história
ano VI - edição 16 - belo horizonte - mg

HISTÓRIA

Uma história da psiquiatria mineira: a turma do Galba*

Honrado com o convite para participar do IV Congresso Brasileiro de História da Medicina, em Barbacena, decidi apresentar uma visão histórica de um grupo expressivo que marcou a Psiquiatria mineira.
Entre 1961 e 1965, durante meu curso de Medicina na formidável Faculdade da Avenida Alfredo Balena, a Psiquiatria era vista pelos médicos com um misto de deboche e desprezo, como uma especialidade obscura e desacreditada, bem afastada da clínica médica e da cirurgia. Os psiquiatras eram considerados seres estranhos, esquisitos, doidos, "doidões" e, definitivamente, marginais à Medicina.
Os hospitais psiquiátricos eram tidos como hospícios, "casas de loucos", lugar onde um estudante de Medicina só penetrava em caso de extrema necessidade para buscar cama e comida, em troca da prestação de perigosos plantões.
Minha primeira impressão de hospital psiquiátrico foi chocante e desagradável. Tanto quanto sofri diante do anfiteatro de dissecação de Anatomia, no 1º ano, ou no anfiteatro de Autópsia, no 3º ano, e tanto quanto o espanto que me acometeu diante da pobreza, da miséria e da doença, no 4º ano, na Santa Casa, e, ainda, o susto e o clima de guerra que havia nos plantões do Pronto-Socorro.
Calejado estava quando fui visitar tia Alzira internada no Hospital Galba Velloso, recém-inaugurado havia dois anos. Presenciei uma sessão de aplicação de eletrochoques. O colega José Domingues de Oliveira teve a gentileza de me explicar as razões, os motivos, as indicações e as vantagens de procedimento biológico tão radical e tão heróico. Era a dura realidade que imperava por sobre os tolos sentimentalismos humanos.
Na saída, ouvi da jovem enfermeira Suzana os milagres que o Dr. Jorge Paprocki estava operando com as doentes psicóticas e agitadas, na 1ª Enfermaria, com o emprego de um novo medicamento chamado Haloperidol.
Estava terminando o 4º ano de Medicina. Era final de 1964. Vinha empenhado em processo decisório de escolha de especialidade, tendo experimentado e descartado uma dúzia delas. Barreto, Francisco Pais Barreto, era interno no Galba. Disse-me que havia uma vaga para plantonista. Inscrevi-me e fui aceito junto com o Dr. Vicente Santos Dias.
Passei a fazer parte do corpo clínico do paupérrimo Galba. Virgílio Bustamante Rennó ensinou-me a sedar pacientes agitadas, no plantão. Fui trabalhar na 7ª Enfermaria, chefiada por meu primeiro professor de Psiquiatria, Dr. Aldorando Ricardo Nascimento. Não tive medo. Rapidamente aprendi a lidar com as pacientes e as rotinas do Hospital. Sofri uma única agressão: ao sair da 7ª, uma paciente veio sobre mim, furiosa, e jogou-me... um travesseiro. Assustei-me e palpitei, mas foi só.
Aprendi que o doente mental é um desesperado que se torna dócil e submisso, quando sente que está sendo tratado, bem cuidado, considerado, olhado olho no olho, bem respeitado.
Seis meses depois, o severo e enigmático Dr. Paprocki encarregou-nos, a mim e à Dra. Odília Miguel, da supervisão da 4ª Enfermaria. No Galba, era assim: diante da escassez de recursos, empregava-se o pessoal disponível, para tarefas acima de sua capacitação.
Era dessa maneira que todo aquele belo pugilo de novos estudantes de Medicina e de Médicos recém-formados se preparava para superar o desafio presente, ao mesmo tempo em que adquiria estofo para logo arrostar outros, a seguir. O Dr. Paprocki fez escola. Como Diretor do Galba, era um dos cinco principais pesquisadores brasileiros de dezenas de substâncias psicotrópicas que começavam a ser ensaiadas clinicamente no Brasil e no mundo. Já era um nome consagrado tanto no nível nacional quanto no internacional. Como diretor, era severo, respeitado e temido. Suas deliberações eram tomadas com inteligência e firmeza.
A avidez de aprender e de saber, que é sempre a estrela que me guia, logo me capacitou a estar à altura dos colegas veteranos. Obedecia, dedicava-me, procurava fazer o certo e o melhor. Éramos um grupo ótimo de colegas: César Rodrigues Campos, José de Assis Corrêa, Eudes Ramón Montilla, Francisco Xavier, Chicão, Barreto, Vicente, Virgílio, Mário Catão Guimarães, José Domingues, José Raimundo da Silva Lippi, José Carlos Amarante, Eunice Rangel, Hélio Tavares Filho, Rodrigo Teixeira de Salles.
Alguns colegas mais velhos conviviam conosco: Dr. Helênio Coutinho Guimarães, Neusa Magalhães Carneiro, José James de Castro Barros, Dalton Lintz de Freitas, Benítez Conde. Com especial carinho, lembramo-nos do grande clínico mineiro, pioneiro da Medicina Psicossomática, Dr. Ermílio Grinbaum. Emílio era uma espécie de criterioso e bondoso irmão mais velho, referência para todos de como deveria ser o "bom médico".
Com muito orgulho, os "Paprocki's boys" editaram a obra Psicofármacos, livro que marcou época e serviu de referência para estudos de psicotrópicos durante duas décadas.
O Centro de Estudos fora criado em 1964, e passamos a estudar psicopatologia no "Beta", um horroroso livro de Psiquiatria que estava lá, disponível. Buscamos aulas com grandes nomes da Psiquiatria da época - 1966, 1967 -: Clóvis Alvim, Joaquim Affonso Moretzsohn, Paulo Saraiva, Ivan Ribeiro da Silva, Fernando Velloso, Francisco Badaró, Geraldo Megre, Aspásia Pires, Austragésilo Mendonça, Hélio Durões Alkimim. Descobrimos estão as obras de Kurt Schneider e de Karl Jaspers. Estudávamos tudo que nos caía às mãos.
Eu estudava Noyes e Kolb. Descobrira Franz Alexander junto com um instigante livro de psicoterapia - Estratégias em psicoterapia, de Jay Haley. Tomei afeição pela psicodinâmica, pela psicanálise e descobri que meu coração gostava de ser psicoterapeuta. No final de 1966, montei consultório com Barreto, Juarez, Welber e Lippi.
André Faria D´Azevedo Carneiro, vindo de residência no Rio de janeiro, trouxe o livro dos livros - o Alonso-Fernández: 1970.
Em 1970, 1971, no consultório da Rua Espírito Santo, 2.683, estudamos empenhada e consistentemente os Fundamentos de la Psiquiatria Actual daquele excelente autor.
Se, em 1966, recém-formados, podíamos ostentar o galardão de Psiquiatra, Barreto, Odília, José Carlos Câmara, Fábio Mendonça Porto e eu - da turma de 1965 da Faculdade de Medicina da UFMG - foi só após internalizar os bons, severos, precisos e atualizados conceitos da obra de Alonso-Fernández que nos sentimos autenticamente pós-graduados em Psiquiatria.
Arlindo Pimenta, José Ronaldo Procópio, Cláudio Pérsio Carvalho Leite, Barreto, Javert Rodrigues, Rodrigo Teixeira de Salles, Virgílio e eu éramos a grei estudiosa dos bons autores espanhóis. Lopez Ibor, Cabaleiro Goas e outros abriram caminho para chegarmos aos alemães: Jaspers, Schneider, Weibrecht, Mayer-Gross, Huber e H. Tellenbach.
Paprocki, então em formação psicanalítica com Malomar Lund Edelweiss, incitava-nos a todos a nos submeter à psicanálise pessoal. Todos fomos. Fui cliente de Célio Garcia pelos nos primeiros três meses, em grupo. Tivemos contato rico e instigante , por seis meses, com Eli Bonini Garcia - 1966, 1967 -, Odília, Francisco Juarez R. Pinto, Welber Braga e eu. Depois, durante dois anos, submeti-me a Psicoterapia de grupo com o Dr. Bernardo Blay Neto, que vinha de ônibus, mensalmente, de São Paulo. Dr. Blay me ensinou nobreza de atitudes, dignidade de postura na clínica e empenho em manter um ideal profissional viável.
Mais tarde, fui fazer Psicoterapia de grupo com Jarbas Portela, em 1968. Em 1969, Igor Caruso vem passar mais de um ano no Círculo Psicanalítico, em Belo Horizonte. Faço um curso de um ano com ele. "Filogênese e ontogênese da personalização". Um mundo novo de cultura se me descortinava. A psiquiatria se abria em interface com a sociologia, a cultura, a etologia, a política, a psicanálise e o humanismo.
Caruso sagra Jarbas analista didata no início de 1969. Começo com Jarbas minha psicanálise pessoal, que perdurou por apenas seis anos. Com a vivência de Psicanálise, constatei o que já presumia: eu era, e continuo a ser ainda, em parte, um sujeito vazio, pobre, lamentoso, ávido do que não tinha, esperançoso de lugares, de destaque e de riquezas muito acima de meus talentos e de minhas possibilidades.
Dotado de afetos toscos e de emoções passionais e fraco em conceitos cognitivos, durante minha psicanálise pude, tateante e laboriosamente, afirmar um saldo que burilou um outro Marco Aurélio Baggio mais maduro, mais empenhado nos embates e mais consistente. Melhorei. Aprendi a melhorar como ser humano e como pessoa. Doze anos mais tarde, empreendi nova psicanálise pessoal com o Dr. Giovanni Gangemi, no Rio de Janeiro, quinzenalmente, durante seis anos. Aí então tudo se tornou menos difícil: eu estava mais apetrechado. Pude aproveitar mais e de melhor maneira as experiências e os ensinamentos que me foram transmitidos. Aprendi a lidar psicanaliticamente com minhas vivências e insurgências.
Gratidão àqueles que me amaram e comigo conviveram é belo sentimento que aprendi com eles.
Em 1968, no Governo Israel Pinheiro, Dr. Paprocki junto com o Dr. Fernando Velloso criaram a Fundação Educacional e de Assistência Psiquiátrica - FEAP -, base e núcleo para a criação posterior da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais - FHEMIG. Embutida no projeto da FEAP, estava a criação da Primeira Residência em Psiquiatria, em Minas Gerais. Eudes, Cláudio, Virgílio, Arlindo, Procópio, João Luiz Silva Toni, José Carlos P. Amarante e Hélio Roscoe eram os alunos.
Paprocki lecionaria "Terapêutica Psiquiátrica". Catão, César, Barreto, Geraldo Megre e Newton Figueiredo eram os outros professores.
Alguém veio me sondar se eu queria ser aluno ou professor. Procurei Paprocki e assumi as aulas de Clínica Psiquiátrica. Com três meses, estava lá na frente. Um ano depois, Paprocki me convidava para dividir com ele a disciplina "Terapêutica Psiquiátrica". Nessa época, o Centro de Estudos havia acabado de adquirir a monumental Encyclopédie Médico-Chirugicale.
Fui estudar o melhor texto até então escrito sobre Psiquiatria e demais terapêuticas biológicas. Em 1969, tornei-me Diretor Administrativo do Galba, com Eunice Rangel na direção clínica.
Em 1971, o Galba se havia esvaziado de nossa turma. A FEAP estava em crise. Pedi exoneração da Diretoria do Hospital, deixei a Residência e abandonei o serviço público estadual.
Paprocki, Aldorando, Barreto, César, Virgílio, Dorinha, Catarina, Suzana, Vicente, Zé de Assis, Eudes, Cláudio, Procópio, Catão, Dominguez, Xavier, José Raimundo, José Carlos Amarante, Lia, Dodora, Delcir Antônio da Costa, Rodrigão, Maurício Sartori, Antônio Carlos Corrêa, Arlindo, Hélio Tavares, Eunice, Javert, André, Adelgício de Paula, Lélio Dias, Rosemberg Fonseca, Marcos Couri constituíam o grupo mais significativo do Galba.
Ouso afirmar que, no período áureo do Galba - 1964/1971 -, uma plêiade de psiquiatras se formou com disposição, garbo e competência, espaventando para sempre a pecha de que "psiquiatra era médico de segunda classe".
Quero crer que constituímos a primeira turma de psiquiatras respeitados, "sadios", "tratados", psicanalisados, como grupo e como profissionais, individualmente, cada um de nós. Cada qual seguiu seu destino. Alguns já não se encontram entre nós. A maioria se tornou líder, professor, mestre, chefe-de-fila, ajudando a dar formação a dezenas de turmas posteriores. A Turma do Galba foi e continua sendo referência notável na História da Psiquiatria Mineira.
O valor do cuidado humano, a clínica exercida no âmbito do possível, a camaradagem, o bom humor, um dando informação e cobertura ao outro, cada qual um estudioso, um pesquisador, um curioso, pronto para captar as coisas novas e melhores e compartilhá-las com os demais, o senso de disciplina, de dever cumprido, de ética a ser mantida como norte, o gosto pelas coisas humanas, tudo isso somava-se ao fato de que éramos jovens, túrgidos de sexualidade e cheios de amor e de trabalho a dar à cidade. Perpassando tudo isso, estávamos imbuídos de fé no Brasil e de esperança no avanço científico e institucional da Psiquiatria. A Turma do Galba - bando juntado aleatoriamente - de jovens bem-intencionados havia decifrado e superado a sua loucura.
Nunca houve uma turma afinada, criativa, integrada e tão produtiva quanto essa Turma do Galba. Com ela, a Psiquiatria em nosso meio deixou de ser "coisa de doido" para adquirir a estatura de grande especialidade médica que ostenta atualmente.
O que faço hoje - tudo o que faço - são ecos daquele tempo e reflexo do admirável convívio com aqueles companheiros que se entranharam para sempre dentro de mim.

A eles, presto esta pequena homenagem.

Barbacena, junho de 2001.


Referências bibliográficas

1. BAGGIO, Marco Aurélio. Escorço histórico da trajetória do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais. Reverso no. 5. Belo Horizonte: Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, 1993.
2. BARRETO, Francisco Paes. Reforma psiquiátrica e movimento lacaniano. Belo Horizonte: Itatiaia, 1999.
3. MAGRO FILHO, João Batista. A tradição da loucura. Belo Horizonte: Coopmed-Editora UFMG, 1992.
4. MEDEIROS, José de Laurentys. AMMG - 1946 - 1996. Contagem: Lada,1996.
5. MORETZSOHN, Joaquim Afonso. História da Psiquiatria Mineira. Belo Horizonte: Coopmed, 1999.
6. Médicos mineiros escritores. Ensaios. Belo Horizonte: Edições AMULMIG, 1996.
7. SILVA, Alcino Lázaro da. Mineiros de Minas Gerais. Pequeno ensaio de coletânea. Porto Alegre: Ediame, 2000.
(Marco Aurélio Baggio)
o Palestra apresentada no VI Congresso Brasileiro de Medicina, realizado em Barbacena, nos dias 14, 15 e 16 de junho de 2001.

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