| O
modelo assistencial em Saúde
Mental no Brasil é ultrapassado,
hospitalocêntrico, manicomial
e tem de ser reformado. Infelizmente,
os projetos de lei hoje em discussão
no País são anacrônicos,
incompatíveis com os conhecimentos
atuais e também precisam
ser reformulados. Para entender
como e por que chegamos a este
resultado insatisfatório
após 11 anos de tramitação,
fizemos uma cuidadosa pesquisa
documental, publicada em 1999
na Revista USP, sobre a "reforma
psiquiátrica". Os
documentos comprovam que esses
projetos de lei, moldados na Lei
Basaglia, promulgada na Itália
em 1978, decorrem de uma ideologia
cujo objetivo é a "desconstrução"
do modelo médico da Psiquiatria
e não a melhoria da assistência
psiquiátrica.
De fato, nos anos 70-80, movimentos
influenciados pelo euromarxismo
e pela antipsiquiatria adotaram
como bandeira o fechamento dos
manicômios e sua substituição
pela assistência comunitária,
tentando responsabilizar a Psiquiatria
pela calamidade da Saúde
Mental e situando a Medicina na
luta de classes. Por isso, em
vez de proibir manicômios
(mistos de hospital, asilo e prisão),
os projetos de lei adotaram a
proibição do hospital,
um equipamento essencialmente
médico. A proibição
do hospital consta do primeiro
artigo do Projeto Delgado, de
1989 ("Fica proibida, em
todo o território nacional,
a construção de
novos hospitais psiquiátricos
públicos e a contratação
ou financiamento, pelo setor governamental,
de novos leitos em hospital psiquiátrico")
e persiste no substitutivo do
Senado, tramitando na Câmara
dos Deputados.A questão
da reforma do modelo assistencial
tem sido deliberadamente conduzida
como se o problema fosse apenas
o atendimento aos psicóticos
crônicos, que necessitam
de asilo e reabilitação.
Graças aos avanços
da Psiquiatria, doentes como os
que hoje habitam nossos manicômios
e nossas ruas serão cada
vez mais raros.
Os casos agudos, porém,
continuarão precisando
de boa assistência médica,
inclusive hospitalar. Equipes
especializadas de um moderno hospital
psiquiátrico regional aberto
poderão ser mais eficientes;
e seu atendimento, mais humanitário
do que em unidades encartadas
nos caros espaços confinados
de hospitais gerais. As unidades
psiquiátricas em hospitais
gerais deverão ser mais
bem aparelhadas para bem atender
os casos de curta permanência
e os que necessitarem dos recursos
existentes nos hospitais gerais.
É óbvio que se deve
dar ênfase ao atendimento
extra-hospitalar, com mais e melhores
ambulatórios psiquiátricos,
além ampliar os investimentos
na habitação e reabilitação
psicossocial. Parece também
claro que a modernização
do parque hospitalar é
melhor que a reserva de mercado
permitida pelo Projeto Delgado
e pelo substitutivo do Senado
para os detentores de contratos
com o SUS.
Não são necessárias
leis para fechar leitos manicomiais
e modernizar a assistência:
bastam medidas administrativas
e recursos. Infelizmente, aqui
(e na Itália) só
se fez a primeira parte: dezenas
de milhares de leitos manicomiais
foram fechados, nenhum hospital
moderno foi construído
e as estruturas ambulatoriais
e de hospitalização
parcial e reabilitação
são incipientes. Nem aqui,
nem na Itália, sabe-se
o que foi feito com os recursos
"economizados" com o
fechamento daqueles leitos, nem
qual foi o destino dos pacientes
"desospitalizados".
Muitos doentes mentais e suas
famílias ficaram desassistidos
e o número de atendimentos
caiu.
Não fazemos uma defesa
do atual modelo hospitalocêntrico
e manicomial.
Defendemos a prevenção
precoce, por meio de intervenções
médicas eficazes, o que
não está ocorrendo.
O acesso aos avanços da
moderna Psiquiatria não
tem sido prioridade do governo
e poderá tornar-se ainda
mais difícil, como indicam
recentes portarias do Ministério
da Saúde sobre medicamentos
antipsicóticos. Os novos
remédios caracterizam-se
por reverter sintomas da esquizofrenia
e propiciar um menor risco de
complicações neurológicas.
Mas foi proposto que a utilização
desses medicamentos seja reembolsável
pelo SUS apenas depois de anos
de altas doses de antipsicóticos
convencionais, que provocam uma
série de efeitos colaterais.
Isso contraria a tendência
do mundo desenvolvido por ser
antiético e antieconômico,
por causa da morbidade e da incapacitação
provocadas.
Outro exemplo é o do lítio,
que deveria estar amplamente disponível
na rede pública há
décadas, pois reduz significativamente
as recaídas, reinternações,
seqüelas e taxa de mortalidade
nos transtornos do humor.
Esta sim seria uma forma eficiente
de fechar leitos. A litioterapia,
porém, ainda é incipiente
na rede SUS. Há muitos
outros exemplos da baixa ênfase
em prevenção secundária
na nossa Saúde Mental.
Afirmar que os recursos empregados
na má assistência
manicomial vigente bastariam para
instituir uma boa assistência
comunitária é enganoso.
É preciso investir muito
mais para ter uma melhor assistência
comunitária.
Também não é
verdade que a proibição
de hospitais modernos justifica-se
do ponto de vista técnico
ou humanitário. Práticas
"manicomiais", desumanas
e alienadoras, ocorrem em qualquer
ambiente e estrutura social. Muitas
das funções de um
moderno hospital não podem
ser eficientemente exercidas por
outras instalações.
O compromisso humanitário
com o indivíduo doente
é fundamento essencial
da ética médica.
Resta, então, o apenas
o conflito ideológico.
Nossa resistência aos basaglianos
deste fim de século decorre
do fato de que nenhuma análise
atual, muito menos a econômica,
justifica a "desconstrução"
da Psiquiatria.
Promover uma reforma mais psiquiátrica
da assistência em Saúde
Mental, com ênfase na prevenção
precoce por meio de equipamentos
médicos diversificados,
reabilitação eficiente,
abrigo aos necessitados e alguns
bons hospitais psiquiátricos
(raríssimos em nosso meio)
seria melhor para os pacientes
e mais consentâneo com os
conhecimentos da medicina moderna.
(Valentim Gentil)
Nota do Editor: Este artigo foi
publicado originalmente em O Estado
de São Paulo.
Valentim Gentil, professor-titular
de Psiquiatria da Faculdade de
Medicina da Universidade de São
Paulo, é presidente do
Conselho Diretor do Instituto
de Psiquiatria do Hospital das
Clínicas da FMUSP e Ph.D.
pelo Instituto de Psiquiatria
da Universidade de Londres, Inglaterra
e-mail: vgentil@usp.br
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