"Fora
funâmbulos da cruz, que
há dois mil anos exploram
vilmente o corpo de Jesus!"
Este é, caso se não
me falhe a memória, o
desfecho fulminante de um dos
poemas anticlericais de Guerra
Junqueiro em sua "Velhice
do Padre Eterno", no qual
ridiculariza a exploração
da Paixão do doce rabi
Yeoshua de Natzarieth, também
conhecido por Jesus de Nazaré,
pelos padres da Igreja Católica
na busca terrena de seu trivial
ganha-pão.
De modo semelhante, nestas plagas
de Brasilis, nunca a imagem
do doente mental foi tão
explorada e manipulada como
nos monótonos tempos
atuais, culminando em uma série
de desatinos burocráticos
e amontoados de baboseiras legislativas,
tais como as encontradas, resplandecentes,
no sólido monumento da
irresponsabilidade humana, quer
seja, na tão discutida
"LEI CARLÃO".
A chamada "Lei Carlão",
de caráter antipsiquiátrico
e de inspiração
petista, elaborada pelo deputado
estadual mineiro Antônio
Carlos Pereira - que nunca pisou
em um hospital psiquiátrico
- e aprovada na véspera
do Natal de 1994 com somente
nove deputados em plenário
e sancionada pelo governador
(após acordo do PSDB
e PT entre o primeiro e o segundo
turno da eleição)
em janeiro de 1995, simplesmente
decretou o fim de leitos psiquiátricos
no Estado de Minas Gerais e
praticamente baniu terapêuticas
biológicas psiquiátricas
mundialmente aceitas pela comunidade
científica internacional,
tais como eletroconvulsoterapia
(ECT), ou melhor dizendo, eletrochoque
com narcose e curarização
(anestesia), e psicocirurgia
nos pacientes psiquiátricos.
Paralelamente, também
decretou a submissão
dos médicos psiquiatras
a uma tutela e patrulhamento
por parte de profissionais de
saúde mental não-médicos
(psicólogos, assistentes
sociais, enfermeiros e terapeutas
ocupacionais), especialmente
no que se refere à justificativa
de internação
e à aplicação
das referidas terapêuticas
biológicas. Curiosamente,
a lei apelava, em seu texto,
ao eufemismo 'sofrimento mental'
ao se referir a transtornos
psiquiátricos, numa vã
tentativa de negar a realidade
médica do adoecer psíquico.
A situação atual
da psiquiatria mineira é
de verdadeira calamidade pública.
Explicando melhor, o que acontece
é o seguinte: o autodenominado
Movimento Antimanicomial, ou
seja, uma linha político-ideológica
inspirada em psiquiatras da
esquerda festiva tais como Franco
Basaglia, Ronald Laing, David
Cooper, Thomas Szasz e outros
menos votados, que alcançaram
sucesso absoluto de público
e de audiência como gurus
da antipsiquiatria na década
de sessenta do século
passado, chegando às
praias mais nobres da intelectualidade
mundial graças à
maré da contracultura
que assolou e contaminou as
mentes mais respeitadas da época,
finalmente chegou ao Brasil.
E, o que é mais importante,
estabeleceu-se e consolidou-se
no poder.
Em Minas Gerais, o referido
movimento, nitidamente inspirado
em Antonio Gramsci, fundador
do eurocomunismo, instalou-se,
após duas décadas
de paciente e dedicada doutrinação
dos profissionais de saúde
mental, nos postos e cargos
mais importantes da administração
pública estadual e municipal
no que se refere às políticas
de saúde mental implementadas
naquele Estado. Desse modo,
seus agentes tomaram de assalto
postos públicos importantíssimos,
tais como assessorias e coordenadorias
de saúde mental municipais
e estaduais - inclusive da Associação
Mineira de Psiquiatria (AMP),
federada da ABP (Associação
Brasileira de Psiquiatria),
órgão oficial
ético-científico
da psiquiatria brasileira -
e, de imediato, iniciaram uma
inexorável ação
político-administrativa
de redução e supressão
de leitos psiquiátricos
no Estado e Município.
A contrapartida assistencial
do movimento antimanicomial
(antipsiquiátrico) foi
a criação dos
tão decantados CERSAM
(Centros de Referência
de Saúde Mental) regionalizados,
verdadeiras gaiolas de ouro
da psiquiatria que, segundo
a ideologia vigente, solucionariam
todos os casos clínicos
e evitariam internações
psiquiátricas, estimulando
e coadjuvando o processo político-ideológico-administrativo
de "desospitalizações"
(neologismo criado pelo movimento)
em massa. O referido movimento,
chegou até a criar uma
data especial dedicada "à
defesa da cidadania do louco"
(sic), dia dezoito de maio,
ocasião na qual, impreterivelmente,
promove passeatas ruidosas e
circenses, com doentes mentais
tristemente fantasiados, maquiados
e rebolando ao ritmo de tambores
toscos, como se fossem autênticos
bobos da corte.
Acontece que as "desospitalizações"
dos pacientes internados em
hospitais psiquiátricos
em convênio com o SUS
não passam de despejos
forçados de pobres coitados,
doentes mentais crônicos,
extremamente dependentes, psiquicamente
bastante deteriorados pela doença,
a maior parte deles sem família
ou sem condições
para serem abrigados e sustentados
por elas. Dessa maneira, as
tais "desospitalizações",
longe de consistirem em atos
heróicos, revolucionários,
dignos de Phillipe Pinel, que
"libertou os loucos das
correntes dos manicômios",
constituem-se em atos covardes,
mesquinhamente ideológicos
e, principalmente, insensíveis,
levando-se em conta a classe
sócio-econômica
desses infelizes, a maioria
originária do chamado
"lumpen operariado"
(sem qualquer qualificação
profissional), segundo Marx.
Nesse processo, não são
incomuns altas indevidas ou
precoces de conseqüências
às vezes trágicas.
Pacientes psicóticos
cometendo agressões,
homicídios, suicídios
ou sendo atropelados devido
à deterioração
de seu estado mental. Além
disso, há a multiplicação
da mendicância e de albergues
administrados e gerenciados
por leigos, sem a mínima
condição de tratar
de um enfermo psiquiátrico,
com os doentes, muitas vezes,
dormindo a céu aberto
ou em canis, acreditem, e sem
medicamentos. Há rumores
de "venda" de pacientes,
de um verdadeiro comércio
de doentes entre diversos albergues.
Ora, sabe-se que em nossa experiência
clínica, de quase três
décadas, associada à
mais moderna literatura psiquiátrica
(KAPLAN & SADOCK, 2003)
- considerada mundialmente a
mais confiável referência
teórico-prática
no exercício da especialidade
- que o ECT (eletroconvulsoterapia)
pode salvar vidas, como em condições
clínicas extremas tais
como depressões graves
com risco aumentado de auto-extermínio,
"catatonia letal",
casos graves de anorexia nervosa
e esquizofrenia e "delirium".
Sabe-se, também, que
alguns casos clínicos
refratários (resistentes)
de esquizofrenia paranóide,
onde predominam sintomas alucinatórios
persistentes, podem beneficiar-se
com o ECT.
A psicocirurgia estereotáxica
(Capslutomia, Tratotomia sub-caudada,
Leucotomia Límbica e
a Talamotomia dorso-medial)
pode beneficiar inúmeros
pacientes portadores de depressão
crônica e (ou) TOC (Trasnstorno
Obsessivo-Compulsivo) intratáveis,
ou seja, pacientes não
responsivos à farmacoterapia
tradicional.
Sabe-se, também, que
a verdadeira revolução
psiquiátrica teve início
em 1952 com a síntese
acidental, em laboratório,
da clorpromazina, a primeira
substância química
que se mostrou, até então,
surpreendentemente eficaz no
alívio dos delírios
e alucinações
dos pacientes psicóticos,
notadamente os esquizofrênicos,
abrindo caminho para a síntese
posterior de outros medicamentos
mais aprimorados e dotados de
potência antipsicótica
cada vez maior e propiciando,
assim, uma diminuição
considerável do tempo
de hospitalização
desses enfermos e um esvaziamento
progressivo e notável
dos tradicionais asilos de alienados.
Desse modo, concluímos
que o legítimo Movimento
Antimanicomial pode ser definido,
sim, como a aplicação
adequada e correta dos recursos
e técnicas psiquiátricas
mais modernas e eficazes disponíveis
para o tratamento dos transtornos
psiquiátricos que se
apresentam nos serviços
assistenciais através
de um diagnóstico preciso
e cuidadoso efetuado por médicos
qualificados para tal, ou seja,
pelos psiquiatras.
Diante dessas evidências
científicas irrefutáveis
e de procedimentos técnicos
que, de modo incontestável,
melhoram e tornam a existência
dos portadores dessas patologias
em algo tolerável, vimos
defendê-las em âmbito
geral e irrestrito. Mas, o que
dizer dos defensores da "Lei
Carlão"?
Por quê surge uma lei,
alhures, que reza exatamente
o contrário?
A melhor explicação
talvez consista no que se segue:
os caciques da esquerda festiva,
já nos idos da década
de 70, vislumbraram, matreiramente,
um projeto de ação
política destinado a
galgar os degraus do serviço
público e fruir, com
intenso gozo, tépidos
cargos em comissão abrigados
em macios e confortáveis
gabinetes. Adivinhem qual foi
a manobra: arrebanhar devotos
seguidores paramédicos
prometendo-lhes a tomada do
poder dos médicos, conseguindo,
assim, preciosos votos, assembleísmo
compulsivo, apoio da mídia
e, gostosamente, mais e mais
poder (leiam-se viagens, hotéis
cinco estrelas e outras mordomias
pagas pelo contribuinte). Quem
trabalha nos serviços
de urgência e ambulatórios
psiquiátricos presencia,
divertidamente, uma azáfama
em ritmo alucinante: psicólogos
querendo, a todo custo, ser
médicos-psiquiatras,
enfermeiros querendo ser psicólogos,
terapeutas ocupacionais e assistentes
sociais querendo ser psiquiatras
e psicólogos, etc. Enquanto
isso, a verdadeira rotina do
atendimento psiquiátrico
consiste na seguinte seqüência
de ações: (1)
O doente mental fica agitado,
quebra tudo em casa e ameaça
os familiares; (2) A família
liga para o 190; (3) A Polícia
Militar leva o enfermo ao serviço
de urgência; (4) Os atendentes
psiquiátricos o contêm
com ajuda do psiquiatra que
faz a sedação
e prescreve a medicação
específica; (5) Depois
que o doente melhora, vêm
os "doutores" psicanalistas
patrulhar e palpitar sobre o
caso e fazer a sua inócua
"escuta analítica",
ou seja, de acordo com o dito
popular, "depois da onça
morta aparecem vários
caçadores..."
KARL MARX,
em sua doutrina histórico-materialista,
conceitou as duas dimensões
dialéticas básicas
para a compreensão do
estabelecimento do senso-comum
ideológico através
dos tempos. Ensinou que de uma
infraestrutura material ("unterbau")
emerge uma superestrutura ideológica
("überbau").
Assim, por exemplo, o celibato
dos padres (superestrutura ideológica)
originou-se da obstinada recusa
da Igreja em dividir o seu rico
patrimônio (infraestrutura
material).
Da mesma maneira, voltando à
exploração e manipulação
maciças da imagem do
doente mental, pode-se afirmar
que da disputa nas relações
de produção do
mercado de saúde mental
(infraestrutura), originou-se
uma ideologia essencialmente
antipsiquiátrica (superestrutura),
expressando-se sob a forma de
violentas e ruidosas acusações
contra os hospitais psiquiátricos,
tratamentos psiquiátricos
e contra a imagem do médico
psiquiatra. Isso, como se pode
constatar, é deliciosamente
explorado por aqueles lépidos
espertalhões, caciques
de saúde mental, nestes
duros tempos de sobrevivência
da esquerda festiva, privada
que está da suculenta
e lucrativa vitimologia da ditadura
de outrora.
Eis aí a essência
nababesca da famigerada "Lei
Carlão" que se limita
a defender, com unhas e dentes,
a cidadania de seus próprios
idealizadores e fiéis
seguidores, não se preocupando,
por mínimo que seja,
com o destino e sorte do doente
mental, condenado a enfrentar
inumeráveis entraves
burocráticos dos "mini-comitês"
criados, objetivando o controle
da Loucura pelo Estado e retardando,
assim, a sua legítima
busca de tratamento psiquiátrico.
Como toda insensatez tem a vida
curta, tal amontoado de disparates
em forma de lei, já assomou
natimorto. Felizmente. Quem
viver verá.
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