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ano VI - edição 18 - belo horizonte - mg

Doença do Pânico e sua Vertente Psicogenética - Mário Catão Guimarães

Introdução

Extraímos de PAPROCKI & ROCHA (1990) e GENTIL (1994), autores de ótimos artigos a respeito do Transtorno de Pânico, o que se pode chamar de resumo máximo: medo avassalador acompanhado de manifestações que ocorrem por conta do sistema nervoso autônomo, sensação de despersonalização ou desrealização. Tem início espontâneo e inesperado. O paciente acometido pelas crises de pânico as descreve como uma experiência terrível e apavorante.

Pergunta oportuna seria aquela feita a respeito da ocorrência da Síndrome do Pânico que tenha surgido, sob forma regressiva, em pacientes que se encontram em análise.

Resumiremos dois casos que temos registrado como vivência de situações arcaicas durante o processo analítico e que os identificamos como vivência do Pânico Primário ocorrida durante a análise.

Um dos pacientes, (34 anos, sexo masculino, solteiro, nível universitário completo), estava vivenciando um período que em análise pode ser identificado como fase canibalística da libido. Em um certo dia, chegou relatando o seguinte quadro: estou nestes últimos dias morrendo de medo. Estou apavorado. Um medo horrível e não sei de que estou tendo medo.

Alguns meses depois, outro paciente, (sexo feminino, solteira, 40 anos, nível universitário completo), estava em período de análise transcorrendo em fogo brando. Inesperadamente, chegou fazendo relato semelhante ou igual ao do primeiro paciente, a não ser pelo acréscimo de uma terrível sensação de incapacidade para se movimentar.
Identificamos ambos os casos como uma vivência, em período analítico, da fase arcaica do Pânico Primário.

Se a Doença do Pânico já é do conhecimento dos psiquiatras, psicólogos, psicanalistas e, porque não dizer, do público geral, pois, ao lado de publicações especializadas, a mídia se encarregou de sua divulgação como jamais fez com outra doença, o mesmo não se aplica ao PÂNICO PRIMÁRIO.

O termo Pânico Primário é encontrado em FENICHEL, 1966. Inicialmente usa o termo pânico original e mostra sua maior intensidade e dramaticidade que o simples medo e a angústia de espera (p. 60 e segs.; p.158 e segs.). Na página 65 usa o termo pânico primário e aponta junto com ele a alteração da consciência do Eu. Em FENICHEL, pode-se dizer que o Pânico Primário é o ponto inicial das Neuroses Traumáticas. A abordagem que ele faz sobre o Pânico Primário é sumária; não chega a definí-lo e nem sequer grifá-lo.

Em nosso modo de ver o Pânico Primário coexiste temporalmente com o Narcisismo e o Masoquismo Primário. Tem o significado de medo sem objeto: medo na fase pré-objetal. É uma manifestação do medo que já está pronto, que pré-existe no recém-nascido. Enfim, é um dispositivo orgânico pré-formado neurológica e quimicamente.

Um Breve Histórico

Em 1972, apresentamos no Círculo Psicanalítico de Minas Gerais um trabalho intitulado: Narcisismo Primário, Masoquismo Primário, Pânico Primário e suas implicações Psicopatológicas. Somente hoje nos foi possível perceber que o trabalho teve um caráter profético.

Utilizando a linguagem dos economistas de periódicos, diríamos que enquanto se discutia que o medo é só de castração e de ser devorado pelo animal totêmico, a doença do pânico explodiu, renascida com rótulo de doença com definido substrato orgânico. Provocou atropelos no diagnóstico da neurose fóbica, neurose de angústia e neuroses em que predominava a angústia. Isto acarretou uma alteração na drenagem de casos que antes direcionavam aos divãs dos psicanalistas e que passaram a desembocar nos consultórios dos psiquiatras clínicos.

Atualmente, nota-se uma retomada da postura teórica por parte dos analistas (MORAIS, 1998; PEREIRA, 1999). Trabalhos sobre a doença do pânico que já indicam tentativa de reversão dos acontecimentos, ou seja, do rótulo exclusivamente orgânico da síndrome do pânico.

Vejamos como o que foi dito acima se encaixa em FREUD. Quando aborda a sintomatologia clínica da Neurose de Angústia, ele descreve em quadro que apresenta total semelhança com o transtorno do pânico. Por outro lado, o que mais se aproxima do que denominamos Pânico Primário é a angústia primitiva que acompanha a angústia do nascimento. Não termina aí a participação Freudiana sobre o tema que estamos abordando.

O reconhecimento da importância do fator sexual na etiologia das Neuroses com a Psicanálise. Mais tarde surge o Narcisismo Primário (FREUD, 1914).

Alguns anos depois o ódio ou instinto de destrutividade (Tanatos) adquire igualdade de competição com o amor (Eros), em Más Allá del Principio del Placer. Em El Problema Económico del Masoquismo o ódio tem confirmado seu status de baronato, ficando em definitivo o Masoquismo Primário (FREUD, 1924).

Já o Pânico Primário, considerado em seu aspecto regressivo, pode-se inferir, tem pálida referência em Psicologia de las Massas. Ele também se aproxima da angústia primitiva que acompanha o nascimento, como já apontamos.

O fato de o medo receber tardiamente uma representação mitológica, no caso Pã, pode-se supor que lhe foi concedida pequena importância na estruturação de aspectos psicopatológicos. Acreditamos no contrário. Em biologia ou em Psicologia um fator é descoberto ou valorizado no sentido do mais ruidoso para o mais discreto.
Resultados

Voltemos aos nossos pacientes que deixamos em Pânico (Primário) um pouco acima, Com já estávamos atentos à possibilidade deste tipo de vivência, foi-nos possível informar-lhes que se tratava de uma regressão a um período bastante arcaico de sua existência e que se tratava de um medo intenso, porém sem objeto, etc., etc. Na sessão seguinte, o quadro já havia desaparecido, em ambos os pacientes, e em nenhum deles foi necessário o uso de medicamentos. Cabe-nos acrescentar que nenhum dos pacientes veio a apresentar Síndrome do Pânico e 10 para 15 anos já se passaram e ambos se encontram muito bem.

Um terceiro caso, que foge um pouco da pergunta acima formulada, aconteceu com uma paciente solteira, 42 anos, nível universitário. Estava em período analítico em que vivenciava claramente a fase oral.

Apresentou o quadro de pânico, em termos regressivos, acompanhados de uma grande dependência infantil e, curiosamente foi vivenciado, concomitantemente, o quadro de Narcisismo primário e de Masoquismo primário. O espaço não nos permite entrar em detalhes que este interessante caso requer, mas informamos que a paciente saiu desta vivência de maneira totalmente satisfatória.

O leitor poderia perguntar-nos se a esta altura do campeonato não seria temerário apresentar este tipo de artigo, tendo em vista que a doença do pânico e muitas outras têm bases bioquímicas conhecidas, principalmente no que diz respeito à primeira que já nasceu como doença de base reconhecidamente orgânica; e que a psicanálise ortodoxa já se encontra enterrada com a pá de cal da psicofarmacologia. Certamente não sabemos o que é mais temível: enfrentar bioquímicos enfurecidos brandindo pipetas ou se uma horda de psicanalistas armados com frascos vazios da perfumaria francesa.

Comentários

Quanto à destruturação ou dissociação da consciência que não foi narrada acima, informamos que tal não se deu de modo explícito graças ao fator transferencial. O analista funcionou como um comandante da tropa e não permitiu que esta ou seus membros entrassem no quadro flórido da síndrome do pânico, comparação extraída de FREUD em Psicologia de las Masas, quando fala que a tropa entra em pânico (miedo pânico) caso o comandante venha a falecer. A ausência do ideal do Ego é fator desencadeador do quadro do pânico. Já FENICHEL, falando de Neuroses Traumáticas, diz que o pânico observado nestas situações e em outras tem conexão genética com o Pânico Primário. FAIRBAIRN, relatando sua experiência com militares que apresentaram problemas psiquiátricos em período de guerra, valoriza a profunda dependência infantil destes pacientes. Os três autores gravitam em torno de um ponto comum: o medo que é origem e o medo que é sintoma.

O Pânico Primário, apesar de ser o parente incômodo do Narcisismo Primário e motivo de vergonha para o Masoquismo Primário, tem, com sua introdução, o importante papel de imprimir uma certa coerência e logicidade às diversas formas de patologia que a Psicanálise lida no dia a dia. Quando considerado em conjunto com os descendentes de Eros e Tânatos permite que esta logicidade se estenda a diferentes quadros nosográficos que têm base psicogenética.

Esta coerência ou logicidade é possível graças ao importante papel de auxílio que têm estes três elementos, na estruturação das MATRIZES ARCAICAS. As matrizes arcaicas, que se formam nos primeiros 8 ou 9 meses de vida e que apresentam os mais variados modelos psicopatológicos, tornam possível a explicação coerente e racional das manifestações sintomatológicas de uma patologia qualquer, desde que sua origem seja de base psicogenética. Este tema, pela sua amplitude e importância, será abordado em outra oportunidade.

A introdução do Pânico primário, um representante do Hórus, nos moldes acima citados, ou seja, em conjunto com o Narcisismo Primário e o Masoquismo Primário, permite entender o porque das diversas configurações psicopatológicas. Não estamos, entretanto, desatentos ao fato de que FREUD, em Inibicion, Sintoma e Angustia, menciona que a presença da angústia iria auxiliar nestas configurações.

Acreditamos ainda ser útil ressaltar: enquanto Eros atua no indivíduo com caráter de necessidade, Tânatos e Hórus atuam com caráter de reação.

Este último, Hórus, uma divindade do antigo Egito, dá patronato a sentimentos de horror e correlatos (medo, pavor, pânico, ansiedade, enfim, desde o prosaico susto até o moderno stress...) e cujo mérito para tal, não sabemos decidir, se se deve às situações de horror pelas quais passou ou pelo horror que infundiu.

A título de complementação a esses comentários, cabe-nos dizer:

a- às vezes fazemos referência ao Pânico Primário como estrutura (medo sem objeto...) e, às vezes como uma referência temporal e que, por sinal, coincide com o período do Narcisismo Primário e vai, portanto, desde o nascimento até o início das relações objetais.
b- a emoção de medo é o afeto mais importante no período do Pânico Primário, por apenas requerer uma estrutura mental primitiva, como é a do recém-nascido.
c- que acontecimentos desastrosos que possam ocorrer em período tão precoce, são muito marcantes em termos de presente e futuro do indivíduo.

A solidão real, a dor física e os sustos constantes, apoiados pela profunda sensação de dependência ou desamparo com que nasce o ser humano, são condições que propiciam ao indivíduo, no período do Pânico Primário, adquirir condições de trauma, que em última análise é uma questão de grau ou intensidade do medo estabelecido neste período, O fator intensidade do medo seria um dos mais importantes condicionadores do aparecimento futuro das crises de pânico. O Transtorno do Pânico não surge por geração espontânea. Não podemos sequer supor que um grupo de indivíduos sadios mentalmente, saiam por aí apresentando ataques de pânico, como se fosse o fenômeno de geração espontânea das espécies, defendido pelos biólogos do passado.

Em um resumo sobre posturas psicogenéticas encontradas nos autores já citados a respeito dos estados de pânico, podemos dizer o seguinte: FREUD, bordando o assunto em termos de massa (grupos), defende a idéias da perda do chefe como fator desencadeante do pânico. FAIRBAIRN, relatando sua experiência com militares que apresentaram problemas psiquiátricos em período de guerra, valoriza a profunda dependência infantil destes pacientes. FENICHEL, falando sobre situações traumáticas, remete o leitor a ver sua raiz no pânico original ou primário. MORAIS parece ver o transtorno do pânico como uma regressão ao pânico narcísico. PEREIRA retoma FREUD no tópico relativo à dependência infantil e valoriza o fator desamparo.

Sem tecer comentários sobre aspectos terminológicos ou de outra natureza, exceto para elogiar a qualidade dos trabalhos dos autores contemporâneos, acreditamos que o transtorno do pânico é uma regressão que sofre o paciente, sem apoio transferencial, no sentido amplo, ao período arcaico do Pânico Primário, caso este tenha sido vivenciado com intensidade traumática, ou seja, vivência de medo alterada, no caso para mais, no período apontado.

Conclusões

1- É possível vivenciar um quadro de pânico durante o processo analítico, como uma manifestação de um movimento regressivo, e que pode ser identificado como vivência do Pânico Primário.
2- Em uma tentativa de esboçar o fechamento do aspecto teórico que correu paralelamente com a casuística, diríamos que os principais representantes intitivo-afetivos: amor (libido), a serviço do instinto de conservação da espécie; o ódio e o medo, a serviço do instinto de conservação do indivíduo, acompanham a humanidade em três grandes traços do comportamento: o amor que constrói; o ódio que destrói e o medo que retrai. Estas três categorias afetivas básicas, amor, ódio e medo, são representadas na mitologia respectivamente por Eros, Tánatos e Hórus e podem ser consideradas como três estruturas instintivo-afetivas pré-formadas e portanto pré-existentes já antes do nascimento. Cada componente destas estruturas instintivo-afetivas adquirem, respectivamente, os nomes de Narcisismo Primário, Masoquismo Primário e Pânico Primário, a partir do nascimento até os dois primeiros meses de idade, e cuja característica comum seria a de não possuir objetos externos.

Estas três estruturas emocionais básicas ou principais, com a possibilidade do recém-nascido estabelecer relações afetivas com os objetos, adquirem ou recebem os nomes vulgares: amor (sexualidade), ódio (agressividade) e medo (ansiedade ou angústia).

Daí para frente é possível, com o conjunto afetivo constituído por estes três elementos, partir em direção aos aspectos psicopatológicos, num interessante, porém penoso exercício de futurologia, que será, esperamos, tema de nosso próximo artigo.

Resumo

O autor diz ser possível vivenciar um quadro de pânico durante o processo analítico, como uma manifestação de um movimento regressivo ao Pânico Primário. Diz ainda que os principais representantes instintivo-afetivos, amor, ódio e medo, têm como patronato mitológico Eros, tânatos e Hórus, respectivamente. Os três componentes instintivo-afetivos recebem, no período ano-objetal, os nomes de Narcisismo Primário, Masoquismo Primário e Pânico Primário que, a partir deste período e durante toso o desenvolvimento individual, já passam a compor, em conjunto, os aspectos normais ou psicopatológicos do indivíduo.



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