editorial
ano VI - edição 15 - belo horizonte - mg

EDITORIAL

O nome do sujeito é Tenório. A rigor, Fernando Tenório. Escreveu em "O Risco" de novembro/2001 algo intitulado "Da reforma psiquiátrica à clínica do sujeito". Não conheço o autor. Leio que é psicanalista, membro do Tempo Freudiano e psicólogo do CAPS Arthur Bispo do Rosário, Rio de Janeiro. Logo no primeiro parágrafo, Tenório escreve que "a incidência da psicanálise no momento atual da psiquiatria brasileira é o questionamento [grifo meu] do modelo...". Fiz uma promessa a bem de minha saúde física não dar atenção a quem "questiona" ou tem "posicionamento" (como escreve mais adiante) frente a qualquer coisa. Sartre dizia que quem não sabe escrever não sabe pensar (no que, digamos, discrepo). Mas faço um pequeno sacrifício porque o artigo é sobre reforma siquiátrica, e esse assunto tem atraído leigos, diletantes e proselitistas das mais diversas cepas e intenções. E é a área na qual ganho meu suado pão, enfim dou duro durante o dia - e à noite preciso descansar, o que está se tornando cada vez mais difícil com um barulho desse.
Tenório, que não sei se é velho ou jovem, deve ser um neófito. Ou então saberia que a expressão "reforma psiquiátrica" é puro nonsense. Psiquiatria, em stricto sensu, é uma ciência (queira ou não Tenório et caterva) e como tal "reforma-se" - não sei se é melhor dizer, "evolui" - às custas de mudanças científicas paradigmáticas. O que se reforma por movimentos políticos - ou se quiser, mudanças de paradigmas políticos - é a assistência psiquiátrica. Parênteses: ninguém é ingênuo a ponto de não ver que o que a caterva quer de vera é a "desconstrução" da psiquiatria, portando a expressão "reforma da psiquiatria" não é nem mesmo um ato falho. Fecha parênteses.

O opúsculo tenoriano versa sobre a apresentação do caso de uma senhora de 54 anos que permaneceu internada por um período de 30 anos. Está se falando de "dona Antônia", cuja mãe também "viveu internada" (cf. Tenório). Quadro atual (sempre cf. Tenório): "Posição de total apatia, de indiferença em relação ao porquê das coisas que lhe acontecem... denotou uma ausência quase total de aspirações... uma espécie de evitação radical do desejo...apagada como sujeito, afastada de toda posição desejante (sic)... a paciente não mostrava qualquer sintomatologia psicótico produtiva e qualquer fenômeno elementar (neologismo, descarrilhamento, alucinações, delírios etc.) Percebeu-se uma leve perseveração (repetição de palavras ou frases) e sua fala e pensamento tinha conteúdo empobrecido - o que não informou muito, pois pode decorrer da apatia, do desinvestimento da vida. De resto, a paciente mostrava-se perfeitamente orientada, sem sinais de demência ou quadro orgânico."
Diagnóstico: "Demissão Subjetiva" (sic). Etiologia: "Cronificação iatrogênica" (sic) e "Possível deterioração por uso prolongado de neuroléticos" (sic).
Ora, Tenório deve estar a ouvir estrelas. Quem sabe, entretido nas líricas tertúlias políticas do DA da Faculdade de Psicologia, não tenha tido tempo de ouvir falar em Emil Kraepelin e muito menos na Dementia Praecox. Talvez, ainda, ocupado na busca da fórmula da salvação da humanidade, tenha-lhe passado despercebido que, como nos informa Kaplan, a percentagem das "esquizofrenias devastadoras" tenha caído de 15% para 5% após a introdução dos antipsicóticos. Pode ser que, ocupado com os grandes e pequenos outros de seu (com certeza) chique consultório, não tenha percebido que uma evolução maligna da doença se dá independente da casa, do consultório, do hospital, do país, da cultura e, quiçá, do planeta em que o doente viva.
Mas de onde provém a voz desse Tenório? Veja quando ele não vacila em apontar, com o dedo varonil, o culpado da sinistra situação: "...Típico retrato de uma psiquiatria que privilegia os sintomas exclui o sujeito...". Ou seja, uma psiquiatria que promove "o apagamento da condição desejante e do sujeito" e promove a "evitação radical do sujeito" e é "afastada de toda posição desejante" (sic).
E para onde vai a voz desse arauto de um tempo de messias, que levará enfim a paz à razão e à desrazão? Tenório mesmo responde: "Proponho que, no que diz respeito à clínica da psicose, a psicanálise é [seja] a via privilegiada para uma efetiva clínica do sujeito... Há um passo que cabe a nós psicanalistas [grifo meu] empreender".
Tenório deve saber que velhas teses vestidas com roupas novas faz sucesso em meio a filisteus. Mas se se cortar o trololó do Tenório, só sobra a teoria demodé da "sociose" como etiologia da doença mental, que Laing & Cooper tanto surraram (Tenório não deve saber que esses autores desprezavam solenemente a psicanálise e, mais ainda, o envolvimento do Estado no tratamento do louco) em priscas eras, e que agora reaparecem como farsas repetidas e requentadas pelo sprit de corps psicanalítico.
Ora, Tenório, por que você não vai estudar embriologia?
PS: O dístico do JMP a partir deste número passa a ser "O único jornal de psiquiatria mineiro" (veja capa).

(Humberto Campolina)

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