
esfarrapados que fumavam maconha transformou-se
numa atividade organizada que, nos
Estados Unidos, emprega dezenas de
milhares. As maiores organizações
de meio-ambiente hoje têm orçamentos
de centenas de milhões de dólares,
são dirigidas por executivos
com salários usuais em grande
indústria, os quais empregam
todas as artimanhas das agências
publicitárias de Madison Avenue
para tornar máxima sua renda.
Tão grandes são suas
custas de processos judiciais que
alguns movimentos de meio-ambiente
mais parecem escritórios de
advocacia, que carregam a reboque
uma organização não
governamental para criar casos. Se
no Brasil já havia a figura
do advogado de porta de xadrez, na
América surgiu o seu equivalente:
o advogado de portão de indústria.
Mas os tribunais americanos são
severos na exigência de provas
materiais de danos, nas conexões
de efeito e causa. Surgiu, em resposta
à demanda, um grande corpo
de peritos de meio-ambiente para medir,
calcular e dar veracidade a alegações.
“O que vem a ser Verdade? Perguntou
o cínico Pôncio Pilatos
– e não esperou para ouvir
a resposta”, escreveu Francis Bacon,
num ensaio sobre o tema. É
tema oportuno numa época em
que o meio intelectual está
permeado pelo relativismo inconseqüente
de “cientistas” sociais . Tão
grande é o prestígio
da ciência que ela vem sendo
elogiada com imitações
de má qualidade, mas com defeitos
óbvios ao bom senso.
Ciência e pseudociência
é objeto da primeira seção
deste ensaio. A seguir são
dados cinco exemplos da exploração
da credulidade popular, mediante a
criação do que Olavo
de Carvalho denominou O Imbecil Coletivo.
Uma especulação corrente,
o aquecimento global por atividade
humana, está rebatido na íntegra
do artigo de Richard Lindzen, professor
titular de meteorologia do Massachusetts
Institute of Technology. Mas nem este
instituto de tecnologia, o mais renomado
do mundo, fica imune à pseudociência.
Em 1972 esteve associado à
publicação de Limits
to Growth, obra basilar do movimento
ecológico, com uma tiragem
de milhões de exemplares, com
previsões catastróficas
que o tempo desmentiu. É hoje
lembrado como exemplo das limitações
de modelos matemáticos exercidos
em computadores, no trato de questões
complexas. Mesmo os supercomputadores
atuais não têm capacidade
para algo mais simples, a explicação
e previsão confiável
de fenômenos climáticos.
Há impaciência com o
requisito de prova cientificamente
válida, com apoio de dados
empiricamente observados. Há
propensão a absolver o modelo
e descartar os dados, como na pseudociência
marxista, que diz ter na lógica
dialética uma ciência
tão perfeita, que dispensa
comprovação experimental
para transformar hipótese em
tese científica. O custo, para
a humanidade, da “verdade” estabelecida
pelo arbítrio dos donos de
partidos totalitários é
explicado na penúltima seção,
e o antídoto na úlltma:
Ridendo castigat mores.
O científico e o pseudocientífico
Pseudo significa falso. O caminho
para identificar uma inverdade passa
pela reunião de conhecimento
sobre o tema, neste caso sobre a própria
ciência. Saber ciência
não significa conhecer apenas
fatos científicos, por exemplo,
a distância da terra ao sol;
a idade da terra; as diferenças
entre espécies. Significa conhecer
a natureza da ciência, configurada
nas etapas do método científico:
observação do fenômeno;
formulação da hipótese;
concepção de experiências
significativas; avaliação
de alternativas; requisito de prova
válida; comprovação
experimental; construção
de teorias e sua divulgação
por canais apropriados. É procedimento
que torna possível derivar
conclusões fidedignas e relevantes
sobre fenômenos do universo
físico.
Em oposição à
ciência os meios de comunicação
despejam uma contracorrente de disparates,
fantasia, desinformação,
e confusão; todas alardeadas
como “fatos verdadeiros”. É
trabalho quase sobre-humano distinguir
o verdadeiro do falso neste turbilhão.
Para abreviá-lo é útil
ficar atento a alguns dos sintomas
da pseudociência, pois a troca
de fatos por fantasia e tolice deixa
pistas que quase todos podem aprender
a reconhecer. Estão listadas
a seguir alguns dos mais comuns sintomas
da pseudociência. A presença
de um ou mais destes em qualquer matéria
a identifica como pseudociência.
Todavia, há idéias que
não exibem nenhum destes sintomas
mas podem ser pseudociência
-os interessados estão sempre
a inventar modos novos para enganar.
O que segue é um conjunto de
atributos, antes suficientes do que
necessários, para caracterizar
a pseudociência.
PSEUDOCIÊNCIA: exibe soberba
indiferença a fatos. Quem escreve
tende a inventar falsos fatos -algo
que Norman Mailer simplesmente apelidou
de "factóides" -para
remediar a omissão de investigação
direta ou consulta a obras de referência,
até mesmo quando os factóides
forem centrais ao argumento do pseudocientista
e suas conclusões. Isto também
pode ser visto no fato de pseudocientistas
raramente submeterem o que escrevem
à revisão. A primeira
edição de qualquer livro
de pseudociência é quase
sempre a última, embora o livro
venha a ser reimpresso por décadas
ou séculos a fio. Até
mesmo um livro com enganos óbvios,
erros, e erratas em muitas páginas
é reimpresso no estado em que
está, por várias vezes.
Compare-se isto ao que ocorre com
livros de ensino de ciência,
os quais freqüentemente têm
edição nova a cada poucos
anos por causa do acúmulo rápido
de fatos novos, idéias, e abordagens
em ciência.
PSEUDOCIÊNCIA: é quase
invariavelmente uma exegese mascarada
de pesquisa. O pseudocientista recorta
artigos de jornais, coleta opiniões
avulsas, lê o que outro pseudocientista
escreveu, ou se debruça sobre
a interpretação de obras
religiosas antigas ou lendas mitológicas.
O pseudocientista não faz investigação
independente para conferir a solidez
de suas fontes; elas são aceitas
com credulidade. Ou então mitos
e textos velhos são interpretados
simbolicamente como se fossem uma
mancha de Rorschach, a qual o pseudocientista
interpreta como imagina.
PSEUDOCIÊNCIA: começa
com uma hipótese atraente ao
pseudocientista, por razão
emocional, ainda que improvável,
que o induz a procurar apenas as publicações
que parecem apoiá-la. Evidência
contrária é censurada.
Falando de modo geral, a meta da pseudociência
é a de justificar convicções
fortes, em lugar de investigar e descobrir
o que de fato ocorre, ou ensaiar explicações
alternativas. O pior ocorrre quando
o pseudocientista saca conclusões
para servir a beneficiários
de ideologias e mentiras politicamente
corretas.
PSEUDOCIÊNCIA: é insensível
a requisitos de prova válida.
A ênfase não é
colocada em experimentos significativos,
controlados, repetíveis; repousa,
ao contrário, na palavra inverificável
de testemunha ocular, em histórias
inverosímeis, boatos, rumores
e enredos dúbios. Não
há referência a trabalhos
anteriores em periódico científico
conceituado. Os pseudocientistas nunca
apresentam qualquer evidência
válida para sustentar suas
reivindicações.
PSEUDOCIÊNCIA: confia na “prova”
subjetiva. Uma pessoa põe gelatina
em sua cabeça e a enxaqueca
cessa. Para a pseudociência
significa que a gelatina cura enxaquecas.
Para a ciência não significa
nada, de vez que que nenhuma experiência
válida foi realizada. Muitas
coisas aconteciam quando a enxaqueca
desapareceu -a lua estava cheia, era
uma sexta-feira, a janela estava aberta,
vestia sua camisa vermelha, etc. -
e a enxaqueca teria cessado em qualquer
caso. Válida seria uma experiência
controlada que põe um número
grande de pessoas que sofrem de enxaquecas
em circunstâncias idênticas,
com exceção da presença
ou ausência da cura que se testa,
e compara os resultados que teriam
alguma chance de serem significativos.
Uma mulher lê o horóscopo
de seu jornal e diz que deve haver
algo verdadeiro na astrologia porque
o horóscopo a descreve perfeitamente.
Mas quando o examinamos, vemos um
texto com validade geral que descreve
todo ser humano que já existiu,
e não tem nada a ver com aquela
mulher ou as estrelas sob as quais
nasceu. Estes são exemplos
de convalidação subjetiva,
uma das razões principais da
aceitação popular da
pseudociência.
PSEUDOCIÊNCIA: depende de convenções
culturais arbitrárias, em lugar
de regularidades previsíveis
observadas na natureza. Por exemplo,
as interpretações de
astrologia dependem dos nomes de coisas,
as quais são acidentais e que
variam de cultura a cultura. Se os
antigos tivessem dado para o nome
de Marte ao planeta que chamamos Júpiter,
e vice-versa, seria indiferente à
astronomia, mas a astrologia teria
de ser totalmente reformulada, por
depender somente de nomes que não
tem nada a ver com as propriedades
físicas dos planetas e as vidas
das pessoas.
PSEUDOCIÊNCIA: sempre encontra
uma explicação estranha
ao procurá-la com tenacidade.
Talvez os adivinhos possam intuir,
por algum modo, a presença
de água ou minerais no subsolo,
mas quase todos alegam adivinhar igualmente
bem num mapa. Talvez Uri Geller tenha
“poderes paranormais" mas são
eles realmente irradiados por um disco
voador do planeta Hoova, como diz
Uri? Talvez plantas tenham atributos
"psíquicos" mas por
que uma tigela de barro responde exatamente
do mesmo modo, na mesma "experiência"?
PSEUDOCIÊNCIA: sempre evita
submeter suas alegações
a teste significativo. Os pseudocientistas
também nunca fazem experiências
cuidadosas, metódicas, convincentes,
e desprezam resultados de experiências
levadas a cabo por cientistas com
métodos reconhecidos. Pseudocientistas
também nunca dão continuidade
às observações.
Se um pseudocientista reivindica ter
feito experiências (por exemplo,
os "estudos perdidos sobre biorritmo”,
de Hermann Swoboda, que é tido
como base da pseudociência de
biorrítmos), nenhum outro tenta
duplicar ou o conferi-las, até
mesmo quando os resultados originais
estiverem perdidos ou forem questionáveis.
Também, quando um pseudocientista
reivindica ter feito uma experiência
com resultado notável, ele
nunca a repete para confirmar resultados
e procedimentos. Isto contraste com
a ciência verdadeira em que
as experiências cruciais são
repetidas pelo próprio cientista
e por cientistas no mundo inteiro,
com precisão sempre crescente.
PSEUDOCIÊNCIA: se contradiz
freqüentemente, até mesmo
nas próprias premissas. São
desprezadas as contradições
lógicas ou são explicadas
com sofismas. Cria mistério
onde nenhum existe, omitindo informação
crucial e detalhes importantes. Qualquer
coisa pode ser tornada "misteriosa,"
se for omitido o que se conhece sobre
assunto, ou for apresentada à
luz de detalhes irrelevantes. Livros
sobre o “Triângulo das Bermudas”
são exemplos disso.
PSEUDOCIÊNCIA: não progride
e nada acrescenta. Há modas
que vêm e passam, e o pseudocientista
salta de uma moda a outra (de fantasmas
a pesquisa de Percepção
Extra-Sensória, de discos voadores
a estudos psíquicos, de pesquisa
do paranormal à procura de
monstros). Mas dentro de um determinado
tópico não se registra
avanço, nenhuma informação
é acrescentada à conhecida;
teorias novas não são
formuladas; conceitos velhos nunca
são revistos ou descartados
levando em conta descobertas novas,
de vez que nada há de novo
na pseudociência. Quanto mais
velha a idéia mais parece merecedora
de respeito. Nenhum fenômeno
natural ou processo antes desconhecido
à ciência foi alguma
vez descoberto por pseudocientistas.
Realmente, os pseudocientistas quase
sempre partem de fenômeno bem
conhecido aos cientistas, mas com
pouca divulgação ao
grande público que, desarmado,
fica propenso a aceitar o arrazoado
que o pseudocientista fizer sobre
o fenômeno. Exemplos: o poder
de andar sobre brasas, fotografia
“Kirliana".
PSEUDOCIÊNCIA: prefere a propaganda,
o cochicho de bastidores, a falsa
representação, em lugar
de apresentar evidência válida
(a qual presumivelmente não
existe.) A pseudociência oferece
exemplos de quase todo tipo de atentado
à lógica e à
razão conhecidos aos estudiosos,
e inventa alguns próprios.
Uma artimanha favorita é a
do non sequitur, em que o pseudocientista
compara-se a Galileu, e diz que da
mesma maneira que é incompreendido,
Galileu também o foi pelos
seus contemporâneos; então
o pseudocientista também deve
ter razão, como Galileu a teve.
Claramente a conclusão não
segue às premissas. Além
do mais, qualquer um que tenha ouvido
falar de Galileu sabe que suas idéias
foram testadas, verificadas, e aceitas
prontamente pelos seus contemporâneos
cientistas. Quem rejeitou as descobertas
de Galileu foi o clero da religião
oficial, que preferiu a pseudociência
que conhecia à descoberta de
Galileu que a contradizia.
PSEUDOCIÊNCIA: argúi
com base no incógnito, numa
falácia primária. Em
outras palavras, os pseudocientistas
fundam suas alegações
no caráter incompleto da informação
disponível sobre uma questão,
em lugar de as fundarem no que é
conhecido. Mas nenhuma alegação
é sustentável na falta
de informação. O fato
de fulano ter visto algo inexplicável
no céu significa apenas que
ele não consegue explicar o
que viu. Não se pode usar este
fato como prova de que aqueles discos
voadores vêm do espaço
exterior, de vez que não temos
nenhuma evidência de que ele
viu um disco voador- ou se teve ilusão
de ótica. A frase, “A ciência
não explica…” é comum
em literatura de pseudociência.
Em muitos casos, a ciência não
explica o suposto fenômeno porque
não há evidência
de que exista; e em outros casos,
a explicação científica
é bem conhecida e bem estabelecida,
mas o pseudocientista não a
quer ou a desconsidera para criar
mistério.
PSEUDOCIÊNCIA: cita exceções,
anomalias, eventos estranhos ou paranormais,
e razões questionáveis,
mas não com base em regularidades
bem observadas da natureza. A experiência
de cientistas nos últimos 400
anos é que as alegações
e relatórios que descrevem
comportamento estranho de coisas bem
conhecidas tendem, após investigação,
a comprovar fraudes, enganos honestos,
registros falhos, mal-entendidos,
falsificações descaradas,
e asneiras. Não é prudente
aceitar informação sem
a conferir. Os pseudocientistas sempre
tomam quaisquer informações
como verdadeiras, sem submetê-las
a crítica independente.
PSEUDOCIÊNCIA: apela à
falsa autoridade, à emoção,
ao sentimento, ou à desconfiança
sobre fato estabelecido. Uma celebridade
teatral jura que é verdade,
então assim deve ser. Um estudante
que abandonou estudos de escola secundária
pontifica como perito em arqueologia,
sem ter feito qualquer estudo sobre
o assunto. Um psicanalista é
tido como conhecedor de tudo de história
universal, além de física,
astronomia, e mitologia, apesar de
suas afirmações serem
incompatíveis com o conhecido
nos quatro campos. As façanhas
do paranormal Smoori Mellars são
genuínas, como testemunha um
físico que não seria
enganado com truques de magia (ainda
que o físico nada saiba sobre
passes de prestidigitador). Apelos
emotivos são comuns: "No
fundo seu coração você
sabe que é verdadeiro”, "O
que lhe faz sentir-se bem, deve ser
verdadeiro". Caso pitoresco foi
oferecido por uma congressista americana,
frustrada pela negativa de cientistas
em endossar suas opiniões radicais
sobre o tema de aquecimento global:
“cientistas podem divergir, mas ouvimos
a Natureza e ela chora.” Os pseudocientistas
são apegados a teorias conspirativas:
“muita evidência comprova a
existência de discos voadores
mas o governo mantém segredo".
Invocam irrelevâncias: "Cientistas
não sabem tudo " - mas
não estávamos a falar
sobre tudo, apenas discutíamos
a existência de disco voador,
alegadamente visto no céu.
PSEUDOCIÊNCIA: faz alegações
incomuns e avança teorias fantásticas
que contradizem tudo que se sabe sobre
a natureza. Não só omite
evidência para apoiar a alegação
como verdadeira como também
descarta todas investigações
anteriores que conduziram à
conclusão oposta. Exemplos:
“disco voadores têm que vir
de algum lugar e como a terra é
oca eles devem vir de dentro".
"A faísca que faço
com este aparelho elétrico
não é mesmo faísca,
mas a manifestação sobrenatural
de energia psico-espiritual."
“Todo humano é cercado por
uma aura impalpável de energia
eletromagnética, a auréola
oval de que falam os místicos
hindus antigos, a qual espelha todo
o humor e condição do
homem".
PSEUDOCIÊNCIA: faz uso de um
jargão obscuro em que os neologismos
criados não têm sentido
preciso ou definições
unívocas, termos que não
definem coisa alguma. O ouvinte é
induzido a interpretar os termos de
acordo com seus próprios preconceitos.
Por exemplo, o que vem a ser "energia
biocósmica”? Ou um "sistema
de amplificação psicotrônica”?
Os pseudocientistas acreditam que
um arremedo de nomenclatura científica,
com som vagamente “técnico”,
reforça sua credibilidade.
PSEUDOCIÊNCIA: invoca o critério
de verdade da metodologia científica,
enquanto nega sua validade. Assim,
um procedimento experimental inválido
que parece mostrar que a astrologia
acerta, é proposto pelo pseudocientista
como “prova” de que a astrologia é
válida, mas descarta milhares
de experiências sérias
que não comprovam acertos em
qualquer forma ou sentido. O fato
de que alguém teve sucesso
em iludir, com truques de prestidigitação,
dada platéia de cientistas
“comprova” que ele é um super-homem
psíquico, enquanto é
omitido o fato de ter sido pilhado
em outras platéias onde seus
truques foram percebidos.
PSEUDOCIÊNCIA: alega que o fenômeno
estudado é ciumento. O fenômeno
só ocorre sob certas condições
vitais vagamente especificadas (i.e.,
na ausência dos descrentes inveterados
ou de certas pessoas; quando ninguém
estiver olhando; quando o “fluidos”
estiverem certos; em data propícia).
A atitude científica é
que todos os fenômenos são
passíveis de verificação
por qualquer pessoa devidamente equipada,
e que procedimentos de estudo válidos
devem levar a resultados consistentes.
Nenhum fenômeno natural conhecido
tem “ciúmes". Não
há modo de construir um aparelho
de televisão ou um rádio
que só funciona quando nenhum
cético estiver presente. Um
homem que diz ser violinista de concerto,
mas não parece ter possuído
um violino e que se recusa a tocar
onde alguém puder ouvi-lo,
está provavelmente mentindo
sobre sua habilidade de tocar o violino.
PSEUDOCIÊNCIA: tende a recorrer
a explicações limitadas
a um só cenário. Em
outras palavras, ouvimos uma versão
e nenhuma alternativa plausível;
não encontramos qualquer descrição
de processo físico. Por exemplo,
o pseudocientista Velikovsky ganhou
boa divulgação para
venda do livro, Mundos em Colisão,
em que aventou a hipótese de
que outro planeta teria passado perto
da terra e causado uma inversão
do eixo da terra. Isto é tudo
que ele afirma. Ele não explicou
qual o mecanismo. Mas o mecanismo
é de importância capital,
porque as leis da física descartam
tal inversão como impossível.
Segundo as leis da mecânica,
a mera aproximação de
um planeta não pode inverter
o eixo de outro planeta. Se Velikovsky
tivesse descoberto algum modo como
um planeta pode mudar o eixo de outro,
ele presumivelmente teria descrito
a mecânica. A declaração
calva, sem descrição
do mecanismo subjacente, nada informa.
Em outra página, Velikovsky
diz que Vênus era uma vez um
cometa, o qual foi lançado
ao espaço por um vulcão
em Júpiter. Ora, planetas de
nenhuma maneira se assemelham a cometas,
os quais são bolas de de gelo
e pedras e que nada têm a ver
com vulcões. Como são
desconhecidos vulcões em Júpiter
(que nem mesmo tem superfície
sólida), não há
nenhum processo físico que
fundamente as afirmações
de Velikovsky. Ele nos dá palavras,
encadeia uma a outra em orações,
mas as relações são
alheias ao universo em que vivemos
e nenhuma explanação
nos é oferecida de como estas
relações funcionam ou
possam existir. Ele escreveu história
de ficção, não
teoria científica. Publicou-a
na imprensa ordinária e ganhou
muito dinheiro com o estardalhaço,
mas nunca conseguiu publicar suas
idéias num periódico
científico.
PSEUDOCIÊNCIA: explora a antiga
propensão humana à explicação
mágica. Magia, feitiçaria,
bruxaria- estão baseadas em
semelhança espúria,
falsa analogia, e conexões
sem nexo de causa-e-efeito. Desta
forma, influências inexplicáveis
e conexões entre coisas são
dadas como premissas e não
estabelecidas através de investigação.
Comer folhas com forma de coração
faz bem a quem sofre de doenças
cardíacas; irradiar luz vermelha
no corpo aumenta a produção
de sangue; cabras são agressivas
e assim alguém nascido no signo
de Capricórnio será
agressivo; peixe é alimento
do cérebro porque carne de
peixe se assemelha a tecido de cérebro;
se você pisar numa rachadura
na calçada sem pronunciar certo
encanto, sua mãe rachará
um osso; etc.
PSEUDOCIÊNCIA: preza pensamento
anacrônico. Quanto mais velha
a idéia, mais atraente. Para
a pseudociência trata-se da
sabedoria dos antigos - e especialmente
se a idéia for patentemente
errônea, há muito descartada
pela ciência.
Até esta altura foi discutida
a pseudociência sem qualquer
comparação com a ciência
propriamente dita. Porém, é
instrutivo fazer um confronto direto,
ponto por ponto. Por exemplo:
CIÊNCIA: A publicação
científica é orientada
a leitores cientistas. Há prévia
revisão por pares do pesquisador,
e há padrões rigorosos
para lisura e precisão.
PSEUDOCIÊNCIA: A literatura
é dirigida ao público
geral. Não há revisão,
padrão, verificação
anterior a publicação,
nenhuma exigência de precisão.
CIÊNCIA: São exigidos
resultados que possam ser reproduzidos;
devem ser minuciosamente descritas
as experiências de forma que
possam ser repetidas por qualquer
pesquisador, ou mesmo melhoradas.
PSEUDOCIÊNCIA: Resultados não
podem ser reproduzidos ou verificados.
Estudos, se é que existem,
são vagamente descritos; não
se pode entender o que foi feito ou
como.
CIÊNCIA: Razões de insucessos
são interpretadas e estudadas
minuciosamente. Acidentalmente as
teorias incorretas podem levar a previsões
corretas mas nenhuma teoria correta
fará previsões incorretas.
PSEUDOCIÊNCIA: Fracassos são
esquecidos, desculpados, ocultados,
menosprezados, descontados, explicados
com sofismas, evitados a todo custo.
CIÊNCIA: Com o passar do tempo
mais fica conhecido sobre os processos
físicos sob estudo.
PSEUDOCIÊNCIA: É estéril.
Nunca esclarece fenômenos físicos
ou processos; não há
progresso efetivo e nada de concreto
fica conhecido.
CIÊNCIA: Deficiências
pessoais, idiossincrasias e equívocos
de vários investigadores se
compensam sem afetar o conteúdo
do tema sob estudo.
PSEUDOCIÊNCIA: Defeitos, idiossincrasias
e equívocos de pseudocientistas
se somam em nada.
CIÊNCIA: Convence por recurso
à evidência, com argumentos
fundados no raciocínio lógico
ou matemático, até o
limite que os dados permitam. Quando
evidência nova contradiz idéias
velhas, elas são abandonadas.
PSEUDOCIÊNCIA: Busca convencer
por apelo à fé e à
crença. A pseudociência
tem elemento quase-religioso: tenta
converter, não convencer. Você
é levado a aceitar, apesar
dos fatos não por causa deles.
A idéia original nunca é
abandonada, qualquer que seja a evidência.
CIÊNCIA: Nenhum conflito de
interesse; o cientista não
tem ganho financeiro pessoal em jogo
no resultado de seus estudos.
PSEUDOCIÊNCIA: Conflitos óbvios
de interesse. O pseudocientista geralmente
tem algo a ganhar e alguns até
vivem da venda de serviços,
por exemplo, com horóscopos
e adivinhações.
Os jornalistas, em particular, parecem
incapazes de compreender este último
ponto. Um repórter típico
que recebesse pedido para escrever
um artigo sobre astrologia acharia
suficiente entrevistar seis astrólogos
e um astrônomo. O astrônomo
diz que astrologia é bobagem;
os seis astrólogos dizem que
é valioso conhecimento que
realmente funciona e, mediante pagamento
de módica quantia, eles se
propõem a fazer um horóscopo.
É patente o interesse. Para
o repórter, e aparentemente
para o editor e leitores, a investigação
consagra a astrologia por seis votos
a um. Se o repórter tivesse
tido o bom senso de perceber que deveria
ter entrevistado seis astrônomos
(os quais são conhecedores
dos planetas e suas interações
e podem ser objetivos por serem desinteressados
em astrologia) ele teria colhido seis
condenações da astrologia
como asneira.
Listas comparativas do tipo aqui apresentado
poderiam ser estendidas indefinidamente,
porque nada há em comum entre
a ciência e a pseudociência
em qualquer tema. Elas são
visões antagônicas sobre
a natureza. A ciência confia
e persiste em difíceis e rigorosos
procedimentos de indagação,
em testar e pensar analiticamente,
o que restringe o auto-engano ou a
cegueira a fatos. Por outro lado,
pseudociência preserva os primitivos
e irracionais modos de pensar sem
objetividade, os quais são
dezenas de milhares de anos mais velhos
do que a ciência; os modos de
pensar que deram origem à maioria
das superstições e idéias
fantásticas e equivocadas sobre
o homem e natureza, do animismo ao
racismo; da terra plana num universo
feito casa, com Deus no sótão,
Satanás no porão e a
humanidade no piso térreo;
de rituais mandachuva; de torturas
de doente mental para exorcizar os
demônios que o possuem. A pseudociência
encoraja as pessoas a acreditar no
que quiserem, e oferece argumentos
falaciosos com os quais uma pessoa
pode se iludir, ao pensar que sua
convicção contém
algo válido, apesar de todos
os fatos demonstrarem o contrário.
Ciência começa por exigir
a abstração do que intuímos,
para tentar, por pesquisa, descobrir
o que de fato é verdadeiro.
São rotas que não convergem;
levam a direções completamente
divergentes.
Alguma desorientação
é causada pelo que podemos
chamar de invasão de seara
alheia. Ciência não é
um título honorário
que confere poderes; é uma
atividade que se exerce. Sempre que
cessa a atividade, deixa-se de agir
como cientista. Muita pseudociência
é gerada por cientistas genuínos
ou auto-proclamados, com maneira que
vale lembrar. Um cientista quase invariavelmente
acaba fazendo pseudociência
quando muda de um campo, no qual é
formado e competente, para mergulhar
noutro campo no qual é ignorante.
Um físico que reivindica ter
achado um princípio novo de
biologia -ou um biólogo que
reivindica ter achado um princípio
novo de física, está
quase sempre a fazer pseudociência.
Um cientista torna-se um pseudocientista
quando sustenta uma idéia contra
toda evidência e experiência,
por estar emocional ou ideologicamente
engajado. Um cientista que adultera
dados, ou os suprime quando não
concordam com seus preconceitos, ou
recusa-se a deixar que outros os examinem
para avaliação independente,
torna-se um pseudocientista. Ciência
é um cume alto de integridade
intelectual, imparcialidade, e racionalidade.
Para levar a analogia adiante, o cume
é íngreme e escorregadio.
Exige árduo esforço
para nele permanecer. Mas qualquer
relaxamento leva a pessoa a cair na
pseudociência. Muito desta é
gerado por pessoas que receberam treinamento
científico superficial ou instrução
técnica estreita e especializada.
Não são cientistas profissionais,
pensam que o são, mas não
tiveram oportunidade para compreender
a natureza do empreendimento científico.
Vezeiros nisto são certos médicos
e engenheiros, e também psicanalistas
e técnicos de um tipo ou outro
e, mais recentemente, os tais cientistas
de computador, construtores de modelos
matemáticos de clima.
Pode-se indagar se não há
exemplos noutra direção;
isso é, de idéias de
pessoas que foram injustamente julgadas
como pseudocientistas mas que eventualmente
acabaram aceitas como ciência
válida. Do pouco esboçado,
é improvável que isto
aconteça, se é que algum
dia aconteceu. De fato, nenhuma pessoa
informada sabe de qualquer caso nas
centenas de anos em que o método
científico pleno foi exercido
por pesquisadores. Em alguns casos
pensou-se inicialmente que um cientista
estaria equivocado, mas com idéias
cujo mérito acabou reconhecido.
A microbiologia criada por Louis Pasteur
revolucionou a medicina, mas foi no
início rejeitada por pseudocientistas
da classe médica com o argumento
corporativista de que Pasteur era
químico, não habilitado
para estudar temas de medicina.
Um cientista pode formar uma opinião
sem ter suficiente evidência
para convencer seus pares de que ele
está certo. Tal pessoa não
se torna pseudocientista, a menos
que continue sustentando que suas
idéias estão corretas
contra toda evidência que mostra
o contrário.
É inevitável errar ou
se iludir, pois somos humanos e expostos
a equívocos e juízos
falhos. Porém, um cientista
deve estar alerta à possibilidade
de enganos, e deve ser rápido
em sua correção, quando
equívocos, não identificados
e rejeitados a tempo, colocarem estudos
correntes sobre bases falsas. Em resumo,
o cientista que estiver em erro apontado
por seus colegas, abandonará
suas idéias errôneas.
Um pseudocientista nunca o fará.
De fato, uma breve definição
de pseudociência seria a de
que se trata de método para
escudar e sustentar preconceitos sobre
o homem e natureza – para justificar,
defender e preservar erros de crença
pessoal.
É vital que cada cidadão
aprenda a distinguir ciência
da pseudociência. Não
se trata de exercício acadêmico
mas de obrigação cívica.
Numa democracia todo eleitor deveria
ter acesso a fontes de informação
vitais e ser capaz de verificá-las.
A pseudociência é frequentemente
vista por pessoas instruídas
e racionais como absurdo por demais
óbvio para ser levado a sério,
antes uma piada do que motivo para
medo. Esta é uma atitude negligente
pois a pseudociência pode ser
extremamente perigosa. Quando infiltra
sistemas políticos passa a
justificar atrocidades em nome da
pureza racial; ao minar o sistema
educacional expulsa a ciência
do currículo; ao desorientar
a profissão médica sentencia
milhares à morte ou sofrimento
desnecessário; ao perverter
uma religião, gera fanatismo,
intolerância, e guerras santas;
ao dominar meios de comunicação,
barra aos eleitores informação
efetiva de capital importância
- uma situação que no
momento atinge proporções
catastróficas, a induzir más
escolhas por milhões com poder
de voto. É preciso distinguir
o verdadeiro do falso.
*Publicado originalmente no site www.olavodecarvalho.org
|