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O nome do
sujeito é Tenório.
A rigor, Fernando Tenório.
Escreveu em "O Risco"
de novembro/2001 algo intitulado
"Da reforma psiquiátrica
à clínica do sujeito".
Não conheço o autor.
Leio que é psicanalista,
membro do Tempo Freudiano e psicólogo
do CAPS Arthur Bispo do Rosário,
Rio de Janeiro. Logo no primeiro
parágrafo, Tenório
escreve que "a incidência
da psicanálise no momento
atual da psiquiatria brasileira
é o questionamento [grifo
meu] do modelo...". Fiz uma
promessa a bem de minha saúde
física não dar atenção
a quem "questiona" ou
tem "posicionamento"
(como escreve mais adiante) frente
a qualquer coisa. Sartre dizia
que quem não sabe escrever
não sabe pensar (no que,
digamos, discrepo). Mas faço
um pequeno sacrifício porque
o artigo é sobre reforma
siquiátrica, e esse assunto
tem atraído leigos, diletantes
e proselitistas das mais diversas
cepas e intenções.
E é a área na qual
ganho meu suado pão, enfim
dou duro durante o dia - e à
noite preciso descansar, o que
está se tornando cada vez
mais difícil com um barulho
desse.
Tenório, que não
sei se é velho ou jovem,
deve ser um neófito. Ou
então saberia que a expressão
"reforma psiquiátrica"
é puro nonsense. Psiquiatria,
em stricto sensu, é uma
ciência (queira ou não
Tenório et caterva) e como
tal "reforma-se" - não
sei se é melhor dizer,
"evolui" - às
custas de mudanças científicas
paradigmáticas. O que se
reforma por movimentos políticos
- ou se quiser, mudanças
de paradigmas políticos
- é a assistência
psiquiátrica. Parênteses:
ninguém é ingênuo
a ponto de não ver que
o que a caterva quer de vera é
a "desconstrução"
da psiquiatria, portando a expressão
"reforma da psiquiatria"
não é nem mesmo
um ato falho. Fecha parênteses.
O opúsculo
tenoriano versa sobre a apresentação
do caso de uma senhora de 54 anos
que permaneceu internada por um
período de 30 anos. Está
se falando de "dona Antônia",
cuja mãe também
"viveu internada" (cf.
Tenório). Quadro atual
(sempre cf. Tenório): "Posição
de total apatia, de indiferença
em relação ao porquê
das coisas que lhe acontecem...
denotou uma ausência quase
total de aspirações...
uma espécie de evitação
radical do desejo...apagada como
sujeito, afastada de toda posição
desejante (sic)... a paciente
não mostrava qualquer sintomatologia
psicótico produtiva e qualquer
fenômeno elementar (neologismo,
descarrilhamento, alucinações,
delírios etc.) Percebeu-se
uma leve perseveração
(repetição de palavras
ou frases) e sua fala e pensamento
tinha conteúdo empobrecido
- o que não informou muito,
pois pode decorrer da apatia,
do desinvestimento da vida. De
resto, a paciente mostrava-se
perfeitamente orientada, sem sinais
de demência ou quadro orgânico."
Diagnóstico: "Demissão
Subjetiva" (sic). Etiologia:
"Cronificação
iatrogênica" (sic)
e "Possível deterioração
por uso prolongado de neuroléticos"
(sic).
Ora, Tenório deve estar
a ouvir estrelas. Quem sabe, entretido
nas líricas tertúlias
políticas do DA da Faculdade
de Psicologia, não tenha
tido tempo de ouvir falar em Emil
Kraepelin e muito menos na Dementia
Praecox. Talvez, ainda, ocupado
na busca da fórmula da
salvação da humanidade,
tenha-lhe passado despercebido
que, como nos informa Kaplan,
a percentagem das "esquizofrenias
devastadoras" tenha caído
de 15% para 5% após a introdução
dos antipsicóticos. Pode
ser que, ocupado com os grandes
e pequenos outros de seu (com
certeza) chique consultório,
não tenha percebido que
uma evolução maligna
da doença se dá
independente da casa, do consultório,
do hospital, do país, da
cultura e, quiçá,
do planeta em que o doente viva.
Mas de onde provém a voz
desse Tenório? Veja quando
ele não vacila em apontar,
com o dedo varonil, o culpado
da sinistra situação:
"...Típico retrato
de uma psiquiatria que privilegia
os sintomas exclui o sujeito...".
Ou seja, uma psiquiatria que promove
"o apagamento da condição
desejante e do sujeito" e
promove a "evitação
radical do sujeito" e é
"afastada de toda posição
desejante" (sic).
E para onde vai a voz desse arauto
de um tempo de messias, que levará
enfim a paz à razão
e à desrazão? Tenório
mesmo responde: "Proponho
que, no que diz respeito à
clínica da psicose, a psicanálise
é [seja] a via privilegiada
para uma efetiva clínica
do sujeito... Há um passo
que cabe a nós psicanalistas
[grifo meu] empreender".
Tenório deve saber que
velhas teses vestidas com roupas
novas faz sucesso em meio a filisteus.
Mas se se cortar o trololó
do Tenório, só sobra
a teoria demodé da "sociose"
como etiologia da doença
mental, que Laing & Cooper
tanto surraram (Tenório
não deve saber que esses
autores desprezavam solenemente
a psicanálise e, mais ainda,
o envolvimento do Estado no tratamento
do louco) em priscas eras, e que
agora reaparecem como farsas repetidas
e requentadas pelo sprit de corps
psicanalítico.
Ora, Tenório, por que você
não vai estudar embriologia?
PS: O dístico do JMP a
partir deste número passa
a ser "O único jornal
de psiquiatria mineiro" (veja
capa).
(Humberto
Campolina)
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