No
Brasil é forte a tendência
a tratar problemas localizados
com ilusionismo jurídico.
Para cada conjunto de desafios
tem-se criado um estatuto. Para
cada dificuldade importante
da vida coletiva adota-se um
subterfúgio legal. Se
os desafios objetivos não
retrocedem, nada mais brasileiro
que sair pela tangente. Se há
bandidos armados até
os dentes barbarizando a cidade,
sitiando as populações
faveladas, impondo sua lei de
talião, não há
necessidade de responder a isso
com uma política séria
de segurança. Basta introduzir
como solução engenhosa
o Estatuto do Desarmamento.
Controlem-se as armas legais
e não será necessário
ter preocupação
com as AR-15 dos criminosos.
Se as promessas de campanha
são solenemente descumpridas
porque os eleitos desconheciam
a realidade do País,
o que configura falta de preparo,
ou porque queriam engambelar
o eleitorado, a saída
providencial consiste em denunciar
a herança maldita. Se
a legislação trabalhista
dificulta a geração
de empregos, jogando metade
dos trabalhadores na informalidade,
culpe-se a política macroeconômica
neoliberal. Se a carga tributaria
é escorchante, drenando
recursos do setor produtivo
para o buraco negro dos gastos
públicos, considere o
empresário a grande sanguessuga
dos bolsos depauperados.
Se não há estímulo
ao investimento e respeito inequívoco
à propriedade privada,
atribua-se aos juros altos e
ao vampirismo dos bancos o baixo
crescimento da economia. Se
os problemas sociais se mantêm
aflitivos, de difícil
equacionamento, e faltam investimentos
em infra-estrutura, demonize-se
a responsabilidade fiscal propondo
que seja substituída
pela responsabilidade social.
Se a escola pública é
ruim, reservem-se vagas nas
universidades para os que nela
estudaram. Se os negros, com
todos os efeitos deletérios
da escravidão, estão
entre os contingentes mais pobres
da população,
invoque-se o racismo para explicar
o status social inferior em
que se encontram. Se o ensino
de 1º e 2º graus é
de péssima qualidade,
e as autoridades não
querem ser cobradas por isso,
proponha-se a mágica
da Universidade para Todos.
Como continuação
do bacharelismo de antanho,
defenda-se o canudo como meio
de ascensão social.
Se não dá para
ir aos estádios por estarem
infestados de vândalos
que se dizem integrantes de
torcidas organizadas, promulgue-se
um estatuto, o do Torcedor,
cheio de severidades legais
o tempo todo desrespeitadas
na prática. Se os adolescentes
mostram natural propensão
ao comportamento agressivo,
eventualmente criminoso, defenda-se
a intocabilidade do ECA para
que fiquem mais à vontade
para delinqüir e matar.
Se o idoso não recebe
os devidos cuidados porque seus
familiares estão travando
a dura luta pela sobrevivência
ou porque lhes faltam recursos,
finja-se que o Estado por eles
se interessa fazendo entrar
em vigor o Estatuto do Idoso.
A proliferação
de estatutos no Brasil é
o substitutivo psicossocial
para o constante desrespeito
às leis fundamentais.
Se a gravidez entre adolescentes
no Brasil é altíssima,
faz-se de conta que isso nada
tem a ver com paternidade irresponsável.
Se a taxa de natalidade entre
as mulheres pobres é
muito maior que a das mulheres
da classe média, atribua-se
o aumento da pobreza à
iniqüidade do sistema.
Satanize-se a mensagem do planejamento
familiar como se fosse controle
da natalidade, como coisa da
direita. Em suma, se as causas
dos problemas são difíceis
de equacionar, desvie-se a atenção
delas fazendo malabarismos com
seus efeitos. Como a responsabilidade
no Brasil não é
individual, a culpa é
sempre colocada, por ordem,
no capitalismo, no neoliberalismo,
na globalização
e na sociedade. E se você
está de saco cheio de
ser o tempo todo tratado como
um idiota, finja que não
é nada disso ou ficará
muito infeliz.
Alberto Oliva é professor
de Filosofia da UFRJ
e autor de "A Solidão
da Cidadania"
e-mail: aloliva@uol.com.br
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