psicocirurgia
ano VI - edição 15 - belo horizonte - mg

Polêmica - A psicocirurgia atual

Com o intuito de avaliar os cuidados médicos dispensados aos pacientes internados em clínicas psiquiátricas, Goiânia, dentre outras capitais brasileiras, foi recentemente visitada, de surpresa, por dois deputados federais membros da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal: Marcos Rolim, presidente da comissão e Paulo Delgado. Após visita relâmpago a várias clínicas psiquiátricas da cidade, concluíram, a despeito da fugacidade da avaliação, que duas delas deveriam ter sua concepção completamente reformulada ou serem fechadas, por não atenderem aos critérios mínimos para o adequado tratamento de pacientes psiquiátricos.
Em entrevista à imprensa local, disseram ter ficados boquiabertos com o fato de uma dessas clínicas ter indicado tratamento psicocirúrgico para cinco de seus pacientes em um período de anos. Uma afirmação dessa natureza, evidentemente, reflete a mais completa ignorância, por parte dos referidos parlamentares, quanto aos mais básicos aspectos da psicocirurgia atual. Trata-se de um raciocínio digno de quem só ouviu falar das ultrapassadas lobotomias pré-frontais.
Infelizmente, notícias como essa alcançam um incontável número de pessoas, que, ignorantes que são a respeito do assunto, podem tomá-las como verdadeiras.
Ainda pior, durante a mesma coletiva, os parlamentares manifestaram sua intenção de concluir, dentre outras medidas, a completa abolição da psicocirurgia do arsenal terapêutico destinado ao manejo de pacientes psiquiátricos, em um projeto de lei a ser encaminhado ao Congresso Nacional ou em uma portaria a ser promulgada pelo Ministério da Saúde.
Sem a menos sombra de dúvida, os doutos senhores jamais tiveram quaisquer entes queridos que tivessem cometido suicídio em um episódio agudo refratário de depressão endógena ou que vivessem a se agredir e/ou a outros, causando graves lesões corporais, ou que tivessem pulado de seus apartamentos ou que tivessem ateado fogo a suas moradias ou que vivessem enclausurados em seus lares e lavando as mãos o tempo todo com medo de uma contaminação imaginária, para dizer o mínimo!

Inverdades dessa monta são de todo inadmissíveis. Como neurocirurgião funcional que sou, realizando dentre outras cirurgias, as psicocirurgias, como Presidente da Sociedade Goiana de Neurocirurgia, como Coordenador do Departamento Jovem Neurocirurgião da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia e como membro das Sociedades de Neurocirurgia Funcional e Estereotáxica Brasileira, Americana e Mundial, achei por bem convocar uma entrevista coletiva local, para que pudesse adequadamente inteirar a comunidade quanto aos pormenores mais relevantes da psicocirurgia atual.
A psicocirurgia deve seu início a um evento ocorrido em Londres, em 1935: o II Congresso Mundial de Neurologia. Lá estavam presentes o eminente neurologista português, Egas Moniz, para apresentar sua investigação pioneira sobre a angiografia cerebral, e John Fulton, professor de Fisiologia da Yale University Medical School, para apresentar seu trabalho experimental quanto ao efeito "calmante" da extensa ablação dos lobos frontais em dois chipanzés: Lucy e Becky.
Naquela ocasião, vale assinalar, drogas psicotrópicas para o tratamento de doentes mentais eram virtualmente desconhecidas (a clorpromazina, por exemplo, só foi lançada no mercado nos anos 50) e vigoravam terapias como a hipotermia, a hipertemia e o enclausuramento (deprimidos suicidas).
Egas Moniz, assistindo à apresentação de Fulton, mostrou-se bastante impressionado e anteviu a aplicação do método para o tratamento de pacientes institucionalizados severamente mentalmente doentes. Voltando a Portugal, Moniz incitou o jovem cirurgião português, Almeida Lima, a realizar a 1ª lobotomia pré-frontal em seres humanos, o que ocorreu em 1936. Os excelentes resultados iniciais fizeram com que o procedimento fosse entusiasticamente aceito pela comunidade neurocirúrgica mundial e, em 1949, Elgas Moniz foi agraciado com o Prêmio Nobel de Medicina, "pela descoberta do valor terapêutico da leucotomia pré-frontal em certas psicoses".
Em 1937, James Papez propôs que o giro do cíngulo, o hipotálamo, o hipocampo e suas interconexões (essas estruturas, juntamente como uma série de outras, receberam posteriormente a denominação de sistema límbico) constituíam a base anatômica das emoções, o que hoje sabemos ser inteiramente correto.
De 1940 a 1955, milhares dessas cirurgias foram realizadas em todo o mundo e foi provavelmente este fervoroso entusiasmo o responsável pelos erros de julgamento referente à seleção dos candidatos à cirurgia e só pela tardia percepção da inaceitável morbidade operatória.
Avaliações preliminares demonstravam melhora no quadro em cerca de 70% dos pacientes, às custas de uma mortalidade de 6%, uma incidência de 1% de epilepsia e de 1,5% de seqüelas severas indesejáveis, impeditivas de alta hospitalar; muito preocupante no grupo de pacientes piorados pela cirurgia era a síndrome pós-lobectomia, caracterizada por apatia, euforia, emissão de palavras obscenas, comportamento inadequado e incapacidade de julgamento. Tais complicações levaram à procura de procedimentos igualmente efetivos, mas com uma menor ou mais aceitável morbidade. Assim, surgiram cirurgias cada vez mais restritas. Acreditando-se que a interrupção da porção medial da substância branca pré-frontal era o ato de maior relevância para o controle das desordens psiquiátricas: leucotomia inferior bilateral, leucotomia bimedial e secção do giro fronto-orbitário.
A despeito da menor morbidade destes procedimentos mais restritos, ela era ainda séria o suficiente para ser tópico de discussão no Encontro Anual da Sociedade Britânica de Cirurgiões Neurológicos, em 1947. Fulton, convidado para este evento, sugeriu que a interrupção do giro do cíngulo poderia ser o procedimento adequado para reduzir tal incidência de complicações. Sir Hugh Caims, de Oxford, motivado pela sugestão de Fulton, foi o primeiro a realizar a cingulectomia a céu aberto, em 1948, reportando sua experiência preliminar em 1952. De fato, vários relatos ulteriores por vários autores demonstraram a inexistência de mortalidade, de seqüelas graves ou de alterações adversas da personalidade com o alvo cingular.
Em 1947, um novo advento veio em muito a corroborar com psicocirurgia, a introdução da cirurgia estereotáxica humana por Spiegel e Wycis. Já neste mesmo ano eles realizaram a tatamotomia do núcleo dorsomedial do tálamo (conectado reciprocamente com a área pré-frontal) para o tratamento de desordens psiquiátricas, ocasião em que a psicocirurgia começou a tomar o perfil dos moldes atuais.
Como novas técnicas são lentamente absorvidas pela comunidade científica, havendo-se que vencer o ceticismo inicial, as fases pré e pós-estereotáxica da psicocirurgia parcialmente se intersectam, tendo a primeira fase durado cerca de 25 anos e sendo, pouco a pouco, substituída pelo método estereotáxico, basicamente o único empregado nos dias atuais.
Os anos 50, porém, vieram em muito a arrefecer os ânimos pela psicocirurgia. Em 1952, foi descoberta a primeira droga antipsicótica de real importância: a clorpromazina. Após os ensaios clínicos iniciados em 1954, ela passou a ser comercializada em 1956. Após anos de experiência com a droga "miraculosa", tornaram-se patentes suas limitações.
Tal reconhecimento determinou o ressurgimento do interesse pela psicocirurgia, sobretudo nos anos 60, várias técnicas tendo sido introduzidas, todas elas utilizando o método estereotáxico: a capsulotomia anterior (Talairach, 1949; Leksell, 1952), a hipotalamotomia posteromedial (Sano, 1962), a amigdalotomia (Narabayashi, 1963), a tractotomia subcaudata (Knight, 1965), a cingulotomia anterior (Ballantine, 1965) e a leucotomia límbica (tractotomia subcaudata + cingulotomia anterior, Richardson, 1972)
Vieram então os anos 70, anos de indescritível hipocrisia! Países democratas, sobretudo os Estados Unidos e o Japão, vivenciaram uma grande agitação estimulada por provocadores que acenavam com a bandeira de que a psicocirurgia poderia ser utilizada para "pacificar a minoria e as mulheres e levar a um controle social opressivo" e que, por essas razões, deveria ser ela extinta. Tão grande foi a pressão política que muitos psiquiatras e neurocirurgiões relutaram em ser envolvidos.
Tais anos vergonhosos, felizmente, passaram e mesmo em seu auge, serviços de ilibada reputação nos EUA, como o de Ballantine, em Boston (Massachussets General Hospital, Harvard University) e diversos outros na Europa, sobretudo na Inglaterra, Suécia e Espanha, persistiam na realização da psicocirurgia nos casos clinicamente intratáveis. Os anos 80 assistiram ao renascimento da psicocirurgia, que ainda persiste e deve continuar! A razão para isso é muito simples: mesmo com o advento das mais modernas drogas utilizadas para o tratamento das desordens psiquiátricas, o índice de refratariedade clínica é ainda significativo: cerca de 10 a 15%. Apenas para se ter um idéia de sua necessidade, tem se estimado que, nos EUA, a cada dia, há cerca de 45000 indivíduos mentalmente doentes refratários ao tratamento conservador. Se fosse possível ajudar pelo menos a metade deles, o benefício seria incalculável!
A introdução clínica da tomografia computadorizada e da ressonância nuclear magnética nos anos 70 e 80, respectivamente, em muito facilitando a definição dos alvos cirúrgicos, a elevada acurácia dos equipamentos estereotáxicos atuais e a utilização de computadores na programação cirúrgica, em muito colaboram para o aperfeiçoamento da psicocirurgia, fazendo com que ela atingisse o local de destaque da qual é merecedora. O índice de sucesso com esses métodos modernos é bastante satisfatório (70%, em média) e a morbidade , bastante baixa: mortalidade inferior a 1%, complicações sérias sensitivo-motoras ou cognitivas de 0.45% e incidência de epilepsia também inferior a 1%. Tendo-se tais cifras em mente, e considerando-se que a cirurgia estereotáxica é indicada em série de outras patologias neurológicas, quando clinicamente intratáveis, como a Doença de Parkinson, a dor crônica e algumas formas de epilepsia, como uma incidência de complicações não inferior aquela verificada com psicocirurgia, por quê não indicá-la com mais freqüência? Ignorância, hipocrisia ou preconceito indevidos?
Várias são as desordens psiquiátricas passíveis de tratamento neurocirúrgico, quais sejam: trasntorno obsessivo-compulsivo (TOC), depressão monopolar, ansiedade, fobias, agressividade (sobretudo aquela associada à oligofrenia herética, mas também, em menor grau, aquela parte do quadro esquizofrênico) e Síndrome de Tourette.
O TOC parece responder melhor à leucotomia límbica ou à capsulotomia anterior, a depressão, à cingulotomia anterior ou à leucotomia límbica; a agressividade, à amigdalotomia ou à hipotalamotomia posteromedial , por vezes conjugadas à cingulotomia anterior ou à tractotomia subcaudata; a ansiedade, à capsutomia anterior a síndrome de Tourette, a tractotomia subcaudata ou leucotomia límbica associada à talamotomia ventrolateral. De um modo em geral tais procedimentos são realizados bilateralmente, mais dados provenientes de estudo realizado em nosso Serviço têm permitido demonstrar que os alvos podem ser unilateratizados e definidos caso a caso, e não da forma standard como acima mencionado. Dessa forma, uma tractotomia subcaudata unilateral, por exemplo, pode ser todo o procedimento necessário em um paciente com TOC.


Já citamos, anteriormente, quais as patologias psiquiátricas susceptíveis à intervenção neurocirúrgica. Resta ainda definir, porém, quais os critérios para incluir tais pacientes em um programa psicocirúrgico: 1- Absoluta refratariedade ao tratamento conservador, uma vez exauridas todas as possibilidades terapêuticas, atestada, por escrito, pelo psiquiatra assistente, em um minucioso documento do qual devem constar o diagnóstico firmado, o quadro clínico, a evolução clínica, os exames complementares realizados e todas as terapias utilizadas (no caso do tratamento medicamentoso, as drogas, doses, períodos e associações); 2- Avaliação do documento por dois psiquiatras independentes, os quais, após exame do paciente, devem também concordar, por escrito, com a indicação cirúrgica; 3- Avaliação do relatório e paciente pela equipe psicocirúrgica, composta por um psiquiatra, um neurologista, um neurocirurgião e um psicólogo, que também devem demostrar por escrito sua concordância com a cirurgia; 4- Intemação no Serviço de Psicocirurgia para a realização de uma série de exames complementares, quando já não realizados: avaliação imagenológica por ressonância nuclear magnética, avaliação neurofisiológica com eletroencefalograma prolongado, avaliação neuropsicológica, avalição indireta do metabolismo cerebral pelo SPECT (single photon emission computed tomography), exames pré-operátorios de rotina e, se possível, a realização do teste de Wada; 5- Os familiares próximos e, quando possível, também o paciente, devem ser criteriosamente esclarecidos pelo neurocirurgião quanto à técnica cirúrgica, sucessos, insucessos e riscos da cirurgia proposta, os quais, completamente cientes de todos estes pormenores, devem expressar, por escrito, seu consentimento para a realização da cirurgia.
O resultado da cirurgia se faz em dois tempos: o primeiro, que é imediato, e que parece se dever à mera interrupção da cicuitária límbica e o segundo, que ocorre ao longo dos meses e mesmo anos que sucedem a cirurgia, sendo provavelmente decorrente da alteração do balanço dos neurotrasmissores do sistema límbico provocado pela cirurgia inicial.
Finalmente vale ressaltar que, a indicação cirúrgica deve sempre partir do psiquiatra assistente e jamais do neurocirurgião, que deve atuar apenas como um "técnico'' em todo o processo e que, assim como na Doença de Parkinson, a enorme maioria dos pacientes continua necessitando de tratamento continuado após a cirurgia, o qual deve ser efetuado pelo psiquiatra assistente, apenas uma insignificante minoria tornado-se livre de quaisquer medicações. Desta forma, a psicocirurgia deve ser encarada apenas com mais um "medicamento" no arsenal terapêutico disponível para o tratamento desses pacintes.
Por tudo o que foi dito e pela tendência atual de tratamento "aberto" do paciente psiquiátrico, acredito, mais do que nunca, ser este o momento de vestirmos a camisa e lutarmos contra o preconceito inadequadamente dispensado à Psicocirurgia moderna!

(Osvaldo Vilela Filho)

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