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ano VI - edição 18 - belo horizonte - mg

A Noviclínica - Humberto Campolina

(A mentira é a maior força enlouquecedora do universo. Olavo de Carvalho)

Em nota introdutória ao X Congresso Mineiro de Psiquiatria, a presidente da Associação Mineira de Psiquiatria (AMP), Gilda Paolielo, escreve que a saúde mental circula no cotidiano das cidades, se manifesta nas artes, na política e na cultura. O Psiquiatra deve tomar posição em relação às questões sociais e políticas da saúde mental, deve responder ao mal estar da cultura, cada vez mais avassalador no mundo globalizado. Não sei se os meus colegas psiquiatras se interessam pelos conselhos da sra. Paolielo, ou se estão dispostos a circular no cotidiano das cidades empunhando a bandeira da psiquiatria (ou da saúde mental, que ninguém sabe exatamente em que consiste). O que sei e vejo no cotidiano desta cidade é o aumento de doentes mentais pobres (os ricos estão nas clínicas particulares) perambulando sujos, desnutridos e desassistido pelas ruas, praças e viadutos, o que qualquer cidadão pode constatar facilmente num simples circular pela cidade.
Sei também que os familiares desses pacientes estão revoltados. Não da maneira que Paolielo cita mais adiante na referida nota introdutória, com as condições de atendimento do doente, mas justamente com a falta de atendimento decorrente da implantação da reforma psiquiátricaà revelia da comunidade psiquiátrica mais esclarecida e dos principais interessados, os doentes mentais. Pelo menos é o que diz o presidente da Associação de Familiares e Amigos dos Pacientes Psiquiátricos (Afapp), sr. Gutemberg Caldeira, em reportagem do jornal O Tempo: A idéia da prefeitura é implantar um modelo diferente, mas que não está dando certo. Quando levo meu irmão [esquizofrênico] ao Galba Veloso ele é medicado e os médicos o mandam de volta para casa. (...) Ele sai e ameaça se suicidar (O Tempo, 24/07/02). Na mesma reportagem, o jornal faz uma enquete sobre a desativação de leitos psiquiátricos levada a cabo pela prefeitura em BH (1640 nos últimos anos!). O resultado é letra para quem sabe ler: 85% votaram contra (a desativação). Esse não deve ter sido o voto da sra. Cláudia Pequeno, coordenadora de saúde mental da PBH, que declarou ao repórter: Queremos um jeito diferente de tratar os diferentes... Porventura alguém já notou que quase sempre há algo angelical na ignorância?
Pequeno (talvez por não ser psiquiatra, mas enfermeira) parece ignorar que uma das causas que justifica in limine a internação é o risco de suicídio; parece igualmente não ter consciência de que essas reformas, na verdade antipsiquiátricas, foram implantadas em países ricos (Itália, Inglaterra, EUA, Canadá; na Alemanha, o Basaglia deles lá, tal de Huber, foi para a cadeia onde passou quatro longos anos...), nos anos 60/70, com resultados no mínimo decepcionantes; e, finalmente, Pequeno parece nunca ter lido psiquiatras brasileiros eminentes como Valentim Gentil Filho e Carol Sonnenheich que de um modo ou de outro se manifestaram contra a Lei Delgado. Valentim e Sonnenheich escreveram ensaios didáticos e definitivos sobre reformas psiquiátricas na revista da USP e no Jornal Brasileiro de Psiquiatria (**) respectivamente; Sonnenheich deu uma entrevista ao pasquim da AMP, O Risco, em que abordou o assunto de forma clara e insofismável (o editor tentou esconder a entrevista, puxando para destaque frases insossas do ilustre psiquiatra...).
No último Jornal Mineiro Psiquiatria, abordei a questão de a AMP ter cunhado a expressão Nova Clínica e feito dela o leitmotiv do congresso psiquiátrico de agosto/ 2002. Alcunhei esse ente exótico de Noviclínica, inspirado na Novilíngua, linguagem produzida pelo Big Brother orwelliano com o fito de amansar consciências individuais que se aventurassem contra o pensamento monolítico do coletivismo burocrático reinante (qualquer semelhança...). Mas o que vem a ser afinal a Noviclínica?
A Noviclínica desenvolveu-se a partir de três equívocos básicos. O primeiro diz respeito à Ciência que, segundo os noviclínicos, não é boa parceira para a Psiquiatria pois forclui (sic) o sujeito. Ipso facto, a Psiquiatria transcenderia o saber médico objetivante (leia-se: deve ser suplementada ou substituída pelo lacanismo que possui o monopólio da ética e da escuta do sujeito). Apesar do novidadeiro e pretensioso rococó lacaniano, trata-se do velho problema da singularidade vs. universalidade nas ciências, questão essa debatida há mais de dois mil anos, desde a Grécia Antiga. Qualquer principiante no estudo de Epistemologia sabe que todo conhecimento sistematizado (inclusive a psicanálise) sempre será universal. A pessoa, não: esta é singular. A arte do profissional, seja psiquiatra, psicanalista ou psicólogo, é harmonizar essas duas dimensões no trabalho clínico. Simples assim (o que não significa que seja fácil).
O segundo equívoco da Noviclínica é que a internação psiquiátrica não tem objetivos terapêuticos. Esse equipamento terapêutico seria uma espécie de encarnação do Mal Absoluto. Isso torna compreensível a ira inquisitória que os noviclínicos devotam aos hospitais psiquiátricos. Contudo, a idéia de que a internação psiquiátrica é intrinsecamente ruinosa é tão falsa como nota de três dólares. Há dados empíricos, verificáveis, que jogam por terra essa teoria, a saber: a) se o mau hospital é danoso para o doente, o bom hospital, ao contrário, lhe é indubitavelmente benéfico; b) certos pacientes deterioram igualmente estando no hospital, no ambulatório ou em casa, seja no Brasil, na Nigéria ou na Suíça; c) existem certas famílias denominadas de expressão emocional intensa que promovem recaída se permanecem em contato com o paciente por tempo prolongado , o que obriga o psiquiatra a interná-lo (***). Portanto, achar que toda internação psiquiátrica é nociva porque alguns hospitais usaram mal a prerrogativa de internar é o mesmo que proibir qualquer cirurgia porque um paciente morreu em mãos de cirurgião incompetente.
O terceiro equívoco em torno do qual se agitam os noviclínicos é o que considera a Noviclinica uma clínica em si mesma, ou seja, um novo paradigma psiquiátrico. Evidentemente não existe nenhuma prova ou demonstração de que isso seja verdade; há, sim, farta evidência de que essa clínica consista tão-somente em ideologia substituindo fatos e crença imune à realidade. Tal equívoco encoraja a pretensão voluntarista de fazer uma reforma psiquiátrica onde caberia somente uma reforma da assistência psiquiátrica. A confusão entre essas duas expressões no início me fez pensar de que se tratava de ato falho. Mas, com o tempo, fui me convencendo da realidade: os noviclínicos estavam mesmo querendo fazer uma reforma da Psiquiatria por decreto! Perversão ou desinformação? Para essa pergunta não tenho resposta definitiva. Talvez cada noviclínico esteja em um ponto diferente do espectro entre os dois pólos. O que me parece líquido e certo, e todos os bons médicos sabem disso, é que uma ciência (alguém ainda duvida que a psiquiatria é uma ciência?) não se reforma: ela evolui, gradualmente ou não, através de descobertas científicas. E não parece ser exatamente uma descoberta científica o pensamento de Baságlia datado de 40 anos, enxertado pelo lacanismo tão ou mais anacrônico.
Resta-me concluir, pelo exposto, que a Noviclínica é um mito que, levado na prática a ferro e fogo, induz a uma política de redução irresponsável de leitos psiquiátrico e uso inadequado do equipamento hospital-dia (vulgo CERSAM) para tratar pacientes cuja indicação é de internação integral; acoberta e estimula o desmonte da estrutura de assistência psiquiátrica existente (carente de reforma, é bom que se diga em alto e bom som) em troca de uma quimera que despeja na rua doentes crônicos graves, pobres e abandonados pelas famílias; e, last not least, entorpece pela manipulação sistemática a consciência de toda uma geração de jovens profissionais. Não é pouco. No país da impunidade possivelmente ninguém além da população humilde vai pagar essa conta.

(*) Este artigo, publicado no Mídia Sem Máscara, foi escrito por ocasião do fracassado (do ponto de vista dos psiquiatras, que eram minoria entre psicólogos, assistentes sociais e TOs...) X Congresso Mineiro de Psiquiatria em 2002, motivo pelo qual algumas pessoas citadas como ocupantes de cargos, hoje estão fora do poder. Mas esse poder continua exatamente o mesmo com outros poderosos, o que viabilizou a republicação do trabalho.
(**) De Valentim, Uma leitura anotada do projeto brasileiro de reforma psiquiátrica, Revista USP nº 43. Ver também entrevista do mesmo autor ao Jornal Mineiro de Psiquiatria nº 12.
De Sonnenheich ver o artigo Desospitalização no Jornal Brasileiro de Psiquiatria, vol. 44(4): 159-167, 1995.
(***) Sonnenheich op. cit.


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