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Doença do pânico

O NARCISISMO PRIMÁRIO, O MASOQUISMO PRIMÁRIO E O PÂNICO PRIMÁRIO NO CONTEXTO PSICOPATOLÓGICO

Mário Catão Guimarães

Belo Horizonte
Junho /2004

Introdução

Este trabalho tem uma estrutura independente, mas pode ser entendido como uma continuação de outro texto intitulado Doença do Pânico e Sua Vertente Psicogenética, de nossa autoria, e seu objetivo é ver como as emoções de amor, ódio e medo vão estruturar, em conjunto, os aspectos normais e patológicos da personalidade (Guimarães, 2004). No texto citado, abordamos em pormenor o tema Pânico Primário, porém vamos voltar à definição do mesmo.

A definição de pânico primário não foge ao padrão fornecido por Freud sobre narcisismo primário. O pânico primário seria o medo com o qual a criança já nasce. Ele se refere ao período ano-objetal e é auto-referencial. O pânico secundário seria o medo do objeto internalizado. Um exemplo prático seria o medo infantil dos objetos maus internalizados e o medo neurótico do superego aterrorizante.

O Pânico Primário nada mais é que o medo com o qual o indivíduo já nasce, e recebe essa denominação por não possuir objeto externo, como ocorre nos primeiros meses do nascimento da criança. Após o aparecimento do objeto externo já se pode falar em medo, emoção com a qual vamos trabalhar neste texto.

No evoluir da vida a emoção do medo vai tomando ou pode tomar os mais variados tons afetivos e pode estar mesclado com outros aspectos do psiquismo. Adquire matizes afetivas ou outros aspectos da personalidade em que Hórus é patriarca no sentido de ser uma estrutura bioquímica preformada. Medo, susto, ansiedade, angústia, síndrome do pânico e as fobias são os descendentes de Hórus que mais interessam à psicopatologia.

Na vida cotidiana os qualificativos que o medo adquire, de caráter pessoal, são incontáveis e nem sempre representam algo elogiável - covarde, tímido, medroso, etc. Na terminologia de Caserna estão sempre associados às funções excretórias e sem controle. Prudente, que vai mesclado com o intelecto, é um dos poucos elogiosos que se pode citar.

Foge ao domínio da psicanálise, porém, a mais nova descendente de Hórus, nascida nas grandes cidades, chama-se insegurança.

Duby (1999), estabelece um paralelo entre os medos medievais e os medos de hoje e aborda os seguintes medos: O medo da miséria, o medo do outro, o medo das epidemias, o medo da violência e o medo do além. Isto mostra que fora o medo da solidão, que atinge o homem da era moderna, a mudança foi pequena.

Como já falamos o suficiente sobre o Pânico Primário, e em seu correlato mais importante, o medo, vamos ver como Freud (1914,1924) aborda o Narcisismo Primário e o Masoquismo Primário:

Narcisismo Primário

"Pôr nossa experiência clínica, Freud fala, conhecíamos pessoas que se conduziam singularmente como se estivessem enamoradas de si mesmas, e havíamos dado a esta perversão o nome de narcisismo".

"A palavra narcisismo empregamos para designar a esta perversão em que o indivíduo mostra para seu próprio corpo a ternura que normalmente reservamos para um objeto exterior". (Freud, 1916-1918).

"É possível que a libido dos objetos se transforme em libido do Eu e o contrário. Do Eu afluem à libido aos objetos e este Eu esta sempre disposto a acolher a libido retornada dos objetos".

Continuando no mesmo texto: "Das relações entre a libido do Eu e a libido objetivada é possível uma comparação com aspectos da zoologia. Os protozoários emitem prolongamentos que podem retornar ao próprio corpo. A emissão de prolongamentos seria a afluência da libido aos objetos, enquanto que sua massa principal permanece no Eu, e admitimos que, em circunstâncias normais, a Libido do Eu se transforma com facilidade em libido objetivada e inversamente. Com a ajuda destas representações fica possível descrever grande número de estados psíquicos que devem ser considerados como uma parte da vida normal, tais como: O enamoramento, as enfermidades orgânicas e o repouso noturno".

Repouso noturno

O dormir é um estado em que todas as energias libidinosas e egoístas ligadas aos objetos se retiram deles e retornam ao Eu. Evoca o feliz isolamento da vida intra-uterina. O individuo que dorme parece reproduzir o primitivo estado de distribuição de libido, isto é, o narcisismo absoluto.

Enfermidades orgânicas

Uma afecção orgânica, uma irritação dolorosa ou uma inflamação de um órgão criam um estado em conseqüência do qual fica a libido desligada de seus objetos e retorna ao Eu, manifestando-se como um revestimento reforçado do órgão enfermo. Podemos afirmar que, diz Freud, nestas condições o desligamento da libido de seus objetos é ainda mais evidente que o do interesse egoísta com respeito ao mundo exterior. Esta situação é igual à da hipocondria, apesar do órgão não apresentar lesão real.

Enamoramento

Dizendo que o altruísmo se distingue pela ausência total da perseguição de satisfação sexual, ele afirma que somente no amor absoluto coincide o altruísmo com a
Concentração da libido sobre o objeto sexual. Este atrai para si uma parte do narcisismo, circunstância na qual se manifesta aquilo que podemos denominar "supervalorização sexual" do objeto. Nestes casos o Eu se torna muito diminuído em relação ao objeto.

Dentro desta linha, o amor como uma espécie de enfermidade, fato estranho para as pessoas que não tiveram oportunidade de tratar de esquizóides, nos lembramos de Fairbairn (1940) quando aborda o sofrimento do paciente esquizóide nas circunstâncias em que se envolve numa situação de enamoramento. Parece-nos, diferente do pensamento de Fairbairn, que a dificuldade que têm os esquizóides de amar está no empobrecimento de Eu, verificado nas situações em que se inicia ou se instala uma paixão. Lembramos que parte do amor do esquizóide, que já é pouco, sendo dirigido a uma pessoa acarreta um esvaziamento libidinoso do Eu, ficando a situação muito ameaçadora para o paciente.

O tema "enfermidade amorosa" é mais antigo do que se pensa. Umberto Eco, em O Nome da Rosa, um romance que se desenrola em época medieval, faz uma interessante narrativa sobre a situação de um dos heróis da história que se torna apaixonado, mas na linha da doença - paixão como doença do corpo e do espírito - e termina com uma receita de Santa Emengarda que, a título de tratamento, para evitar a morte pela consumpção, recomenda o casamento (Eco, l986).

Masoquismo Primário

Por masoquismo primário entende Freud um estado em que a pulsão de morte é ainda dirigida para o próprio indivíduo, mas ligada pela libido e fundida com ela. Este masoquismo chama-se primário porque não se segue a um momento em que a agressividade estaria voltada para um objeto exterior, e também na medida em que se opõe a um masoquismo secundário, que se define como uma volta ou retorno do sadismo sobre a própria pessoa e se junta ao masoquismo primário. O componente agressivo do individuo será tratado, neste texto, por ódio (Freud, 1920).


Material e Método

Como falamos na introdução, o objetivo deste trabalho será ver como é que, em conjunto, os três elementos, amor, ódio e medo vão estruturar os aspectos normais e patológicos da personalidade.

As três categorias afetivas básicas, amor, ódio e medo, são representadas na mitologia respectivamente por Eros, Tânatos e Hórus e estas podem ser consideradas como três estruturas instintivo-afetivas pré-formadas e portanto pré-existentes já antes do nascimento. Cada componente destas estruturas adquirem, respectivamente, os nomes de Narcisismo Primário, Masoquismo Primário e Pânico Primário, a partir do nascimento até os dois primeiros meses de idade, e cuja característica comum seria a de não possuir objetos externos.

As três estruturas emocionais básicas ou principais, com a possibilidade do recém-nascido estabelecer relações afetivas com os objetos, adquirem ou recebem os nomes vulgares: amor (sexualidade), ódio (agressividade) e medo (ansiedade ou angústia).

Daí para frente é possível, com o conjunto afetivo constituído por estes três elementos, partir em direção aos aspectos psicopatológicos num interessante exercício de futurologia.

A idéia é absolutamente lógica. Se o indivíduo já nasce com as três emoções, amor (libido), ódio (instinto de destruição) e medo (emoção a serviço do instinto de autoconservação), elas estariam presentes durante o desenvolvimento individual.

Aparentemente tratava-se de uma tarefa simples. Tomaríamos o esquema de Abraham (1924) sobre o desenvolvimento da libido ou o esquema de Fairbairn (1940), e tudo ficaria encaixado.

Vamos apresentar a reprodução parcial do esquema de Abraham que nos interessa, ficando ausente a coluna da ambivalência.

Fases da organização libidinal \ fases do amor objetal
VI. Fase Genital final \ Amor Objetal
V. Fase Genital Inicial \ Amor Objetal com exclusão
(fálica) \ dos genitais
IV. Fase Sádico-anal Posterior \ Amor Parcial
III. Fase Sádico-anal Primitiva \ Amor Parcial com incorporação
II.Fase Oral Posterior \ Narcisimo (incorporação total
(canibalesca) \ do objeto)
I. Fase Oral Primitiva \ Auto-erotismo
(sucção) \ (sem objeto)


A procura pelo quadro sinóptico tem sua razão de ser: Dá uma idéia global onde se encaixa o pânico primário no contexto psicopatológico.

Nosso objetivo seria ainda enquadrar as emoções primárias (amor, ódio e medo) como responsáveis pelos aspectos psicopatológicos já nos primeiros seis ou sete meses de vida do bebê, pois acreditamos que tudo que acontece neste período vai se repetir nos demais.

A propósito do esquema de Abraham, cabe-nos informar que este autor aponta, no decorrer do texto, patologias que correspondem às fases do desenvolvimento libidinoso e as relações de objeto, sem explicitar esta correspondência. As patologias que ele aborda são as seguintes: Melancolia, paranóia, neurose com vários aspectos sintomatológicos e o fetichismo. Em seu trabalho de 1921 deixa de modo explícito, em forma de quadro, outras patologias além das que foram mencionadas.

Fenichel (1966) apresenta um certo melhoramento no quadro de Abraham, mas não deixa explícita a emoção de ódio e a de medo ou angústia. Claro que a agressividade está implícita quando os autores falam nas fases em que existe marcada ambivalência.

Spitz tem um quadro sinóptico das relações objetais relativas ao primeiro ano de vida da criança. Encontramos este quadro em Ey (1969). Ele é útil porque delimita, com base na observação clínica, o período pré-objetal que vai de 0 a 2 meses e meio, em média, e o período em que a criança já conhece a mãe e familiares, que está em torno de 7 ou 8 meses de idade.

Os quadros de Fairbairn e Abraham não nos auxiliam muito por não inter-relacionarem as emoções e somente um deles esboça as correlações psicopatológicas (Abraham).

Nosso problema é, como já falamos, colocar os três elementos afetivos e andar com eles durante o desenvolvimento individual, seja ele de natureza libidinosa ou com base na idade cronológica, e ver como eles se complementam para gerar os aspectos normais e patológicos.

Outros Caminhos

O enquadramento nos esquemas dos autores focalizados não nos pareceu satisfatório. Todos dão ênfase ao desenvolvimento da libido e as relações objetais são vistas somente sob o aspecto amoroso e de maneira isolada. Nós estamos tentando levar as emoções de modo associado ou em conjunto.

Existe em Freud o desenvolvimento da libido, do masoquismo primário e da angústia. Só que estes três elementos são apresentados de modo independente um do outro (Freud, l925).

O tema associação de emoções e as respectivas proporções entre si já se encontra em Freud quando diz, abordando o tema sadismo e masoquismo, que eles são "dois acabados exemplos da mescla de duas classes de instintos; de Eros com a agressão (...) naturalmente, nas mais diversas proporções". Além da palavra mescla, Freud (1932) já usou, abordando o sado-masoquismo, os termos liga e amálgama, ambos com a conotação metalúrgica.

Se tomarmos um grupo qualquer destas emoções associadas e introduzirmos um valor indicador de quantidade, por exemplo, maior para uma delas, teremos dois grupos ou dois resultados emocionais diferentes. A título de exemplificação, tomemos o grupo Amor-Medo ou a associação amor e medo. Se houver nítido predomínio do amor sobre o medo, este aspecto emocional tende para a configuração da histeria. Ao contrário, se houver claro predomínio do medo sobre o amor, a configuração emocional tende para a fobia.

Quando uma das emoções adquire um valor quantitativo tal que venha predominar internamente sobre as outras, podem permitir estabelecer correspondência com personagens da ficção literária, com aspectos dominantes do caráter e do humor, e com aspectos profissionais específicos do presente ou do passado, conforme se vê a seguir:

Muito Amor: temos os otimistas, os santos, os bonachões, os casanovas, etc.
Muito Ódio: temos os assassinos, os guerreiros, os boxeadores, etc.
Muito Medo: temos os fóbicos, os paranóides, os tímidos, os heróis de guerra, os neuróticos de guerra, etc.

A noção de predominância e a idéia de considerar as emoções associadas (combinadas) ou isoladas vêm da observação clínica de patologias que deixam transparecer o aspecto quantitativo, as combinações ou o aparente isolamento.


Resultados

O quadro que segue seria o resultado do que apontamos no primeiro trabalho. Como se pode ver, os elementos pulsionais estão colocados numa posição que em última instância é indicadora de um aspecto temporal ou evolutivo, na vida do individuo.

Eros Narcisismo Primário Amor (libido)
Tânatos Masoquismo Primário Ódio (destrutividade)
Hórus Pânico Primário Medo (ansiedade, angústia)
Período Fetal Período Pré-objetal Período Objetal

Quadro 1

Já que estamos tratando de três elementos (instintivos ou emocionais) ao mesmo tempo, nada mais lógico que associá-los ou combiná-los em um, dois e três elementos.

A idéia de considerar as emoções combinadas ou isoladas vem da observação clínica de patologias que deixam transparecer estas combinações ou este aparente isolamento.

Outro ponto a ressaltar é que os textos psicanalíticos estão repletos de termos ou expressões tais como: predomínio, grau, maior intensidade, etc. Tivemos a oportunidade de selecionar este tipo de termos em diversos autores, porém a monotonia das citações era tal que decidimos mostrar somente o que Freud disse sobre o tema, que apresentamos um pouco acima e de maneira bastante resumida

Vamos chamar de grupos emocionais básicos ao amor, ódio e medo e suas respectivas associações, como se verá a seguir:


Emoções isoladas:

a- amor
b- ódio
c- medo.

Emoções combinadas 2 a 2:
a- amor e ódio
b- amor e medo
c- ódio e medo.

Emoções combinadas 3 a 3:

a- amor, ódio e medo.

Temos sete disposições afetivas.

A idéia de predominância é uma conseqüência da associação ou mescla de emoções ou instintos em suas respectivas proporções. Pode significar ainda a predominância de uma emoção, isoladamente, e pode indicar também predominância de uma emoção sobre a outra ou de um instinto sobre outro independente do caráter metalúrgico.

Apesar da semelhança ou equivalência do termo predominância com o que Freud chama de proporção ou aspectos quantitativos, no que se refere aos aspectos instintivos ou emocionais, continuaremos a falar em predominância por razões de natureza prática.

Já o motivo que nos levar a usar o termo associação é o seguinte: Nas associações o que existe é mera coexistência de duas ou mais emoções ou instintos e não possuem este significado de forte aderência como têm os termos ligas, amálgamas, etc.

Com as emoções isoladas e associadas é possível estabelecer correspondência entre os grupos emocionais e alguns quadros mais estudados pela psicanálise.


Emoções isoladas

Amor Normal
Ódio Psicopatias
Medo Fobias, Doença do Pânico.

Quadro 2

Emoções associadas

Amor e Ódio  Sadismo, PMD, Neurose obsessiva 
Amor e Medo  Histeria Fobia 
Ódio e Medo  Esquizoidia, Paranóia 
Amor, Ódio e Medo Normal Neuroses Masoquismo

Quadro 3

Os conjuntos de sete elementos já referidos, resultantes das associações dos três componentes - amor, ódio e medo -, aliados com a idéia de predominância, permitem antever a correspondência entre cada grupo emocional e as patologias onde se encontram, de modo mais específico do que se viu anteriormente. Vejamos os exemplos que seguem, onde se nota o predomínio de uma emoção sobre as demais ou de duas sobre a outra.

1 - Predomínio do amor sobre as emoções de ódio e medo - Teríamos o normal, o otimista, a mania unipolar, etc.
2 - Predomínio do ódio sobre as emoções de amor e medo - Teríamos a depressão, a depressão melancólica, as psicopatias, etc.
3 - Predomínio do medo sobre o amor e ódio - Teríamos a doença do pânico, as fobias, etc.
4 - Predomínio do amor e ódio sobre o medo - a) em quantidades iguais teríamos a neurose obsessiva, o sadismo, a depressão melancólica, etc. b) com grande predominância do ódio sobre o amor, teríamos o Serial Killer.
5 - Predomínio do amor e medo sobre o ódio - a) com predominância do amor teríamos a histeria. b) com predominância do medo, teríamos a fobia.

A simples associação das emoções nos permite vislumbrar uma relativa especificidade entre o grupo emocional e as patologias correspondentes. Como se pode notar, é porém insuficiente. A idéia de predomínio já deixa transparecer uma maior especificidade, como acréscimo ao fator associação, conforme se viu nos exemplos fornecidos acima.

De posse dos elementos associação de instintos ou emoções mais o fator quantitativo, é possível fazer a respectiva correspondência entre eles e os diversos quadros psicopatológicos. Resta-nos quebrar o aspecto estático do quadro 3 e imprimir nele o caráter evolutivo ou temporal que vai nos permitir apontar aspectos da evolução e das fixações.

Na linha do horizonte pode-se colocar uma grande variedade de tópicos que possuem a idéia de tempo. Qualquer tópico que tenha uma referência temporal serve como pano de fundo ante o qual vamos assistir o desenrolar dos aspectos normais e patológicos da criança. O mais simples seria a idade cronológica e o mais útil e prático é o desenvolvimento libidinoso.

De Spitz (1970) tomamos o tópico relativo às relações objetais e de Freud e Abraham o relativo ao desenvolvimento da libido.

O quadro 4 já atende ao nosso objetivo que é apresentar os três componentes, amor, ódio e medo, atuando em conjunto para estruturar os diversos aspectos psicopatológicos. Cabe-nos fazer alguns esclarecimentos sobre o mesmo:


1 - Ele se refere em sua maior parte, à fase oral. Como o leitor pode notar, a fase anal e o inicio da fase fálica, a qual estamos chamando de fase uretral, estão se iniciando no final da fase oral, mas não necessariamente após seu término.
2 - Existe uma correspondência aproximada entre o período expresso em meses e certos acontecimentos biológicos e psicológicos. Assim é que de 0 a 2,5 meses é o espaço de tempo correspondente ao período pré-objetal. A partir de 2,5 meses começa o período denominado por Spitz de primeiro organizador. Em torno do sétimo ou oitavo mês começa o período do segundo organizador.
3 - Ao redor do sexto ou sétimo mês encontramos uma interessante confluência constituída pelo nascimento dos dentes, inicio da fase anal e fase uretral. Todos estes aspectos têm grande importância no que diz respeito à agressividade individual. Abraham chega a dizer que neste período o fim sexual se transforma em fim agressivo.
4 - Poderíamos ter uma coluna com três pontos representantes da reticência para indicar que aí vão se desenrolar os acontecimentos das demais fases da libido.
5 - Uma coluna está reservada ao resumo das matrizes arcaicas e fica opcional a introdução de uma coluna sobre os aspectos caracterológicos, antes da coluna reservada aos quadros patológicos.
6 - É possível o crescimento do quadro sinóptico no sentido vertical e horizontal mas, em razão de nosso objetivo ser focalizar somente a fase oral, não tem sentido no momento sua ampliação.

Quadro 4


Discussão

Uma pergunta que pode ser feita é a seguinte: A Introdução da idéia de pânico primário com o mesmo status que o narcisismo primário e o masoquismo primário teria alguma modificação no enfoque psicanalítico? Em nosso modo de ver imprime uma certa logicidade à psicogênese das diversas patologias de base psicogenética e que representam as patologias que a psicanálise lida no dia a dia.

Freud quando fala na associação emocional usa o termo mescla ou ligas. Nestes casos fica claro que os aspectos instintivos ou emocionais envolvidos na patologia têm um vínculo muito forte, quase metalúrgico. Quando falamos em associação ou combinação estamos indicando apenas a presença dos instintos ou emoções e quando falarmos em patologias como o sadismo e o masoquismo, usaremos os termos mescla, amálgama, etc.

Esta diferença de abordagem já indica a possibilidade de estabelecer diferença diagnóstica de patologias tais como as mencionadas. Para maior clareza vamos exemplificar: entre o sádico e o neurótico obsessivo, ambos com o grupo emocional amor e ódio, a diferença é que no sádico existe a característica de amálgama, o que não acontece na neurose obsessiva, na qual as emoções não são vinculadas.

A predominância e a associação de aspectos emocionais ou instintivos seria uma hipótese gratuita? A idéia de predominância é conseqüência natural da junção de dois fatores: O fator quantitativo e o fator associação de emoções, os quais por sua vez são resultados da observação clínica.

Esta associação de emoções é um fator corriqueiro na clínica psiquiátrica, na psicanálise e na psicopatologia. Assim, pois, o sadismo seria a associação de amor e ódio. O masoquismo seria a associação do amor, ódio e medo (Nacht, 1966). Já na neurose obsessiva teríamos também a associação de amor e ódio, enquanto na fobia e na doença do pânico teríamos o medo como emoção isolada ou senão predominante.

Nossa intenção era introduzir em conjunto as emoções de amor, ódio e medo no desenvolvimento individual. Surgiu, porém, o fator predominância de uma emoção sobre a outra em decorrência da associação das emoções e isto, ao invés de tornar-se mais um complicador, veio facilitar muito a tarefa (ver quadro geral 4).

A procura por um quadro sinóptico para o período oral tem uma razão de ser: o que acontece neste período vai acontecer do mesmo modo ou de modo semelhante, nos demais períodos.

Como o leitor pode ver, somente o fator predominância ou quantitativo mais o aspecto emocional não são insuficientes para determinar todas as patologias por categorias diagnósticas. É claro que existem outros fatores que vão auxiliar nesta diferenciação.

Nada falamos no que se refere a patologias esquizofrênicas. Neste campo seria temerário afirmar qualquer coisa, pois aí nos cabe esperar que uma bioquímica com mais sutileza e menos pretensão tenha a última palavra. No quadro sinóptico seríamos tentados a colocar o grupo das esquizofrenias na associação emocional ódio e medo, com talvez nítido predomínio do medo.

Para finalizar estes comentários, poderíamos voltar à pergunta inicial e dizer que a introdução do pânico primário permitiu a estruturação da matriz arcaica e esta, por sua vez, deu inteira logicidade à psicogênese dos quadros que a psicanálise e a psicopatologia lidam no dia a dia.


Conclusões

Começamos à guisa de exercício de futurologia, montar um esquema de desenvolvimento da personalidade normal e patológica partindo do Narcisismo Primário, Masoquismo Primário e Pânico Primário. Acreditamos poder dizer com base no que foi apresentado, isto é, os quadros sinópticos e suas respectivas aplicações, que o pânico primário adquiriu o mesmo grau de importância que o masoquismo primário e o narcisismo primário, na estruturação das diversas formas de patologias.

Os fatores associação emocional e a idéia de predominância já constituem um esboço de uma matriz geradora de quadros psicopatológicos. Com este tema vamos completar a lacuna que se pode perceber entre as emoções associadas, ligadas ao fator quantitativo ou predominância, e os aspectos normais e psicopatológicos mencionados no quadro sinóptico com o qual acreditávamos poder fechar a questão.

O tema será concluído no próximo artigo intitulado "Do Roteiro Freudiano às Matrizes Arcaicas".


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