Gilda Paolielo deixa a presidência
da Associação Mineira
de Psiquiatria depois de seis
longos anos. Contando com os três
de Hélio Lauar, são
nove anos de poder exercidos pelo
mesmo grupo. Menos tempo teve
FHC para produzir a sua (dele)
obra. O que quero afinal dizer
é que a psiquiatria mineira
“oficial” ficou com a cara do
grupo Paolielo (que doravante,
a bem da concisão, denomino
simplesmente “Grupo”). Ponho aspas
em oficial porque não me
parece ser essa a psiquiatria
exercida na maioria dos consultórios
psiquiátricos de Minas
Gerais (ela é praticada
em parte do serviço público
e, certamente, é a psiquiatria
oficial da Secretaria de Saúde
da PBH).
E como é essa cara? É
o que tento descrever aqui, aproveitando
o artigo (de “despedida”) “In
Via” que a ex-presidente publicou
em “O Risco”, órgão
oficial da AMP, em fevereiro/03.
Deixando de lado frases inacreditáveis
tais como “acredito serem os sonhos
boas sinalizações
para a nossa vida" , vou
direto ao que ela chamou “os pilares
de nossa [deles] proposta de gestão
para a AMP”. Cito-as, naturalmente
enxugando os excessos semânticos:
- promover a efetiva inclusão
social do paciente;
- acompanhar pesquisa dos medicamentos
que possam aliviar seu sofrimento;
- conduzir o tratamento no sentido
de fazer surgir em cada paciente
o sujeito ali existente (sic);
- cuidar da formação
dos nossos profissionais;
- estimular a vitalidade do convívio
das diferenças;
- projetar Minas no cenário
nacional.
Evidentemente da maioria desses
“pilares” a diretoria da AMP passou
longe, por um motivo bem simples:
não são da competência
de uma associação
psiquiátrica. A Associação
Mineira de Psiquiatria jamais
teria meios de promover a inclusão
social ou de conduzir o tratamento
no sentido de “surgir o sujeito”
(?) dos pacientes psiquiátricos
de Minas Gerais porque essas são
tarefas afeitas aos psiquiatras
individualmente ou às instituições
de tratamento psiquiátrico;
do mesmo jeito, jamais acompanharia
pesquisas de medicamentos ou formação
de psiquiatras porque isso é
atribuição de instituições
governamentais (vigilância
farmacológica, MEC etc.).
Dos pilares paolielanos sobram,
portanto, dois: promover a convivência
entre o diferente e projetar o
nome da psiquiatria mineira no
cenário nacional.
No primeiro caso, é relevante
notar que durante os nove anos
de poder, todos os cargos chaves
da AMP (presidência, comissão
científica e publicação)
sempre estiveram em mãos
do Grupo, sendo os cargos menos
relevante distribuídos
a colegas (bem-intencionados,
diga-se) com acesso mínimo
ao núcleo duro do poder;
esse fato naturalmente provoca
a suspeita de que a verdadeira
política desse grupo seja
a de entregar os anéis
para conservar todos os dedos,
o que não é exatamente
uma convivência cordial
entre diferentes, mas, ao contrário,
renhida luta de poder. Quanto
ao segundo caso, a projeção
da psiquiatria mineira no cenário
nacional, me vem à memória
o depoimento do próximo
entrevistado do Jornal Mineiro
de Psiquiatria, o psiquiatra Ronan
Rego, contando como se sentiu
triste quando leu o programa do
último congresso brasileiro
de psiquiatria e lá notou
a ausência quase absoluta
de nomes mineiro em temas de relevância.
A verdade é que nomes mineiros
de projeção nacional
são sistematicamente ignorados
pela AMP, ou chamados para fazer
figuração. Cito
dois exemplos nítidos:
Jorge Paprocki e Fábio
Rocha. Motivo? Ora, esses não
rezam pela cartilha “politicamente
correta” do Grupo, ipso facto
são discriminados.
A contribuição que
nesses anos todos o Grupo deu
à psiquiatria mineira está
resumidamente descrito no artigo
publicado mais adiante no supracitado
número de “O Risco” pelo
professor paulista Isaias Pessotti
e são, na verdade, equívocos
sobre a psiquiatria que a AMP
tem tido a infelicidade de defender
e difundir, veladamente ou não;
o que os psiquiatras mineiros
terão de fazer no futuro
para corrigir esses erros teóricos
(com nefastos reflexos na prática
clínica) é um trabalho
para pelo menos três gerações.
Pessotti se propõe a provar
que a psiquiatria atual vem sendo
“despsiquiatrizada” (sic). Para
tanto, o autor incorre em dois
truques que há muito venho
denunciando em meus artigos do
Jornal Mineiro de Psiquiatria
como sendo as mágicas preferidas
dos que denominei tempos atrás
de neo-antipsiquiatras – que as
utilizam justamente para despsiquiatrizar
(prefiro o termo “desmedicalizar”)
a psiquiatria, no intuito de lacanizá-la.
Primeiro, identifica a parte com
o todo, a psiquiatria biológica
e o DSM-IV com a especialidade
médica Psiquiatria (Pessotti
inicia o artigo assim: “por conveniência,
entendemos como representante
da psiquiatria atual ... a psiquiatria
biológica”; o grifo é
meu). Isso configura, em filosofia,
um erro lógico denominado
falácia por ambigüidade,
do tipo: todas os móveis
da casa são pequenos, logo
a casa é pequena. “Por
conveniência”, Pessotti
com uma penada elimina as contribuições
que a psiquiatria moderna tem
da sociologia (não gosto
da denominação “psiquiatria
social” que acho reducionista),
antropologia e filosofia (a Fenomenologia,
por exemplo), além da biologia
(também desgosto de “psiquiatria
biológica” pelo mesmo motivo);
desconsidera gente como Karl Jaspers
(cuja monumental "Psicopatologia
Geral" permanece atualíssima),
Alonso-Fernandés, Lopes
Ibor, Kurt Schneider, Henri Ey,
autores que todo psiquiatra que
me lê nesse exato momento
com certeza conhece e utiliza
na lida diária. Em uma
palavra: Pessotti parece ignorar
essencialmente a Psiquiatria (por
conveniência?) que, aliás,
que eu saiba, não é
a profissão dele (**).
O segundo truque trata-se de um
erro epistemológico: Pessotti
confunde universalidade dos conceitos
e metodologia científicos
com, para usar um termo caro aos
psicanalistas, forclusão
do sujeito. Isso ele tem em comum
com os lacanianos que se acham
detentores do monopólio
da ética. Ora, tenho dito
que os psis deveriam estudar filosofia
de modo a saber que o mundo do
conhecimento não foi inventado
por Lacan (que nele, aliás,
teve modestíssima participação)
e que na velha Grécia assunto
como universalidade vs. singularidade
já haviam sido tratados
exaustivamente por Platão
e Aristóteles. Em Psiquiatria
(como também em Psicanálise)
há o viés teorético
(universal) e o clínico
(singular, ou melhor, singularíssimo);
entre um e outro, no tête-à-tête
do consultório psiquiátrico,
todo um devir dialético.
Simples assim.
Nos nove anos de poder do Grupo,
esses equívocos foram ativamente
vendidos como o supra-sumo da
verdade e da ética, disseminados
no ambiente cultural mineiro quase
sem resistência dos psiquiatras
(uma exceção foi,
modéstia à parte,
o Jornal Mineiro de Psiquiatria),
formando a atual infra-estrutura
hegemônica da cultura antipsiquiátrica
do Estado. Os motivos desse ativismo
militantes e da passividade comportamentais
da classe psiquiátrica
mineira são história
para um outro artigo (que prometo
desde já).
Agora, mudam-se nomes e cargos,
mas a próxima diretoria,
encabeçada por Cristina
Contigli, ao que parece, não
foge às diretrizes acima
descritas . O que nos leva a exclamar
com os franceses: plus ça
change, plus c’est la même
chose (*)
Este artigo foi sumariamente
censurado pelo jornal oficial
da AMP, “O Risco”. Como foi
escrito em português razoável,
supõe-se que a causa
da recusa foi ideológica,
isto é, pelas suas idéias.
No melhor estilo dos anos de
chumbo da ditadura militar.
(**)
Isaias Pessotti é, na
verdade, formado em filosofia
pela USP e professor de psicologia
na Faculdade de Medicina de
Ribeirão Preto. Recentemente
tive oportunidade de comentar
favoravelmente o seu “A Loucura
e as Épocas” no Jornal
Mineiro de Psiquiatria. Penso
que o problema de Pessotti com
a psiquiatria é a falta
de uma prática clínica
específica, fato que
adoece suas teorias sobre a
especialidade de forma semelhante
ao que ocorreu com o também
brilhante Michel Foucault. Claro
está que isso não
deve ser empecilho para publicar-se
o professor de Ribeirão
Preto. Como se dizia antigamente
(lembram-se?), abaixo a ditadura.
Humberto Campolina
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