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O que pensaria o colega psiquiatra
se tivesse alguém da
própria família
acometido por transtorno catatônico
e visse-o ser assistido por
um profissional que trabalhasse
segundo os seguintes preceitos
teóricos:
1) A ciência pouco tem
a ver com o mundo real, sendo
nada mais que um texto, uma
construção social,
enfim, um discurso danoso ao
doente psiquiátrico.
2) A psiquiatria visa somente
normalizar o paciente para readaptá-lo
à sociedade capitalista.
3) O louco é normal e
o normal é louco; a loucura
é o modelo a ser seguido.
O caro colega se sentiria tranqüilizado
vendo seu querido parente iniciar
um tratamento baseado nas diretrizes
acima relacionadas?
No que depender da Associação
Mineira de Psiquiatria, sim.
Pelo menos é o que está
escrito na publicação
oficial da AMP (O Risco, ano
XII, nº 18), sob forma
de artigo assinado por um conhecido
psiquiatra de Belo Horizonte,
considerado uma espécie
de maître à
penser pela referida instituição.
Pois vejam só:
1) A ética que se
identifica com a moral tem por
quinta-essência a norma
social e os tratamentos que
estão sob sua égide
[os tratamentos psiquiátricos,
naturalmente...] buscam, influenciados
pelo discurso da ciência,
inserir-se no regime do todo,
do para todo, ou seja, estabelecer
o universal, escrever-se, constituir
conjunto. (...) De acordo com
o discurso da ciência,
o que dá validade a um
tratamento é a avaliação
estatística, que é,
também, uma forma de
validação de uma
teoria (p. 12). Esse autor
defende uma epistemologia sui
generis; mais adiante, na mesma
página, propõe
que um único caso permite
estabelecer linhas para a direção
do tratamento ou teorizações
de validade geral. Assim caro
leitor, ficamos sabendo que,
de um pato preto que nos esteja
à frente, podemos concluir
a nosso bel-prazer que todo
pato é preto...
2) O diagnóstico
psiquiátrico anula o
sujeito (p.12). Nosso autor
também rebatiza a psiquiatria:
doravante ela passa a se chamar
Tratamento de Normalização
Psicossocial (p. 11)...
3) Nesse sentido, o louco
é que é normal,
a xenopatia [escutar "vozes",
por ex.] é que é
a normalidade (p. 12). Continua
o cavalheiro: E [Lacan] propõe
‘Ame o seu sinthoma’ (p.
12). O que me fez lembra a anedota
da moça que foi à
psicanálise porque fazia
xixi na cama. Depois de 15 anos
de exaustiva análise,
indagaram-lhe se estava livre
da enurese noturna, ao que ela
respondeu: Não, mas agora
tenho orgulho do meu pipi...
Finaliza o autor: Em poucas
palavras, é a psicose
que nos ensina (...) o que pode
ser formulado nos seguintes
termos: o psicótico sabe
seu caminho (...) o psicótico
sabe encontrar suas soluções,
que seu caminho é autoconstruído
(...) o saber está do
lado do psicótico
(p. 13)
Na inquieta década de
60, surgiu no seio de uma pujante
contracultura juvenil (Alonso-Fernándes,
1979), na Inglaterra, liderara
pela famosa trindade britânica,
Cooper, Laing e Esterson, a
então chamada antipsiquiatria,
movimento que se caracterizava
por: a) assumir postura anticientífica
e antimédica; b) mitificar
e romantizar o doente mental;
c) professar, velada ou abertamente,
ideologia política anticapitalista.
Era uma doutrina antitudo: antinosologia,
anticlínica, antitécnica,
antiterapia e, acima de tudo,
de negação da
doença mental, que passa
então a ser considerada
invenção dos psiquiatras.
Segundo Alonso-Fernández,
unas das piruetas antipsiquiátricas
más ingeniosas es la
de presentarnos a los ‘sujetos
normales y adaptados’ a la actual
sociedad como seres que tienen
una aliención sociógena,
y la alienación psicótica
como el camino para superar
la alienación de los
‘sanos’, normales e adaptados
(1979). O doente mental,
para Laing, é o poeta
oprimido de nossa época
(1968). O surto psicótico
não seria uma enfermidade,
mas uma viagem da qual o esquizofrênico
arriscar-se-ia ser arrancado
brutalmente pelo psiquiatra
através de drogas e eletrochoque.
Cria-se, assim, a figura do
psiquiatra do sistema, aquele
que encarcera. A etiologia ou
a etiopatogenia da doença
mental não está
na biologia, na psicodinâmica
ou na hereditariedade, mas provém
e é gerada pela sociedade
capitalista, ipso facto é
necessário transformá-la
(a sociedade), se necessário
por revolução.
Aqui emergem duas outras características
nítidas do movimento:
o messianismo e o voluntarismo;
e o próximo passo é
previsível: pôr
a psiquiatria e o enfermo a
serviço da ideologia
política que permeia
o movimento (Sztulman e Porot,
1974).
Por mais que dissimulem, é
impossível não
notar semelhanças entre
a antipsiquiatria dos anos 60
e o discurso do poder psiquiátrico
mineiro nos dias atuais. Existem,
é verdade, duas diferenças.
Primeiro, a antipsiquiatria
teve seu poder limitado pela
saudável instituição
científica dos países
desenvolvidos onde ela tentou
se impor; a neo-antipsiquiatria
mineira (cunhei essa expressão
por motivos óbvios, nos
primórdios do JMP em
1997, para perplexidade de uns
e indignação de
outros), ao contrário,
se instalou no poder de maneira
inamovível a curto, médio
e, talvez, longo prazo. Segundo,
ocorreram mudanças no
conteúdo teorético
do movimento. Enquanto a antipsiquiatria
possuía um discurso existencialista,
a neo-antipsiquiatria abandonou
o démodé
Sartre e abraçou o estruturalismo
do embusteiro Lacan (Sokal e
Bricmont, 1997). Notem que se
houve mudanças de conteúdo,
isso não aconteceu na
forma política do movimento
que continua à disposição
de Foucault, Basaglia e, principalmente,
Gramsci (este, duvido que a
maioria dos antis mineiros saiba
ao menos quem seja...).
Mas se existem as diferenças
pontuais, os truques de ambos
os movimentos são os
mesmos: misturar e confundir,
ingênua ou malandramente,
hospital psiquiátrico
com manicômio, psiquiatria
com diagnóstico (atualmente
DSM) e ciência com cientificismo.
Nessa história somente
dois são perdedores:
o psiquiatra e o doente. O psiquiatra
porque perde uma ciência
de realidades e fatos clínicos,
eminentemente empírico-clínica
(Alonso- Fernández, 1979)
por uma mistura confusa de teorias
psicológicas que se transformou
em credo de validade vital para
alguns indivíduos (Jaspers,
1959). E o doente porque troca
um tratamento médico
pela rua, a cadeia ou, pior,
a morte (E. Fuller Torrey, 2002).
Portanto, caros companheiros
psiquiatras, além de
não querer que nossos
familiares sejam mal tratados
caso venham precisar de um psiquiatra,
temos boas razões para
manter em circulação
o Jornal Mineiro de Psiquiatria.
Humberto Campolina
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