| Em
muitos artigos, publicações
e pronunciamentos acerca da Lei
dos Genéricos em nosso
meio, o termo "indústria
farmacêutica" é
usado de maneira vaga e, freqüentemente,
leva a mal entendidos. Torna-se
cada vez mais necessário
esclarecer acerca de qual "indústria
farmacêutica" estamos
falando para evitar esses mal
entendidos e interpretações
errôneas.
No Brasil, no presente, devemos
diferenciar os seguintes tipos
de indústrias farmacêuticas:
a) Indústria farmacêutica
multinacional ou transnacional
ou ainda internacional: é
constituída por cerca de
70 (setenta) grandes empresas
internacionais que são
responsáveis por aproximadamente
80% (oitenta por cento) do mercado
brasileiro de medicamentos. Estas
empresas são representadas
pela Associação
Brasileira da Indústria
Farmacêutica (ABIFARMA)
que defende os interesses de seus
associados.
b) Indústria farmacêutica
nacional ou local ou doméstica:
constituída por cerca de
400 (quatrocentas) pequenas e
médias empresas nacionais,
que são responsáveis
por aproximadamente 15% (quinze
por cento) do mercado de medicamentos.
Estas empresas são representadas
pela Associação
de Laboratórios Nacionais
(ALANAC).
c) Indústria farmacêutica
governamental: constituída
por cerca de 15 (quinze) laboratórios,
ligados a órgãos
governamentais e que, se funcionassem
a todo vapor, seriam capazes de
abastecer cerca de 5% (cinco por
cento) do mercado nacional . Estes
pequenos laboratórios oficiais
congregam-se na Associação
dos Laboratórios Farmacêuticos
Oficiais do Brasil (ALFOB), que
os representa. De uma maneira
geral essas instituições
funcionam com 50% (cinqüenta
por cento) de sua capacidade devido
à exigüidade de seus
recursos.
Uma característica importante
das empresas multinacionais é
que elas operam em muitos países
e seu capital também costuma
ser de muitas nacionalidades.
As indústrias nacionais
operam apenas no país onde
a indústria está
sediada e seu capital é
constituído usualmente
por acionistas deste mesmo país.
As indústrias estatais
operam apenas no país onde
estão sediadas, e seu acionista
principal, ou único, é
o governo deste país.
Uma outra maneira de classificar
as indústrias farmacêuticas
é dividi-las em "empresas
que produzem remédios originais,
inovadores, ou de marca"
e, de outro lado, "empresas
que produzem medicamentos similares
e agora os genéricos".
De uma maneira geral as empresas
multinacionais são as que
produzem os medicamentos originais
ou inovadores ou de marca já
que, somente elas investem em
pesquisa. As empresas nacionais
são as que usualmente produzem
medicamentos similares e atualmente
os genéricos e não
investem em pesquisa. Os laboratórios
estatais produzem alguns medicamentos
simples e funcionam como uma retaguarda
do governo para tentar suprir
as populações carentes.
Excepcionalmente realizam pesquisa,
como é o caso do Instituto
Butantan e a Fundação
Instituto Oswaldo Cruz (FIOCRUZ).
Até poucos anos atrás,
havia uma outra maneira de classificar
as indústrias farmacêuticas
em "empresas não éticas"
que fabricavam produtos populares
de venda livre e faziam promoções
de seus produtos junto ao público
em geral e de outro lado "as
empresas éticas",
que fabricavam produtos que exigiam
prescrição e que
promoviam seus produtos apenas
junto à classe médica.
Essa distinção atualmente,
já não é
importante, já que o problema
de ética envolve uma multiplicidade
de aspectos que ultrapassam o
simples ato de divulgar os seus
produtos apenas junto à
classe médica ou ao público
em geral. Além disso, a
maioria das indústrias,
industrializa atualmente, tanto
produtos de venda livre (OTC)
quanto os de prescrição
médica.
Ainda mais uma maneira de classificar
as indústrias farmacêuticas
seria de acordo com o estágio
que elas atuam. Segundo Jacob
Frenkel, cada estágio corresponde
a um conjunto de atividades e
conhecimentos específicos
e diferentes entre si:
No primeiro estágio a indústria
é capaz de pesquisar e
de desenvolver novos fármacos.
Esse estágio inclue a obtenção
do fármaco, a realização
de testes pré-clínicos
em laboratórios e os testes
clínicos, com suas diferentes
etapas.
No segundo estágio realiza-se
a industrialização.
O fármaco que, na fase
anterior, era limitado a pequenas
quantidades, para atender a demanda
de testes, passa a ser produzido
em escala industrial.
No terceiro estágio, que
é chamado de formulação,
o fármaco adquire a forma
final de remédio que chegará
ao consumidor. Este pode ter a
forma de cápsula, comprimido,
xarope, pomada ou ampola. Nesse
estágio o fármaco
já não sofre nenhuma
alteração em suas
características químicas.
Segue-se a embalagem.
O quarto estágio é
o de comercialização
e marketing. A propaganda que
é dirigida para a classe
médica tem características
bem diferentes daquela que é
dirigida diretamente ao consumidor.
Trata-se de uma propaganda muito
cara e que freqüentemente
consome o dobro de recursos que
são destinados à
pesquisa.
No Brasil são muito poucas
as empresas multinacionais que
operam nas duas primeiras fases.
Nenhuma empresa nacional opera
nessas fases, com exceção
das estatais que trabalham com
vacinas e soros, como a Fundação
Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) e o Instituto
Butantan. A grande maioria das
indústrias multinacionais
e a totalidade das indústrias
nacionais no Brasil operam apenas
nos dois últimos estágios.
Grande parte das atuais indústrias
farmacêuticas multinacionais
nasceu ao longo do século
XIX (dezenove). A maioria dessas
indústrias teve origem
em pequenas farmácias de
manipulação paroquiais.
Os farmacêuticos e donos
dessas pequenas farmácias
manufaturavam, de maneira artesanal,
alguns produtos que se constituíram
em especialidades dessas farmácias.
Essas especialidades, freqüentemente
tinham composição
secreta. Alguns desses produtos
de maior aceitação
e vendidos inicialmente apenas
no balcão da farmácia
produtora, passaram a ser industrializados
em maior escala e distribuídos
mais amplamente para outras farmácias
menores, onde eram vendidos. Algumas
dessas farmácias produtoras
transformaram-se em gigantes da
indústria farmacêutica
e existem até hoje. Podemos
considerar que, até hoje,
este é o grande sonho de
toda farmácia de manipulação.
Podemos considerar, entretanto,
que o verdadeiro nascimento da
indústria farmacêutica,
tal como ela se apresenta nos
dias de hoje, teve início
no final do século XIX
(dezenove) e início do
século XX (vinte). Em 1889,
durante a exposição
do Centenário da Revolução
Francesa em Paris, os laboratórios
de pesquisa de indústrias
que produziam corantes para o
setor têxtil, como a Ciba
(Suíça) e a Bayer
(Alemanha) se apresentaram com
seus primeiros medicamentos, através
de suas divisões farmacêuticas.
Um desses medicamentos, o *cido
acetilsalicílico ou a Aspirina(r)
da Bayer, viria a ser o mais bem
sucedido produto farmacêutico
de todos os tempos.
Enumeramos abaixo alguns exemplos
de indústrias farmacêuticas
multinacionais que tiveram origem
em farmácias de manipulação
e outras fundadas por médicos,
por químicos ou por empresários,
como empreendimentos puramente
comerciais.
Algumas das que tiveram início
a partir de farmácias de
manipulação ou que
foram fundadas por farmacêuticos
são as seguintes:
-Em 1821 foi fundada a E.Merck
A . G. em Darmstadt (Alemanha),
quando uma antiga e pequena farmácia
familial, fundada em 1668 pelo
farmacêutico Heinrich Emanuel
Merck, passou a manipular e manufaturar
morfina e outros alcalóides
em grande escala.
- Em 1830, um farmacêutico
chamado John K. Smith, associou-se
a outro, chamado Kline e fundaram
em Filadélfia (EUA) uma
empresa industrial com o nome
de Smith, Kline e French. Mais
tarde, em 1989 esta empresa uniu-se
ao laboratório inglês
Beecham e recebeu o nome de Smith
Kline e Beecham. Mais recentemente,
em janeiro de 2000, esta empresa
fundiu-se com a Glaxo Wellcome,
em uma operação
que envolveu cerca de 77 (setenta
e sete) bilhões de dólares,
dando origem a um dos maiores
conglomerados da indústria
farmacêutica do mundo, chamado
de Smith Kline & Beecham,
com capital de cerca de 180 (cento
e oitenta) bilhões de dólares
e com planos de ocupar 10% (dez
por cento) do mercado mundial
de produtos farmacêuticos.
- Em 1845, dois farmacêuticos
de Baltimore (EUA), Alphonsus
Phineas Sharp e Louis Dohme fundaram
a indústria farmacêutica
que recebeu o nome de Sharp &
Dohme. Em meados do século
XX (vinte), isto é, em
1953, esta indústria fundiu-se
com a já mencionada Merck,
fundada em 1821, dando origem
à mega indústria
chamada Merck, Sharp & Dohme.
- Em 1876, o farmacêutico
Eli Lilly, fundou em Indianópolis
(EUA) uma companhia farmacêutica
que existe e que tem seu nome
até hoje e que é
responsável por um dos
maiores sucessos comerciais entre
os psicof*rmacos, o antidepressivo
Fluoxetina - Prozac(r).
- Em 1880, dois farmacêuticos,
graduados pelo Colégio
de Farmácia de Filadélfia
(EUA) fundaram em Londres (Reino
Unido) a indústria farmacêutica
Borroughs Wellcome Company. Esses
farmacêuticos eram Henry
S. Wellcome e Silas S. Borroughs.
Um outro grupo de indústrias
farmacêuticas foi fundada
por médicos. Vamos lembrar
que, na época, em alguns
países, era hábito
relativamente freqüente que
o próprio médico
dispensasse os medicamentos que
prescrevia. Algumas dessas indústrias
são as seguintes:
- Em 1858 foi fundada em Brooklyn
(EUA), pelo médico Edward
R. Squibb, a indústria
E.R. Squibb & Sons. Esta indústria
teve grande sucesso comercial
pelo fato de ter sido escolhida
para suprir de medicamentos as
forças armadas da União
durante a Guerra Civil Americana.
- Em 1885, foi fundada em Kalamazoo
- Michigan (EUA), a Upjohn Pill
and Granule Company. Seus fundadores
foram o medico William E. Upjohn
e seus irmãos. O êxito
desta empresa deveu-se, em grande
parte, às suas "pílulas
solúveis ou friáveis",
devidamente patenteadas. Uma análise
dessas pílulas evidencia
que, 30 (trinta) delas eram produtos
vegetais; 20 (vinte) eram de origem
química; 5 (cinco) eram
alcalóides.
Um terceiro grupo de indústrias
foi fundado por químicos
e teve origem em indústrias
químicas, em particular
em indústrias de corantes,
que vendiam seus produtos para
as farmácias que fabricavam
medicamentos ou para as indústrias
farmacêuticas incipientes:
- Em 1849, nasceu a Pfizer em
Baltimore (EUA). Está indústria
foi fundada por Charles Pfizer,
um químico alemão
refugiado nos Estados Unidos.
- Em 1849, foi fundada a Rhone
Poulenc, na Cidade de Rhone na
França. Esta indústria
nasceu a partir de uma pequena
indústria de química
fina e seu fundador foi Etiene
Poulenc.
- Em 1859, foi fundada a Ciba
em Basiléia (Suíça),
como uma pequena fábrica
de corantes. Esta empresa transformou-se
rapidamente em um grande complexo
industrial, com um capital de
2,5 (dois e meio) milhões
de francos suíços,
em 1884. Mais tarde a Ciba fundiu-se
com a Geigy dando origem à
Ciba Geigy, depois Biogalênica
a qual, mais recentemente, fundiu-se
com a Sandoz, dando origem à
Novartis.
- Em 1863, foi fundada a Farbenwerke
Hoechst na cidade de Hoechst (Alemanha),
a partir de uma pequena indústria
química. Em 1907, a Hoechst,
que vinha trabalhando de forma
sistem*tica com compostos arsenobenzóicos,
lança uma arsfenamina o
Salvarsan(r), destinado ao tratamento
da sífilis. O Salvarsan(r)
deu a Paul Ehrlich, em 1908, o
Prêmio Nobel de Medicina
e transformou a Hoechst, de uma
pequena indústria paroquial,
em uma transnacional, com o lançamento
de um produto eficaz, obtido através
da verificação sistemática
de efeitos biológicos,
produzidos por substâncias
químicas sintéticas.
No ano de 2000 a fusão
da Hoechst Marion Roussel e da
Rhodia Pharma deu origem à
Aventis Pharma, empresa com capacidade
de investimento de cerca de 2,5
(dois e meio) bilhões de
dólares anuais.
- Em 1886, foi fundada a Sandoz
Química na Suíça,
também a partir de uma
indústria de corantes,
recentemente fundida com a Ciba
Geigy, que deu origem à
Novartis.
Algumas indústrias farmacêuticas
tiveram origem como empreendimentos
puramente comerciais e foram fundadas
por empresários sem nenhum
treino ou experiência em
química, farmácia
ou medicina. Entre outras, podemos
enumerar as seguintes:
- Em 1758, foi fundada em Basiléia
(Suíça), uma empresa
que negociava com especiarias,
corantes e drogas. Seu fundador
foi um comerciante chamado Johann
Rudolph Geigy. Essa casa comercial
transformou-se mais tarde na potente
Geigy A. G., indústria
líder no ramo de antidepressivos
e outras drogas. Mais tarde fundiu-se
com a Ciba dando origem a Biogalênica
e mais recentemente com a Sandoz
dando origem a atual Novartis.
- Em 1886, foi fundada a Johnson
& Johnson em New Brunswick,
New Jersey (EUA).
- Em 1887, foi fundada a Bristol
Mayers, em Clinton, Nova York
(EUA). Esta empresa fundiu-se
mais tarde com a Squibb dando
origem a Bristol-Mayers-Squibb.
Existem no mundo aproximadamente
120 (cento e vinte) indústrias
farmacêuticas multinacionais.
Em 1990 o faturamento anual da
indústria farmacêutica
multinacional era de 100 (cem)
bilhões de dólares.
Elas detém 90% (noventa
por cento) do comércio
mundial de medicamentos. Isto
representa em 2000 uma cifra astronômica
de US$ 200.000.000.000 (duzentos
bilhões) de dólares
por ano. Deve ser destacado que
25 (vinte e cinco) empresas desse
total de 120 (cento e vinte),
controlam 60% (sessenta por cento)
do total desse mercado. Uma delas,
a já mencionada Smith Kline
Beecham tem planos para ocupar
10% (dez por cento) do mercado
mundial de medicamentos. Este
percentual já é
uma cifra impressionante, e representa
o dobro do mercado anual brasileiro,
que é de apenas US$ 10.000.000.000
(dez bilhões) de dólares
ou R$ 20.000.000.000 (vinte bilhões)
de reais.
No Brasil, cerca de 70 (setenta)
indústrias multinacionais
são responsáveis
pela produção de
aproximadamente 80% (oitenta por
cento) do mercado nacional de
medicamentos. Este percentual
equivale a US$ 10.000.000.000
(dez bilhões) de dólares
ou R$ 20.000.000.000 (vinte bilhões)
de reais por ano. Esta cifra,
ainda que impressionante, representa
apenas 5% (cinco por cento) do
faturamento anual mundial da indústria
farmacêutica multinacional.
Este montante coloca o Brasil
em 4º (quarto) lugar no ranking
mundial de consumo de medicamentos,
apesar do consumo per capita por
ano, no Brasil, ser apenas de
US$ 15 (quinze) dólares,
o que é considerado muito
pouco quando comparado com o consumo
per capita nos países desenvolvidos,
que pode chegar a US$ 150 (cento
e cinqüenta dólares).
As indústrias multinacionais,
como já foi dito, são
as responsáveis pela industrialização
de produtos inovadores, originais
ou de marca e que investem em
pesquisa. Entretanto a maioria
delas industrializa também
produtos não éticos
ou populares, isto é, não
sujeitos a prescrição
médica. Em inglês
estes últimos recebem o
nome de "over the counter"
(O. T. C.) - ou medicamentos de
balcão.
Muitas dessas empresas abrigaram
e abrigam em seus quadros investigadores
muito importantes, respons*veis
por grandes avanços da
terapêutica farmacológica.
Apenas a guiza de exemplos podemos
mencionar a síntese do
*cido acetilsalicílico
(Aspirina(r)) da Bayer, em 1987
e que, cem anos depois continua
sendo o f*rmaco mais bem sucedido
do mundo. A síntese do
primeiro medicamento eficaz para
o tratamento da sífilis,
o arsenobenzóico (Salvarsan(r)),
no laboratório da Hoechst,
e que valeu a Paul Ehrlich o Prêmio
Nobel de Medicina, em 1908. A
descoberta da penicilina por Fleming,
que trabalhava para a indústria
Beecham e que também lhe
valeu um Prêmio Nobel em
1940. A descoberta da cimetidina
(Tagamet(r)), em 1960, em estudos
desenvolvidos na indústria
Smith Kline e que também
fez juz a um Prêmio Nobel.
A pesquisa desenvolvida na indústria
ICI (hoje Zeneca) entre 1958 e
1964 e que levou à descoberta
do primeiro betabloqueador clinicamente
avaliado e que valeu a Sir James
Black o Prêmio Nobel de
Medicina em 1988.
Podemos ainda mencionar a descoberta
dos efeitos antidepressivos da
imipramina (Tofranil(r)) por Ronald
Kuhn em 1959 e o desenvolvimento
de toda uma família de
antidepressivos tricíclicos
pela então Ciba-Geigy.
A síntese do primeiro benzodiazepínico,
o clordiazepóxido (Librium(r)),
pelo judeu polonês Leo Sternbach,
e o desenvolvimento de toda uma
família de benzodiazepínicos
pela indústria Roche, a
partir da década de 1960.
O período de duas décadas,
compreendidas entre 1940 e 1960,
constituiu-se no período
áureo da indústria
farmacêutica multinacional.
Durante esse período houve
a descoberta e o lançamento
de um grande número de
produtos inovadores, como sulfas,
penicilina e outros antibióticos,
hormônios esteróides,
betabloqueadores e antipsicóticos.
Nesta época a indústria
farmacêutica multinacional
gozava de grande prestígio,
admiração e respeito
por parte da comunidade de todos
os países. Essa situação
foi muito abalada no período
compreendido entre 1960 e 1970,
quando o senado americano identificou
ligações espúrias
entre a indústria farmacêutica
americana e a medicina americana
organizada, entre a indústria
farmacêutica e as revistas
médicas e também,
de como as indústrias farmacêuticas
norte americanas e européias
promoviam seus produtos nos países
em desenvolvimento e do terceiro
mundo, enaltecendo as suas propriedades
terapêuticas e omitindo
ou minimizando os efeitos colaterais
e tóxicos. Este foi também
o período do grande desastre
da talidomida, quando em 1959
houve os primeiros relatos de
focomelia e, em 1961, antes que
o produto fosse retirado do mercado,
havia a previsão de cerca
de 10.000 (dez mil) crianças
deformadas em vinte países.
Acreditamos que seremos capazes
de entender melhor alguns problemas
ligados à indústria
farmacêutica multinacional
e aos choques inevitáveis
entre essas indústrias
e os governos, principalmente
os governos de países em
desenvolvimento e do terceiro
mundo, se soubermos alguma coisa
acerca de multinacionais em geral.
Neste capítulo tentamos
enumerar algumas características
das multinacionais em geral e
esboçar algumas considerações
acerca das mesmas. Grande parte
do que escrevemos é uma
transcrição de textos
de alguns mestres de economia
como Roberto Campos e Mário
Henrique Simonsen.
A história das multinacionais
remonta ao século XVII.
Nessa época o comércio
e a distribuição
dos produtos orientais na Europa
era um monopólio de Portugal
e decorreria da sua supremacia
naval no Oceano Índico.
A partir de 1640 as rotas navais
portuguesas foram desbaratadas
pela Holanda e pela Inglaterra.
Nessa época foi fundada,
na Holanda, uma empresa com uma
estrutura acionista formada pelas
câmaras de seis cidades
dos Países Baixos, além
de ter o capital aberto a toda
a população. Esta
foi, provavelmente, a primeira
multinacional do mundo. Esta empresa
monopolizou o comércio
de porcelana chinesa por mais
de três séculos e
por ser muito rentável
gerou a expressão popular
"negócio da China".
No correr de três séculos
e meio foram criadas empresas
análogas em muitos países.
Algumas dessas empresas foram
muito bem sucedidas e continuam
realizando "negócios
da china" fora da área
de porcelana. Estas empresas são
as chamadas multinacionais ou
transnacionais. A indústria
farmacêutica multinacional
pertence a esta categoria de empresas.
Para entender melhor o tema lembramos
aqui uma classificação
elaborada pelo demógrafo
francês Alfred Sanny, na
década de 1950, que classificava
os países em geral da seguinte
maneira: Países do primeiro
mundo que compreendiam a maior
parte da Europa Ocidental mais
os Estados Unidos e o Japão.
Países do segundo mundo
que eram constituídos por
países comunistas, como
a antiga União Soviética
e alguns países europeus
mais pobres como Grécia,
Portugal e Turquia. Países
de terceiro mundo que compreendiam
a maior parte dos países
da América do Sul e da
África. Com o desaparecimento
da União Soviética
e algum avanço de países
do antigo terceiro mundo, alguns
desses últimos passaram
a ser chamados, eufemisticamente,
de "paises emergentes"
ou "em desenvolvimento",
como é o caso do Brasil.
A maior parte das multinacionais
ou transnacionais teve sua origem
em países do primeiro mundo.
No que se refere ao comportamento
dos países emergentes ou
em desenvolvimento em relação
a essas empresas, ele tem variado
em diferentes épocas e
regiões.
No período de 1950 a 1970,
no Brasil, assim como na maior
parte dos países subdesenvolvidos
ou eufemisticamente chamados "em
desenvolvimento" as palavras
de ordem mais ouvidas eram "fora
com as multinacionais e fora com
o imperialismo dos países
do primeiro mundo".
Segundo Mario Henrique Simonsen,
uma das teses do nacionalismo
xenófobo e em particular
das esquerdas brasileiras, era
a necessidade de deter a invasão
das multinacionais que somente
se interessam em explorar a nossa
mão-de-obra barata, sangrar
o balanço de pagamentos
com a remessa de lucros para o
exterior, submeter-nos a dependência
tecnológica e transferir
para fora das fronteiras nacionais
a decisão sobre produção
e investimentos.
A partir de 1970 na maior parte
desses países em desenvolvimento,
de todo o mundo, a mentalidade
foi mudando e, atualmente, a palavra
de ordem é outra: "bem
vindo o capital estrangeiro e
as multinacionais". O capital
estrangeiro foi santificado num
altar, como anjo da guarda do
desenvolvimento e ferramenta indispensável
para qualquer país que
sonhe em sair do atraso. Do leste
Europeu, pós-comunista,
aos formigueiros humanos do sudeste
asiático, todos tentam
conseguir investimentos das multinacionais.
Simonsen afirma ainda que a média
anual de capital estrangeiro,
investido nesses países,
era de 25 (vinte e cinco) bilhões
de dólares entre 1986 e
1990. Em 1992, cerca de 50 (cinqüenta)
bilhões de dólares
saíram dos países
ricos para os países do
terceiro mundo, sob a forma de
investimentos diretos. No período
de 1985 a 1993, foram investidos
pelas multinacionais cerca de
300 (trezentos) bilhões
de dólares na compra de
estatais colocadas à venda
dentro de planos de privatização
ousados, como os que ocorreram
na Espanha, Argentina e na Inglaterra
na década de 80 (oitenta)
e estão ocorrendo, com
certo atraso no Brasil, na década
de 90 (noventa).
No transcurso da última
década, observa-se grande
competição por parte
de governadores de alguns estados
brasileiros, em torno da instalação
de montadoras de automóveis,
em seus respectivos Estados. Oferecem-se
vantagens em termos de subsídios,
isenção de impostos
e infra-estrutura para atrair
essas empresas. Aprendeu-se, enfim,
que essas empresas geram empregos
diretos e indiretos, fomentam
o aparecimento de indústrias
de auto-peças, desenvolvem
mão-de-obra especializada,
pagam impostos, podem aumentar
as exportações e
dão prestígio ao
estado, atraindo outras empresas.
Esta mentalidade somente foi adquirida
após muitas décadas
de rejeição xenófoba
sistemática.
Um balanço dos últimos
anos tem mostrado que o Brasil
tem se saído muito bem
na disputa de investimentos estrangeiros.
Um estudo mostra que fluxo de
investimentos diretos cresceu
de 68% (sessenta e oito por cento)
nos últimos três
anos. Em 1997 este investimento
foi de 15 (quinze) bilhões,
em 1998 foi de 29 (vinte e nove)
bilhões e em 1999 foi de
31 (trinta e um) bilhões
de dólares.
Segundo Simonsen, a conclusão
de que as multinacionais não
devem ser tão diabólicas
como alardeia a esquerda brasileira,
decorre de alguns conceitos errados
e interpretações
capciosas acerca do papel dessas
multinacionais. O conceito atrasado
e ultrapassado das esquerdas brasileiras
é de que, para o país,
é preferível o capital
estrangeiro de empréstimo
ao capital estrangeiro de risco.
Isto propicia uma discussão
e atitudes deformadas e às
vezes ignorantes, por parte de
uma minoria, que faz muito barulho
e que, muitas vezes, consegue
influir nas decisões governamentais.
O capital estrangeiro de risco,
sob a forma de empresas multinacionais,
que se instalam no país,
ou que adquirem empresas estatais
deficientes e as transforme em
empresas rentáveis, é
encarado por essas esquerdas ou
por nacionalistas xenófobos,
como uma ameaça à
autonomia do país.
Ainda segundo Simonsen, "o
que desejam as multinacionais
é óbvio: diversificar
geograficamente as suas operações,
de modo a reduzir seus custos
e riscos e assim remunerar melhor
os seus acionistas. A idéia
de que elas abalam o poder do
governo nacional, transferindo
os centros de decisão para
o exterior, para o país
de origem de suas sedes centrais,
decorre de uma confusão
conceitual entre capitalismo de
estado e capitalismo privado.
Uma Sony ou uma IBM ou General
Motors ou Roche ou Novartis ou
Smith Kline Beecham não
são controladas por nenhum
governo. Na realidade, muitas
delas nem possuem acionista controlador,
pois seu capital está disperso
por uma multidão de pequenos,
médios e grandes acionistas.
Seus dirigentes, para se manter
nos cargos, tratam de defender
os interesses de seus acionistas
e não do governo japonês,
americano, suíço,
ou qualquer outro. O mesmo fazem
as empresas privadas nacionais
brasileiras, que defendem os interesses
de seus donos e não do
governo ou de partidos políticos
ou de sindicatos. "No que
tange à informação
que as multinacionais somente
viriam ao Brasil para aproveitar
a mão-de-obra barata, ela
é absolutamente verdadeira
e também óbvia:
nenhuma multinacional é
instituição de caridade
e não teria nenhum interesse
em investir no Brasil, se os salários
aqui fossem mais altos que nos
Estados Unidos, Europa, Japão
ou mesmo Argentina, Chile ou México.
A desinformação
ai se refere ao fato de que a
disputa por mão-de-obra
barata gera empregos e a criação
de empregos torna a mão-de-obra
menos barata. É isto que
realmente interessa, e o que acontece
freqüentemente no Brasil,
onde as multinacionais existentes
pagam a seus empregados cerca
de 40% (quarenta por cento) a
mais que as empresas nacionais,
sejam estatais, sejam privadas.
O trabalhador brasileiro, como
de qualquer outro país,
não tem muito interesse
em saber se o controle da empresa
pertence a americanos, japoneses
ou alemães. O que realmente
interessa ao trabalhador, de qualquer
nacionalidade, é o quanto
ele ganha e de como ele é
tratado pela empresa, seja nacional,
ou multinacional".
Mas a meta deste artigo não
é discutir a nossa política
econômica e as privatizações
de nossas instituições.
O que foi escrito nesse tópico
em grande parte foi transcrito
de artigos acerca de nossa economia
de autoria de Henrique Simonsen.
A sua meta é lembrar, para
aqueles que não são
versados em economia, o que são
multinacionais ou transnacionais,
quais são algumas de suas
características e, por
fim que a maior parte das indústrias
farmacêuticas existentes
no Brasil, representadas pela
Associação Brasileira
da Indústria Farmacêutica
(ABIFARMA), são constituídas
por multinacionais ou transnacionais,
com todas as características
genéricas das multinacionais
em geral.
O fato dessas empresas produzirem
medicamentos e não automóveis,
computadores, maquinários,
geladeiras ou roupas, não
as torna diferentes. A meta de
todas elas é produzir lucros.
Também desejamos chamar
a atenção de que
está para ser provado que
empresas nacionais e, em particular
a indústria farmacêutica
nacional, tem metas diferentes,
entre as quais produzir medicamentos
baratos para a população,
reduzindo os lucros de seus donos
e os ordenados de seus diretores.
Isto não é verdade.
O que mais sonham os donos de
indústrias farmacêuticas
nacionais é transformar-se
em multinacionais.
Por fim, desejamos mencionar que,
no caso de grandes empresas farmacêuticas
multinacionais, existem certas
regras de sobrevivência
que devem ser cumpridas. Uma dessas
regras é que a lucratividade
dessas empresas é função,
também, de seu tamanho.
Um raciocínio análogo
pode ser aplicado a produção
de computadores, televisores,
geladeiras, roupas, bebidas, perfumes
e também medicamentos.
É por isto que se observa
fusões freqüentes
em todas essas áreas. A
meta dessas fusões é
reduzir os custos e aumentar os
lucros. Este raciocínio
é válido para qualquer
área, como a automobilística,
informática, têxtil,
e também a área
de medicamentos que são
setores que exigem um investimento
continuado em pesquisa e inovação
continuada, que possa garantir
a sua competitividade e sobrevivência
ao longo do tempo.
Constatamos que, no transcurso
das duas últimas décadas,
na maior parte dos países
em desenvolvimento, observa-se
uma atitude cada vez menos hostil
em relação a multinacionais
em geral.
Este fenômeno não
ocorre em relação
as multinacionais farmacêuticas
que, de uma maneira geral, são
tratadas pelos governos desses
países, pela imprensa e
pela comunidade em geral, com
grande e crescente hostilidade.
Parece que este fato ocorre como
conseqüência da própria
conceituação do
que seja um medicamento, para
as partes envolvidas.
Para a indústria farmacêutica
o medicamento é um produto
industrializado, como qualquer
outro e, portanto deve gerar lucro,
para assegurar dividendos para
seus acionistas, ordenados altos
para seus executivos e garantir
o ressarcimento dos investimentos
feitos em pesquisa e em promoção
de seus produtos.
Para os governos e para os órgãos
assistenciais, o medicamento é
considerado como um instrumento
importante para promover a saúde
da população, principalmente
das camadas mais pobres desta
população e, portanto,
deve ser barato.
Estes dois pontos de vista divergentes
e aparentemente irreconciliáveis
configuram um óbvio conflito
de interesses que nunca foi resolvido
satisfatoriamente.
Referências Bibliográficas:
_ Campos, Roberto
A Lanterna na Popa
Top books - Editora e Distribuidora
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_ Peters, Georges
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O Correio da Unesco - Ano 15,
Nº 10, out 1987
_ Silverman, M.; Lydecker M.;
Lee P.R;
Bad Medicine - The prescription
drug industry in the third world
Ed. Stanford University Press,
358 pg. 1992
Revista "VEJA" - O risco
de Optar
Ed. 997 4 outubro 1987
Revista "VEJA" - Informe
Publicitário da ABIFARMA
Ed. 1611 18 agosto 1999
Revista "VEJA" - Informe
Publicitário da ABIFARMA
Ed. 1622 03 novembro 1999
Revista "VEJA" - Quem
tem medo dos estrangeiros
Ed. 1632 19 janeiro 2000
(Jorge
Paprocki)
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