| O
inconsciente, tal como postulado
por Freud, é o conceito
que fundamenta a psicanálise
e marca, em sua radicalidade,
a irremissível divisão
do Sujeito, apontando-lhe um paradoxo
e impondo-lhe uma lógica
arrevesada, contraditória,
legitimando a práxis psicanalítica
jungida à lei do desejo,
própria de sua ética.
Às
vezes, o desejo se coloca a serviço
da busca frenética da significação,
na medida em que o significante
se desloca ao longo da cadeia
associativa como uma série
de coisas que, digamos, nos propõe
outra reflexões.
Assim, então, aquilo que
nos poderia querer dizer algo
instigante, algo que, em certa
medida, aponta para o umbigo do
Sonho, impõe-nos um trabalho
em direção à
falta.
É
assim que, num novo lugar, instaura-se
um certo tipo de demanda que,
de alguma forma, faz-nos repensar
aquilo que conflui nos trâmites,
cujo parecer se dá numa
esfera onde não necessariamente
se possa estabelecer uma relação
de Sentido.
No
Seminário Sete, Lacan nos
ensina que o que sustenta esse
vetor é um viés
pelo qual passa um novo paradigma,
estabelecendo uma fissura que
realça a cadeia que evidencia
a que ponto estamos implicados
nessa nova dimensão de
resistência aos desígnios
plenos da psicanálise.
Eis aí um ponto de convergência
máxima que opera no limite,
lá onde a interpretação
se detém por ser aí
redundante. É nesse momento
que o analista deve ater-se à
questão de pensar as determinantes
de sua função, tramitando
por uma série de vetores
válidos que responde pela
postura em trabalho de análise.
Ou,
dito de outra forma, só
pra pontuar:
Lá, ali mesmo onde a transferência
faz furo no discurso do Sujeito
e faz jus à noção
que dele deriva e que apontaria
a direção da cura,
que não haverá.
Vejam vocês como a ética
se opõe à moral,
que coloca o homem numa certa
relação com sua
ação, dizendo de
uma direção, de
uma tendência, e de um bem
que ele tange a um ideal de conduta.
Eis que a dimensão escapa
para além de um mandato
e vai além da mera obrigação
exercida pelo sujeito.
A ética da psicanálise
se debruça sobre a experiência
singular do sujeito sem se deixar
por ela absorver em seu afã
de situar-se diante da sua falta-a-ser
e favorece o significante que
marca o aparecimento fecundo do
desejo enquanto tal.
O
que se almeja é que o sujeito
percorra o bem dito. Pois é
justamente no desejo que se depreende
a instância do que se apresentará
no término de sua loucura
por mera elaboração
por cima da censura. Como não
ser assim, se o sujeito, a certa
altura da sua análise,
interroga-se sobre seu desejo?
(Marco Aurélio Baggio)
In
memoriam
Dr. Sandoval de Castro
*16/10/13
†17/01/01
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Dr.
Sandoval de Castro, nascido em
Acaiaca, M.G., em 16/10/1913,
estudou o curso primário
no Grupo Escolar Barão
do Rio Branco e o curso ginasial
no Colégio Mineiro, hoje
atual Corpo de Bombeiros.
Nascido de uma família
humilde, passou a sua infância
residindo onde hoje é o
Museu Histórico de B.H.,
no Bairro Cidade Jardim.
Seu pai trabalhava para uma abastada
família que residia naquela
casa e ele, como empregado, se
instalava nos porões da
residência.
Estudou Medicina na UFMG, com
muita dificuldade financeira.
Usava fardas de um tio que era
militar, pois não possuía
recursos para comprar seu próprio
vestuário. Vendia livros
médicos para uma editora
nos quais estudava antes de vendê-los.
Formou-se em 08/12/1937. Casou-se
em 14/12/1939 com D. Dicíula
de Magalhães Caldeira com
quem teve sete filhos: Eliane
Caldeira de Castro, geóloga;
Sandoval de Castro Filho, médico
psiquiatra; Márcia Caldeira
de Castro, empresária;
Rodrigo Caldeira de Castro, empresário;
Denise Caldeira de Castro, professora;
Bernardo Caldeira de Castro, médico
psiquiatra e Cláudia Caldeira
de Castro, falecida quando ainda
cursava o curso de medicina devido
às complicações
de uma diabetes.
Trabalhou, logo que se formou,
na casa de saúde Santa
Clara, logo após a sua
fundação, como também
na Raul Soares, onde organizou
vários setores daquele
hospital.
Em Fevereiro de 1947, fundou a
Clínica Pinel, que funcionava
na esquina da Rua dos Inconfidentes
com Rua Alagoas, onde residia
sua sogra. Nesta época,
D. Dicíula, sua esposa,
era quem cuidava da alimentação
servida aos pacientes internados;
tudo feito e organizado por ela
na própria cozinha da casa
dela.
Assim iniciada, a Clínica
começou a prosperar, precisando,
assim, de um local mais amplo.
Mudou-se então para a Rua
Sergipe 470, onde depois veio
a funcionar o SAMDU.
Nessa época, Dr. Sandoval
convidou para sócio na
Clínica o Dr. Joaquim Affonso
Moretzsohn, que na época
cursava o 4º ano de Medicina
da UFMG e o Dr. Geraldo Roedel
(este deixou a sociedade alguns
anos mais tarde). Dr. Sandoval
e Dr. Moretzsohn continuaram a
Clínica Pinel, no então
Parque Vera Cruz, em imóvel
alugado pelos padres do Colégio
Loyola. A Clínica lá
permaneceu até 1958 quando
mudou-se para o atual prédio
na Pampulha, onde funciona até
hoje. O principal passatempo e
paixão do saudoso médico
era o futebol, assunto que entendia
profundamente. Foi presidente
do América Futebol Clube
por três vezes, datando
de 1943 o seu primeiro mandato.
Sofreu um grande declínio
físico e psicológico,
em 15/10/1996, com a perda de
sua filha caçula, Cláudia.
Foi atingido novamente em 24/05/99
com a morte de seu sócio
e amigo por tantos anos, Dr. Moretzsonhn.
Mas sua vida realmente se tornou
insustentável a partir
do dia 10/01/2000, quando sua
esposa D. Diciula morreu tragicamente
vítima de um acidente automobilístico,
presenciado por ele que nada pode
fazer. Desde então, entregou-se
ao isolamento e à profunda
tristeza. Sempre dizia aos filhos
e amigos psiquiatras: "Nós
tratamos de depressão,
mas tristeza não tem tratamento.
Meu caso é incurável
apesar dos seus esforços."
Veio a falecer 1 ano depois, em
17/01/2001, vítima da tristeza
que nele havia se instalado.
Além dos filhos, deixou
21 netos e 4 bisnetos, além
de muitos ensinamentos de vida
e inúmeros admiradores.
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