JMP:
Por favor, Sra. Edna, se apresente
aos leitores.
Edna: Sou Edna Maria
de Souza, presidente da Associação
dos Defensores dos Doentes Mentais
(ADDM). Sou formada pela escola
de enfermagem da ENFERMIG, no
curso de auxiliar de enfermagem.
Trabalho em clínica psiquiátrica
há 10 anos.
JMP: Qual hospital psiquiátrico
a Sra. Trabalha? Como esse fato
influenciou ou influencia a
criação e administração
da ADDM?
Edna: Trabalho
na Clínica Nossa Senhora
de Lourdes, mas isso não
me torna necessariamente uma
pessoa influenciável.
Fatos dramáticos aconteceram
na minha vida que me marcaram
profundamente, como a morte
de meu filho. Ele era esquizofrênico
e morreu sem nenhum tratamento
psiquiátrico. Eu tenho
também duas sobrinhas
que sofrem do mesmo mal, ex-internas
do Instituto Raul Soares. As
duas são órfãs.
Eu cuidei de minha sogra durante
20 anos. Ela também era
esquizofrênica. Vocês
não acham que são
motivos suficientes para presidir
uma associação
de familiares de doentes mentais?
JMP:
O que vem a ser a ADDM?
Edna: Uma associação
fundada em 16 de agosto de 2002
para ajudar na causa dos doentes
mentais no caos que a população
enfrenta para ter uma assistência
psiquiátrica digna.
JMP:
Como a Sra. vê o atendimento
aos doentes mentais em BH?
Edna: Os doentes
mentais estão sendo tratados
sem o respeito e a eficácia
que merecem.
JMP:
O que a Sra. pensa do autodenominado
movimento antimanicomial?
Edna: Os responsáveis
por esse movimento estão
agindo de forma atrabiliária
e pouco responsável.
Digo isso pela quantidade de
assassinatos e suicídio
que vêm ocorrendo na região
metropolitana, cujos protagonistas
são ex-internos de hospitais
psiquiátricos, em conseqüência
da política de saúde
mental que estão ajudando
a implantar na cidade.
JMP:
A Sra. pode provar que os paciente
desospitalizados têm se
envolvido em suicídios
ou assassinatos?
Edna: As provas
que possuo são os fatos,
alguns acontecidos recentemente.
José Marcos da Silva,
36 anos, assassinou com 14 facadas
sua mãe Maria Pereira.
Fato devidamente no jornal Estado
de Minas de 17/12/2002. Luís
Otávio Souza Silva, 19
anos, matou a golpes de punhal
o aposentado Fidelcino Antônio
de Oliveira, 65 anos, e fere
mais duas pessoas. Fato registrado
pelo mesmo jornal em 27/10/2003.
São só dois exemplos,
mas eu poderei citar muitos
outros se me derem espaço.
JMP:
O que a senhora pensa no fechamento
dos hospitais psiquiátricos
de BH?
Edna: A desospitalização
está gerando grandes
transtornos aos familiares dos
doentes e à população
em geral, visto que as famílias
envolvidas nesse processo não
têm estrutura financeira
ou psicológica para manter
esses pacientes em casa.
JMP:
E os "lares abrigados"?
Edna: Essas
instituições não
suprem a necessidade de uma
assistência médica
adequada à fase aguda
desses pacientes, e tampouco
oferecem seguranças a
eles ou à sociedade.
JMP:
Como a ADDM é tratada
pela Secretaria Municipal de
Saúde?
Edna: A SMS
não aceita a existência
da ADDM, apesar de sermos uma
ONG registrada em cartório.
JMP:
E a mídia?
Edna: Alguns
meios de comunicação
nos cedem espaço, mesmo
sujeitos à represália
dos órgãos públicos.
JMP:
Quais represálias?
Edna: Que tipo
de represália, não
sei. Só sei que quando
os procuramos não somos
recebidos. Exemplos: procuramos
uma certa emissora de TV com
a foto de um paciente que havia
desaparecido do CERSAM do bairro
de Santa Tereza e não
conseguimos que a matéria
fosse ao ar, nem mesmo a foto
mostraram. Uma colunista famosa
de um jornal idem inicialmente
nos prometeu "ir até
o fim" nesse assunto com
a gente, depois me telefonou
dizendo que estava sofrendo
ameaças, e tirou o corpo
fora.
JMP:
O que deve melhorar no tratamento
aos doentes mentais de BH?
Edna: Que os
pacientes do SUS tenham acesso
aos mesmos tratamentos que têm
os doentes particulares e conveniados.
JMP:
A Sra. acha que doentes do SUS
não têm o mesmo
tratamento que os particulares
e conveniados?
Edna: A explicação
que queremos das autoridades
competentes é por que
os pacientes tratados pelo SUS,
ou seja, os pobres, não
têm direito a internações
quando essas se fazem necessárias,
enquanto que conveniados e particulares,
ou seja, os ricos, podem usufruir
normalmente de serviços
psiquiátricos prestados
por clínicas renomadas
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