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ano VI - edição 19 - belo horizonte - mg

Editorial - A Sociedade Refém (Por Humberto Campolina)

Semanas atrás, ao abrir meu e-mail deparei-me com um apelo aflitíssimo do prof. João Quevedo, M.D., PhD, do Laboratório de Neurotoxicologia da Universidade do Extremo Sul Catarinense, Criciúma, SC, que terminava pateticamente assim: "Tenho certeza que nunca precisei tanto de vocês [psiquiatras]". A história era a seguinte.
Ao conseguir verba (irrisória, diga-se) do CNPq para financiar uma pesquisa sobre as bases biológicas da eletroconvulsoterapia, o prof. Quevedo foi surpreendido por uma campanha movida por notório difamador de psiquiatras e tratamentos psiquiátricos, convocando ongs e antis de toda espécie para enviar ao reitor da UNESC mensagens caluniosas sobre a pesquisa. No e-mail, intitulado "Manifesto Nacional pela Proibição Imediata das Experiências com Eletrochoque", ficamos sabendo que se trata de "verba criminosa" com o objetivo de financiar "pesquisas torturantes entre as já milhares de pesquisas feitas no mundo todo com a eletroconvulsoterapia", sendo a ECT um "tratamento bárbaro e criminoso, uma violência aos Direitos Humanos". O texto dizia mais: "A câmara de gás também foi criação dos psiquiatras para diminuir a superlotação dos hospícios, e depois usadas pelos Nazistas. (...) E o Psiquiatra Brasileiro, muito deles Nazistas (...). No tecido cerebral vêem-se danos de modo irreversíveis [sic] devido a tal prática bárbara e violenta, absurda e desumana". E rematava: "Essas Experiências são Crimes contra Cidadão Brasileiro; contra a Família Brasileira; contra a Sociedade Brasileira; contra a Humanidade ... que seja proibido o uso de Eletrochoque como 'Terapia' em todo o Tratamento Psiquiátrico, como já o É em muitos paises" (sic).
Tais disparates, alguns beirando a paranóia (a câmara de gás foi inventada pelos psiquiatras...), escritos em estilo atrabiliário e pedante, mereceriam deste jornal indiferença, desprezo ou, melhor, a lata de lixo, não fossem três razões que listo a seguir:
1) Foram perpetrados pelo Representante Nacional dos Usuários no Conselho Nacional de Reforma Psiquiátrica no Ministério da Saúde, o que demonstra a receptividade do setor público a coisas do gênero.
2) Têm poder de mesmerizar profissionais psis jovens e inexperientes, inclusive médicos...
3) Confundem a sociedade, dada a difusão que a mídia brasileira, ingênua ou malandramente, dá a essas pérolas da desinformação.
Esta é uma publicação psiquiátrica, feita para médicos psiquiatras, ipso facto soa-me ocioso fazer as seguintes afirmativas a respeito da ECT:
1) É o único tratamento biológico que subsiste na era psicofarmacológica tal como foi proposto inicialmente, justamente em função da sua eficácia e inocuidade.
2) Pode salvar vidas de catatônicos e depressivos suicidas etc.
3) Não há nenhuma prova científica de que cause lesão cerebral, se aplicado dentro das normas preconizadas; pelo contrário, os testes neuropsicológicos feitos após o tratamento, comparados com os realizados anteriormente, demonstram melhora na performance física e mental do doente.
4) Todos os serviços psiquiátricos de ponta no mundo utilizam-na.
5) É considerado pela OMS um tratamento ético e eficaz.
6) Idem pelo Conselho Federal de Medicina, por quem o tratamento foi recentemente normatizado
Tudo isso qualquer estudante de primeiro ano das residências psiquiátricas sérias sabe. É muito cansativo voltar repetidas vezes a esse assunto, principalmente em ambientes não-leigos. Portanto, ponho aliviado um ponto final nessa matéria.
Mas, perdoem-me a originalidade, uma pergunta não quer calar-se. Por que o setor público, quer dizer, o responsável pelo atendimento da grande maioria da população, ou seja, os pobres, é tão impermeável a evidências clínicas? Por que o usuário do serviço público de saúde mental não tem acesso a um tratamento ao mesmo tempo barato, inócuo e eficaz como a ECT?
Não tenho aqui espaço para escrever sobre as mazelas deste triste País. Menos ainda para falar sobre o atrasado, reacionário e cada vez menos inteligente Estado brasileiro. Para tanto, remeto os leitores ao excelente artigo do prof. Alberto Oliva, "A fuga da realidade", publicado na presente edição. Mas não posso deixar de mencionar o que penso ser fundamental para o entendimento da saúde mental pública brasileira: a omissão das nossas instituições psiquiátricas. Que eu saiba, por exemplo, nenhumas das associações de psiquiatras se manifestou oficialmente em desagravo ao prof. Quevedo. Em Minas, a Associação Acadêmica de Psiquiatria e a Associação Mineira de Psiquiatria sequer escreveram uma linha em favor do professor catarinense. O presidente da AAP, Maurício Viotti, ainda produziu um texto, algo cheio de dedos, mas em nome dele próprio, não da instituição; a AMP, unha e carne com psis antis, nem isso. A nível nacional, a Associação Brasileira de Psiquiatria, a despeito da boa administração imprimida pelo atual presidente Marco Antônio Brasil, também passou ao largo.
Portanto, a sociedade brasileira, em saúde mental, assim como na área da segurança, deve continuar refém de anti-sociais.

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