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ano VI - edição 18 - belo horizonte - mg

Entrevista - Ronan Rodrigues Rego


Ronan Rodrigues Rego é um dos bons psiquiatras mineiros e, como outros bons psiquiatras mineiros, está praticamente marginalizado por não falar a língua e muito menos rezar pela cartilha dos detentores dos podres poderes que há alguns anos se apropriaram das instituições psiquiátricas mineiras e praticamente condenaram a psiquiatria desse Estado a uma espécie de gueto lacan-basagliano, o que faz a delícia de profissionais de outros Estados, colegas que sorriem maliciosamente quando ouvem alguma referência às nossas idiossincrasias.
Ronan teve uma formação médica e psiquiátrica de primeira qualidade; passou pela psicanálise, pela psiquiatria biológica para, finalmente, aportar na analítica existencial, o que faz dele uma avis rara entre nós. É preceptor de duas residências, tem consultório cheio, mora em linda casa no alto da Afonso Pena e é pessoa de bem. Nesta entrevista, quando faz um balanço geral da psiquiatria mineira, fica evidente o olhar arguto, a serenidade e o equilíbrio com que diagnostica e prognostica a realidade da psiquiatria mineira. Apenas discordo dele quando minimiza o processo de tentativa de lacanização da psiquiatria mineira, evidência que se constata numa simples leitura da publicação oficial da Associação Mineira de Psiquiatria, e a quase admiração que demonstra inconscientemente, em uma de suas respostas, pela capacidade política da minoria que se impõe - Deus sabe como - à maioria (e à racionalidade). Não é a primeira vez que grupos de ativistas políticos conseguem colonizar uma ciência com resultados trágicos. Dois exemplos no século XX que terminou há pouco mais de três anos: o bolchevismo que parasitou a história e o resultado foi Stalin e seus milhões de mortos pela fome ou baioneta, e o nazismo que pervertendo a filosofia nietzscheana deu em Hitler e no holocausto (o autor a ler é Karl Popper e seus monumentais. A sociedade aberta e seus inimigos e A miséria do historicismo; pode-se também fazer uma leitura popperiana da miséria da psiquiatria mineira). No nosso caso, a tragédia vai abater como sempre o mais fraco: o doente psiquiátrico pobre.

(Humberto Campolina)

JMP: Faça uma apresentação sumária de Ronan Rego aos leitores do jornal.

Ronan Rego: Fiz a Residência em Psiquiatria (74/75) André Luiz- Santa Clara, em uma época em que ser apenas Psiquiatra não era bem visto, porque os profissionais competentes deveriam ser Psicanalistas. Tomei assim o rumo da Psicanálise, mas em pouco tempo me senti desconfortável por ter dificuldade em conciliá-la com a Psiquiatria. A Psicanálise, sobretudo naquela época, era muito explicativa, e insistia na psicogênese dos Transtornos Psiquiátricos. Tive contato, então, com a Psicoterapia Existencial, que procura compreender o ser humano sadio ou doente, sem se meter na gênese das doenças. O Ser é vivência, não é biologia, mas é a biologia que possibilita o ser. A doença que o ser vivencia cabe à Psiquitria tratar. Foi no Rio de Janeiro que busquei minha formação em Psicoterapia Existencial.
Ainda hoje ensino psicoterapia na Residência de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (onde sou preceptor há 5 anos), mas sinto-me antes de tudo e sobretudo Psiquiatra.
Durante 20 anos fui também preceptor na Residência de Psiquiatria do IPSEMG.

JMP: Como você está vendo a psiquiatria mineira atualmente?

RR: Vejo com preocupação e tristeza o fato de não aparecer no programa oficial do Congresso Brasileiro de Psiquiatria 2002, nenhuma vez, a sigla MG. Atualmente, mesmo estados como Rio Grande do Sul, Bahia e Pernambuco, se destacam mais na Psiquiatria Brasileira do que nosso Estado. Podemos creditar parte disto à nossa timidez mineira, mas com certeza o mais importante é a nossa desorganização. Temos aqui bons psiquiatras, mas geralmente caminhando sozinhos.

JMP:Você não acha que em Minas houve um processo de lacanização da psiquiatria?

RR: Sua pergunta, a princípio não tem sentido, porque para mim, Lacan tem a ver com a Psicanálise e não com a Psiquiatria. Mas sei que um grupo expressivo de psiquiatras mineiros optou pela escola lacaniana da Psicanálise, o que acredito ser um caminho tão sério quanto os outros da Psicoterapia.
O que é criticável e mesmo condenável, é quando um psiquiatra deixa de lado os conhecimentos médicos (psiquiátricos) em virtude de uma visão estreitada por uma teoria psicológica (seja ela lacaniana ou não) deixando assim, de diagnosticar e tratar adequadamente um paciente.

JMP: Quando uma disciplina se sobrepõe à outra invadindo-a, não existiria aí um processo algo perverso?

RR: Esta pergunta nos leva a uma reflexão: por que se invade e por que se é invadido?
Se as disciplinas as quais você se refere são a Psicoterapia (especificamente a Psicanálise de Lacan) e a Psiquiatria, elas são complementares e não excludentes. Portanto, se uma é invadida pela outra, ela deve estar fragilizada. E como sabemos que ambas são consistentes e fortes, alguma outra coisa deve estar acontecendo. A minha opinião é que, neste caso, o conhecimento que se tem de uma ou de outra (ou de ambas) é que deve estar frágil. Ou seja, se não se tem um conhecimento sólido dos fundamentos da Psiquiatria, esta poderá ser invadida com facilidade.
Isto nos remete a outra conclusão: como o conhecimento da Psiquiatria não é espontâneo, ela pode não estar sendo aprendida por alguns e, provavelmente, por estar sendo mal ensinada. Assim sairíamos do campo da perversão para o campo do desconhecimento.

JMP: Gostaria que você comentasse a afirmativa do psiquiatra Marco Aurélio Baggio, de que o movimento antimanicomial foi uma boa idéia que acabou histérica.
O que você pensa da acusação feita por certos profissionais aos diretores dos hospitais psiquiátricos de seqüestro em cárcere privado em relação aos pacientes que, apesar de estarem de alta médica, continuam internados devido a abandono familiar? Dê sua opinião sobre a desospitalização que se está fazendo em BH.

RR: Minha condição é muito confortável para falar a este respeito. Isto porque sou um Psiquiatra que nunca fui vinculado a nenhum hospital psiquiátrico, a não ser como estagiário ou residente, e ainda, por raramente internar um paciente psiquiátrico. Não por ser contra os hospitais, mas sim por pouco precisar deles. Claro que sou privilegiado, ao atender apenas pacientes cujas famílias podem assumir o custo de um tratamento, que geralmente tem disponibilidade de tempo (ou contratam profissionais) para os cuidados com o paciente em crise.
Mesmo tendo hoje, recursos terapêuticos para tirar um paciente de um surto psicótico em cerca de 2 semanas, mantendo-o em casa, existem casos nos quais é um grande risco não interná-los. William Styron, autor de Escolha de Sofia, em seu livro Perto das Trevas onde descreve sua vivência da depressão, atribui irresponsabilidade a seu psiquiatra que o manteve em casa, enquanto ele ruminava idéias de suicídio.
No caso de um paciente em crise aguda, sem recursos financeiros, o que é o habitual, que não dispõe de acompanhantes e, sobretudo, se moram fora de Belo Horizonte, o hospital se faz necessário.
Fui supervisor hospitalar pelo INAMPS, depois SUS, e nunca vi seqüestro de pacientes. Sempre foi uma queixa dos hospitais em relação ao PUP Galba Velloso que mandava (a palavra cabe, porque não poderia haver recusa) os pacientes sem acompanhantes, e às vezes sem endereço, o que freqüentemente resultava em pacientes abandonados.
Os hospitais nunca foram bonzinhos e nem realizavam uma psiquiatria de qualidade, mas, me parece, davam uma assistência compatível com a pobreza (em sentido amplo) dos pacientes, com a qualificação muitas vezes restrita de muitos psiquiatras credenciados pelo INAMPS, e com a pequena remuneração que recebiam.
O que aconteceu com nosso colega Sandoval de Castro Filho foi uma verdadeira caça às bruxas. Nesta época, eu não trabalhava mais no SUS, portanto não posso afirmar, mas estou convicto que o tal seqüestro em cárcere privado se trata dos mesmos pacientes abandonados, que sempre existiram em todos os hospitais. Os pacientes recebiam alta, não apareciam familiares e muitas vezes o endereço não era localizado.
Quanto ao início da desospitalizacão em Belo Horizonte, tenho uma visão um pouco diferente do que vem sendo dito pelos antimanicomiais.
Na década de oitenta, o INAMPS, a meu ver a título de contenção de gastos, e até mesmo sob a influência de mudanças na assistência psiquiátrica, começou a fazer reduções nas cotas de internações dos hospitais psiquiátricos. Eu fui portador (as decisões me chegavam prontas), por vezes sucessivas, da seguinte comunicação: O teto de internações deste hospital foi reduzido para...
Os Hospitais foram fechando suas portas, como a Clínica Boa Esperança, Santa Margarida, Santa Clara, ou se descredenciando do SUS como o André Luiz e bem depois o Santa Maria. Ou seja, quando o movimento começou em Belo Horizonte, o processo de desospitalização já estava em curso. O que quero dizer é que os Psiquiatras que se engajaram neste movimento, poderiam ter participado da evolução natural da especialidade, aprendendo e ensinando Psiquiatria, ao invés de atacarem do lado de fora (muitas vezes de forma histérica, e aí concordo com o Marco Aurélio), o que levou a uma divisão entre nós.
Acho sem sentido o movimento antimanicomial, como teria sido um movimento anti-sanatórios de tuberculosos. Eles acabaram porque a medicina evoluiu.
Ainda hoje, é bastante alta a incidência de reinternações de doenças crônicas, diabetes por exemplo, nos hospitais gerais. São pessoas que procuram agravar suas doenças em casa, para retornarem ao hospital, onde terão mais conforto e não se sentirão sozinhas. Penso que isto só irá desaparecer com a mudança sócio-econômica-cultural de nosso povo e avanços na assistência, como um Programa Saúde da Família, e não com mais um movimento anti-hospitais.
A Unidade Psiquiátrica no Hospital Geral é, sem dúvida, uma boa alternativa, e vem se mostrando eficiente. A propósito, a que temos aqui funcionando, foi implantada em 1975, pelo Psiquiatra Fernando Velloso, e nada tem a ver com a Lei Carlão.
O que não consigo entender é a permanência dos chamados hospitais de crônicos que são aberrações na psiquiatria.
Gostaria de comentar sobre o CERSAM. Também uma boa idéia, mas pelo que sei, foi implantado de forma equivocada. Temos visto no Ambulatório Bias Fortes do HC alguns pacientes muito mal conduzidos quanto a diagnóstico e terapêutica, que lá se tratavam.
Parece que a filosofia do serviço é que o paciente, ao chegar, será atendido por um profissional, não necessariamente um psiquiatra, e este profissional irá conduzir o caso. Solicitará o psiquiatra se achar necessário. Nada mais democrático, mas também irresponsável. É de responsabilidade do médico o exercício da medicina, e ele não pode deixar para outros profissionais, por mais competentes que sejam, a condução do tratamento. O trabalho em equipe interdisciplinar é a forma mais adequado do atendimento médico, mas o médico continua sendo o responsável pelo doente. Claro que não estou falando de sofrimento psíquico, que é uma condição que todos nós vivemos, mas de doença.


JMP: O que você pensa dos seguintes equipamentos terapêuticos: internação hospitalar, ECT, psicocirurgia?
Gostaria de ouvir sua opinião sobre a lei da Reforma Psiquiátrica que passou no Parlamento e foi sancionada pelo Presidente da República e a Lei Carlão.

RR: Roland Khun nos deu a Imipramina, e a seguir surgiram todos os antidepressivos, que são hoje considerados os medicamentos mais importantes depois dos antibióticos.
Delay, a clorpromazina, e hoje, chegamos aos neurolépticos atípicos. Isto colocou milhares de pacientes fora dos hospitais.
Jaspers e Schneider nos deram um método para entendermos o que é e o que não é uma doença mental.
E quem são os senhores Carlão e Paulo Delgado? Para mim são estranhos que se intrometem em uma ciência para a qual não se prepararam. Querem nos cercear, no exercício de nossa profissão, dizendo quando e onde podemos internar e que métodos terapêuticos podemos usar. Como se sentiriam nossos colegas cardiologistas se surgisse uma lei proibindo a eletroconversão?
É direito e dever dos nossos parlamentares verificar a qualidade do ensino na nossa especialidade, a ética no exercício da profissão, a condição de trabalho e remuneração dos psiquiatras, os lucros exorbitantes da indústria farmacêutica. Outra coisa que eles poderiam contribuir é averiguar esta coisa maravilhosa que está acontecendo, que é a distribuição de antipsicóticos atípicos. Não sou contra estes medicamentos e muito menos a sua distribuição, mas sim ao fato de faltarem medicamentos baratos e tão necessários como os antidepressivos tricíclicos e genéricos da linha dos IRSS. Às vezes fico pensando se não seria melhor tomar haloperidol e ter uma casinha para morar, do que receber a cada mês o equivalente a 2 ou 3 salários mínimos em medicamentos e morar debaixo da ponte. Acho que eles têm coisas mais importantes para cuidar!

JMP: Houve um cisma na psiquiatria mineira. O que fazer para consertar isso?

RR: Creio que a melhor alternativa seja sairmos da posição de que nós somos os bons, e eles os maus, ou vice-versa. Precisamos nos desarmar.
É voltarmos para o que nós temos em comum, que é a Psiquiatria, deixando os complementos (escolas psicoterápicas, ideologias políticas, visões filosóficas, etc), por mais importantes que sejam, para as sub-especialidades.
E ainda, sairmos de nosso individualismo costumeiro. E nisto, temos muito a aprender com eles.
Acho que não é cisma minha, mas me parece que este cisma que você fala continua acontecendo e o eles e o nós já passaram por outras fragmentações.

JMP: Como você percebe o ensino psiquiátrico mineiro? Se possível, comente as diversas residências psiquiátricas do Estado.

RR: Conheço bem a Residência do IPSEMG onde fui preceptor por vinte anos, e a do HC-UFMG, onde estou há cinco. As dezenas de residentes com quem tive contato foram, em sua maioria, pessoas interessadas, responsáveis e com vontade de aprender. Tiveram que conviver com professores empenhados e comprometidos com a Residência, mas na maioria, sem uma formação específica para o ensino. Pelo retorno que venho tendo, saíram com boa iniciação para o exercício da psiquiatria.
A minha impressão, a partir de contato com ex-residentes da Residência do Raul Soares, é que ela deixa a desejar, no que se refere a parte médica da Psiquiatria.

JMP: O que você pensa da atual AMP? E da Associação dos Acadêmicos recém-fundada? Compare as duas.

RR: Penso que a AMP, dos últimos anos, não representa o pensamento da maioria dos psiquiatras mineiros. A diretoria atual tem mostrado, ultimamente, algum interesse em Clínica Psiquiátrica, mas sabemos que o interesse primordial deles não é este.
Trata-se de um grupo minoritário, mas muito bem articulado. Se estão no comando há anos, é pela competência política deles, e pela passividade da maioria, que fica apenas lamentando de longe.
Quanto à Associação dos Acadêmicos, da qual também sou associado, é uma nova opção que possibilita a aglutinação em torno de temas psiquiátricos. O nome da Associação, para mim, sugere elitismo, mas nada impede que ele possa ser revisto. Parece-me, também, que o estatuto ainda é fechado, privilegiando os professores.

JMP: O que você pensa do fato de 90% dos colegas psiquiatras não terem freqüentado o último Congresso Mineiro de Psiquiatria?

RR: Isto parece confirmar o fato da AMP não representar a maioria dos psiquiatras.
Uma pergunta então se impõe: onde está essa maioria?



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