(Humberto
Campolina)
JMP: Faça
uma apresentação
sumária de Ronan Rego
aos leitores do jornal.
Ronan
Rego: Fiz a Residência
em Psiquiatria (74/75) André
Luiz- Santa Clara, em uma época
em que ser apenas Psiquiatra
não era bem visto, porque
os profissionais competentes
deveriam ser Psicanalistas.
Tomei assim o rumo da Psicanálise,
mas em pouco tempo me senti
desconfortável por ter
dificuldade em conciliá-la
com a Psiquiatria. A Psicanálise,
sobretudo naquela época,
era muito explicativa, e insistia
na psicogênese dos Transtornos
Psiquiátricos. Tive contato,
então, com a Psicoterapia
Existencial, que procura compreender
o ser humano sadio ou doente,
sem se meter na gênese
das doenças. O Ser é
vivência, não é
biologia, mas é a biologia
que possibilita o ser. A doença
que o ser vivencia cabe à
Psiquitria tratar. Foi no Rio
de Janeiro que busquei minha
formação em Psicoterapia
Existencial.
Ainda hoje ensino psicoterapia
na Residência de Psiquiatria
do Hospital das Clínicas
(onde sou preceptor há
5 anos), mas sinto-me antes
de tudo e sobretudo Psiquiatra.
Durante 20 anos fui também
preceptor na Residência
de Psiquiatria do IPSEMG.
JMP: Como
você está vendo
a psiquiatria mineira atualmente?
RR: Vejo
com preocupação
e tristeza o fato de não
aparecer no programa oficial
do Congresso Brasileiro de Psiquiatria
2002, nenhuma vez, a sigla MG.
Atualmente, mesmo estados como
Rio Grande do Sul, Bahia e Pernambuco,
se destacam mais na Psiquiatria
Brasileira do que nosso Estado.
Podemos creditar parte disto
à nossa timidez mineira,
mas com certeza o mais importante
é a nossa desorganização.
Temos aqui bons psiquiatras,
mas geralmente caminhando sozinhos.
JMP:Você
não acha que em Minas
houve um processo de lacanização
da psiquiatria?
RR: Sua
pergunta, a princípio
não tem sentido, porque
para mim, Lacan tem a ver com
a Psicanálise e não
com a Psiquiatria. Mas sei que
um grupo expressivo de psiquiatras
mineiros optou pela escola lacaniana
da Psicanálise, o que
acredito ser um caminho tão
sério quanto os outros
da Psicoterapia.
O que é criticável
e mesmo condenável, é
quando um psiquiatra deixa de
lado os conhecimentos médicos
(psiquiátricos) em virtude
de uma visão estreitada
por uma teoria psicológica
(seja ela lacaniana ou não)
deixando assim, de diagnosticar
e tratar adequadamente um paciente.
JMP: Quando
uma disciplina se sobrepõe
à outra invadindo-a,
não existiria aí
um processo algo perverso?
RR: Esta
pergunta nos leva a uma reflexão:
por que se invade e por que
se é invadido?
Se as disciplinas as quais você
se refere são a Psicoterapia
(especificamente a Psicanálise
de Lacan) e a Psiquiatria, elas
são complementares e
não excludentes. Portanto,
se uma é invadida pela
outra, ela deve estar fragilizada.
E como sabemos que ambas são
consistentes e fortes, alguma
outra coisa deve estar acontecendo.
A minha opinião é
que, neste caso, o conhecimento
que se tem de uma ou de outra
(ou de ambas) é que deve
estar frágil. Ou seja,
se não se tem um conhecimento
sólido dos fundamentos
da Psiquiatria, esta poderá
ser invadida com facilidade.
Isto nos remete a outra conclusão:
como o conhecimento da Psiquiatria
não é espontâneo,
ela pode não estar sendo
aprendida por alguns e, provavelmente,
por estar sendo mal ensinada.
Assim sairíamos do campo
da perversão para o campo
do desconhecimento.
JMP: Gostaria
que você comentasse a
afirmativa do psiquiatra Marco
Aurélio Baggio, de que
o movimento antimanicomial foi
uma boa idéia que acabou
histérica.
O que você pensa da acusação
feita por certos profissionais
aos diretores dos hospitais
psiquiátricos de seqüestro
em cárcere privado em
relação aos pacientes
que, apesar de estarem de alta
médica, continuam internados
devido a abandono familiar?
Dê sua opinião
sobre a desospitalização
que se está fazendo em
BH.
RR: Minha condição
é muito confortável
para falar a este respeito.
Isto porque sou um Psiquiatra
que nunca fui vinculado a nenhum
hospital psiquiátrico,
a não ser como estagiário
ou residente, e ainda, por raramente
internar um paciente psiquiátrico.
Não por ser contra os
hospitais, mas sim por pouco
precisar deles. Claro que sou
privilegiado, ao atender apenas
pacientes cujas famílias
podem assumir o custo de um
tratamento, que geralmente tem
disponibilidade de tempo (ou
contratam profissionais) para
os cuidados com o paciente em
crise.
Mesmo tendo hoje, recursos terapêuticos
para tirar um paciente de um
surto psicótico em cerca
de 2 semanas, mantendo-o em
casa, existem casos nos quais
é um grande risco não
interná-los. William
Styron, autor de Escolha de
Sofia, em seu livro Perto das
Trevas onde descreve sua vivência
da depressão, atribui
irresponsabilidade a seu psiquiatra
que o manteve em casa, enquanto
ele ruminava idéias de
suicídio.
No caso de um paciente em crise
aguda, sem recursos financeiros,
o que é o habitual, que
não dispõe de
acompanhantes e, sobretudo,
se moram fora de Belo Horizonte,
o hospital se faz necessário.
Fui supervisor hospitalar pelo
INAMPS, depois SUS, e nunca
vi seqüestro de pacientes.
Sempre foi uma queixa dos hospitais
em relação ao
PUP Galba Velloso que mandava
(a palavra cabe, porque não
poderia haver recusa) os pacientes
sem acompanhantes, e às
vezes sem endereço, o
que freqüentemente resultava
em pacientes abandonados.
Os hospitais nunca foram bonzinhos
e nem realizavam uma psiquiatria
de qualidade, mas, me parece,
davam uma assistência
compatível com a pobreza
(em sentido amplo) dos pacientes,
com a qualificação
muitas vezes restrita de muitos
psiquiatras credenciados pelo
INAMPS, e com a pequena remuneração
que recebiam.
O que aconteceu com nosso colega
Sandoval de Castro Filho foi
uma verdadeira caça às
bruxas. Nesta época,
eu não trabalhava mais
no SUS, portanto não
posso afirmar, mas estou convicto
que o tal seqüestro em
cárcere privado se trata
dos mesmos pacientes abandonados,
que sempre existiram em todos
os hospitais. Os pacientes recebiam
alta, não apareciam familiares
e muitas vezes o endereço
não era localizado.
Quanto ao início da desospitalizacão
em Belo Horizonte, tenho uma
visão um pouco diferente
do que vem sendo dito pelos
antimanicomiais.
Na década de oitenta,
o INAMPS, a meu ver a título
de contenção de
gastos, e até mesmo sob
a influência de mudanças
na assistência psiquiátrica,
começou a fazer reduções
nas cotas de internações
dos hospitais psiquiátricos.
Eu fui portador (as decisões
me chegavam prontas), por vezes
sucessivas, da seguinte comunicação:
O teto de internações
deste hospital foi reduzido
para...
Os Hospitais foram fechando
suas portas, como a Clínica
Boa Esperança, Santa
Margarida, Santa Clara, ou se
descredenciando do SUS como
o André Luiz e bem depois
o Santa Maria. Ou seja, quando
o movimento começou em
Belo Horizonte, o processo de
desospitalização
já estava em curso. O
que quero dizer é que
os Psiquiatras que se engajaram
neste movimento, poderiam ter
participado da evolução
natural da especialidade, aprendendo
e ensinando Psiquiatria, ao
invés de atacarem do
lado de fora (muitas vezes de
forma histérica, e aí
concordo com o Marco Aurélio),
o que levou a uma divisão
entre nós.
Acho sem sentido o movimento
antimanicomial, como teria sido
um movimento anti-sanatórios
de tuberculosos. Eles acabaram
porque a medicina evoluiu.
Ainda hoje, é bastante
alta a incidência de reinternações
de doenças crônicas,
diabetes por exemplo, nos hospitais
gerais. São pessoas que
procuram agravar suas doenças
em casa, para retornarem ao
hospital, onde terão
mais conforto e não se
sentirão sozinhas. Penso
que isto só irá
desaparecer com a mudança
sócio-econômica-cultural
de nosso povo e avanços
na assistência, como um
Programa Saúde da Família,
e não com mais um movimento
anti-hospitais.
A Unidade Psiquiátrica
no Hospital Geral é,
sem dúvida, uma boa alternativa,
e vem se mostrando eficiente.
A propósito, a que temos
aqui funcionando, foi implantada
em 1975, pelo Psiquiatra Fernando
Velloso, e nada tem a ver com
a Lei Carlão.
O que não consigo entender
é a permanência
dos chamados hospitais de crônicos
que são aberrações
na psiquiatria.
Gostaria de comentar sobre o
CERSAM. Também uma boa
idéia, mas pelo que sei,
foi implantado de forma equivocada.
Temos visto no Ambulatório
Bias Fortes do HC alguns pacientes
muito mal conduzidos quanto
a diagnóstico e terapêutica,
que lá se tratavam.
Parece que a filosofia do serviço
é que o paciente, ao
chegar, será atendido
por um profissional, não
necessariamente um psiquiatra,
e este profissional irá
conduzir o caso. Solicitará
o psiquiatra se achar necessário.
Nada mais democrático,
mas também irresponsável.
É de responsabilidade
do médico o exercício
da medicina, e ele não
pode deixar para outros profissionais,
por mais competentes que sejam,
a condução do
tratamento. O trabalho em equipe
interdisciplinar é a
forma mais adequado do atendimento
médico, mas o médico
continua sendo o responsável
pelo doente. Claro que não
estou falando de sofrimento
psíquico, que é
uma condição que
todos nós vivemos, mas
de doença.
JMP: O que você pensa
dos seguintes equipamentos terapêuticos:
internação hospitalar,
ECT, psicocirurgia?
Gostaria de ouvir sua opinião
sobre a lei da Reforma Psiquiátrica
que passou no Parlamento e foi
sancionada pelo Presidente da
República e a Lei Carlão.
RR: Roland
Khun nos deu a Imipramina, e
a seguir surgiram todos os antidepressivos,
que são hoje considerados
os medicamentos mais importantes
depois dos antibióticos.
Delay, a clorpromazina, e hoje,
chegamos aos neurolépticos
atípicos. Isto colocou
milhares de pacientes fora dos
hospitais.
Jaspers e Schneider nos deram
um método para entendermos
o que é e o que não
é uma doença mental.
E quem são os senhores
Carlão e Paulo Delgado?
Para mim são estranhos
que se intrometem em uma ciência
para a qual não se prepararam.
Querem nos cercear, no exercício
de nossa profissão, dizendo
quando e onde podemos internar
e que métodos terapêuticos
podemos usar. Como se sentiriam
nossos colegas cardiologistas
se surgisse uma lei proibindo
a eletroconversão?
É direito e dever dos
nossos parlamentares verificar
a qualidade do ensino na nossa
especialidade, a ética
no exercício da profissão,
a condição de
trabalho e remuneração
dos psiquiatras, os lucros exorbitantes
da indústria farmacêutica.
Outra coisa que eles poderiam
contribuir é averiguar
esta coisa maravilhosa que está
acontecendo, que é a
distribuição de
antipsicóticos atípicos.
Não sou contra estes
medicamentos e muito menos a
sua distribuição,
mas sim ao fato de faltarem
medicamentos baratos e tão
necessários como os antidepressivos
tricíclicos e genéricos
da linha dos IRSS. Às
vezes fico pensando se não
seria melhor tomar haloperidol
e ter uma casinha para morar,
do que receber a cada mês
o equivalente a 2 ou 3 salários
mínimos em medicamentos
e morar debaixo da ponte. Acho
que eles têm coisas mais
importantes para cuidar!
JMP: Houve um cisma na psiquiatria
mineira. O que fazer para consertar
isso?
RR: Creio
que a melhor alternativa seja
sairmos da posição
de que nós somos os bons,
e eles os maus, ou vice-versa.
Precisamos nos desarmar.
É voltarmos para o que
nós temos em comum, que
é a Psiquiatria, deixando
os complementos (escolas psicoterápicas,
ideologias políticas,
visões filosóficas,
etc), por mais importantes que
sejam, para as sub-especialidades.
E ainda, sairmos de nosso individualismo
costumeiro. E nisto, temos muito
a aprender com eles.
Acho que não é
cisma minha, mas me parece que
este cisma que você fala
continua acontecendo e o eles
e o nós já passaram
por outras fragmentações.
JMP: Como você percebe
o ensino psiquiátrico
mineiro? Se possível,
comente as diversas residências
psiquiátricas do Estado.
RR: Conheço
bem a Residência do IPSEMG
onde fui preceptor por vinte
anos, e a do HC-UFMG, onde estou
há cinco. As dezenas
de residentes com quem tive
contato foram, em sua maioria,
pessoas interessadas, responsáveis
e com vontade de aprender. Tiveram
que conviver com professores
empenhados e comprometidos com
a Residência, mas na maioria,
sem uma formação
específica para o ensino.
Pelo retorno que venho tendo,
saíram com boa iniciação
para o exercício da psiquiatria.
A minha impressão, a
partir de contato com ex-residentes
da Residência do Raul
Soares, é que ela deixa
a desejar, no que se refere
a parte médica da Psiquiatria.
JMP: O
que você pensa da atual
AMP? E da Associação
dos Acadêmicos recém-fundada?
Compare as duas.
RR: Penso
que a AMP, dos últimos
anos, não representa
o pensamento da maioria dos
psiquiatras mineiros. A diretoria
atual tem mostrado, ultimamente,
algum interesse em Clínica
Psiquiátrica, mas sabemos
que o interesse primordial deles
não é este.
Trata-se de um grupo minoritário,
mas muito bem articulado. Se
estão no comando há
anos, é pela competência
política deles, e pela
passividade da maioria, que
fica apenas lamentando de longe.
Quanto à Associação
dos Acadêmicos, da qual
também sou associado,
é uma nova opção
que possibilita a aglutinação
em torno de temas psiquiátricos.
O nome da Associação,
para mim, sugere elitismo, mas
nada impede que ele possa ser
revisto. Parece-me, também,
que o estatuto ainda é
fechado, privilegiando os professores.