entrevista
ano VI - edição 15 - belo horizonte - mg

Viktor Emil Frankl


Deveras, como outrora se dizia, instigante a entrevista de Olavo de Carvalho incluída no último número do JMP. Diz o filósofo que Freud foi um provinciano tentando moldar os fatos aos estreitos limites do alçapão da teoria psicanalítica. Comparado a outro vienense, Viktor Frankl, Freud seria um modesto porão perto do céu aberto. Isso deve ter soado bastante escandaloso aos ouvidos pudicos da psiquiatria mineira, submetida que está, há vinte e muitos anos, pelo lacanismo, do qual não escapa nem mesmo o próprio freudismo, cujo autor, Sigmund Freud, é reverenciado como a um velho avô ao qual se deve respeito mas que se acha um tanto quanto ultrapassado.
Esse lacanismo, xiita na concepção e militante na ação, absolutamente instalado no poder, se esforça em impor ao jovem psiquiatra mineiro um falso dilema: ou tu és um psiquiatra lacaniano, ou serás um "biológico". Duas alternativas, portanto e tão-somente(*): a última indevidamente satanizada e a primeira, imbecilmente divinizada.
Este JMP, originado da necessidade da psiquiatria mineira de respirar e refletir para além do breu do pensamento totalitário que desceu sobre esta terra, vem tentando apresentar alternativas idôneas e viáveis, e assim prestar um serviço ao leitor-colega. É o caso presente.
Viktor Emil Frankl nasceu em Viena no ano de 1905 e morreu 90 anos depois. Foi o fundador da chamada "Terceira Escola Vienense de Psicoterapia". Com 19 anos conheceu Freud, com o qual vinha correspondendo, e publicou um artigo na Revista Internacional de Psicanálise 10 (1924, 437-438). Também andou com Adler mas foi expulso da escola adleriana por divergências teóricas (aparentemente Adler realmente acreditava na tal "vontade de poder"...). Fala de Adler com um certo desprezo quando o mede com Freud. O que não é nenhuma novidade; o próprio Freud comparava Adler a um menino que chora ao perguntar ao pai de onde vem a galinha (do ovo) e o ovo (da galinha).
Frankl sobreviveu a quatro campos de concentração (um deles, Auschwitzs), nos quais perdeu a mulher, o pai, a mãe e um irmão. Emergiu desse experimentum crucis e escreveu uma obra de vinte e seis livros (fora artigos, contribuições, etc.), criou uma escola de psicoterapia, foi doutor honoris causa, catedrático etc.
Tem apenas seis livros traduzidos no Brasil, sendo que um deles está esgotado. Comprei, em São Paulo, "Logoterapia e Análise Existencial", "A Questão do Sentido em Psicoterapia", "Psicoterapia e Sentido da Vida", "A Psicoterapia na Prática", "Em Busca de Sentido: Um Psicólogo no Campo de Concentração". Foi como consegui entrevistar Viktor Frankl para o JMP. As respostas às minhas perguntas são ipsis litteris com exceções de uns mínimos arranjos aqui e lá, sem qualquer intromissão no conteúdo.
O leitor mire, veja e julgue.
PS: Quem quiser saber mais desse vienense, deve ir ao site do Instituto Viktor Frankl de Viena: http://logotherapy.univie.ac.at

(*) Prova eloqüente disso está no fato recente de a Associação Mineira de Psiquiatria ter retirado às pressas o apoio prometido ao I Encontro Mineiro de Terapia Cognitiva, como tempo antes havia negado apoio ao livro do Marco Aurélio Baggio para depois oferecê-lo serelepe ao do Antônio Quinet. Longe dos olhos, longe do coração, foi o lema de todos regimes totalitários de Século XX, do nazi-fascismo ítalo-alemão ao comunismo soviético. O que pensaria Freud de a psicanálise estar sendo usada para o desconhecimento e a desinformação?
(Humberto Campolina)

JMP: Defina Logoterapia e Análise Existencial.

Frankl: A logoterapia e a análise existencial são duas faces da mesma teoria. Ou seja, a logoterapia é um método de tratamento psicoterapêutico, ao passo que a análise existencial representa uma linha antropológica de pesquisa. Como linha de pesquisa, ela se abre em duas direções: dispõe-se à cooperação com outras tendências e com sua própria evolução. No que se refere à logoterapia, essa palavra não deve dar a entender que no âmbito desse método de tratamento "aborda-se o paciente com a lógica": isso implicaria confundir a logoterapia com um método persuasivo; com efeito, a logoterapia em certo sentido, representa exatamente o contrário da persuasão. Em "logoterapia", "logos" quer dizer duas coisas: de um lado o sentido; de outro, o mental, pelo menos em oposição heurística ao puramente psíquico. "Logos" é uma palavra grega e significa "sentido". A logoterapia, ou como tem sido chamada por alguns autores, "a terceira escola vienense de psicoterapia", concentra-se no sentido da existência humana, bem como na busca por este sentido. Para a logoterapia, a busca de sentido na vida da pessoa é a principal força motivadora no ser humano. Por essa razão, costumo falar de uma vontade de sentido , a contrastar com o princípio do prazer (ou, como também poderíamos chamá-lo, a vontade de prazer) no qual repousa a psicanálise freudiana, e contrastando ainda com a vontade de poder, enfatizada pela psicologia adleriana através do uso do termo "busca de superioridade". Passemos agora à análise existencial: nessa formulação, "existencial" significa uma forma de ser e sobretudo o caráter próprio do homem. Para essa forma especial da existência (Dasein), a filosofia contemporânea reserva a expressão "existência" (Existenz), e nós, na análise existencial e na logoterapia, tomamos de empréstimo essa expressão com esse conteúdo. Em tudo isso a análise existencial, no fundo, não é nenhuma análise da existência, pois não há uma análise da existência, como também não há uma síntese da existência. A análise existencial é antes uma explicação da existência. Só que não fazemos caso omisso de que a existência, a pessoa, também se explica a si mesma: explica-se, desdobra-se, desenvolve-se no transcurso da vida. Como um tapete e seu desenho inconfundível ao ser estendido. A filosofia da existência nomeadamente teve o mérito de apresentar a existência (Dasein) do homem como uma forma de ser sui generis. Assim, Jaspers denomina o ser do homem como um ser "que decide", um ser que não "é", sem mais, mas que só em cada caso decide "o que ele é".
Os cinco aspectos da análise existencial são: 1) Análise existencial como explicação da existência pessoal; 2) Análise existencial como terapia das neuroses coletivas; 3) Análise existencial como cura médica das almas; 4) Logoterapia como terapia específica de neuroses noógenas; 5) Logoterapia como terapia inespecífica.


JMP: Explique-nos o que é "vontade de sentido" e "neurose noogênica".

Frankl:A busca do indivíduo por um sentido é a motivação primária em sua vida, e não uma "racionalização secundária" de impulsos instintivos. Esse sentido é exclusivo e específico, uma vez que precisa e pode ser cumprido somente por aquela determinada pessoa. Somente então esse sentido assume uma importância que satisfará a sua própria vontade de sentido. Alguns autores sustentam que sentidos e valores são "nada mais que mecanismos de defesa, formações reativas e sublimações". Naturalmente, pode haver casos em que a preocupação de um indivíduo com valores é, na realidade, uma camuflagem de conflitos interiores ocultos. Nesses casos temos lidar com pseudovalores, e como tais devem ser desmascarados. As neuroses noogênicas não surgem de conflitos entre impulsos e instintos, mas de problemas existenciais. Entre esses problemas, a frustração da vontade de sentido desempenha papel central. Quero citar um exemplo: Um diplomata americano de alto escalão dirigiu-se a meu consultório em Viena a fim de continuar um tratamento psicanalítico iniciado cinco anos antes em Nova Iorque. Logo de início perguntei-lhe por que ele pensava que deveria ser analisado, por que, em si, começara a análise. Revelou-se que o paciente estava descontente com sua carreira e tinha extrema dificuldade de concordar com a política exterior dos EUA. Seu analista, no entanto, lhe havia dito repetidamente que ele devia reconciliar-se com seu pai, porque o governo dos EUA bem como os seus superiores eram "nada mais" que imagens paternas, e, consequentemente, a insatisfação com seu emprego se devia ao ódio inconsciente contra o pai. Uma análise que já vinha durando cinco anos induzira o paciente a aceitar cada vez mais as interpretações de seu analista, até que, de tantas árvores de símbolos e imagens, ele não conseguia mais ver a floresta da realidade. Após algumas entrevistas, ficou claro que sua vontade de sentido estava sendo frustrada por sua profissão e que ele na realidade ansiava engajar-se em outra espécie de trabalho. Como não tinha motivos para não largar a sua profissão e abraçar outra, assim o fez, com os mais gratificantes resultados. Em sua nova ocupação ele está satisfeito já faz cinco anos, conforme me relatou há pouco tempo.


JMP: E o que vem a ser neurose coletiva?

Frankl: Definimos a neurose sensu striction como uma doença psicogênica. Além dessas neuroses, conhecemos neuroses na acepção mais lata do termo, por exemplo, (pseudo-) neuroses somatogênicas, noogênicas e sociogênicas.
Em todas elas temos de nos avir com neurose no sentido clínico. Mas também existem neuroses num sentido metaclínico e neurose num sentido paraclínico. As neuroses coletivas fazem parte destas últimas.
As neuroses coletivas são "quase-neuroses", neurose em sentido figurado. Apesar disso, na medida em que temos direito de falar de neurose coletiva, na acepção paraclínica, a neurose coletiva da atualidade, de acordo com a nossa experiência, caracteriza-se por quatro sintomas:
1) Atitude de provisoriedade diante da existência. Parece que o homem de hoje, de uma maneira geral, só vive tendo em conta e olhando de soslaio a futura bomba atômica.
2) Atitude fatalista. Enquanto o indivíduo que assume uma atitude de provisoriedade diz a si mesmo que não é necessário agir nem tomar as rédeas do seu próprio destino, o fatalista diz a si mesmo: isso é totalmente impossível.
3) Forma de pensar coletivista. Esta forma manifesta-se no fato de que o homem não consegue ver a si mesmo como sujeito individualizado.
4) Fanatismo. Enquanto aquele que assume uma atitude coletivista ignora a sua própria individualidade, o fanático ignora a individualidade do outro, daquele que pensa diferentemente.
Sabemos que não só um conflito psíquico, mas também um conflito espiritual-ético, por exemplo, um conflito de consciência, pode levar a uma neurose. Chamamo-las de Neurose Noógena. É compreensível que um homem esteja imunizado contra a neurose coletiva, sendo capaz, em geral, de um conflito de consciência.
Pelo contrário, quem sofre de uma neurose coletiva, ou seja, por exemplo, um fanático político, na medida em que volta a ser capaz de escutar a voz de sua consciência e até de sofrer por causa dela, nessa mesma medida está em condição de superar sua neurose coletiva.
Os quatro sintomas de neurose coletiva - a atitude de provisoriedade da existência e a atitude fatalista diante da vida, a forma de pensar coletivista e o fanatismo - podem ser reduzidos à fuga da responsabilidade e do medo à liberdade. Apesar disso, a liberdade e a responsabilidade constituem a espiritualidade do homem. O homem de hoje está, no entanto, enfadado do espírito, e nesse enfado do espírito consiste a essência do niilismo contemporâneo.


JMP: O que significa "cura médica das almas"?

Frankl:A "cura médica das almas" se preocupa por fazer com que o homem seja capaz de superar um sofrimento necessário individual. Ela não se preocupa por restabelecer a capacidade de trabalhar e a capacidade de desfrutar, mas por estabelecer a capacidade de suportar.
Em síntese: não só o psiquiatra, mas todos os médicos devem prestar "cura médica das almas" sempre que tenham diante de si um paciente que se ache confrontado com um sofrimento individual.
O homo patiens reivindica o medicus humanus; o homem que sofre reivindica o médico humano, que não só trata como médico, mas atua também como homem. O médico cientista mas não-humano poderia amputar uma perna com a ajuda da ciência; mas só com a ajuda da ciência não se poderia impedir o suicídio do amputado ou da pessoa que é preciso amputar, depois ou antes da amputação.
De sorte que o médico, mesmo no exercício da cura médica de almas continua sendo médico; apesar disso, sua relação com o paciente se transforma no encontro pessoa a pessoa. A "cura médica de almas" talvez seja a técnica de caráter humano capaz de nos preservar da inumanidade da técnica tal como ela se faz valer no âmbito de uma medicina tecnificada.


JMP: Fale-nos de Logoterapia como terapia não-específica?

Frankl:Nas neuroses noógenas, a logoterapia representa uma terapia específica: as neuroses noógenas, como neuroses que surgem do espiritual, requerem que a Logoterapia seja uma terapia a partir do espiritual. Apesar disso, existe também uma esfera mais ampla em que a Logoterapia é indicada; essa esfera é representada pela neurose em sentido estrito, ou seja, as neuroses psicógenas.
Conhecemos também doenças que não são realmente causadas no psíquico, mas simplesmente desencadeadas; chamamo-las de psicossomáticas.
De acordo com a Logoterapia, contudo, não só separamos conceitualmente as neuroses psicogênicas e as doenças psicossomáticas, como distinguimos pseudoneuroses somatogênicas, ou seja, doenças neuróticas aparentes, que, inobstante, não são causadas a partir do psíquico, mas, ao contrário, a partir do somático.
Nesse sentido, a Logoterapia se acredita não só como terapia adequada e causal de neuroses noógenas, mas também de neuroses não-noógenas; em casos somatogênicos e psicogênicos, ela é eficaz como terapia não-específica, pois mesmo quando o vazio existencial não é o fator patogênico preencher essa vacuidade é "antipatogênico". Além do mais, a Logoterapia lida com os métodos da "intenção paradoxal" e "derreflexão" para as neuroses de angústia, obsessiva e distúrbios sexuais. No meu livro "Logoterapia e Análise Existencial" descrevo em detalhes essas técnicas.


JMP: Compare a psicanálise com a logoterapia.

Frankl: Certa vez uma pessoa me disse: "Poderia o Sr. me dizer em uma única sentença qual a diferença entre psicanálise e logoterapia?". Ao que respondi: "Sim, mas primeiro pode o senhor me dizer em uma só sentença o que acha ser a essência da psicanálise?" Eis sua resposta: "Durante a psicanálise o paciente precisa deitar-se num sofá e contar coisas que às vezes são muito desagradáveis de se contar." Ao que retruquei imediatamente com o seguinte improviso: "Bem, na logoterapia o paciente pode ficar sentado normalmente, mas precisa ouvir certas coisas que às vezes são muito desagradáveis de se ouvir".
É claro que eu disse isso de brincadeira, sem a intenção de fornecer uma fórmula concentrada de logoterapia. Entretanto, ela não deixa de ter sua razão, uma vez que, se comparada à psicanálise, a logoterapia é menos retrospectiva e menos introspectiva. A logoterapia se concentra mais no futuro, ou seja, nos sentidos a serem realizados pelo paciente em seu futuro. A logoterapia considera sua tarefa ajudar o paciente a encontrar sentido em sua vida. Na medida em que a logoterapia o conscientize do logos oculto de sua existência, trata-se de um processo analítico. Até esse ponto a logoterapia se assemelha à psicanálise. Entretanto, quando a logoterapia procura tornar algo consciente, ela não restringe sua atividade a fatos instintivos dentro do inconsciente do indivíduo, mas se preocupa também com realidades existenciais, tais como o sentido em potencial de sua existência a ser realizado, bem como a sua vontade de sentido. A logoterapia diverge da psicanálise na medida em que considera o ser humano um ente cuja preocupação principal consiste em realizar um sentido, e não na mera gratificação e satisfação de impulso e instintos, ou na mera reconciliação das exigências conflitantes de id, ego e superego.


JMP: Em poucas palavras, qual deve ser a função essencial da psicoterapia?

Frankl: Repetidas vezes já tivemos de lembrar que a psicoterapia, e em especial a logoterapia, deve tratar de restabelecer a responsabilidade particular do doente, fortalecendo para isso sua consciência de responsabilidade. A liberdade humana fundamental, em contraposição a todo fatalismo, a possibilidade, que não pode ser perdida, de enxergar seu próprio destino dado como tarefa a ser efetuada de alguma maneira, a liberdade sempre presente de posicionar-se de uma forma ou de outra perante ele, tudo isso o psicoterapeuta tem de salientar, pois só assim lhe será possível ajudar o doente a realizar o máximo de possibilidades interiores e exteriores. Em uma palavra, fazer esse tratamento ser uma reeducação para a autonomia.
JMP: O que o sr. pensa sobre os tratamentos biológicos?
Frankl: Pode-se dizer que esse tema é de certa forma ingrato. Por mais popular que seja a ingestão de tranqüilizantes, ainda hoje torna-se bastante impopular não quem os ingere mas sim quem defende o seu uso, quem intervém a seu favor, como eu pretendo fazer. Em uma conferência sobre depressão e estados afins ocorrida em Montreal , encontra-se a seguinte passagem no relatório final: "Alguns dos conferencistas apontaram para o grande perigo, inerente ao tratamento com choque e drogas, de que a atividade médica se torne mecanizada e o paciente deixe de ser considerado uma pessoa". Eu considero uma apreensão desse tipo altamente ingênua. Pois, a meu ver, um psiquiatra pode aplicar eletrochoques sem com isso atingir nem um pouco a dignidade do paciente; por outro lado, eu conheço muitos casos em que profissionais adeptos de psicologia profunda, por detrás do aparente esforço para desmascarar relações inconscientes, apenas dão vazão a uma maneira de desvalorizar o que há de mais elevado no homem. Não nos esqueçamos que a metodologia e a técnica fazem parte da essência do tratamento médico, e o erro de condená-las não é menor do que o de idolatrá-las. Nós devíamos evitar tanto um como o outro. Seguramente, von Baeyer está certo quando chama de "duvidosa e apenas parcialmente válida a oposição entre tratamento causal e o sintomático, pelo menos no campo da psiquiatria"; isso deveria ser dito sobretudo aos que desprezam os psicofármacos, julgando a medicação simplesmente sintomática e paliativa, e por isso a descartam injustamente. Pois foi, por coincidência novamente, von Baeyer quem, admitiu: "a somatoterapia clínica de estados não-psicóticos pode às vezes por si só acarretar uma mudança relativamente duradoura, eliminando estados neuróticos depressivos, de angústia, hipocondríacos e por vezes até obsessivos, a ponto de o paciente, por um longo prazo, sair do estado mais grave e, mesmo sem uma psicoterapia metodicamente aplicada, poder retornar à vida".


JMP: Método versus arte. Fale-nos da importância relativa em psicoterapia de cada um desses itens.

Frankl:A princípio, pode-se atacar terapeuticamente uma neurose na multiplicidade de seus elementos estruturais, em diferentes pontos, em diferentes níveis.: pode-se adotar um procedimento medicamentoso, um procedimento psicológico e, dentro dessa possibilidade, tanto interpretar os conteúdos do caso particular segundo Freud como os motivos de fixação (a despeito dos conteúdos concretos) segundo Adler; e pode-se finalmente esclarecer e tratar uma neurose, uma vez ou outra, ainda a partir do espiritual, ao invés de a partir do corporal ou - de uma forma ou outra - do psicológico. Da mesma maneira que temos de adaptar, no caso concreto, o método por ser escolhido à individualidade do doente, temos também de fazê-lo corresponder à nossa própria personalidade. Pois a prática sempre mostra que não é todo tipo de personalidade do médico que pode atuar de forma igualmente eficiente com o mesmo método. Disso se segue que a psicoterapia, que a sua configuração especial, constitui em cada uma função dependente de dois fatores variáveis e ainda por cima irracionais: a singularidade do doente e a singularidade do médico. Nessa dependência, a psicoterapia mostra-se como apenas limitadamente passível de ser ensinada e aprendida. Ela sempre pressupõe um conhecimento (mesmo que não explícito) das habilidades particulares próprias do médico e das possibilidades internas particulares do doente. Assim, a psicoterapia depende sempre de algo mais que a simples capacidade técnica: ela sempre contém uma boa dose de arte. E, em vista da variabilidade dos dois fatores irracionais que fazem parte dessa arte da psicoterapia, nós não ficaremos surpresos ao ver o quanto toda psicoterapia depende de uma compreensão momentânea da pessoa concreta, da situação concreta do paciente, o quanto ela depende, por conseguinte, da improvisação. Nada nela pode ser inteiramente esquematizado, um esquema nunca pode ser rigidamente seguido - pelo contrário, cada caso particular de um método próprio ele deve ser improvisado, ele deve ser inventado, em cada caso e para cada caso novamente!


JMP: Como se trabalha psicoterapeuticamente com os doentes endógenos?

Frankl: Quando se fala da psicoterapia em psicoses endógenas e não de uma psicoterapia das psicoses endógenas, isso naturalmente não acontece por acaso, pois nós não consideramos viável uma psicoterapia das psicoses endógenas justamente porque elas como tais, como endógenas, não são psicogênicas e sim somatogênicas. Nós não hesitamos em defender uma somatogênese por princípio das psicoses endógenas. H.J. Weitbrecht esclarece: "Não podemos absolutamente ficar irritados com o fato de o nóxio-somático nas psicoses endógenas ainda permanecer inexplicado. Na nossa opinião, as psicoses endógenas fásicas manifestam de forma tão clara o caráter orgânico da doença, que classificar as psicoses endógenas como neuroses deve ser visto como um erro grave, ligado à moda do momento, cujas raízes histórico-científicas podem ser facilmente apontadas. Deveríamos ter a coragem de nos render ao mistério implacável do orgânico, que nós também somos, que nos gera e nos aniquila e que nós não podemos tornar analisável e manipulável devido uma vontade de entender e interpretar, em si absurda".
Deve-se considerar apenas que, sempre que nós falamos, nesse contexto, da somatogênese por princípio das psicoses endógenas, nós nos referimos a uma somatogênese primária, e é claro que essa somatogênese apenas primária sempre deixa suficiente espaço livre para aquela patoplastia psíquica que envolve a psicogênese somática e só assim completa o quadro clínico do caso concreto. É justamente nesse espaço, que permanece livre em face da somatogênese, que a psicoterapia deve se inserir.


JMP: Quais devem ser as principais condutas terapêuticas com os depressivos endógenos?

Frankl: Nosso procedimento não pretende, de forma alguma, como dissemos, ser terapia causal, mas com isso não queremos dizer que esse nosso método não se trata de uma terapia específica, orientado para um objetivo. E ela pode ser específica e ter um objetivo visto que ela se dirige à pessoa espiritual do doente. De fato, a psicoterapia em depressões endógenas tem de enfocar a tomada de posição pessoal do doente diante de sua doença; devemos, sim, nos ocupar da atitude do doente em face de sua doença e de uma mudança dessa atitude; em outras palavras: de uma reorientação do doente.
Na verdade essa reorientação serve a uma profilaxia, a saber, a profilaxia de uma depressão secundária, posterior e adicional, que se soma à depressão primária, inicial e original. Nós muitas vezes vemos que os doentes por "razões endógenas" não teriam de sofrer tanto, se eles não ficassem (psicogenicamente) deprimidos com a depressão (endógena).
Passemos agora à sugestão verdadeiramente psicoterapêutica.
Em primeiro lugar, é conveniente tomar cuidado para que a própria psicoterapia que está sendo tentada não se torne - como acontece nestes casos - uma nóxia-iatrogênica. Como paradigma e exemplo, podemos mencionar o disparate de ver a melancolia, ou seja, a depressão endógena, não psicogênica e sim somatogênica, como uma doença que tem literalmente por "origem" a culpa existencial. Uma coisa é levar o doente a sério, e uma coisa diferente é tomar a doença ao pé-da-letra; o fato de o doente endógeno-depressivo julgar ser existencialmente culpado é patognomônico mas não patogênico; é algo que faz parte da sintomatologia da depressão mas não de sua etiologia.
Qualquer tentativa de apelo ao paciente para que ele reaja é também totalmente errado; argumentos, apelar à razão e ao intelecto não surtem efeitos em casos graves de depressão endógena.
Uma tentativa de terapia segundo o padrão de psicoterapia individual é contra-indicado, pois a eventual insinuação de que o paciente só quer "tiranizar os parentes com sua depressão" pode facilmente provocar o suicídio.
Não temos de levar o paciente a "tentar reagir", mas, pelo contrário, a sofrer a depressão, a aceitá-la como endógena, em uma palavra: a "objetivá-la" - e, assim, distanciar-se dela.
Entre outras coisas, temos de dizer enfaticamente ao paciente que ele está verdadeiramente doente. Com isso nós já nos opomos também à sua tendência a auto-repreensões, justamente porque ele tende por natureza a não ver seu estado como doentio mas a apresentá-lo simplesmente como "histérico", ou então, julgando moralmente a si mesmo, até a afirmar que ele "apenas se entrega". E então nós exigimos, antes de tudo, que o paciente (e naturalmente também às pessoas que o cercam) não exija nada de si; como um verdadeiro doente, ele deve ser dispensado de todos as obrigações e recomenda-se, para dar ênfase à essa idéia, colocar o doente em um ambiente hospitalar (mesmo que aberto), pois com isso poderemos provar que nós o consideramos um doente de fato. Certamente dizemos também a ele que não é um doente mental no sentido mais estrito da palavra, e sim melancólico, e assim já frustramos também eventuais terrores fóbicos de psicose. Sua melancolia, prosseguimos dizendo a ele, constitui uma exceção, visto que ela permite um prognóstico excepcionalmente favorável. Nós costumamos dizer literalmente ao paciente: podemos lhe assegurar que você vai sair de sua doença, pelo menos da respectiva fase, e voltar a ser exatamente o homem que ele era antes de iniciar a doença.
Para finalizar, nós devemos persuadi-lo de que ele, apesar de seu ceticismo, tão sintomático, ficará bom, de qualquer jeito, mesmo que ele não acredite nisso e não faça nada para isso. Mas nós devemos nos esforçar ainda para produzir psicoterapeuticamente, além do sentimento de estar doente, um grau elevado de auto-conhecimento de doença.
O paciente deve ser estimulado a desistir de pronunciar sentenças a partir de sua tristeza, de sua angústia, e de sua repugnância pela vida, sobre valor ou falta de valor, sentido ou falta de sentido de sua existência, pois essas sentenças são sempre ditadas pela vida afetiva doentia, e os pensamentos (catatímicos) de lá provenientes não podem de forma nenhuma ser verdadeiros.
E o que temos para dizer ao doente é, em primeiro lugar, que ele, no seu estado atual, não deve absolutamente esperar ver o mundo de outra forma que não na cor cinza, como através de óculos escuros. Além disso, devemos sempre lembrar ao paciente que e em que sentido ele está doente; com isso nós tentamos, com intuito psicoterapêutico, trasformar o sentimento patognomônico da doença em um verdadeiro conhecimento da doença.
Nós julgamos conveniente, mesmo em depressões endógenas leves, que a atividade profissional seja reduzida pela metade - mas não seja interrompida: essa medida é acertada porque, como vemos repetidas vezes, a atividade profissional freqüentemente constitui a única possibilidade de distrair o doente de suas auto-reflexões e ruminações dolorosas. Sugerimos aí, por razões compreensíveis, um trabalho no período da tarde e orientamos o paciente não só a não se ocupar de nenhum trabalho regular de manhã mas, se possível, ficar na cama (em virtude do ritmo circadiano).
Nós temos consciência da banalidade - falando sem rodeio - da maioria dos conselhos e orientações que nós damos aos nossos pacientes depressivos-endógenos, e apesar de tudo, mas ao mesmo tempo, também temos consciência de que quem não tem coragem para dizer essas banalidades muitas vezes se priva - e a seus doentes - do sucesso.


JMP: O que o sr. acha das escalas de avaliação clínica da psiquiatria moderna?

Frankl: É característico da época atual só avaliar a alma do homem, só reconhecê-la em sua existência até o ponto em que se encontre nela algo mensurável e ponderável. Mas como disse Schiller: "Quando fala a alma, a alma já não fala". E poderíamos dizer parafraseando-o: quando se testa o homem, já não é o homem, não é sua essência que é captada. Pelo contrário, uma psicologia que culmina em um método de teste apenas projeta o homem de sua dimensão própria na dimensão do mensurável do ponderável. Assim, ele perde de vista o essencial, o verdadeiro no homem, no âmago de seu ser. Mas esse algo verdadeiro talvez já não possa ser alcançado por meio da ciência pura ou mesmo pelas ciências naturais e necessite de uma outra forma de abordagem. Talvez aquilo que o grande médico Paracelsus afirmou possa se dizer também do homem: "Quem não reconhece Deus ama-o muito pouco".

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