C.R.
procurou-me em dezembro de 1983
relatando angústia, ansiedade
e muitas dificuldades no que
se refere ao convívio
social. Essas dificuldades caracterizavam-se
por uma intensa inibição
e um medo indeterminado, chegando
a configurar-se como um verdadeiro
estado de pânico fóbico
em situações nas
quais era obrigada a relacionar-se
com outras pessoas, principalmente
os seus colegas de trabalho.
Apresentava uma auto-estima
muito baixa, julgando-se uma
pessoa desinteressante e repulsiva
e procurava, a todo custo, evitar
reuniões profissionais
e fugia de encontros como churrascos,
festas e outros eventos sociais
de lazer coletivo. Nessas ocasiões
sentia-se extremamente ansiosa,
manifestava taquicardia, extremidades
frias, boca seca, sudorese profusa
e tinha ímpetos de fugir
precipitadamente do lugar onde
se encontrasse. Além
disso, sentia medos e terrores
noturnos inespecíficos
e um constante sofrimento íntimo
tão intenso que, por
vezes, achava que não
o conseguiria suportar por muito
tempo. Relatou piora dos sintomas
há alguns meses, acrescentando-se
perda considerável do
apetite e emagrecimento. Havia,
ainda, outros sintomas tais
como distúrbios gastrointestinais,
cefaléia pulsátil
acompanhada de náuseas,
dores musculares generalizadas
e distúrbios dos ciclos
menstruais (polimenorréia).
Quase não saía
de casa e vivia em um estado
de tensão emocional constante.
Contava com cerca de vinte e
oito anos de idade, era engenheira,
solteira e residia em companhia
da mãe e da irmã
mais nova. Revelava-se uma pessoa
extremamente tímida,
muito contida e meticulosa,
com tendências obsessivas
importantes e uma consciência
moral bastante exacerbada. Tinha
uma visão de mundo fundamentalmente
pessimista, com tons de desconfiança
e de amargura. Por outro lado,
demonstrava um temperamento
delicado, afetuoso, sensível
e naturalmente afável,
bondoso e altruísta.
Apesar de tudo, preocupava-se
com o bem estar das outras pessoas
e alegrava-se sinceramente com
o sucesso alheio. Era uma excelente
profissional e evidenciava uma
inteligência certamente
acima da média. Procurava
distrair-se através do
exercício da pintura
que praticava regularmente e
a boa qualidade de seus quadros,
que pude apreciar depois, indicava
um aprimorado potencial artístico.
No mais, não tinha nenhum
amigo íntimo e sua vida
social resumia-se a insossas
e desinteressantes reuniões
de família. O curso universitário
havia se constituído
em um verdadeiro tormento para
ela, considerando-se o enorme
sacrifício que representava
conviver com seus colegas de
turma e tolerar as brincadeiras
buliçosas de toda aquela
gente jovem e ruidosa, além
das infindáveis desculpas
que tinha que inventar para
esquivar-se de toda sorte de
festas, reuniões e comemorações.
Quanto à sua vida sexual,
nunca havia sequer namorado
e jamais experimentara qualquer
tipo de contato físico
com homens.
Na primeira consulta falou,
ainda, de um medo indefinido
de ‘perder o controle’, da piora
dos sintomas ao anoitecer e
de um cansaço excessivo
que nunca a abandonava. Há
cerca de oito anos submetia-se
a tratamento psicoterápico
de orientação
comportamental e, até
aquele momento, não observara
nenhuma melhora de seu estado.
A pesquisa dos antecedentes
pessoais não revelou
nenhum antecedente médico
digno de nota ou acontecimento
traumático importante,
exceto a morte do pai, vítima
de um tumor cerebral, que ocorreu
quando ela tinha sete anos de
idade. Naquela ocasião,
a paciente e sua irmã,
um ano mais nova que ela, residiram
durante algum tempo na casa
do avô materno.
A primeira
impressão que tive, na
época, a respeito dessa
paciente foi de que parecia
tratar-se de um quadro depressivo
crônico, de longa evolução,
incidindo em uma personalidade
anancástica, ou seja,
dotada de importantes traços
obsessivos em sua constituição
caracterológica. As suas
grandes dificuldades no relacionamento
humano, a sua meticulosidade
e rigidez, o seu comportamento
evitativo social, a sua visão
de mundo árida e desesperançada
consistiam em características
que, à primeira vista,
sugeriam uma constituição
de personalidade tal como a
descrita antes. Entretanto,
o potencial de afetuosidade
genuína que transparecia
claramente em seus gestos e
nos seus relatos intrigou-me
sobremaneira. Apesar de ser
uma pessoa muito bem educada,
não detectei aquela amabilidade
insípida, formal, fria
e vazia, quase ritualística,
tão própria dos
anancásticos. Ao contrário,
o seu modo de ser transmitia,
algumas vezes, a impressão
de que era uma pessoa naturalmente
vívida, porém
acentuadamente atemorizada e
reprimida. De qualquer maneira,
sob o ponto de vista clínico,
tratava-se, sem dúvida,
de um quadro depressivo com
crises de pânico fóbico,
mais precisamente de fobia social,
como patoplastia secundária.
Pelo menos, tal foi a minha
concepção diagnóstica,
naquela época, a respeito
do caso.
Receitei-lhe clomipramina na
dosagem de 75 mg/dia e solicitei
que retornasse vinte dias depois.
Voltou ao consultório
na data marcada e relatou melhora
razoável, com aumento
moderado da disposição.
No entanto, referiu piora do
apetite e permanência
quase inalterada da angústia.
Insisti durante algum tempo
com a medicação,
porém devido ao aumento
da ansiedade e à persistência
das crises de pânico fóbico,
resolvi mudar a medicação
antidepressiva após dois
meses de tratamento. Prescrevi
maprotilina na dosagem crescente
de até 150 mg/dia e,
com efeito, sentiu-se melhor,
ficando mais tranqüila
durante o dia e com elevação
satisfatória do humor.
Contudo, as dificuldades de
relacionamento humano persistiam,
vivia com sobressaltos indefinidos
e continuava se julgando uma
pessoa desprezível, fraca
e sem nenhuma qualidade aparente.
Recusava todos os convites para
reuniões de lazer, temia
que pudesse vir a se sentir
mal, que talvez quisesse fugir
do lugar onde estivesse e que
não o conseguiria, enfim,
era assolada por toda uma série
de medos, insegurança
e temores objetivamente infundados.
Continuou em tratamento medicamentoso
comigo até que, após
a morte do avô materno,
de quem gostava muito, em agosto
de 1985, houve recrudescimento
importante do quadro depressivo.
Em novembro resolveu encerrar
o tratamento psicoterápico
que vinha fazendo depois de
concluir que não a estava
beneficiando e, em dezembro,
começou a ser por mim
atendida, duas vezes por semana,
com vistas a um tratamento psicoterápico
de orientação
psicodinâmica.
Durante os primeiros meses de
atendimento, quase todas as
sessões eram preenchidas
por infindáveis e monótonas
auto-recriminações
que traduziam uma acentuada
intolerância e desprezo
em relação a si
mesma. Costumava dizer que era
uma pessoa burra, pois não
conseguia exercer o controle
voluntário sobre as situações
que a atemorizavam, enfim, que
não conseguia mudar aquele
estado de coisas apesar de assim
desejá-lo e decidi-lo.
Eram bastante evidentes as tentativas
de solução racional
para os seus problemas. Tinha
sérias dificuldades para
reconhecer, identificar e expressar
os seus sentimentos e emoções,
não conseguia sequer
chorar e, aparentemente, procurava
viver sob a égide da
pura lógica. Geralmente
convertia as suas dificuldades
afetivas em rígidas categorias
morais, sentindo-se, freqüentemente,
uma pessoa egoísta, fraca
e repleta de defeitos. Costumava
projetar, maciçamente,
o seu auto-rigor nas outras
pessoas e ficava bastante ansiosa
em relação à
possibilidade de lhe exigirem
mais do que podia fazer. Os
seus relatos faziam pensar em
uma pessoa ‘plana’, com uma
existência mecânica
e com um futuro inteiramente
previsível, sem irregularidades
ou alterações
de contorno e curso. Por outro
lado, em relação
aos conteúdos de seus
sonhos, estes freqüentemente
mostravam uma situação
interior bastante turbulenta,
caótica e sombria. Freqüentemente
sonhava com a família,
ora com o avô e com a
avó maternos, ora com
mãe e com a irmã
e, quase sempre, os conteúdos
oníricos retratavam explosões,
acidentes automobilísticos
e cataclismos. Nessa época,
além da interpretação
onírica, eu procurava
desfazer, ativamente, as suas
tentativas defensivas de racionalização.
Conscientemente, falava de sua
família como sendo constituída
por pessoas severas, impassíveis,
respeitáveis, com grande
desvelo pela integridade moral,
mas, na região inconsciente,
deparava-se com abismos de sombra
e de morte. Pouco a pouco fui
percebendo como sua família
possuía alguns modos
peculiares de relacionamento
com o mundo externo e algumas
disposições específicas
de reação que
se constituíam em um
verdadeiro agrupamento de leis,
normas e regras familiares.
Por exemplo, valorizava-se sobremaneira
a discrição, a
contenção emocional
e afetiva, o formalismo vazio
e cerimonioso, desprezava-se
tudo que fosse ruidoso, vívido,
sincero, espontâneo e
natural. Dissimulavam-se sentimentos,
evitavam-se cuidadosamente expressões
emocionais que correspondessem
a algo agressivo, hostil ou
erótico. Fazia-se uma
espécie de culto solene
da dor e do sofrimento. Em contrapartida,
conspirava-se surdamente, engendravam-se
intrigas desairosas ocultamente,
insultava-se em segredo, traía-se
no silêncio. Essa enorme
ambigüidade familiar era
retratada nitidamente por aquilo
que fluía da paciente
e que se me apresentava nas
sessões, isto é,
a procura consciente da impassibilidade
da forma em contraste com a
turbulência explosiva
das emoções inconscientes.
Passei, então, a comunicar-lhe
as minhas impressões
a respeito dos mecanismos do
relacionamento intra-familiar
com base em seus relatos o que,
constantemente, causava-lhe
surpresa e uma certa perplexidade.
Estava, portanto, elucidado
o intenso sentimento de desconfiança
que a paciente nutria em relação
a todas as pessoas que dela
se aproximavam, inclusive em
relação a mim.
Isso ficou bem esclarecido à
medida que fui efetuando a análise
dos elementos transferenciais
que afloravam com o decorrer
do tratamento. Ora sentia que
podia confiar em mim e ora se
arrependia em fazê-lo.
Em uma determinada sessão,
após relatar um sonho
no qual havia se sentido muito
amedrontada, começou
a ter lembranças vagas
de uma cena nebulosa que descreveu
como se fora portas se fechando
para ela com estrondo e, em
seguida, foi tomada por medo
indefinido e agudo. Era o primeiro
fragmento, ainda difuso, de
lembranças de cenas infantis
correspondentes a vivências
subjetivas que havia experimentado
quando criança, todas
elas de caráter traumático
e que agora começavam
a emergir subitamente. Relacionavam-se,
como pude constatar depois,
ao período de doença
e morte de seu pai, fase que
passou na companhia dos avós
maternos e dos tios. Nessa ocasião,
tinha sido muito maltratada
e humilhada, principalmente
por uma de suas tias, devido
ao fato de procurar defender
sua mãe de acusações
e comentários maliciosos
por parte da família.
Após a morte de seu pai,
iniciou-se um movimento familiar
maciço para que sua mãe,
na época uma mulher ainda
jovem e bonita, se comportasse
como uma senhora de moral inatacável,
ou seja, para que não
namorasse e nem se divertisse.
Minha paciente, então
uma criança de oito a
nove anos sensível e
inteligente, procurou a todo
custo protegê-la da sanha
doentiamente moralista que se
instalara no ambiente familiar
e que tinha como único
objetivo controlá-la
e fazê-la abdicar inteiramente
de perspectivas existenciais
normais e legítimas.
A família fê-la
sentir-se, então, como
uma pessoa diferente e errada
que defendia certas atitudes
ou desejos maternos considerados
moralmente condenáveis.
A partir desse momento, consolidou-se
um pacto inconsciente que teria
uma importância crucial
para a futura existência
dessa moça, ou seja,
foi instituído um acordo
com caráter de lei e
de norma determinando o seguinte:
ela se tornava, de maneira definitiva,
a perpétua guardiã
e protetora de sua mãe
e irmã, renunciando à
vida do mesmo modo que a mãe
fora obrigada a fazê-lo.
Realmente, tanto sua mãe
como a irmã, apesar de
trabalharem fora, terem formação
universitária e rendimentos
suficientes, pareciam pessoas
muito dependentes, inseguras
com vontade débil, bastante
sugestionáveis e influenciáveis,
sendo que, em relação
à irmã, a paciente
constantemente a via em seus
sonhos sob forma de um bebê
indefeso e desprotegido. Em
casa, era a paciente que tomava
todas as iniciativas da vida
doméstica, administrava
e organizava o funcionamento
de todos os setores e, nas férias,
planejava as viagens que, invariavelmente,
faziam sempre juntas. Personificara,
decididamente, a instância
da lei e da ordem, atributos
perdidos do longínquo
e extinto pai. Sentia-se inteiramente
responsável pela felicidade
e pelo bem estar da mãe
e da irmã, seus dois
únicos e exclusivos objetos
de preocupação
e de dedicação.
Entretanto, o tratamento prosseguia
e, nitidamente, a atividade
onírica se acentuava
bastante.
Havia, basicamente, três
categorias de sonhos que se
apresentavam alternadamente
nessa época: 1 Sonhos
em que estava presente a figura
do avô materno, patriarca
da família, com o qual
havia efetuado uma forte ligação
afetiva e que sempre aparecia
como um homem triste, solitário
e com determinações
vagas e fantásticas de
salvar a família.
2 - Sonhos com a mãe
e com a irmã, nos quais
ora procurava salvá-las
de inúmeras ameaças
e ora se via carregando pesadas
cargas em situações
de mudanças de domicílio
num clima emocional de aflição
e angústia.
3 Sonhos com situações
de pânico em que se via
tentando fugir, desesperadamente,
de recintos fechados e sombrios.
Em uma ocasião, sonhou
que estava tentando fugir de
um castelo medieval com masmorras
de pedra fria e escura, que
associava a sentimentos de sofrimento
e morte. Os significados desses
sonhos eram bastante evidentes
e eu procurava verbalizá-los
de maneira ativa e dinâmica.
Começaram a surgir evidências
clínicas bastante promissoras.
A paciente iniciou a tomar consciência
da intensa raiva, até
então reprimida, que
tinha dentro de si e, gradualmente,
foi-se permitindo experimentá-la.
Amiúde, sofria crises
de pânico durante as sessões
e, não raramente, despersonalizações,
náuseas, tonteiras e
cefaléias de intensidade
quase intolerável. Entrementes,
a sua vida cotidiana melhorava
flagrantemente, sentia-se mais
tranqüila, as suas ações
começavam a tornar-se
mais espontâneas e naturais,
passou a aproximar-se de seus
colegas de serviço, a
sair com eles, a participar
de festas e reuniões
sociais. Houve remissão
completa das crises de pânico
fóbico durante situações
de exposição social
fora da família. Tornou-se
cada vez mais comunicativa,
começou a ser bastante
estimada pelos seus colegas
de trabalho, fez amizades gratificantes
e iniciou a experimentar sensações
e sentimentos eróticos
em maior grau. Pode parecer
estranho, mas até então
os sentimentos eróticos
dessa moça estavam tão
reprimidos quando os seus sentimentos
de raiva. Afinal, havia abdicado
inteiramente da existência
comum, julgava-se infalível,
sentia que era capaz de prever
e controlar os seus sentimentos
mais íntimos, enfim,
sentia-se como se não
fosse humana. Em dezembro de
1987 resolveu expor os seus
quadros, fato que indicava o
grau de melhora que havia obtido,
isto é, finalmente estava
se sentindo mais à vontade
para se expor às outras
pessoas, para correr os riscos
naturais inerentes ao intercâmbio
humano. Ao lado disso, passei
a observar uma mudança
notável em seus gestos,
agora vívidos, em sua
mímica, agora descontraída
e expressiva e, fato extraordinário,
uma transformação
significativa em suas vestes
habituais e na conformação
de seu corpo, que começava
a se delinear com linhas francamente
femininas. No início
do tratamento, era uma moça
sem muitos cuidados, muito magra
e franzina, com grandes olhos
assustados e agora a impressão
que eu tinha é que começava
a se instalar em seu interior
um esboço tímido
de verdadeira e plena feminilidade.
Entretanto, as auto-recriminações
continuavam, sendo induzidas
pelo sentimento de culpa motivado
pela mudança de sentimentos
e comportamentos não
só relacionado à
sua mãe e irmã,
como também em relação
a quase toda a família.
Passou a ser difícil
para ela suportar reuniões
familiares, assim como também
lhe era difícil dissimular
certos sentimentos de raiva
e desprezo dirigidos a certas
pessoas da família. Não
raro demonstrava impaciência
e intolerância em relação
a esses familiares. Culpava-se
por isso. Os seus interesses
voltavam-se, agora, a outras
pessoas e a outras expectativas
existenciais. O equilíbrio
intra-familiar, mantido até
então às custas
de uma forte repressão
e supressão de sentimentos,
começou a ser rompido.
Sentia que estava abandonando
a mãe a irmã,
julgava-se uma pessoa má,
egoísta e injusta.
Entrementes, à medida
que o tratamento analítico
aprofundava-se, foram surgindo
os primeiros elementos de um
tímido, mas progressivo,
amor transferencial. Simultaneamente
ao surgimento de novas sensações
e fantasias eróticas
e amorosas, passou a reclamar
e a queixar-se, a princípio
vagamente e depois diretamente,
de meu distanciamento afetivo
e de minha isenção
para direcionar certas decisões
e ações de seu
cotidiano. Chegou a sonhar,
em certa ocasião, que
estava deitada em uma mesa operatória
em um bloco cirúrgico
e que eu examinava seus genitais
minuciosamente com uma lupa.
Sentia-se ultrajada e humilhada
e, não raro, verbalizava
sua indignação
pelo fato de, durante as sessões,
eu estar facultado do poder
de devassá-la, de desrespeitá-la,
ou seja, de desvendar seus sentimentos
mais íntimos e secretos
e, após o término
de seu horário, mandá-la
embora e entregá-la à
própria sorte sem nenhuma
preocupação com
seu bem estar e em nada sensibilizado
com seu enorme sofrimento. Assim,
no interior da relação
transferencial, ela pôde,
gradualmente, projetar seu manancial
de impulsos sexuais e agressivos
para que fossem adequadamente
simbolizados e terapeuticamente
elaborados. A sua intensa atividade
onírica nessa época
mostrava-me, juntamente com
seu avô materno, como
principais protagonistas de
complexos, vertiginosos e tumultuados
enredos que sugeriam, disfarçada
e metaforicamente, a expressão
de provável estase libidinosa
de caráter edipiano.
Isto me fazia refletir e constatar,
na prática, como era
verdadeira aquela premissa freudiana
de que quanto mais acertadas
e oportunas fossem as interpretações
do material onírico efetuadas
pelo psicanalista durante o
processo terapêutico,
maior e mais rápida seria
a melhora clínica do
paciente, desde que o conteúdo
metafórico presente nos
sonhos equivaleriam a verdadeiras
cidadelas de defesa neuróticas
correspondentes aos conflitos
inconscientes e a sua correta
interpretação,
resultando em ‘insights’ importantes,
seria como uma ‘tomada’ vitoriosa
desses núcleos defensivos
da neurose como um todo.
Ao mesmo tempo, surgiam algumas
novidades alvissareiras em sua
vida objetiva. Matriculou-se,
em meados de 1990, em uma escola
de dança e, logo, de
maneira surpreendente, mostrou
grande habilidade para praticar
os mais variados passos, tornando-se
uma das alunas mais expressivas
e elogiadas. Não demorou
muito e foi convidada para participar
de uma apresentação
de gala na escola e seu número
artístico foi muito elogiado
por toda a platéia de
professores e demais convidados.
Após um ano, foi convidada
para dar aulas de dança
na escola, mas recusou. Havia
constituído, ao longo
desse tempo, um grupo considerável
de conhecidos e amigos fora
do ambiente de trabalho com
os quais passou a sair e divertir-se.
Os primeiros flertes e namoricos
aconteceram nessa época
e, no final daquele ano, teve
sua primeira experiência
sexual consumada. No entanto,
após o namorado abandoná-la
pouco tempo depois, sofreu grave
crise depressiva que exigiu
atendimentos quase diários
e dose alta de antidepressivos
tricíclicos para sua
recuperação.
Continuou depois, com entusiasmo,
a frequentar as aulas de dança
e usufruir o ambiente festivo
de bailes, eventos e apresentações
artísticas que aconteciam
amiúde. Até o
ano de 1993 teve mais três
namoros, cujos términos
foram seguidos de intenso sofrimento
íntimo entremeado por
sentimentos de abandono e de
rejeição que terminaram
por desencadear recorrências
depressivas de intensidade moderada.
Sua vida sexual era insatisfatória,
nunca tendo experimentado orgasmo
vaginal. Entretanto, a masturbação
era agora uma atividade rotineira,
ao contrário de antes,
quando praticamente inexistia.
Por outro lado, em seu trabalho,
apesar de sentir-se bem mais
desenvolta socialmente, ainda
julgava-se uma funcionária
medíocre, sentia esboços
de pânico antes das reuniões
de serviço e, definitivamente,
considerava impossível
apresentar relatórios
de temas técnicos em
público. Nas vezes anteriores
que havia sido obrigada a fazê-lo,
sentira-se tão ansiosa
que o coração
quase saíra pela boca,
gaguejara durante a apresentação
e estava convicta de que os
colegas de trabalho haviam notado
o seu embaraço e o tremor
de suas mãos. Temia que
pudesse passar mal durante as
apresentações,
que viesse a sofrer um desmaio,
enfim, que fizesse um papel
ridículo e que fosse
vítima de comentários
maldosos e de toda sorte de
chacotas. A prescrição
de medicamentos beta- bloqueadores
simpaticolíticos juntamente
com altas doses de clomipramina,
associada a algumas técnicas
comportamentais simples, também
não se mostraram eficazes
clinicamente para o alívio
da intensa ansiedade antecipatória.
No final de 1993 conheceu um
rapaz na escola de dança
que continuava frequentando.
Tratava-se de um homem maduro,
bem estabelecido profissionalmente
e que, de imediato, interessou-se
vivamente por ela. Logo começaram
a namorar seriamente. Ele era
uma dessas almas fleumáticas
e plácidas e, ao mesmo
tempo, singelamente afetuoso
e bondoso, embora fosse pessoa
de poucas palavras, tímido
e introspectivo. Nutriu por
ela, desde o início,
uma dedicação
incondicional, devota e silenciosa.
Em junho de 1994 pediu-a em
casamento e, com efeito, em
janeiro de 1995 casaram-se no
regime civil e comemoraram o
evento com uma festa em grande
estilo.
Estava, então, concluído,
com o matrimônio, uma
etapa vital de superação
de obstáculos neuróticos
que, até então,
haviam bloqueado o desenrolar
de seu crescimento e a obtenção
de uma felicidade natural e
legítima. Tinha sido
desfeito, finalmente, o pacto
neurótico familiar inconsciente
que a condenara a ser uma menina
para sempre, sem outras perspectivas
de vida que não fossem
aquelas relacionadas aos cuidados
e zelo pela felicidade de sua
mãe e irmã.
Entretanto, como persistissem
alguns sintomas depressivos
leves e sintomas fóbicos
sociais, agora significativamente
restritos ao seu desempenho
no serviço, mais especificamente
relacionados a apresentações
técnicas que tinha que
cumprir no trabalho e a dúvidas
e inseguranças quanto
ao seu verdadeiro valor como
profissional, reiniciei paroxetina
droga que havia sido lançada
no mercado em 1993 - em meados
de 1998. Havia tentado introduzir
esse medicamento em 1995, mas
ela não o havia tolerado
satisfatoriamente, tendo sido
obrigado a suspendê-lo
três meses depois devido
à aparente interferência
na obtenção de
orgasmo vaginal. Isso foi assaz
relevante, desde que após
algum tempo de casamento, começara
a fruir orgasmos vaginais com
certa facilidade nas relações
sexuais rotineiras.
Com efeito, desde então,
a vida de C.R. tem se desenrolado
de um modo bastante satisfatório.
Viaja com frequência com
o marido a passeio, relaciona-se
afetivamente muito bem com ele
e, exceto a frustração
de não ter conseguido
engravidar, parece estar feliz.
No trabalho, mudanças
notáveis ocorreram. Foi
promovida a um cargo de chefia
e as dúvidas e inseguranças
em relação a seu
valor como profissional dissiparam-se
completamente. Atualmente é
a responsável por um
grande projeto na empresa e
ministra rotineiramente cursos
de treinamento técnico
na capital e no interior, inclusive
para platéias numerosas.
Esporadicamente, sofre discretas
recorrências depressivas,
o que obriga aumentar a dose
de paroxetina para 40 mg/dia,
diminuindo-a para 30mg/dia logo
em seguida.
Hoje,
quase vinte anos depois do início
do acompanhamento terapêutico
de C.R., analisando-se pormenorizadamente
a progressão de sua vida,
a evolução clínica
de sua doença e a melhora
visível de sua sintomatologia,
podemos dizer que temos mais
indagações do
que propriamente respostas seguras
para o que, na verdade, sucedeu
no decorrer de seu tratamento.
Em primeiro lugar, no que se
refere ao seu diagnóstico,
hoje poderíamos estabelecer
com segurança, apoiados
no CID-10 e DSM-IV, um diagnóstico
de Transtorno de Ansiedade Social
ou Fobia Social coexistindo
com uma Distimia de longa evolução
e fases de Depressão
Dupla, ou seja, a irrupção
esporádica de fases de
Depressão Maior sobrepondo-se
à evolução
crônica e ininterrupta
da Distimia. Além disso,
podemos suspeitar de uma personalidade
pré-mórbida com
traços importantes do
grupo C do DSM-IV, isto é,
com características temerosas
e fóbico-evitativas em
sua constituição
caracterológica.
Por outro lado, analisando-se
dinamicamente todos os eventos
psicopatológicos ou não
da vida de C.R., para além
de qualquer visão categorial
ou criteriológico-nosográfica
estática e compartimentada,
ou seja, observando-se o transcurso
natural de sua vida, de seu
sofrimento, de seus medos, inibições,
desejos e fantasias, chegamos
a algumas conclusões.
No caso
em pauta, observamos como a
paciente vinha sofrendo com
as suas crises de pânico
fóbico que, na verdade,
representavam o imenso pavor
que sentia em ingressar na vertente
da vida, ou seja, de usufruir
uma plenitude existencial gratificante
e satisfatória. O pacto
familiar inconsciente ordenava
que ela renunciasse totalmente
à vida e à existência,
assemelhando-se, em essência,
a algo bem próximo da
morte. Isso se tornava bem visível
pela forma mecânica, monótona
e repetitiva com que expressava
os seus relatos e as suas auto-recriminações,
além da vazia imutabilidade
de seu existir. Havia, sem dúvida,
alguma coisa inorgânica,
ressequida e embalsamada em
sua mímica, em seus gestos
e em sua fala, contrastando,
extraordinariamente, com os
relâmpagos fugazes de
vivacidade e de naturalidade
que se lhe escapavam de modo
involuntário. As crises
de pânico fóbico
eram ruidosas alegorias do temor
profundo de deixar emergir a
seiva de vida orgânica
à superfície silenciosa
e artificialmente inabalável
e impassível de seu ser.
Pois, que o pensamento, tendo
atribuído uma existência
real a uma idéia, tem
a necessidade de ver essa idéia
viva, e só o consegue
personificando-a. Desse modo,
podemos supor, com certa segurança
teórica, que essa paciente
não melhoraria de seus
sintomas sem um tratamento psicodinâmico
conduzido com alguma paciência
e dedicação. Uma
prova dessa hipótese,
aparentamente, foi a resposta
clínica insatisfatória
que apresentou mesmo após
a administração
prolongada de um medicamento
antidepressivo, a clomipramina,
que seria provido de uma ação
terapêutica especifica
para o tipo de sintoma que apresentava.
Esses sintomas agudos, assim
como toda a malha invisível
que enformava e sustentava a
rigidez existencial da paciente
só poderiam ser dissipados
através da revelação
íntima e integral de
sua própria existência
à ela mesma, com os subsequentes
e terapêuticos ‘insights’
ou auto-percepções.
Creio que somente essas revelações,
percebidas pela paciente com
sentimentos de surpresa e perplexidade,
poderiam induzir alguma mudança
favorável no seu sobrecarregado
equilíbrio psíquico
e ocasionar, como conseqüência,
transformações
existenciais saudáveis
e promissoras. E, com efeito,
isso ocorreu de maneira lenta,
mas, nem por isso, de forma
menos espetacular e notável
com o decorrer do tratamento
psicoterápico. Com relação
ao tipo de sintomas que apresentava,
poder-se-ia dizer que eram,
em sua natureza, inteiramente
consoantes com as suas tendências
constitucionais caracterológicas
e retratavam, nitidamente, o
drama conflituoso que era vivido
na obscuridade de seu psiquismo.
As suas características
latentes de personalidade caracterizadas
por altivez, orgulho, meticulosidade,
severidade e escrupulosidade
moral, além de tendência
à evitação
e esquiva, foram acentuadamente
realçadas pelo conflito
nuclear inconsciente, o qual
poderíamos esquematicamente
conceituar como sendo equivalente
a complexos simbólicos
constituídos por sentimentos
e idéias sobrevalorizadas
oriundas de vivências
subjetivas correspondentes a
determinadas circunstâncias
situacionais muito importantes
em sua vida.
É bastante provável
que determinados traços
peculiares de personalidade
norteiem e elejam certas vivências
circunstanciais específicas,
cristalizando-as sob a forma
de complexos simbólicos
hiperdimensionados dotados de
alta valência energética
capazes de inibir e (ou) causar
disfunções em
circuitos neurais importantes,
sistemas moduladores de neurotransmissores
e conexões neuro-endócrinas.
Também é bastante
provável e atualmente
já contamos com evidências
oriundas de neuro-imagem comprovando
tal fato - que as psicoterapias,
sejam elas de orientação
psicodinâmica, cognitiva
ou comportamental, induzam mudanças
reparadoras nesses citados distúrbios
ou disfunções.
De maneira geral, devemos sempre
ter em mente que a emergência
de sintomas psiquiátricos,
em especial daqueles denominados
neuróticos, obedecem
a uma estreita relação
compreendida entre vulnerabilidade
específica de personalidade
e estressores psicossociais,
ou seja, entre a herança,
eminentemente biológica,
e os estímulos ambientais.
Dito de outro modo, cada indivíduo
lida à sua maneira com
as vivências traumáticas
que irrompem em cada uma de
suas trajetórias biográfico-existenciais,
ou melhor dizendo, o que é
muito importante para uma pessoa
não o será tanto
para outra, e assim por diante.
Em nosso caso, C.R. talvez tenha
desenvolvido e manifestado sintomas
fóbico-sociais em decorrência
da interação de
sua própria caracterologia
com certas circunstâncias
biográfico-existenciais
que se mostraram especialmente
traumáticas para ela.
Tais sintomas, por seu turno,
eram perfeitamente consonantes
com suas tendências constitucionais
caracterológicas e retratavam,
alegoricamente, o drama conflituoso
que era vivido na obscuridade
de seu psiquismo. Como já
dissemos antes, o seu modo de
ser naturalmente altivo, severo,
meticuloso e exigente constituiu-se
em terreno fértil para
que vicejassem profundos e enraizados
sentimentos de vergonha e de
humilhação que
alcançaram uma intensidade
clínica fóbico-ansiosa
- desencadeados e sobrevalorizados
pelas vivências traumáticas
infantis, além de propiciar
um rígido e inflexível
cumprimento do dever neurótico
em relação à
mãe e irmã.
Por último, restam algumas
indagações que
dificilmente serão respondidas
de maneira conclusiva.
Nos últimos quatro anos,
a paciente fez uso contínuo
de paroxetina, droga que, de
acordo com vários estudos
recentes controlados, tem se
mostrado muito eficaz no alívio
dos sintomas do Transtorno de
Ansiedade Social ou Fobia Social.
Sem dúvida, C.R. manifestou
melhora significativa dos sintomas
de ansiedade social nesse período,
mas até que ponto o medicamento
realmente agiu? O benefício
clínico teria sido potencializado
pela atenuação
dos traços de personalidade
e dos sintomas agudos promovidos
pela psicoterapia psicodinâmica
a longo prazo?
A droga, por sua vez, teria
facilitado as elaborações
simbólicas do processo
psicoterápico através
da atenuação,
a longo prazo, dos traços
anancásticos da paciente?
O que teria sido da vida de
C.R., caso não tivesse
se submetido a tratamento psicoterápico
psicodinâmico e desvendado
sua neurose familiar? Será
que o desenrolar natural de
sua vida, à mercê
de eventos previsíveis
ou inesperados, teria desembocado
em uma existência pelo
menos em parte gratificante?
Evidentemente,
somos incapazes de responder
convincentemente a essas indagações.
Entretanto, diante de nossa
experiência em relação
ao caso, podemos afirmar, com
segurança, que somente
através do estabelecimento
de uma relação
médico-paciente calcada
na confiança, respeito
e dedicação é
que o médico poderá
alcançar algum sucesso
terapêutico em casos tão
difíceis e complexos
como este. Além disso,
torna-se necessária uma
visão teórica
desapaixonada e desprovida de
qualquer ideologia, uma abordagem
que consiga conciliar aspectos
fenomenológico-clínicos
a uma dimensão psicodinâmica
inteligível e próxima
da vida real e do conhecimento
comum. Somente dessa maneira
poder-se-á efetuar a
prática de uma medicina
psicanalítica, ou psicanálise
médica, que se expresse
de maneira inteligível
e que se mostre eficaz para
o alívio do sofrimento
íntimo desses pacientes.
GUSTAVO FERNANDO JULIÃO
DE SOUZA
www.gustavojuliao.med.br