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ano VI - edição 19 - belo horizonte - mg

Entrevista com Edna Maria de Souza

Vão dizer que a sra. Edna Maria de Souza é uma mulher simplória, carente das luzes necessárias para o discernimento sobre questões complexas da psiquiatria, em busca de notoriedade e manutenção do próprio emprego, pois é funcionária de um hospital psiquiátrico. Tudo isso pode ser verdade (como também pode não ser), mas não é necessariamente toda a verdade. Faz parte também da verdade o fato levantado pela sra. Edna a respeito do equipamento terapêutico denominado internação (do qual o paciente pobre do SUS é excluído, o que põe em risco sua sobrevivência em determinado momento da doença), o boicote e a censura que a presidente de uma associação de portadores de transtorno mental sofre por parte da mídia e das instituições públicas de saúde mental. Este que escreve estas linhas não pode dizer que não sofreu na própria pele, como psiquiatra praticante e editor do JMP, as duas agruras referidas pela diretora da Associação dos Defensores dos Doentes Mentais: também não teve onde internar pacientes em crises psicóticas com risco para si e/ou terceiros, e foi censurado e boicotado por quem tem poder na mídia e na assistência pública aos doentes mentais.
Resta acrescentar que o JMP não considera um, digamos, risco publicar opiniões divergentes às suas, ipso facto põe suas páginas à disposição das autoridades das instituições públicas de saúde mental (e da mídia). (Humberto Campolina)



JMP: Por favor, Sra. Edna, se apresente aos leitores.
Edna:
Sou Edna Maria de Souza, presidente da Associação dos Defensores dos Doentes Mentais (ADDM). Sou formada pela escola de enfermagem da ENFERMIG, no curso de auxiliar de enfermagem. Trabalho em clínica psiquiátrica há 10 anos.

JMP: Qual hospital psiquiátrico a Sra. Trabalha? Como esse fato influenciou ou influencia a criação e administração da ADDM?
Edna: Trabalho na Clínica Nossa Senhora de Lourdes, mas isso não me torna necessariamente uma pessoa influenciável. Fatos dramáticos aconteceram na minha vida que me marcaram profundamente, como a morte de meu filho. Ele era esquizofrênico e morreu sem nenhum tratamento psiquiátrico. Eu tenho também duas sobrinhas que sofrem do mesmo mal, ex-internas do Instituto Raul Soares. As duas são órfãs. Eu cuidei de minha sogra durante 20 anos. Ela também era esquizofrênica. Vocês não acham que são motivos suficientes para presidir uma associação de familiares de doentes mentais?

JMP: O que vem a ser a ADDM?
Edna: Uma associação fundada em 16 de agosto de 2002 para ajudar na causa dos doentes mentais no caos que a população enfrenta para ter uma assistência psiquiátrica digna.

JMP: Como a Sra. vê o atendimento aos doentes mentais em BH?
Edna: Os doentes mentais estão sendo tratados sem o respeito e a eficácia que merecem.

JMP: O que a Sra. pensa do autodenominado movimento antimanicomial?
Edna: Os responsáveis por esse movimento estão agindo de forma atrabiliária e pouco responsável. Digo isso pela quantidade de assassinatos e suicídio que vêm ocorrendo na região metropolitana, cujos protagonistas são ex-internos de hospitais psiquiátricos, em conseqüência da política de saúde mental que estão ajudando a implantar na cidade.

JMP: A Sra. pode provar que os paciente desospitalizados têm se envolvido em suicídios ou assassinatos?
Edna: As provas que possuo são os fatos, alguns acontecidos recentemente. José Marcos da Silva, 36 anos, assassinou com 14 facadas sua mãe Maria Pereira. Fato devidamente no jornal Estado de Minas de 17/12/2002. Luís Otávio Souza Silva, 19 anos, matou a golpes de punhal o aposentado Fidelcino Antônio de Oliveira, 65 anos, e fere mais duas pessoas. Fato registrado pelo mesmo jornal em 27/10/2003. São só dois exemplos, mas eu poderei citar muitos outros se me derem espaço.

JMP: O que a senhora pensa no fechamento dos hospitais psiquiátricos de BH?
Edna: A desospitalização está gerando grandes transtornos aos familiares dos doentes e à população em geral, visto que as famílias envolvidas nesse processo não têm estrutura financeira ou psicológica para manter esses pacientes em casa.

JMP: E os "lares abrigados"?
Edna: Essas instituições não suprem a necessidade de uma assistência médica adequada à fase aguda desses pacientes, e tampouco oferecem seguranças a eles ou à sociedade.

JMP: Como a ADDM é tratada pela Secretaria Municipal de Saúde?
Edna: A SMS não aceita a existência da ADDM, apesar de sermos uma ONG registrada em cartório.

JMP: E a mídia?
Edna: Alguns meios de comunicação nos cedem espaço, mesmo sujeitos à represália dos órgãos públicos.

JMP: Quais represálias?
Edna: Que tipo de represália, não sei. Só sei que quando os procuramos não somos recebidos. Exemplos: procuramos uma certa emissora de TV com a foto de um paciente que havia desaparecido do CERSAM do bairro de Santa Tereza e não conseguimos que a matéria fosse ao ar, nem mesmo a foto mostraram. Uma colunista famosa de um jornal idem inicialmente nos prometeu "ir até o fim" nesse assunto com a gente, depois me telefonou dizendo que estava sofrendo ameaças, e tirou o corpo fora.

JMP: O que deve melhorar no tratamento aos doentes mentais de BH?
Edna: Que os pacientes do SUS tenham acesso aos mesmos tratamentos que têm os doentes particulares e conveniados.

JMP: A Sra. acha que doentes do SUS não têm o mesmo tratamento que os particulares e conveniados?
Edna: A explicação que queremos das autoridades competentes é por que os pacientes tratados pelo SUS, ou seja, os pobres, não têm direito a internações quando essas se fazem necessárias, enquanto que conveniados e particulares, ou seja, os ricos, podem usufruir normalmente de serviços psiquiátricos prestados por clínicas renomadas

 

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