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ano VI - edição 18 - belo horizonte - mg

Qual psiquiatria, companheiro? (*) - Humberto Campolina

Gilda Paolielo deixa a presidência da Associação Mineira de Psiquiatria depois de seis longos anos. Contando com os três de Hélio Lauar, são nove anos de poder exercidos pelo mesmo grupo. Menos tempo teve FHC para produzir a sua (dele) obra. O que quero afinal dizer é que a psiquiatria mineira “oficial” ficou com a cara do grupo Paolielo (que doravante, a bem da concisão, denomino simplesmente “Grupo”). Ponho aspas em oficial porque não me parece ser essa a psiquiatria exercida na maioria dos consultórios psiquiátricos de Minas Gerais (ela é praticada em parte do serviço público e, certamente, é a psiquiatria oficial da Secretaria de Saúde da PBH).
E como é essa cara? É o que tento descrever aqui, aproveitando o artigo (de “despedida”) “In Via” que a ex-presidente publicou em “O Risco”, órgão oficial da AMP, em fevereiro/03.
Deixando de lado frases inacreditáveis tais como “acredito serem os sonhos boas sinalizações para a nossa vida" , vou direto ao que ela chamou “os pilares de nossa [deles] proposta de gestão para a AMP”. Cito-as, naturalmente enxugando os excessos semânticos:
- promover a efetiva inclusão social do paciente;
- acompanhar pesquisa dos medicamentos que possam aliviar seu sofrimento;
- conduzir o tratamento no sentido de fazer surgir em cada paciente o sujeito ali existente (sic);
- cuidar da formação dos nossos profissionais;
- estimular a vitalidade do convívio das diferenças;
- projetar Minas no cenário nacional.
Evidentemente da maioria desses “pilares” a diretoria da AMP passou longe, por um motivo bem simples: não são da competência de uma associação psiquiátrica. A Associação Mineira de Psiquiatria jamais teria meios de promover a inclusão social ou de conduzir o tratamento no sentido de “surgir o sujeito” (?) dos pacientes psiquiátricos de Minas Gerais porque essas são tarefas afeitas aos psiquiatras individualmente ou às instituições de tratamento psiquiátrico; do mesmo jeito, jamais acompanharia pesquisas de medicamentos ou formação de psiquiatras porque isso é atribuição de instituições governamentais (vigilância farmacológica, MEC etc.). Dos pilares paolielanos sobram, portanto, dois: promover a convivência entre o diferente e projetar o nome da psiquiatria mineira no cenário nacional.
No primeiro caso, é relevante notar que durante os nove anos de poder, todos os cargos chaves da AMP (presidência, comissão científica e publicação) sempre estiveram em mãos do Grupo, sendo os cargos menos relevante distribuídos a colegas (bem-intencionados, diga-se) com acesso mínimo ao núcleo duro do poder; esse fato naturalmente provoca a suspeita de que a verdadeira política desse grupo seja a de entregar os anéis para conservar todos os dedos, o que não é exatamente uma convivência cordial entre diferentes, mas, ao contrário, renhida luta de poder. Quanto ao segundo caso, a projeção da psiquiatria mineira no cenário nacional, me vem à memória o depoimento do próximo entrevistado do Jornal Mineiro de Psiquiatria, o psiquiatra Ronan Rego, contando como se sentiu triste quando leu o programa do último congresso brasileiro de psiquiatria e lá notou a ausência quase absoluta de nomes mineiro em temas de relevância. A verdade é que nomes mineiros de projeção nacional são sistematicamente ignorados pela AMP, ou chamados para fazer figuração. Cito dois exemplos nítidos: Jorge Paprocki e Fábio Rocha. Motivo? Ora, esses não rezam pela cartilha “politicamente correta” do Grupo, ipso facto são discriminados.
A contribuição que nesses anos todos o Grupo deu à psiquiatria mineira está resumidamente descrito no artigo publicado mais adiante no supracitado número de “O Risco” pelo professor paulista Isaias Pessotti e são, na verdade, equívocos sobre a psiquiatria que a AMP tem tido a infelicidade de defender e difundir, veladamente ou não; o que os psiquiatras mineiros terão de fazer no futuro para corrigir esses erros teóricos (com nefastos reflexos na prática clínica) é um trabalho para pelo menos três gerações.
Pessotti se propõe a provar que a psiquiatria atual vem sendo “despsiquiatrizada” (sic). Para tanto, o autor incorre em dois truques que há muito venho denunciando em meus artigos do Jornal Mineiro de Psiquiatria como sendo as mágicas preferidas dos que denominei tempos atrás de neo-antipsiquiatras – que as utilizam justamente para despsiquiatrizar (prefiro o termo “desmedicalizar”) a psiquiatria, no intuito de lacanizá-la. Primeiro, identifica a parte com o todo, a psiquiatria biológica e o DSM-IV com a especialidade médica Psiquiatria (Pessotti inicia o artigo assim: “por conveniência, entendemos como representante da psiquiatria atual ... a psiquiatria biológica”; o grifo é meu). Isso configura, em filosofia, um erro lógico denominado falácia por ambigüidade, do tipo: todas os móveis da casa são pequenos, logo a casa é pequena. “Por conveniência”, Pessotti com uma penada elimina as contribuições que a psiquiatria moderna tem da sociologia (não gosto da denominação “psiquiatria social” que acho reducionista), antropologia e filosofia (a Fenomenologia, por exemplo), além da biologia (também desgosto de “psiquiatria biológica” pelo mesmo motivo); desconsidera gente como Karl Jaspers (cuja monumental "Psicopatologia Geral" permanece atualíssima), Alonso-Fernandés, Lopes Ibor, Kurt Schneider, Henri Ey, autores que todo psiquiatra que me lê nesse exato momento com certeza conhece e utiliza na lida diária. Em uma palavra: Pessotti parece ignorar essencialmente a Psiquiatria (por conveniência?) que, aliás, que eu saiba, não é a profissão dele (**).
O segundo truque trata-se de um erro epistemológico: Pessotti confunde universalidade dos conceitos e metodologia científicos com, para usar um termo caro aos psicanalistas, forclusão do sujeito. Isso ele tem em comum com os lacanianos que se acham detentores do monopólio da ética. Ora, tenho dito que os psis deveriam estudar filosofia de modo a saber que o mundo do conhecimento não foi inventado por Lacan (que nele, aliás, teve modestíssima participação) e que na velha Grécia assunto como universalidade vs. singularidade já haviam sido tratados exaustivamente por Platão e Aristóteles. Em Psiquiatria (como também em Psicanálise) há o viés teorético (universal) e o clínico (singular, ou melhor, singularíssimo); entre um e outro, no tête-à-tête do consultório psiquiátrico, todo um devir dialético. Simples assim.
Nos nove anos de poder do Grupo, esses equívocos foram ativamente vendidos como o supra-sumo da verdade e da ética, disseminados no ambiente cultural mineiro quase sem resistência dos psiquiatras (uma exceção foi, modéstia à parte, o Jornal Mineiro de Psiquiatria), formando a atual infra-estrutura hegemônica da cultura antipsiquiátrica do Estado. Os motivos desse ativismo militantes e da passividade comportamentais da classe psiquiátrica mineira são história para um outro artigo (que prometo desde já).
Agora, mudam-se nomes e cargos, mas a próxima diretoria, encabeçada por Cristina Contigli, ao que parece, não foge às diretrizes acima descritas . O que nos leva a exclamar com os franceses: plus ça change, plus c’est la même chose

(*) Este artigo foi sumariamente censurado pelo jornal oficial da AMP, “O Risco”. Como foi escrito em português razoável, supõe-se que a causa da recusa foi ideológica, isto é, pelas suas idéias. No melhor estilo dos anos de chumbo da ditadura militar.

(**) Isaias Pessotti é, na verdade, formado em filosofia pela USP e professor de psicologia na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Recentemente tive oportunidade de comentar favoravelmente o seu “A Loucura e as Épocas” no Jornal Mineiro de Psiquiatria. Penso que o problema de Pessotti com a psiquiatria é a falta de uma prática clínica específica, fato que adoece suas teorias sobre a especialidade de forma semelhante ao que ocorreu com o também brilhante Michel Foucault. Claro está que isso não deve ser empecilho para publicar-se o professor de Ribeirão Preto. Como se dizia antigamente (lembram-se?), abaixo a ditadura.

Humberto Campolina

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