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Introdução
Extraímos
de PAPROCKI & ROCHA (1990)
e GENTIL (1994), autores de
ótimos artigos a respeito
do Transtorno de Pânico,
o que se pode chamar de resumo
máximo: medo avassalador
acompanhado de manifestações
que ocorrem por conta do sistema
nervoso autônomo, sensação
de despersonalização
ou desrealização.
Tem início espontâneo
e inesperado. O paciente acometido
pelas crises de pânico
as descreve como uma experiência
terrível e apavorante.
Pergunta
oportuna seria aquela feita
a respeito da ocorrência
da Síndrome do Pânico
que tenha surgido, sob forma
regressiva, em pacientes que
se encontram em análise.
Resumiremos
dois casos que temos registrado
como vivência de situações
arcaicas durante o processo
analítico e que os identificamos
como vivência do Pânico
Primário ocorrida durante
a análise.
Um dos
pacientes, (34 anos, sexo masculino,
solteiro, nível universitário
completo), estava vivenciando
um período que em análise
pode ser identificado como fase
canibalística da libido.
Em um certo dia, chegou relatando
o seguinte quadro: estou nestes
últimos dias morrendo
de medo. Estou apavorado. Um
medo horrível e não
sei de que estou tendo medo.
Alguns
meses depois, outro paciente,
(sexo feminino, solteira, 40
anos, nível universitário
completo), estava em período
de análise transcorrendo
em fogo brando. Inesperadamente,
chegou fazendo relato semelhante
ou igual ao do primeiro paciente,
a não ser pelo acréscimo
de uma terrível sensação
de incapacidade para se movimentar.
Identificamos ambos os casos
como uma vivência, em
período analítico,
da fase arcaica do Pânico
Primário.
Se a Doença
do Pânico já é
do conhecimento dos psiquiatras,
psicólogos, psicanalistas
e, porque não dizer,
do público geral, pois,
ao lado de publicações
especializadas, a mídia
se encarregou de sua divulgação
como jamais fez com outra doença,
o mesmo não se aplica
ao PÂNICO PRIMÁRIO.
O termo
Pânico Primário
é encontrado em FENICHEL,
1966. Inicialmente usa o termo
pânico original e mostra
sua maior intensidade e dramaticidade
que o simples medo e a angústia
de espera (p. 60 e segs.; p.158
e segs.). Na página 65
usa o termo pânico primário
e aponta junto com ele a alteração
da consciência do Eu.
Em FENICHEL, pode-se dizer que
o Pânico Primário
é o ponto inicial das
Neuroses Traumáticas.
A abordagem que ele faz sobre
o Pânico Primário
é sumária; não
chega a definí-lo e nem
sequer grifá-lo.
Em nosso
modo de ver o Pânico Primário
coexiste temporalmente com o
Narcisismo e o Masoquismo Primário.
Tem o significado de medo sem
objeto: medo na fase pré-objetal.
É uma manifestação
do medo que já está
pronto, que pré-existe
no recém-nascido. Enfim,
é um dispositivo orgânico
pré-formado neurológica
e quimicamente.
Um Breve
Histórico
Em 1972,
apresentamos no Círculo
Psicanalítico de Minas
Gerais um trabalho intitulado:
Narcisismo Primário,
Masoquismo Primário,
Pânico Primário
e suas implicações
Psicopatológicas. Somente
hoje nos foi possível
perceber que o trabalho teve
um caráter profético.
Utilizando
a linguagem dos economistas
de periódicos, diríamos
que enquanto se discutia que
o medo é só de
castração e de
ser devorado pelo animal totêmico,
a doença do pânico
explodiu, renascida com rótulo
de doença com definido
substrato orgânico. Provocou
atropelos no diagnóstico
da neurose fóbica, neurose
de angústia e neuroses
em que predominava a angústia.
Isto acarretou uma alteração
na drenagem de casos que antes
direcionavam aos divãs
dos psicanalistas e que passaram
a desembocar nos consultórios
dos psiquiatras clínicos.
Atualmente,
nota-se uma retomada da postura
teórica por parte dos
analistas (MORAIS, 1998; PEREIRA,
1999). Trabalhos sobre a doença
do pânico que já
indicam tentativa de reversão
dos acontecimentos, ou seja,
do rótulo exclusivamente
orgânico da síndrome
do pânico.
Vejamos
como o que foi dito acima se
encaixa em FREUD. Quando aborda
a sintomatologia clínica
da Neurose de Angústia,
ele descreve em quadro que apresenta
total semelhança com
o transtorno do pânico.
Por outro lado, o que mais se
aproxima do que denominamos
Pânico Primário
é a angústia primitiva
que acompanha a angústia
do nascimento. Não termina
aí a participação
Freudiana sobre o tema que estamos
abordando.
O reconhecimento
da importância do fator
sexual na etiologia das Neuroses
com a Psicanálise. Mais
tarde surge o Narcisismo Primário
(FREUD, 1914).
Alguns
anos depois o ódio ou
instinto de destrutividade (Tanatos)
adquire igualdade de competição
com o amor (Eros), em Más
Allá del Principio del
Placer. Em El Problema Económico
del Masoquismo o ódio
tem confirmado seu status de
baronato, ficando em definitivo
o Masoquismo Primário
(FREUD, 1924).
Já
o Pânico Primário,
considerado em seu aspecto regressivo,
pode-se inferir, tem pálida
referência em Psicologia
de las Massas. Ele também
se aproxima da angústia
primitiva que acompanha o nascimento,
como já apontamos.
O fato
de o medo receber tardiamente
uma representação
mitológica, no caso Pã,
pode-se supor que lhe foi concedida
pequena importância na
estruturação de
aspectos psicopatológicos.
Acreditamos no contrário.
Em biologia ou em Psicologia
um fator é descoberto
ou valorizado no sentido do
mais ruidoso para o mais discreto.
Resultados
Voltemos
aos nossos pacientes que deixamos
em Pânico (Primário)
um pouco acima, Com já
estávamos atentos à
possibilidade deste tipo de
vivência, foi-nos possível
informar-lhes que se tratava
de uma regressão a um
período bastante arcaico
de sua existência e que
se tratava de um medo intenso,
porém sem objeto, etc.,
etc. Na sessão seguinte,
o quadro já havia desaparecido,
em ambos os pacientes, e em
nenhum deles foi necessário
o uso de medicamentos. Cabe-nos
acrescentar que nenhum dos pacientes
veio a apresentar Síndrome
do Pânico e 10 para 15
anos já se passaram e
ambos se encontram muito bem.
Um terceiro
caso, que foge um pouco da pergunta
acima formulada, aconteceu com
uma paciente solteira, 42 anos,
nível universitário.
Estava em período analítico
em que vivenciava claramente
a fase oral.
Apresentou
o quadro de pânico, em
termos regressivos, acompanhados
de uma grande dependência
infantil e, curiosamente foi
vivenciado, concomitantemente,
o quadro de Narcisismo primário
e de Masoquismo primário.
O espaço não nos
permite entrar em detalhes que
este interessante caso requer,
mas informamos que a paciente
saiu desta vivência de
maneira totalmente satisfatória.
O leitor
poderia perguntar-nos se a esta
altura do campeonato não
seria temerário apresentar
este tipo de artigo, tendo em
vista que a doença do
pânico e muitas outras
têm bases bioquímicas
conhecidas, principalmente no
que diz respeito à primeira
que já nasceu como doença
de base reconhecidamente orgânica;
e que a psicanálise ortodoxa
já se encontra enterrada
com a pá de cal da psicofarmacologia.
Certamente não sabemos
o que é mais temível:
enfrentar bioquímicos
enfurecidos brandindo pipetas
ou se uma horda de psicanalistas
armados com frascos vazios da
perfumaria francesa.
Comentários
Quanto
à destruturação
ou dissociação
da consciência que não
foi narrada acima, informamos
que tal não se deu de
modo explícito graças
ao fator transferencial. O analista
funcionou como um comandante
da tropa e não permitiu
que esta ou seus membros entrassem
no quadro flórido da
síndrome do pânico,
comparação extraída
de FREUD em Psicologia de las
Masas, quando fala que a tropa
entra em pânico (miedo
pânico) caso o comandante
venha a falecer. A ausência
do ideal do Ego é fator
desencadeador do quadro do pânico.
Já FENICHEL, falando
de Neuroses Traumáticas,
diz que o pânico observado
nestas situações
e em outras tem conexão
genética com o Pânico
Primário. FAIRBAIRN,
relatando sua experiência
com militares que apresentaram
problemas psiquiátricos
em período de guerra,
valoriza a profunda dependência
infantil destes pacientes. Os
três autores gravitam
em torno de um ponto comum:
o medo que é origem e
o medo que é sintoma.
O
Pânico Primário,
apesar de ser o parente incômodo
do Narcisismo Primário
e motivo de vergonha para o
Masoquismo Primário,
tem, com sua introdução,
o importante papel de imprimir
uma certa coerência e
logicidade às diversas
formas de patologia que a Psicanálise
lida no dia a dia. Quando considerado
em conjunto com os descendentes
de Eros e Tânatos permite
que esta logicidade se estenda
a diferentes quadros nosográficos
que têm base psicogenética.
Esta
coerência ou logicidade
é possível graças
ao importante papel de auxílio
que têm estes três
elementos, na estruturação
das MATRIZES ARCAICAS. As matrizes
arcaicas, que se formam nos
primeiros 8 ou 9 meses de vida
e que apresentam os mais variados
modelos psicopatológicos,
tornam possível a explicação
coerente e racional das manifestações
sintomatológicas de uma
patologia qualquer, desde que
sua origem seja de base psicogenética.
Este tema, pela sua amplitude
e importância, será
abordado em outra oportunidade.
A
introdução do
Pânico primário,
um representante do Hórus,
nos moldes acima citados, ou
seja, em conjunto com o Narcisismo
Primário e o Masoquismo
Primário, permite entender
o porque das diversas configurações
psicopatológicas. Não
estamos, entretanto, desatentos
ao fato de que FREUD, em Inibicion,
Sintoma e Angustia, menciona
que a presença da angústia
iria auxiliar nestas configurações.
Acreditamos
ainda ser útil ressaltar:
enquanto Eros atua no indivíduo
com caráter de necessidade,
Tânatos e Hórus
atuam com caráter de
reação.
Este
último, Hórus,
uma divindade do antigo Egito,
dá patronato a sentimentos
de horror e correlatos (medo,
pavor, pânico, ansiedade,
enfim, desde o prosaico susto
até o moderno stress...)
e cujo mérito para tal,
não sabemos decidir,
se se deve às situações
de horror pelas quais passou
ou pelo horror que infundiu.
A
título de complementação
a esses comentários,
cabe-nos dizer:
a-
às vezes fazemos referência
ao Pânico Primário
como estrutura (medo sem objeto...)
e, às vezes como uma
referência temporal e
que, por sinal, coincide com
o período do Narcisismo
Primário e vai, portanto,
desde o nascimento até
o início das relações
objetais.
b- a emoção de
medo é o afeto mais importante
no período do Pânico
Primário, por apenas
requerer uma estrutura mental
primitiva, como é a do
recém-nascido.
c- que acontecimentos desastrosos
que possam ocorrer em período
tão precoce, são
muito marcantes em termos de
presente e futuro do indivíduo.
A
solidão real, a dor física
e os sustos constantes, apoiados
pela profunda sensação
de dependência ou desamparo
com que nasce o ser humano,
são condições
que propiciam ao indivíduo,
no período do Pânico
Primário, adquirir condições
de trauma, que em última
análise é uma
questão de grau ou intensidade
do medo estabelecido neste período,
O fator intensidade do medo
seria um dos mais importantes
condicionadores do aparecimento
futuro das crises de pânico.
O Transtorno do Pânico
não surge por geração
espontânea. Não
podemos sequer supor que um
grupo de indivíduos sadios
mentalmente, saiam por aí
apresentando ataques de pânico,
como se fosse o fenômeno
de geração espontânea
das espécies, defendido
pelos biólogos do passado.
Em
um resumo sobre posturas psicogenéticas
encontradas nos autores já
citados a respeito dos estados
de pânico, podemos dizer
o seguinte: FREUD, bordando
o assunto em termos de massa
(grupos), defende a idéias
da perda do chefe como fator
desencadeante do pânico.
FAIRBAIRN, relatando sua experiência
com militares que apresentaram
problemas psiquiátricos
em período de guerra,
valoriza a profunda dependência
infantil destes pacientes. FENICHEL,
falando sobre situações
traumáticas, remete o
leitor a ver sua raiz no pânico
original ou primário.
MORAIS parece ver o transtorno
do pânico como uma regressão
ao pânico narcísico.
PEREIRA retoma FREUD no tópico
relativo à dependência
infantil e valoriza o fator
desamparo.
Sem
tecer comentários sobre
aspectos terminológicos
ou de outra natureza, exceto
para elogiar a qualidade dos
trabalhos dos autores contemporâneos,
acreditamos que o transtorno
do pânico é uma
regressão que sofre o
paciente, sem apoio transferencial,
no sentido amplo, ao período
arcaico do Pânico Primário,
caso este tenha sido vivenciado
com intensidade traumática,
ou seja, vivência de medo
alterada, no caso para mais,
no período apontado.
Conclusões
1-
É possível vivenciar
um quadro de pânico durante
o processo analítico,
como uma manifestação
de um movimento regressivo,
e que pode ser identificado
como vivência do Pânico
Primário.
2- Em uma tentativa de esboçar
o fechamento do aspecto teórico
que correu paralelamente com
a casuística, diríamos
que os principais representantes
intitivo-afetivos: amor (libido),
a serviço do instinto
de conservação
da espécie; o ódio
e o medo, a serviço do
instinto de conservação
do indivíduo, acompanham
a humanidade em três grandes
traços do comportamento:
o amor que constrói;
o ódio que destrói
e o medo que retrai. Estas três
categorias afetivas básicas,
amor, ódio e medo, são
representadas na mitologia respectivamente
por Eros, Tánatos e Hórus
e podem ser consideradas como
três estruturas instintivo-afetivas
pré-formadas e portanto
pré-existentes já
antes do nascimento. Cada componente
destas estruturas instintivo-afetivas
adquirem, respectivamente, os
nomes de Narcisismo Primário,
Masoquismo Primário e
Pânico Primário,
a partir do nascimento até
os dois primeiros meses de idade,
e cuja característica
comum seria a de não
possuir objetos externos.
Estas
três estruturas emocionais
básicas ou principais,
com a possibilidade do recém-nascido
estabelecer relações
afetivas com os objetos, adquirem
ou recebem os nomes vulgares:
amor (sexualidade), ódio
(agressividade) e medo (ansiedade
ou angústia).
Daí
para frente é possível,
com o conjunto afetivo constituído
por estes três elementos,
partir em direção
aos aspectos psicopatológicos,
num interessante, porém
penoso exercício de futurologia,
que será, esperamos,
tema de nosso próximo
artigo.
Resumo
O
autor diz ser possível
vivenciar um quadro de pânico
durante o processo analítico,
como uma manifestação
de um movimento regressivo ao
Pânico Primário.
Diz ainda que os principais
representantes instintivo-afetivos,
amor, ódio e medo, têm
como patronato mitológico
Eros, tânatos e Hórus,
respectivamente. Os três
componentes instintivo-afetivos
recebem, no período ano-objetal,
os nomes de Narcisismo Primário,
Masoquismo Primário e
Pânico Primário
que, a partir deste período
e durante toso o desenvolvimento
individual, já passam
a compor, em conjunto, os aspectos
normais ou psicopatológicos
do indivíduo.
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