psicanálise
ano VI - edição 15 - belo horizonte - mg

Afinal, Lacanei

O inconsciente, tal como postulado por Freud, é o conceito que fundamenta a psicanálise e marca, em sua radicalidade, a irremissível divisão do Sujeito, apontando-lhe um paradoxo e impondo-lhe uma lógica arrevesada, contraditória, legitimando a práxis psicanalítica jungida à lei do desejo, própria de sua ética.

Às vezes, o desejo se coloca a serviço da busca frenética da significação, na medida em que o significante se desloca ao longo da cadeia associativa como uma série de coisas que, digamos, nos propõe outra reflexões.
Assim, então, aquilo que nos poderia querer dizer algo instigante, algo que, em certa medida, aponta para o umbigo do Sonho, impõe-nos um trabalho em direção à falta.

É assim que, num novo lugar, instaura-se um certo tipo de demanda que, de alguma forma, faz-nos repensar aquilo que conflui nos trâmites, cujo parecer se dá numa esfera onde não necessariamente se possa estabelecer uma relação de Sentido.

No Seminário Sete, Lacan nos ensina que o que sustenta esse vetor é um viés pelo qual passa um novo paradigma, estabelecendo uma fissura que realça a cadeia que evidencia a que ponto estamos implicados nessa nova dimensão de resistência aos desígnios plenos da psicanálise. Eis aí um ponto de convergência máxima que opera no limite, lá onde a interpretação se detém por ser aí redundante. É nesse momento que o analista deve ater-se à questão de pensar as determinantes de sua função, tramitando por uma série de vetores válidos que responde pela postura em trabalho de análise.

Ou, dito de outra forma, só pra pontuar:
Lá, ali mesmo onde a transferência faz furo no discurso do Sujeito e faz jus à noção que dele deriva e que apontaria a direção da cura, que não haverá. Vejam vocês como a ética se opõe à moral, que coloca o homem numa certa relação com sua ação, dizendo de uma direção, de uma tendência, e de um bem que ele tange a um ideal de conduta. Eis que a dimensão escapa para além de um mandato e vai além da mera obrigação exercida pelo sujeito.
A ética da psicanálise se debruça sobre a experiência singular do sujeito sem se deixar por ela absorver em seu afã de situar-se diante da sua falta-a-ser e favorece o significante que marca o aparecimento fecundo do desejo enquanto tal.

O que se almeja é que o sujeito percorra o bem dito. Pois é justamente no desejo que se depreende a instância do que se apresentará no término de sua loucura por mera elaboração por cima da censura. Como não ser assim, se o sujeito, a certa altura da sua análise, interroga-se sobre seu desejo?
(Marco Aurélio Baggio)


In memoriam
Dr. Sandoval de Castro

*16/10/13
†17/01/01

Dr. Sandoval de Castro, nascido em Acaiaca, M.G., em 16/10/1913, estudou o curso primário no Grupo Escolar Barão do Rio Branco e o curso ginasial no Colégio Mineiro, hoje atual Corpo de Bombeiros.
Nascido de uma família humilde, passou a sua infância residindo onde hoje é o Museu Histórico de B.H., no Bairro Cidade Jardim.
Seu pai trabalhava para uma abastada família que residia naquela casa e ele, como empregado, se instalava nos porões da residência.
Estudou Medicina na UFMG, com muita dificuldade financeira. Usava fardas de um tio que era militar, pois não possuía recursos para comprar seu próprio vestuário. Vendia livros médicos para uma editora nos quais estudava antes de vendê-los.
Formou-se em 08/12/1937. Casou-se em 14/12/1939 com D. Dicíula de Magalhães Caldeira com quem teve sete filhos: Eliane Caldeira de Castro, geóloga; Sandoval de Castro Filho, médico psiquiatra; Márcia Caldeira de Castro, empresária; Rodrigo Caldeira de Castro, empresário;
Denise Caldeira de Castro, professora; Bernardo Caldeira de Castro, médico psiquiatra e Cláudia Caldeira de Castro, falecida quando ainda cursava o curso de medicina devido às complicações de uma diabetes.
Trabalhou, logo que se formou, na casa de saúde Santa Clara, logo após a sua fundação, como também na Raul Soares, onde organizou vários setores daquele hospital.
Em Fevereiro de 1947, fundou a Clínica Pinel, que funcionava na esquina da Rua dos Inconfidentes com Rua Alagoas, onde residia sua sogra. Nesta época, D. Dicíula, sua esposa, era quem cuidava da alimentação servida aos pacientes internados; tudo feito e organizado por ela na própria cozinha da casa dela.
Assim iniciada, a Clínica começou a prosperar, precisando, assim, de um local mais amplo. Mudou-se então para a Rua Sergipe 470, onde depois veio a funcionar o SAMDU.
Nessa época, Dr. Sandoval convidou para sócio na Clínica o Dr. Joaquim Affonso Moretzsohn, que na época cursava o 4º ano de Medicina da UFMG e o Dr. Geraldo Roedel (este deixou a sociedade alguns anos mais tarde). Dr. Sandoval e Dr. Moretzsohn continuaram a Clínica Pinel, no então Parque Vera Cruz, em imóvel alugado pelos padres do Colégio
Loyola. A Clínica lá permaneceu até 1958 quando mudou-se para o atual prédio na Pampulha, onde funciona até hoje. O principal passatempo e paixão do saudoso médico era o futebol, assunto que entendia profundamente. Foi presidente do América Futebol Clube por três vezes, datando de 1943 o seu primeiro mandato.
Sofreu um grande declínio físico e psicológico, em 15/10/1996, com a perda de sua filha caçula, Cláudia. Foi atingido novamente em 24/05/99 com a morte de seu sócio e amigo por tantos anos, Dr. Moretzsonhn. Mas sua vida realmente se tornou insustentável a partir do dia 10/01/2000, quando sua esposa D. Diciula morreu tragicamente vítima de um acidente automobilístico, presenciado por ele que nada pode fazer. Desde então, entregou-se ao isolamento e à profunda tristeza. Sempre dizia aos filhos e amigos psiquiatras: "Nós tratamos de depressão, mas tristeza não tem tratamento. Meu caso é incurável apesar dos seus esforços." Veio a falecer 1 ano depois, em 17/01/2001, vítima da tristeza que nele havia se instalado.
Além dos filhos, deixou 21 netos e 4 bisnetos, além de muitos ensinamentos de vida e inúmeros admiradores.



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