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Semanas
atrás, ao abrir meu e-mail
deparei-me com um apelo aflitíssimo
do prof. João Quevedo,
M.D., PhD, do Laboratório
de Neurotoxicologia da Universidade
do Extremo Sul Catarinense,
Criciúma, SC, que terminava
pateticamente assim: "Tenho
certeza que nunca precisei tanto
de vocês [psiquiatras]".
A história era a seguinte.
Ao conseguir verba (irrisória,
diga-se) do CNPq para financiar
uma pesquisa sobre as bases
biológicas da eletroconvulsoterapia,
o prof. Quevedo foi surpreendido
por uma campanha movida por
notório difamador de
psiquiatras e tratamentos psiquiátricos,
convocando ongs e antis de toda
espécie para enviar ao
reitor da UNESC mensagens caluniosas
sobre a pesquisa. No e-mail,
intitulado "Manifesto Nacional
pela Proibição
Imediata das Experiências
com Eletrochoque", ficamos
sabendo que se trata de "verba
criminosa" com o objetivo
de financiar "pesquisas
torturantes entre as já
milhares de pesquisas feitas
no mundo todo com a eletroconvulsoterapia",
sendo a ECT um "tratamento
bárbaro e criminoso,
uma violência aos Direitos
Humanos". O texto dizia
mais: "A câmara de
gás também foi
criação dos psiquiatras
para diminuir a superlotação
dos hospícios, e depois
usadas pelos Nazistas. (...)
E o Psiquiatra Brasileiro, muito
deles Nazistas (...). No tecido
cerebral vêem-se danos
de modo irreversíveis
[sic] devido a tal prática
bárbara e violenta, absurda
e desumana". E rematava:
"Essas Experiências
são Crimes contra Cidadão
Brasileiro; contra a Família
Brasileira; contra a Sociedade
Brasileira; contra a Humanidade
... que seja proibido o uso
de Eletrochoque como 'Terapia'
em todo o Tratamento Psiquiátrico,
como já o É em
muitos paises" (sic).
Tais disparates, alguns beirando
a paranóia (a câmara
de gás foi inventada
pelos psiquiatras...), escritos
em estilo atrabiliário
e pedante, mereceriam deste
jornal indiferença, desprezo
ou, melhor, a lata de lixo,
não fossem três
razões que listo a seguir:
1) Foram perpetrados pelo Representante
Nacional dos Usuários
no Conselho Nacional de Reforma
Psiquiátrica no Ministério
da Saúde, o que demonstra
a receptividade do setor público
a coisas do gênero.
2) Têm poder de mesmerizar
profissionais psis jovens e
inexperientes, inclusive médicos...
3) Confundem a sociedade, dada
a difusão que a mídia
brasileira, ingênua ou
malandramente, dá a essas
pérolas da desinformação.
Esta é uma publicação
psiquiátrica, feita para
médicos psiquiatras,
ipso facto soa-me ocioso fazer
as seguintes afirmativas a respeito
da ECT:
1) É o único tratamento
biológico que subsiste
na era psicofarmacológica
tal como foi proposto inicialmente,
justamente em função
da sua eficácia e inocuidade.
2) Pode salvar vidas de catatônicos
e depressivos suicidas etc.
3) Não há nenhuma
prova científica de que
cause lesão cerebral,
se aplicado dentro das normas
preconizadas; pelo contrário,
os testes neuropsicológicos
feitos após o tratamento,
comparados com os realizados
anteriormente, demonstram melhora
na performance física
e mental do doente.
4) Todos os serviços
psiquiátricos de ponta
no mundo utilizam-na.
5) É considerado pela
OMS um tratamento ético
e eficaz.
6) Idem pelo Conselho Federal
de Medicina, por quem o tratamento
foi recentemente normatizado
Tudo isso qualquer estudante
de primeiro ano das residências
psiquiátricas sérias
sabe. É muito cansativo
voltar repetidas vezes a esse
assunto, principalmente em ambientes
não-leigos. Portanto,
ponho aliviado um ponto final
nessa matéria.
Mas, perdoem-me a originalidade,
uma pergunta não quer
calar-se. Por que o setor público,
quer dizer, o responsável
pelo atendimento da grande maioria
da população,
ou seja, os pobres, é
tão impermeável
a evidências clínicas?
Por que o usuário do
serviço público
de saúde mental não
tem acesso a um tratamento ao
mesmo tempo barato, inócuo
e eficaz como a ECT?
Não tenho aqui espaço
para escrever sobre as mazelas
deste triste País. Menos
ainda para falar sobre o atrasado,
reacionário e cada vez
menos inteligente Estado brasileiro.
Para tanto, remeto os leitores
ao excelente artigo do prof.
Alberto Oliva, "A fuga
da realidade", publicado
na presente edição.
Mas não posso deixar
de mencionar o que penso ser
fundamental para o entendimento
da saúde mental pública
brasileira: a omissão
das nossas instituições
psiquiátricas. Que eu
saiba, por exemplo, nenhumas
das associações
de psiquiatras se manifestou
oficialmente em desagravo ao
prof. Quevedo. Em Minas, a Associação
Acadêmica de Psiquiatria
e a Associação
Mineira de Psiquiatria sequer
escreveram uma linha em favor
do professor catarinense. O
presidente da AAP, Maurício
Viotti, ainda produziu um texto,
algo cheio de dedos, mas em
nome dele próprio, não
da instituição;
a AMP, unha e carne com psis
antis, nem isso. A nível
nacional, a Associação
Brasileira de Psiquiatria, a
despeito da boa administração
imprimida pelo atual presidente
Marco Antônio Brasil,
também passou ao largo.
Portanto, a sociedade brasileira,
em saúde mental, assim
como na área da segurança,
deve continuar refém
de anti-sociais.
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