The treatment of self-aggressive
behavior with naltrexona, in patients
with autism, mental deficiency
and epilepsy: report of two cases
followed for a long period of
time
Autor: Dr. Domingos Sávio
Lage Guerra, Medico Psiquiatra,
Prof. Ass. FCMMG, Chefe do Serviço
de Psiquiatria, do Hospital Militar-PMMG,
Médico Ass. do Instituto
Raul Soares- FHEMIG.
Colaboradores: Dra. Cristina Vaz
Rodrigues, Médica Residente
Psiquiatria do Instituto Raul
Soares-FHEMIG / Dra. Ana Cristina
Bittencourt Fonseca, Psiquiatra
Infantil do Centro Psicopedagógico-FHEMIG
e do Hospital Militar da PMMG
Instituição onde
se realizou o trabalho: Instituto
Raul Soares
Endereço para correspondência:
R. Domingos Vieira, n. 273, S
.404-405,B. Santa Efigênia,
Belo Horizonte.CEP 30150/240 F.
031. 3241/2490. e-mail: rted@uai.com.br.
RESUMO
Os autores descrevem o tratamento
de comportamento auto-agressivo,
com seguimentos por três
anos, de dois pacientes deficientes
mentais, autistas e epilépticos.
O tratamento foi proposto com
base em trabalhos experimentais
descritos na literatura científica,
que se fundamentaram na relação
entre os circuitos opióides
e auto-agressividade compulsiva;
e nas evidências de melhora
dos referidos comportamentos
com o bloqueio dos receptores
opióides. Os autores
discutem o manejo dos antagonistas
opióides a longo prazo
e consideram a possibilidade
de um mecanismo adicional de
aprendizado a partir da percepção
da dor pelo bloqueio opióide
que se manifestaria tardiamente.
Neste trabalho, foram revistos
os padrões dos comportamentos
auto-agressivos, especificamente,
abordáveis pelos antagonistas
opióides.
Palavras-Chave: Comportamento
auto-agressivo; circuitos opióides;
antagonistas opióides.
APRESENTAÇÃO
O comportamento auto-agressivo
(CAA) é um dos mais perturbadores
sintomas encontrados na prática
clínica. Ocorrendo em
várias patologias, pode
ser visto nos pacientes borderlines
que se automutilam, ferem-se
de diversas maneiras ou tentam
suicídio. É também
encontrado nos deprimidos, como
tentativa de auto-extermínio;
nos psicóticos, especialmente
naqueles com delírios
somáticos. Entretanto,
é nos autistas e deficientes
mentais que vai ocorrer com
maior freqüência,
de uma forma sistemática,
repetitiva e compulsiva, com
prevalência estimada em
6,5% da população
de deficientes mentais residentes
na comunidade e 15,4% entre
os residentes em Instituições
(THOMPSON e Cols., 1994).
O CAA é um comportamento
dramático e perturbador
tanto pelos danos que provoca,
quanto pelas dificuldades de
manejo que impõe aos
familiares e equipes de tratamento.
A falta de medidas curativas
eficazes e os cuidados permanentes
que este tipo de paciente demanda,
para protegê-los de danos
e ferimentos mais sérios,
gera tensão e frustração
constante em seu cuidadores.
O CAA compulsivo e repetitivo
de que trata o presente trabalho
tem basicamente estes padrões:
bater a cabeça contra
objetos ou objetos contra a
cabeça, bater na própria
face com as mãos ou outros
objetos , bater a face ou testa
de encontro a outro objeto ou
obstáculo, morder as
mãos e braços,
bater algum membro contra obstáculos
, socar, chutar, etc. (SYMONS
& THOMPSOM, 1997).
Buscando explicar este comportamento,
a teoria da super estimulação
opióide vem ganhando
espaço durante os últimos
anos. Vários estudos
com seres humanos têm
corroborado com essa teoria
e, de forma especial, a reprodução
do CAA em laboratório,
através da administração
de agonistas opióides,
em experimentos com modelos
animais. De acordo com esta
“hipótese dos opióides”,
alguns comportamentos auto-agressivos
repetitivos poderiam provocar
a imediata liberação
de endorfinas, inibindo a dor
e, até mesmo, provocando
prazer. Nestes termos, o CAA
seria um comportamento superaprendido
por reforço positivo
repetido, de forma a criar-se
uma verdadeira adicção.
(THOMPSON e Cols,1994). Respaldando
esta hipótese, existem
vários outros trabalhos
experimentais de dosagem de
opióides endógenos
e de tratamento do CAA com antagonistas
opióides, que serão
discutidos abaixo na revisão
da literatura. Outras hipóteses
que consideramos como o papel
da dopamina e serotonina, não
serão discutidas no presente
trabalho.
Outra teoria acerca do papel
dos opióides no CAA,
seria a teoria da desregulação
de opióides no autismo,
de acordo com a qual pessoas
autistas produziriam intermitentemente
grandes quantidades de encefalinas
e endorfinas. Tal teoria foi
proposta com base em semelhanças
comportamentais entre crianças
autistas e viciados em opióides
durante intoxicação
(retraimento social, insensibilidade
à dor) e abstinência
de opióides (hipersensibilidade
a estímulos, afeto ansioso,
humor lábil) e entre
crianças expostas a opióides
e crianças autistas.
Esta teoria forneceu base para
experiências com drogas
usando o antagonista de opióide
naltrexone em crianças
autistas. Foram encontrados
níveis sanguíneos
de beta-endorfina tanto aumentados
quanto diminuídos em
pequenas amostras de autistas
(KAPLAN & SADOCK, 1999).
Mais uma das teorias no CAA,
sugere que o comportamento auto-agressivo
em deficientes mentais e autistas
seria um meio de evitar os efeitos
indesejados de diminuição
nos níveis de opióides
endógenos, ou de experimentar
os efeitos de euforia pelo aumento
dos opióides que presumivelmente
se segue ao ato injurioso. Alguns
estudos recentes sugerem que
os antagonistas opiódes,
podem atenuar a freqüência
ou severidade da conduta auto-agressiva
(KAPLAN & SADOCK, 1999).
BREVE
DESCRIÇÃO DA FARMACOLOGIA
DO NALTREXONE:
O naltrexone é um antagonista
opióide completo, derivado
do Naloxone (um antagonista
de meia vida curta). Descoberto
em 1963, teve seus primeiros
ensaios clínicos no tratamento
da dependência de opióides
e, no início da década
de 90, começou a ser
utilizado também na dependência
alcoólica. O naltrexone
é um antagonista completo,
competitivo, reversível
e de meia-vida prolongada, dose
dependente. Compete com os opióides,
inclusive os opióides
endógenos, pelo sítio
de ligação dos
seus receptores, obstruindo-os.
O bloqueio que provoca nos receptores,
por ser competitivo, pode ser
ultrapassado, ou revertido por
uma dose adicional de opióides.
As endorfinas (opióides
endógenos) estão
associadas com o prazer e/ou
sensação de anestesia
ou insensibilidade à
dor; tendo este efeito reduzido
ou suprimido pelo bloqueio dos
receptores sob a ação
do naltrexone..
O naltrexone é bem absorvido
por via oral. Logo após
ser absorvido, tem uma passagem
pelo fígado e aí
cerca de 60% da naltrexona é
metabolizada . A meia- vida
da naltrexona é de24
horas, na dose de 50mg, podendo
atingir 72 horas com uma dose
de 150 mg. Seu principal metabólito
ativo tem meia vida de 13 horas,
sendo a eliminação
de ambos renal. Pode ser tóxico
para o fígado, em alguns
casos provoca a elevação
de TGO e TGP. Os efeitos colaterais
mais comumente relatados são:
náusea, sedação,
insônia.
REVISÃO
DA LITERATURA
A utilização clínica
da naltrexona há vários
anos, no tratamento da dependência
de opióides e, posteriormente,
no alcoolismo, tem proporcionado
reflexões interessantes
sobre o papel dos opióides
endógenos em alguns comportamentos
compulsivos, especialmente na
auto-agressividade, quando repetitiva
e compulsiva. Entretanto, outros
comportamentos auto-agressivos,
sem as características
acima, não seriam abordados
com esse medicamento.
A seguir serão revistos
alguns trabalhos que definem
o tipo de CAA abordável
pela naltrexona, as hipóteses
explicativas para estes comportamentos,
experimentos em modelos animais
além de situações
e estudos que mostram falhas
desse tratamento e questionam
o modelo opióide do CAA.
SYMONS & THOMPSON (1997)
descrevem os comportamentos
auto-agressivos repetitivos,
em deficientes mentais como
sendo, em sua maioria (80%),
dirigidos para a cabeça
e dorso da mão, locais
que, nesses indivíduos,
a estimulação
provoca anestesia, reforçando
a hipótese da liberação
dos opióides endógenos.
Segundo estudo realizado por
ROTH; OSTROFF & HOFFMAN
(1996) com sete pacientes portadores
de CAA repetitivo, a naltrexona
proporcionou a extinção
do CAA em seis deles. Duas delas
interromperam o tratamento e
voltaram a apresentar o CAA
imediatamente, melhorando novamente
com a reintrodução
do medicamento. BUZAN e cols.
(1995) fizeram estudo do uso
de naltrexona com três
adultos mentalmente retardados
que tinham longa história
de CAA e insucessos com tratamentos
medicamentosos e comportamentais.
Em todos os três o CAA
foi substancialmente reduzido.
Estes autores recomendam que
antes de se iniciar a terapia
com naltrexona deve ser tentado
modificar ou retirar reforços
comportamentais e ambientais
e algum distúrbio médico
ou psiquiátrico reversível
associado deve ser tratado.
CREWS e cols. (1993) em estudo
duplo-cego placebo-controlado
de retirada programada, estudaram
a eficácia da naltrexona
a longo prazo no tratamento
do CAA em uma mulher de 28 anos
profundamente retardada. Encontram
extinção do CAA
após um ano de administração
contínua de naltrexona
e permanência de bons
resultados nas fazes com placebo
nos seis meses posteriores de
seguimento sem drogas, concluindo
que os efeitos da naltrexona
podem ser duradouros mesmo após
a sua retirada.
WALTERS e cols. (1990) investigaram
a teoria da liberação
de opióides endógenos
no comportamento auto-agressivo
(CAA) com administração
de naltrexona, através
de estudo duplo-cego placebo
controlado em indivíduo
do sexo masculino de 14 anos,
autista e mentalmente retardado.
Os resultados produziram uma
marcante diminuição
no CAA durante as duas fases
de tratamento com o princípio
ativo da droga. Na segunda fase
com placebo, os resultados encontrados
não foram tão
ruins como na primeira, corroborando
os achados citados anteriormente
sobre os efeitos de longo prazo
da naltrexona. Um aumento do
relacionamento social também
foi observado durante as fases
de tratamento com o princípio
ativo da droga .
SANDMAN; BARRON & COLMAN
(1991) realizaram estudo duplo-cego
em 4 pacientes com CAA para
testar a eficácia dos
bloqueadores opióides,
administrando placebo, doses
de 25, 50 e 100mg de naltrexona
em semanas diferentes. Os pacientes
tiveram seus comportamentos
gravados em filme, em horários
e dias previamente determinados.
Os resultados obtidos mostraram
diminuição objetivamente
detectada dos CAA nos períodos
de tratamento com naltrexona,
com maior índice de melhora
em três pacientes quando
a dose foi aumentada.
KARS (1990), também em
estudo duplo-cego placebo controlado,
investigou o efeito da naltrexona
sobre a freqüência
de CAA em seis indivíduos
do sexo masculino, com profundo
retardo mental. Seguindo um
projeto de estudos, cruzado,
duplo-cego, placebo-controlado,
naltrexona foi administrada
na dose de 50mg diariamente,
por três semanas consecutivas.
Em dois dos cinco indivíduos,
uma redução significativa
da auto-agressividade pode ser
demonstrada e, em um, a tendência
para a redução
foi encontrada. Não foram
encontrados tais efeitos em
três indivíduos.
HERMAN (1990) comenta que a
hipótese dos opióides
no CAA vem sendo sustentada
há 15 anos com base em
várias pesquisas:
1- Em modelos animais, sugerindo
que os peptídeos opióides
do cérebro e medula espinhal
participam na modulação
da antinocepção
em animais e modelos animais
experimentais de comportamento
auto-agressivo utilizando administração
exógena de agonistas
opióides
2- Pesquisas clínicas,
bioquímicas e farmacológicas
conduzidas durante os últimos
cinco anos também tem
sugerido a possibilidade que
os peptídeos opióides
possam desempenhar importante
papel etiológico na elaboração
dos comportamentos auto–agressivos
em alguns indivíduos.
3- A hipótese da superativação
opióide na auto-agressividade
é sustentada pelos resultados
de um estudo indicando elevação
da fração II opióide
(encefalina) no fluido cérebro
espinhal lombar e tecal de crianças
portadoras de CAA comparadas
a controles, e por cinco entre
seis estudos publicados, demonstrando
diminuição estatisticamente
significativa na freqüência
dos CAA com o antagonista opióide
naltrexona.
4- Uma investigação
muito recente tem sugerido que
alguns indivíduos portadores
de CAA mostram anormalidades
em suas respostas com o peptídeo
pró-ópio melanocortin
plasmático ao naltrexona,
dessa forma indicando possível
disfunção na responsividade
do sistema pró ópio
melanocortin do eixo adreno-cortico
–pituitário desses indivíduos.
5- Estes dados e os de outras
investigações,
têm resultado na elaboração
de uma hipótese opióide
original para maior compreensão
do modelo bioquímico
que focaliza sobre a desregularão
do pró ópio melanocortin.
6- Por causa do interrelacionamento
funcional e bioquímico
entre os peptídeos pró-ópio
melanocortin e outros sistemas
neuroquímicos no cérebro,
é proposto que a melatonina
da pineal e o sistema serotoninérgico
também possa estar envolvido
nesta desregulação.
HERMAN e cols. (1989) investigaram
o efeito da administração
oral aguda de naltrexona (05;
1,0; 1,5 e 2,0 mg/kg de peso)
sobre o CAA, freqüência
cardíaca e pressão
sangüínea em três
indivíduos do sexo masculino
(1 de 10 anos e 2 de 17 anos
de idade). Os indivíduos
foram avaliados em entrevistas
com testes estruturados para
CAA. A freqüência
do tipo predominante de auto-agressividade
(batidas na cabeça e
face) foi significativamente
reduzida por naltrexona (máximo
de 71% com dose de 1,5mg/kg.),
enquanto que as automordidas
não foram significativamente
diminuídas com nenhuma
dose. A naltrexona não
evidenciou nenhum efeito significativo
sobre a freqüência
cardíaca ou pressão
sangüínea. Baseado
nesses e em outros resultados,
concluem que a naltrexona produz
redução em específicos
comportamentos auto- agressivos
bloqueando os receptores do
cérebro e que tal bloqueio
opióide não tem
efeitos sobre as medidas da
função cardiovascular.
SANDEMAN (1988) realizou estudo
duplo-cego placebo controlado,
com doses alternadas de naltrexona
(0, 25, 50 e 100mg), observando
uma melhora específica
dose-dependente do CAA com a
naltrexona em três pacientes.
Citam ainda um segundo estudo
no qual o nível plasmático
de beta-endorfina foi avaliado
em 40 pacientes com CAA, estereotipias
e com controles. Foram encontrados
níveis plasmáticos
significativamente mais elevados
de beta endorfinas nos portadores
de CAA e de estereotipias, do
que nos controles. Concluem
os autores que, os bloqueadores
opiódes reduzem a resistência
ao tratamento do CAA e que também,
embora o exato mecanismo seja
desconhecido, a desregulação
pré-natal de POMC (pró-ópio
melano- corticofina), adição
a opiódes endógenos
e elevado limiar para dor têm
sido alguns dos mecanismos propostos
para explicar estes comportamentos.
Em outro estudo, SANDEMAN e
cols. (2000) afirmam, que o
pró-ópio melano-
corticotrofina (POMC) contém
vários peptídeos
interessantemente ativos sobre
o comportamento. Padrões
de liberação desses
fragmentos têm sido relatados
com episódios bizarros
de CAA entre indivíduos
autistas.. Além disso,
elevação de b-endorfina
(betaE), mas não dos
níveis de ACTH, estão
associados com respostas positivas
a uma administração
aguda de bloqueador opióide
centralmente atuante entre indivíduos
autistas exibindo CAA. No presente
estudo, amostras de fragmentos
de POMC foram coletados do sangue
ao inicio e no termo-médio
das fases do tratamento placebo-controlado
do estudo. Os resultados indicam
que a co-liberação
dos fragmentos de POMC no plasma
predizem a efetividade da atuação
da droga no SNC em sujeitos
autistas com CAA.
Contrariando os trabalhos citados
anteriormente, SOPHIE e cols.
(1995) em pesquisa realizada
na Holanda, examinaram a eficácia
e segurança de naltrexona,
no tratamento de CAA e autismo
em adultos mentalmente retardados,
com 33 pacientes adultos autistas
com retardo mental e ou com
CAA em estudo duplo-cego placebo-controlado.
Nas duas primeiras semanas de
tratamento, todos os indivíduos
receberam apenas uma pílula
de placebo, sendo avaliados
no início e no término
deste período. Na terceira
semana, receberam uma única
dose de naltrexona 100mg ou
placebo foi administrado. No
restante da semana receberam
placebo. Subseqüentemente,
receberam naltrexona 50mg ou
placebo por 4 semanas, seguidos
de 4 semanas sem tratamento.
Resultados: trinta e dois sujeitos
(sete com autismo, 16 com autismo
e CAA, nove com CAA) completaram
o ensaio. O tratamento com naltrexona
falhou em demonstrar efeitos
terapêuticos em CAA e
Autismo. Ao contrário,
a naltrexona aumentou a incidência
de comportamentos estereotipados
na Aberrant Behavior Checklist
e o grupo cuidador avaliou o
efeito do tratamento com 50mg
/dia como sendo significativamente
pior do que o tratamento com
placebo como mensurado pela
Clinical Global Impression Scale.
Como conclusão desta
pesquisa, teve-se que os achados
sugeriram que a naltrexona não
teria valor clínico para
o amplo grupo de sujeitos mentalmente
retardados com auto- agressividade
e ou autismo.
BENJAMIN e cols. (1995) apresentaram
também um caso de um
indivíduo portador de
retardo mental grave e autismo
que piorou dramaticamente durante
um ensaio com a naltrexona.
RELATO
DE DOIS CASOS ACOMPANHADOS NO
IRS/FHEMIG
CASO
1:
“K”, uma paciente do sexo feminino,
residente no interior, no meio
rural, foi encaminhada ao IRS
pelo CPP , em 29.10. 99, quando
completou 18 anos. Começou
seu tratamento aos três
meses de idade, quando apresentou
a primeira crise convulsiva.
Nunca falou, nem expressa qualquer
comunicação inteligível.
Praticamente não demonstra
interação afetiva
com os familiares ou outras
pessoas. Aos nove anos de idade
iniciou seus comportamentos
auto-agressivos. Batia a cabeça
na parede até quase desfalecer,
chegando, nos dizeres de sua
mãe, a quebrar o reboco
com suas cabeçadas. Mordia
as próprias mãos
(que ficaram disformes e achatadas,
com os artelhos alargados) e
antebraço que se mostravam
cheios de cicatrize e ferimentos.
Outras vezes, batia com a ponta
dos pés violentamente
contra o chão até
sangrar.
Em sua primeira consulta no
hospital, causou forte impacto
em todos os técnicos
presentes, pela violência
com que batia a cabeça
na parede e pelos ferimentos
que provocou batendo a ponta
dos pés contra o chão,
deixando o consultório
complemente ensangüentado.
Isto tudo ocorreu apesar das
tentativas de contenção
realizada pelos seus pais. A
mãe relatou-nos uma situação
exasperante, não podendo
dedicar-se a nenhum afazer doméstico
porque corria risco de encontrar
a paciente “desmaiada” ou complemente
ensangüentada. Precisava
manter-se sempre atenta para
impedir ferimentos mais graves
que ocorriam se deixasse a paciente
sozinha.
O tratamento realizado até
então, tinha se mostrado
complemente ineficaz para o
controle do CAA. A paciente
tomava Tegretol 1200mg /dia;
Gardenal 200mg/dia, Haldol decanoato,
2amp por mês; Neozine
100mg/d; Amplictil,300mg/dia;
e akineton 2mg/d. Tentativas
de mudança neste esquema
de medicamentos foram improdutivas.
Reduzindo a medicação
anticonvulsiva apresentava convulsões,
diminuindo os neurolépticos
tornava-se agitada e insone.
Em dezembro de 1999, a este
esquema de polifarmácia,
foi acrescentado naltrexona
na dose de 50mg/dia. Desde a
introdução deste
medicamento a paciente apresentou
melhora progressiva do quadro
de auto-agressividade e da sociabilidade.
Segundo a mãe, ficou
mais fácil de se lidar
com a mesma. Ela tornou-se mais
dócil, obediente na hora
do banho e passou a alimentar-se
sozinha, atividades extremamente
desgastantes anteriormente.
Ainda segundo a mãe,
a paciente tornou-se mais obediente
porque passou a ter medo de
ser castigada , coisa que anteriormente
não tinha.
Em Dezembro de 2001, em exames
laboratoriais de controle, realizados
no interior, evidenciaram discreta
elevação de bilirrubinas
(1,6), com elevação
da fração indireta
(1,3), elevação
de proteínas (16,2) com
predomínio de albumina
(12,3). As enzimas hepáticas
permaneceram normais. Mesmo
sendo aventado erro laboratorial,
a naltrexona foi interrompida,
até a realização
de novos exames, desta vez no
laboratório da FHEMIG.
Em fevereiro de 2002, a paciente
retornou com resultados normais
de todas as provas de função
hepática, sendo aventado
hipótese de Síndrome
de Gilbert. Nas observações
da mãe, no período
sem o medicamento, havia manifestado
novamente o CAA, especialmente
nos momentos de maior estresse
como vir à consulta.
A naltrexona foi reintroduzida
e, desde então, praticamente
extinguiu o CAA. Ainda, quando
se encontra mais estressada,
morde levemente as mãos
e bate suavemente a cabeça,
sem dúvidas, evidenciando
sentir dor.
CASO
2:
“F”, paciente do sexo masculino,
residente em Belo Horizonte,
também foi encaminhado
para o ambulatório do
IRS, após completar os
18 anos. Tem história
de tocotraumatismo. Segundo
a mãe, seu parto foi
de apresentação
pélvica e realizado por
um “estagiário” (sic)
que realizou fortes compressões
no fundo do útero no
período expulsivo (sic).”F”
nasceu cianótico e, com
poucos dias, apresentou a primeira
convulsão. Aos três
meses e dezoito dias fez tratamento
cirúrgico de hematoma
subdural. Nunca falou, emitindo
apenas alguns sons guturais
e mantinha escassa interação
e comunicação
com os familiares . Assim como
“K” tinha diagnóstico,
realizado no CPP, de Autismo,
Deficiência Mental e Epilepsia.
Fazia uso constante de Haldol,5mg/d;
tegretol,400mg/d; Gardenal,
200mg/d; Akineton, 2mg/d e Neuleptil,
15 gotas/d. Apresentava Comportamentos
auto-agressivos que se caracterizavam
por bater a cabeça no
chão (deitando-se para
isso), na parede ou em quinas
de móveis, até
sangrar, apresentando uma grande
cicatriz hipertrófica
na testa. Friccionava, puxava
ou esmurrava violentamente os
lobos da orelha que se tornaram
disformes e hipertrofiados.
Também mordia as mãos
e braços, que ficaram
disformes pelas cicatrizes e
edema.
Não conseguia permanecer
na Escola Especializada, pelas
dificuldades da equipe com o
seu CAA. Da mesma maneira que
a mãe de “K”, sua genitora
estava exaurida por vigiá-lo
o tempo todo, sem poder dedicar-se
a outros afazeres em sua casa.
Em 24 de abril de 2000, foi
acrescentado ao seu esquema
terapêutico antigo, naltrexona
na dose de 25 mg/d. Desde o
início da medicação,
o paciente apresentou melhora
expressiva do CAA, tornando-se
mais sociável. Houve
um curto período, no
final do ano de 2000, que o
tratamento foi interrompido
por falta do medicamento, no
qual o paciente voltou a piorar
o CAA. Retomando o medicamento,
o paciente voltou a melhorar
de forma progressiva, tornando-se
de alguma forma mais comunicativo
(a mãe diz que já
entende melhor seus desejos),
passando a alimentar-se sozinho
e a relacionar-se melhor com
as pessoas, sendo possível
seu retorno para a escola. Com
a regularização
do fornecimento do medicamento
pelo hospital, foi tentado aumento
da dose para 50mg/d, não
havendo nenhuma mudança
significativa para melhor. De
acordo com as observações
da mãe, atualmente, o
paciente demonstra sentir dor
e também teme ser castigado
(anteriormente, quando a mãe
tentava intimidá-lo com
uma varinha, ele mostrava o
bumbum para que ela batesse).
Quando está contrariado
por algum motivo ou insatisfeito
com alguma coisa, bate suavemente
a cabeça e olha para
a mãe, parecendo querer
comunicar algo, mas não
provocando ferimentos. Anteriormente
apresentava permanente purgação
e infecção dos
ouvidos que, agora, estão
curados.
DISCUSSÃO
Diante do drama vivido pelos
familiares dos pacientes acima
e da total falta de recursos
terapêuticos para tratá-los,
realizamos uma revisão
da literatura indexada no MEDLINE
e LILACS, nos últimos
dez anos, encontrando alguns
trabalhos experimentais interessantes
sobre a utilização
dos antagonistas opióides
para tratar subtipos específicos
de Comportamentos Auto-Agressivos,
como relatados resumidamente
acima.
Descrever o sofrimento dos familiares
desses pacientes nos parece
dispensável neste momento,
porquanto o comportamento auto-agressivo
já em si mesmo, trás
algo de absurdo, misterioso
e incompreensível para
a maioria dos seres humanos.
Pela sua carga de “irracionalidade”
e perigos de sérios danos,
tornam-se angustiantes para
quem os assiste e mesmo para
a equipe técnica que
não dispõe de
medidas efetivas para tratá-los.
O presente relato de casos,
tem como objetivo compartilhar
a experiência de tratamento
de dois casos de auto-agressividade
no contexto clínico,
em ambulatório psiquiátrico
público de adultos. Tais
casos, pela dramaticidade de
sua apresentação
e pelas dificuldades sobre-humanas
que impunham aos seus familiares
durante anos, justificaram eticamente
um ensaio com a naltrexona;
um tratamento ainda não
completamente testado cientificamente,
mas que teve seu uso justificado,
em vista de uma completa falta
de alternativas de outros tratamentos
com bons resultados. Os familiares,
na medida do seu parco conhecimento,
consentiram e confiaram esperançosamente
nessa tentativa terapêutica.
Os resultados alcançados,
avaliados no contexto clínico
pelos médicos e familiares,
foram considerados positivos
e estimulantes, evidenciando
a quase extinção
dos CAAs que foram ocorrendo
de forma progressiva e cada
vez mais consistente ao longo
do tratamento. Nos períodos
nos quais, em que por um motivo
ou outro, o tratamento foi interrompido
(como ocorreu com ambos os pacientes),
foi evidenciada piora do CAA,
em consonância com os
achados descritos em diversos
trabalhos experimentais. Os
dois pacientes estão
sendo tratados há quase
três anos e isto, além
de comportamentos positivos
aprendidos a partir da maior
percepção da dor
que, possivelmente, contribuíram
para modificar os comportamentos
auto-agressivos, podem ter influenciado
nos bons resultados observados
nestes dois casos aqui apresentados.
Tais observações
podem apontar para que o período
de uso da medicação
possa ser fundamental; pensando
comparativamente com o estudo
de resultado negativo descrito
por SOPHIE e cols (1995). Neste
sentido, o prolongamento do
uso desse medicamento pode ser
importante não apenas
pelos seus efeitos farmacológicos,
mas também pelos seus
efeitos sobre o aprendizado
que pode manifestar-se a longo
prazo. Como observado no início
desta apresentação
o objetivo deste relato não
é de um experimento científico
e sim a discussão do
manejo clínico da naltrexona
no tratamento da auto-agressividade,
em ambiente de tratamento, com
todas as complicações
reais desse contexto. Esperamos
ter cumprido esse objetivo.
SUMMARY
The authors describe the treatment
of self-aggressive behavior,
followed during three years,
in two mental deficient, autistic
and epileptic patients. The
treatment was done not only
based in experimental works
described in scientific literature,
that were built on the relationship
between opioid circuits and
compulsive self-aggression;
but also in the evidence of
betterment of these behaviors
with blockade of opioids receptors.
The authors talk about the long
term control of opioid antagonists
and consider the possibility
of an additional mechanism of
learning from perception of
pain caused by the opioid blockade
that will manifest too late.
In this work, was seen the patterns
of self-aggressive behaviors,
specifically the ones approachable
by opioid antagonists.
KEY-WORDS:
self-aggressive behavior,
opioid circuits; opioid antagonists.
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