O
NARCISISMO PRIMÁRIO,
O MASOQUISMO PRIMÁRIO
E O PÂNICO PRIMÁRIO
NO CONTEXTO PSICOPATOLÓGICO
Mário
Catão Guimarães
Belo Horizonte
Junho /2004
Introdução
Este trabalho
tem uma estrutura independente,
mas pode ser entendido como
uma continuação
de outro texto intitulado Doença
do Pânico e Sua Vertente
Psicogenética, de nossa
autoria, e seu objetivo é
ver como as emoções
de amor, ódio e medo
vão estruturar, em conjunto,
os aspectos normais e patológicos
da personalidade (Guimarães,
2004). No texto citado, abordamos
em pormenor o tema Pânico
Primário, porém
vamos voltar à definição
do mesmo.
A definição
de pânico primário
não foge ao padrão
fornecido por Freud sobre narcisismo
primário. O pânico
primário seria o medo
com o qual a criança
já nasce. Ele se refere
ao período ano-objetal
e é auto-referencial.
O pânico secundário
seria o medo do objeto internalizado.
Um exemplo prático seria
o medo infantil dos objetos
maus internalizados e o medo
neurótico do superego
aterrorizante.
O Pânico
Primário nada mais é
que o medo com o qual o indivíduo
já nasce, e recebe essa
denominação por
não possuir objeto externo,
como ocorre nos primeiros meses
do nascimento da criança.
Após o aparecimento do
objeto externo já se
pode falar em medo, emoção
com a qual vamos trabalhar neste
texto.
No evoluir da
vida a emoção
do medo vai tomando ou pode
tomar os mais variados tons
afetivos e pode estar mesclado
com outros aspectos do psiquismo.
Adquire matizes afetivas ou
outros aspectos da personalidade
em que Hórus é
patriarca no sentido de ser
uma estrutura bioquímica
preformada. Medo, susto, ansiedade,
angústia, síndrome
do pânico e as fobias
são os descendentes de
Hórus que mais interessam
à psicopatologia.
Na vida cotidiana
os qualificativos que o medo
adquire, de caráter pessoal,
são incontáveis
e nem sempre representam algo
elogiável - covarde,
tímido, medroso, etc.
Na terminologia de Caserna estão
sempre associados às
funções excretórias
e sem controle. Prudente, que
vai mesclado com o intelecto,
é um dos poucos elogiosos
que se pode citar.
Foge ao domínio da psicanálise,
porém, a mais nova descendente
de Hórus, nascida nas
grandes cidades, chama-se insegurança.
Duby (1999),
estabelece um paralelo entre
os medos medievais e os medos
de hoje e aborda os seguintes
medos: O medo da miséria,
o medo do outro, o medo das
epidemias, o medo da violência
e o medo do além. Isto
mostra que fora o medo da solidão,
que atinge o homem da era moderna,
a mudança foi pequena.
Como já
falamos o suficiente sobre o
Pânico Primário,
e em seu correlato mais importante,
o medo, vamos ver como Freud
(1914,1924) aborda o Narcisismo
Primário e o Masoquismo
Primário:
Narcisismo Primário
"Pôr
nossa experiência clínica,
Freud fala, conhecíamos
pessoas que se conduziam singularmente
como se estivessem enamoradas
de si mesmas, e havíamos
dado a esta perversão
o nome de narcisismo".
"A palavra
narcisismo empregamos para designar
a esta perversão em que
o indivíduo mostra para
seu próprio corpo a ternura
que normalmente reservamos para
um objeto exterior". (Freud,
1916-1918).
"É
possível que a libido
dos objetos se transforme em
libido do Eu e o contrário.
Do Eu afluem à libido
aos objetos e este Eu esta sempre
disposto a acolher a libido
retornada dos objetos".
Continuando
no mesmo texto: "Das relações
entre a libido do Eu e a libido
objetivada é possível
uma comparação
com aspectos da zoologia. Os
protozoários emitem prolongamentos
que podem retornar ao próprio
corpo. A emissão de prolongamentos
seria a afluência da libido
aos objetos, enquanto que sua
massa principal permanece no
Eu, e admitimos que, em circunstâncias
normais, a Libido do Eu se transforma
com facilidade em libido objetivada
e inversamente. Com a ajuda
destas representações
fica possível descrever
grande número de estados
psíquicos que devem ser
considerados como uma parte
da vida normal, tais como: O
enamoramento, as enfermidades
orgânicas e o repouso
noturno".
Repouso noturno
O dormir é
um estado em que todas as energias
libidinosas e egoístas
ligadas aos objetos se retiram
deles e retornam ao Eu. Evoca
o feliz isolamento da vida intra-uterina.
O individuo que dorme parece
reproduzir o primitivo estado
de distribuição
de libido, isto é, o
narcisismo absoluto.
Enfermidades
orgânicas
Uma afecção
orgânica, uma irritação
dolorosa ou uma inflamação
de um órgão criam
um estado em conseqüência
do qual fica a libido desligada
de seus objetos e retorna ao
Eu, manifestando-se como um
revestimento reforçado
do órgão enfermo.
Podemos afirmar que, diz Freud,
nestas condições
o desligamento da libido de
seus objetos é ainda
mais evidente que o do interesse
egoísta com respeito
ao mundo exterior. Esta situação
é igual à da hipocondria,
apesar do órgão
não apresentar lesão
real.
Enamoramento
Dizendo que
o altruísmo se distingue
pela ausência total da
perseguição de
satisfação sexual,
ele afirma que somente no amor
absoluto coincide o altruísmo
com a
Concentração da
libido sobre o objeto sexual.
Este atrai para si uma parte
do narcisismo, circunstância
na qual se manifesta aquilo
que podemos denominar "supervalorização
sexual" do objeto. Nestes
casos o Eu se torna muito diminuído
em relação ao
objeto.
Dentro desta
linha, o amor como uma espécie
de enfermidade, fato estranho
para as pessoas que não
tiveram oportunidade de tratar
de esquizóides, nos lembramos
de Fairbairn (1940) quando aborda
o sofrimento do paciente esquizóide
nas circunstâncias em
que se envolve numa situação
de enamoramento. Parece-nos,
diferente do pensamento de Fairbairn,
que a dificuldade que têm
os esquizóides de amar
está no empobrecimento
de Eu, verificado nas situações
em que se inicia ou se instala
uma paixão. Lembramos
que parte do amor do esquizóide,
que já é pouco,
sendo dirigido a uma pessoa
acarreta um esvaziamento libidinoso
do Eu, ficando a situação
muito ameaçadora para
o paciente.
O tema "enfermidade
amorosa" é mais
antigo do que se pensa. Umberto
Eco, em O Nome da Rosa, um romance
que se desenrola em época
medieval, faz uma interessante
narrativa sobre a situação
de um dos heróis da história
que se torna apaixonado, mas
na linha da doença -
paixão como doença
do corpo e do espírito
- e termina com uma receita
de Santa Emengarda que, a título
de tratamento, para evitar a
morte pela consumpção,
recomenda o casamento (Eco,
l986).
Masoquismo Primário
Por masoquismo
primário entende Freud
um estado em que a pulsão
de morte é ainda dirigida
para o próprio indivíduo,
mas ligada pela libido e fundida
com ela. Este masoquismo chama-se
primário porque não
se segue a um momento em que
a agressividade estaria voltada
para um objeto exterior, e também
na medida em que se opõe
a um masoquismo secundário,
que se define como uma volta
ou retorno do sadismo sobre
a própria pessoa e se
junta ao masoquismo primário.
O componente agressivo do individuo
será tratado, neste texto,
por ódio (Freud, 1920).
Material e Método
Como falamos
na introdução,
o objetivo deste trabalho será
ver como é que, em conjunto,
os três elementos, amor,
ódio e medo vão
estruturar os aspectos normais
e patológicos da personalidade.
As três
categorias afetivas básicas,
amor, ódio e medo, são
representadas na mitologia respectivamente
por Eros, Tânatos e Hórus
e estas podem ser consideradas
como três estruturas instintivo-afetivas
pré-formadas e portanto
pré-existentes já
antes do nascimento. Cada componente
destas estruturas adquirem,
respectivamente, os nomes de
Narcisismo Primário,
Masoquismo Primário e
Pânico Primário,
a partir do nascimento até
os dois primeiros meses de idade,
e cuja característica
comum seria a de não
possuir objetos externos.
As três
estruturas emocionais básicas
ou principais, com a possibilidade
do recém-nascido estabelecer
relações afetivas
com os objetos, adquirem ou
recebem os nomes vulgares: amor
(sexualidade), ódio (agressividade)
e medo (ansiedade ou angústia).
Daí para
frente é possível,
com o conjunto afetivo constituído
por estes três elementos,
partir em direção
aos aspectos psicopatológicos
num interessante exercício
de futurologia.
A idéia é absolutamente
lógica. Se o indivíduo
já nasce com as três
emoções, amor
(libido), ódio (instinto
de destruição)
e medo (emoção
a serviço do instinto
de autoconservação),
elas estariam presentes durante
o desenvolvimento individual.
Aparentemente
tratava-se de uma tarefa simples.
Tomaríamos o esquema
de Abraham (1924) sobre o desenvolvimento
da libido ou o esquema de Fairbairn
(1940), e tudo ficaria encaixado.
Vamos apresentar
a reprodução parcial
do esquema de Abraham que nos
interessa, ficando ausente a
coluna da ambivalência.
Fases da organização
libidinal \ fases do amor objetal
VI. Fase Genital final \ Amor
Objetal
V. Fase Genital Inicial \ Amor
Objetal com exclusão
(fálica) \ dos genitais
IV. Fase Sádico-anal
Posterior \ Amor Parcial
III. Fase Sádico-anal
Primitiva \ Amor Parcial com
incorporação
II.Fase Oral Posterior \ Narcisimo
(incorporação
total
(canibalesca) \ do objeto)
I. Fase Oral Primitiva \ Auto-erotismo
(sucção) \ (sem
objeto)
A procura pelo quadro sinóptico
tem sua razão de ser:
Dá uma idéia global
onde se encaixa o pânico
primário no contexto
psicopatológico.
Nosso objetivo seria ainda enquadrar
as emoções primárias
(amor, ódio e medo) como
responsáveis pelos aspectos
psicopatológicos já
nos primeiros seis ou sete meses
de vida do bebê, pois
acreditamos que tudo que acontece
neste período vai se
repetir nos demais.
A propósito
do esquema de Abraham, cabe-nos
informar que este autor aponta,
no decorrer do texto, patologias
que correspondem às fases
do desenvolvimento libidinoso
e as relações
de objeto, sem explicitar esta
correspondência. As patologias
que ele aborda são as
seguintes: Melancolia, paranóia,
neurose com vários aspectos
sintomatológicos e o
fetichismo. Em seu trabalho
de 1921 deixa de modo explícito,
em forma de quadro, outras patologias
além das que foram mencionadas.
Fenichel (1966)
apresenta um certo melhoramento
no quadro de Abraham, mas não
deixa explícita a emoção
de ódio e a de medo ou
angústia. Claro que a
agressividade está implícita
quando os autores falam nas
fases em que existe marcada
ambivalência.
Spitz tem um
quadro sinóptico das
relações objetais
relativas ao primeiro ano de
vida da criança. Encontramos
este quadro em Ey (1969). Ele
é útil porque
delimita, com base na observação
clínica, o período
pré-objetal que vai de
0 a 2 meses e meio, em média,
e o período em que a
criança já conhece
a mãe e familiares, que
está em torno de 7 ou
8 meses de idade.
Os quadros de
Fairbairn e Abraham não
nos auxiliam muito por não
inter-relacionarem as emoções
e somente um deles esboça
as correlações
psicopatológicas (Abraham).
Nosso problema
é, como já falamos,
colocar os três elementos
afetivos e andar com eles durante
o desenvolvimento individual,
seja ele de natureza libidinosa
ou com base na idade cronológica,
e ver como eles se complementam
para gerar os aspectos normais
e patológicos.
Outros Caminhos
O enquadramento nos esquemas
dos autores focalizados não
nos pareceu satisfatório.
Todos dão ênfase
ao desenvolvimento da libido
e as relações
objetais são vistas somente
sob o aspecto amoroso e de maneira
isolada. Nós estamos
tentando levar as emoções
de modo associado ou em conjunto.
Existe em Freud o desenvolvimento
da libido, do masoquismo primário
e da angústia. Só
que estes três elementos
são apresentados de modo
independente um do outro (Freud,
l925).
O tema associação
de emoções e as
respectivas proporções
entre si já se encontra
em Freud quando diz, abordando
o tema sadismo e masoquismo,
que eles são "dois
acabados exemplos da mescla
de duas classes de instintos;
de Eros com a agressão
(...) naturalmente, nas mais
diversas proporções".
Além da palavra mescla,
Freud (1932) já usou,
abordando o sado-masoquismo,
os termos liga e amálgama,
ambos com a conotação
metalúrgica.
Se tomarmos um grupo qualquer
destas emoções
associadas e introduzirmos um
valor indicador de quantidade,
por exemplo, maior para uma
delas, teremos dois grupos ou
dois resultados emocionais diferentes.
A título de exemplificação,
tomemos o grupo Amor-Medo ou
a associação amor
e medo. Se houver nítido
predomínio do amor sobre
o medo, este aspecto emocional
tende para a configuração
da histeria. Ao contrário,
se houver claro predomínio
do medo sobre o amor, a configuração
emocional tende para a fobia.
Quando uma das
emoções adquire
um valor quantitativo tal que
venha predominar internamente
sobre as outras, podem permitir
estabelecer correspondência
com personagens da ficção
literária, com aspectos
dominantes do caráter
e do humor, e com aspectos profissionais
específicos do presente
ou do passado, conforme se vê
a seguir:
Muito Amor:
temos os otimistas, os santos,
os bonachões, os casanovas,
etc.
Muito Ódio: temos os
assassinos, os guerreiros, os
boxeadores, etc.
Muito Medo: temos os fóbicos,
os paranóides, os tímidos,
os heróis de guerra,
os neuróticos de guerra,
etc.
A noção de predominância
e a idéia de considerar
as emoções associadas
(combinadas) ou isoladas vêm
da observação
clínica de patologias
que deixam transparecer o aspecto
quantitativo, as combinações
ou o aparente isolamento.
Resultados
O quadro que
segue seria o resultado do que
apontamos no primeiro trabalho.
Como se pode ver, os elementos
pulsionais estão colocados
numa posição que
em última instância
é indicadora de um aspecto
temporal ou evolutivo, na vida
do individuo.
| Eros
|
Narcisismo
Primário |
Amor
(libido) |
| Tânatos |
Masoquismo
Primário |
Ódio
(destrutividade) |
| Hórus |
Pânico
Primário |
Medo
(ansiedade, angústia) |
| Período
Fetal |
Período
Pré-objetal
|
Período
Objetal |
|
Quadro
1
Já que
estamos tratando de três
elementos (instintivos ou emocionais)
ao mesmo tempo, nada mais lógico
que associá-los ou combiná-los
em um, dois e três elementos.
A idéia
de considerar as emoções
combinadas ou isoladas vem da
observação clínica
de patologias que deixam transparecer
estas combinações
ou este aparente isolamento.
Outro ponto
a ressaltar é que os
textos psicanalíticos
estão repletos de termos
ou expressões tais como:
predomínio, grau, maior
intensidade, etc. Tivemos a
oportunidade de selecionar este
tipo de termos em diversos autores,
porém a monotonia das
citações era tal
que decidimos mostrar somente
o que Freud disse sobre o tema,
que apresentamos um pouco acima
e de maneira bastante resumida
Vamos chamar
de grupos emocionais básicos
ao amor, ódio e medo
e suas respectivas associações,
como se verá a seguir:
Emoções isoladas:
a- amor
b- ódio
c- medo.
Emoções
combinadas 2 a 2:
a- amor e ódio
b- amor e medo
c- ódio e medo.
Emoções
combinadas 3 a 3:
a- amor, ódio
e medo.
Temos sete
disposições afetivas.
A idéia
de predominância é
uma conseqüência
da associação
ou mescla de emoções
ou instintos em suas respectivas
proporções. Pode
significar ainda a predominância
de uma emoção,
isoladamente, e pode indicar
também predominância
de uma emoção
sobre a outra ou de um instinto
sobre outro independente do
caráter metalúrgico.
Apesar da semelhança
ou equivalência do termo
predominância com o que
Freud chama de proporção
ou aspectos quantitativos, no
que se refere aos aspectos instintivos
ou emocionais, continuaremos
a falar em predominância
por razões de natureza
prática.
Já o
motivo que nos levar a usar
o termo associação
é o seguinte: Nas associações
o que existe é mera coexistência
de duas ou mais emoções
ou instintos e não possuem
este significado de forte aderência
como têm os termos ligas,
amálgamas, etc.
Com as emoções
isoladas e associadas é
possível estabelecer
correspondência entre
os grupos emocionais e alguns
quadros mais estudados pela
psicanálise.
Emoções isoladas
| Amor |
Normal |
| Ódio |
Psicopatias |
| Medo |
Fobias,
Doença do Pânico. |
|
Quadro 2
Emoções
associadas
| Amor
e Ódio |
Sadismo,
PMD, Neurose obsessiva |
| Amor
e Medo |
Histeria
Fobia |
| Ódio
e Medo |
Esquizoidia,
Paranóia |
| Amor,
Ódio e Medo |
Normal
Neuroses Masoquismo |
|
Quadro
3
Os
conjuntos de sete elementos
já referidos, resultantes
das associações
dos três componentes -
amor, ódio e medo -,
aliados com a idéia de
predominância, permitem
antever a correspondência
entre cada grupo emocional e
as patologias onde se encontram,
de modo mais específico
do que se viu anteriormente.
Vejamos os exemplos que seguem,
onde se nota o predomínio
de uma emoção
sobre as demais ou de duas sobre
a outra.
1 - Predomínio do amor
sobre as emoções
de ódio e medo - Teríamos
o normal, o otimista, a mania
unipolar, etc.
2 - Predomínio do ódio
sobre as emoções
de amor e medo - Teríamos
a depressão, a depressão
melancólica, as psicopatias,
etc.
3 - Predomínio do medo
sobre o amor e ódio -
Teríamos a doença
do pânico, as fobias,
etc.
4 - Predomínio do amor
e ódio sobre o medo -
a) em quantidades iguais teríamos
a neurose obsessiva, o sadismo,
a depressão melancólica,
etc. b) com grande predominância
do ódio sobre o amor,
teríamos o Serial Killer.
5 - Predomínio do amor
e medo sobre o ódio -
a) com predominância do
amor teríamos a histeria.
b) com predominância do
medo, teríamos a fobia.
A simples associação
das emoções nos
permite vislumbrar uma relativa
especificidade entre o grupo
emocional e as patologias correspondentes.
Como se pode notar, é
porém insuficiente. A
idéia de predomínio
já deixa transparecer
uma maior especificidade, como
acréscimo ao fator associação,
conforme se viu nos exemplos
fornecidos acima.
De posse dos elementos associação
de instintos ou emoções
mais o fator quantitativo, é
possível fazer a respectiva
correspondência entre
eles e os diversos quadros psicopatológicos.
Resta-nos quebrar o aspecto
estático do quadro 3
e imprimir nele o caráter
evolutivo ou temporal que vai
nos permitir apontar aspectos
da evolução e
das fixações.
Na linha do horizonte pode-se
colocar uma grande variedade
de tópicos que possuem
a idéia de tempo. Qualquer
tópico que tenha uma
referência temporal serve
como pano de fundo ante o qual
vamos assistir o desenrolar
dos aspectos normais e patológicos
da criança. O mais simples
seria a idade cronológica
e o mais útil e prático
é o desenvolvimento libidinoso.
De Spitz (1970) tomamos o tópico
relativo às relações
objetais e de Freud e Abraham
o relativo ao desenvolvimento
da libido.
O
quadro 4 já atende ao
nosso objetivo que é
apresentar os três componentes,
amor, ódio e medo, atuando
em conjunto para estruturar
os diversos aspectos psicopatológicos.
Cabe-nos fazer alguns esclarecimentos
sobre o mesmo:
1 - Ele se refere em sua maior
parte, à fase oral. Como
o leitor pode notar, a fase
anal e o inicio da fase fálica,
a qual estamos chamando de fase
uretral, estão se iniciando
no final da fase oral, mas não
necessariamente após
seu término.
2 - Existe uma correspondência
aproximada entre o período
expresso em meses e certos acontecimentos
biológicos e psicológicos.
Assim é que de 0 a 2,5
meses é o espaço
de tempo correspondente ao período
pré-objetal. A partir
de 2,5 meses começa o
período denominado por
Spitz de primeiro organizador.
Em torno do sétimo ou
oitavo mês começa
o período do segundo
organizador.
3 - Ao redor do sexto ou sétimo
mês encontramos uma interessante
confluência constituída
pelo nascimento dos dentes,
inicio da fase anal e fase uretral.
Todos estes aspectos têm
grande importância no
que diz respeito à agressividade
individual. Abraham chega a
dizer que neste período
o fim sexual se transforma em
fim agressivo.
4 - Poderíamos ter uma
coluna com três pontos
representantes da reticência
para indicar que aí vão
se desenrolar os acontecimentos
das demais fases da libido.
5 - Uma coluna está reservada
ao resumo das matrizes arcaicas
e fica opcional a introdução
de uma coluna sobre os aspectos
caracterológicos, antes
da coluna reservada aos quadros
patológicos.
6 - É possível
o crescimento do quadro sinóptico
no sentido vertical e horizontal
mas, em razão de nosso
objetivo ser focalizar somente
a fase oral, não tem
sentido no momento sua ampliação.

Quadro
4
Discussão
Uma pergunta que pode ser feita
é a seguinte: A Introdução
da idéia de pânico
primário com o mesmo
status que o narcisismo primário
e o masoquismo primário
teria alguma modificação
no enfoque psicanalítico?
Em nosso modo de ver imprime
uma certa logicidade à
psicogênese das diversas
patologias de base psicogenética
e que representam as patologias
que a psicanálise lida
no dia a dia.
Freud quando fala na associação
emocional usa o termo mescla
ou ligas. Nestes casos fica
claro que os aspectos instintivos
ou emocionais envolvidos na
patologia têm um vínculo
muito forte, quase metalúrgico.
Quando falamos em associação
ou combinação
estamos indicando apenas a presença
dos instintos ou emoções
e quando falarmos em patologias
como o sadismo e o masoquismo,
usaremos os termos mescla, amálgama,
etc.
Esta diferença de abordagem
já indica a possibilidade
de estabelecer diferença
diagnóstica de patologias
tais como as mencionadas. Para
maior clareza vamos exemplificar:
entre o sádico e o neurótico
obsessivo, ambos com o grupo
emocional amor e ódio,
a diferença é
que no sádico existe
a característica de amálgama,
o que não acontece na
neurose obsessiva, na qual as
emoções não
são vinculadas.
A predominância e a associação
de aspectos emocionais ou instintivos
seria uma hipótese gratuita?
A idéia de predominância
é conseqüência
natural da junção
de dois fatores: O fator quantitativo
e o fator associação
de emoções, os
quais por sua vez são
resultados da observação
clínica.
Esta associação
de emoções é
um fator corriqueiro na clínica
psiquiátrica, na psicanálise
e na psicopatologia. Assim,
pois, o sadismo seria a associação
de amor e ódio. O masoquismo
seria a associação
do amor, ódio e medo
(Nacht, 1966). Já na
neurose obsessiva teríamos
também a associação
de amor e ódio, enquanto
na fobia e na doença
do pânico teríamos
o medo como emoção
isolada ou senão predominante.
Nossa intenção
era introduzir em conjunto as
emoções de amor,
ódio e medo no desenvolvimento
individual. Surgiu, porém,
o fator predominância
de uma emoção
sobre a outra em decorrência
da associação
das emoções e
isto, ao invés de tornar-se
mais um complicador, veio facilitar
muito a tarefa (ver quadro geral
4).
A procura por um quadro sinóptico
para o período oral tem
uma razão de ser: o que
acontece neste período
vai acontecer do mesmo modo
ou de modo semelhante, nos demais
períodos.
Como o leitor pode ver, somente
o fator predominância
ou quantitativo mais o aspecto
emocional não são
insuficientes para determinar
todas as patologias por categorias
diagnósticas. É
claro que existem outros fatores
que vão auxiliar nesta
diferenciação.
Nada falamos no que se refere
a patologias esquizofrênicas.
Neste campo seria temerário
afirmar qualquer coisa, pois
aí nos cabe esperar que
uma bioquímica com mais
sutileza e menos pretensão
tenha a última palavra.
No quadro sinóptico seríamos
tentados a colocar o grupo das
esquizofrenias na associação
emocional ódio e medo,
com talvez nítido predomínio
do medo.
Para finalizar estes comentários,
poderíamos voltar à
pergunta inicial e dizer que
a introdução do
pânico primário
permitiu a estruturação
da matriz arcaica e esta, por
sua vez, deu inteira logicidade
à psicogênese dos
quadros que a psicanálise
e a psicopatologia lidam no
dia a dia.
Conclusões
Começamos à guisa
de exercício de futurologia,
montar um esquema de desenvolvimento
da personalidade normal e patológica
partindo do Narcisismo Primário,
Masoquismo Primário e
Pânico Primário.
Acreditamos poder dizer com
base no que foi apresentado,
isto é, os quadros sinópticos
e suas respectivas aplicações,
que o pânico primário
adquiriu o mesmo grau de importância
que o masoquismo primário
e o narcisismo primário,
na estruturação
das diversas formas de patologias.
Os fatores associação
emocional e a idéia de
predominância já
constituem um esboço
de uma matriz geradora de quadros
psicopatológicos. Com
este tema vamos completar a
lacuna que se pode perceber
entre as emoções
associadas, ligadas ao fator
quantitativo ou predominância,
e os aspectos normais e psicopatológicos
mencionados no quadro sinóptico
com o qual acreditávamos
poder fechar a questão.
O tema será concluído
no próximo artigo intitulado
"Do Roteiro Freudiano às
Matrizes Arcaicas".
Bibliografia
1.
ABRAHAM, K. Contribuición
a una Discusión Sobre
el Tic (l92l). In: Abraham K.
Psicoanálisis Clínico.
Buenos Aires : Ediciones Hormé,
l959.
2._________
Un Breve Estudio de la Evolución
de la Libido, Considerada a
la Luz de los Transtornos Mentales
(l924). In: Abraham K. Psicanálises
Clínicas. Buenos Aires:
Ediciones Hormé; l959.
3.
DUBY, Georges. Ano l000, Ano
2000: Na Pista de Nossos Medos.
São Paulo: Editora UNESP;
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EY, H. , BERNARD, P. , BRISSET,
Ch. Elementos de Psicología
Médica (Desarrolo y Oranización
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Bernard, P. , Brisset, Ch. Tratado
de Psiquiatria. Barcelona: Toray-Masson;
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6.
FAIRBAIRN, W.R. Fatores Esquizoides
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Fairbairn, W. R. Estudio Psicoanalítico
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