análise
ano VI - edição 15 - belo horizonte - mg

A indústria farmacêutica multinacional

Em muitos artigos, publicações e pronunciamentos acerca da Lei dos Genéricos em nosso meio, o termo "indústria farmacêutica" é usado de maneira vaga e, freqüentemente, leva a mal entendidos. Torna-se cada vez mais necessário esclarecer acerca de qual "indústria farmacêutica" estamos falando para evitar esses mal entendidos e interpretações errôneas.
No Brasil, no presente, devemos diferenciar os seguintes tipos de indústrias farmacêuticas:
a) Indústria farmacêutica multinacional ou transnacional ou ainda internacional: é constituída por cerca de 70 (setenta) grandes empresas internacionais que são responsáveis por aproximadamente 80% (oitenta por cento) do mercado brasileiro de medicamentos. Estas empresas são representadas pela Associação Brasileira da Indústria Farmacêutica (ABIFARMA) que defende os interesses de seus associados.
b) Indústria farmacêutica nacional ou local ou doméstica: constituída por cerca de 400 (quatrocentas) pequenas e médias empresas nacionais, que são responsáveis por aproximadamente 15% (quinze por cento) do mercado de medicamentos. Estas empresas são representadas pela Associação de Laboratórios Nacionais (ALANAC).
c) Indústria farmacêutica governamental: constituída por cerca de 15 (quinze) laboratórios, ligados a órgãos governamentais e que, se funcionassem a todo vapor, seriam capazes de abastecer cerca de 5% (cinco por cento) do mercado nacional . Estes pequenos laboratórios oficiais congregam-se na Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Oficiais do Brasil (ALFOB), que os representa. De uma maneira geral essas instituições funcionam com 50% (cinqüenta por cento) de sua capacidade devido à exigüidade de seus recursos.
Uma característica importante das empresas multinacionais é que elas operam em muitos países e seu capital também costuma ser de muitas nacionalidades. As indústrias nacionais operam apenas no país onde a indústria está sediada e seu capital é constituído usualmente por acionistas deste mesmo país. As indústrias estatais operam apenas no país onde estão sediadas, e seu acionista principal, ou único, é o governo deste país.
Uma outra maneira de classificar as indústrias farmacêuticas é dividi-las em "empresas que produzem remédios originais, inovadores, ou de marca" e, de outro lado, "empresas que produzem medicamentos similares e agora os genéricos". De uma maneira geral as empresas multinacionais são as que produzem os medicamentos originais ou inovadores ou de marca já que, somente elas investem em pesquisa. As empresas nacionais são as que usualmente produzem medicamentos similares e atualmente os genéricos e não investem em pesquisa. Os laboratórios estatais produzem alguns medicamentos simples e funcionam como uma retaguarda do governo para tentar suprir as populações carentes. Excepcionalmente realizam pesquisa, como é o caso do Instituto Butantan e a Fundação Instituto Oswaldo Cruz (FIOCRUZ).
Até poucos anos atrás, havia uma outra maneira de classificar as indústrias farmacêuticas em "empresas não éticas" que fabricavam produtos populares de venda livre e faziam promoções de seus produtos junto ao público em geral e de outro lado "as empresas éticas", que fabricavam produtos que exigiam prescrição e que promoviam seus produtos apenas junto à classe médica. Essa distinção atualmente, já não é importante, já que o problema de ética envolve uma multiplicidade de aspectos que ultrapassam o simples ato de divulgar os seus produtos apenas junto à classe médica ou ao público em geral. Além disso, a maioria das indústrias, industrializa atualmente, tanto produtos de venda livre (OTC) quanto os de prescrição médica.
Ainda mais uma maneira de classificar as indústrias farmacêuticas seria de acordo com o estágio que elas atuam. Segundo Jacob Frenkel, cada estágio corresponde a um conjunto de atividades e conhecimentos específicos e diferentes entre si:
No primeiro estágio a indústria é capaz de pesquisar e de desenvolver novos fármacos. Esse estágio inclue a obtenção do fármaco, a realização de testes pré-clínicos em laboratórios e os testes clínicos, com suas diferentes etapas.
No segundo estágio realiza-se a industrialização. O fármaco que, na fase anterior, era limitado a pequenas quantidades, para atender a demanda de testes, passa a ser produzido em escala industrial.
No terceiro estágio, que é chamado de formulação, o fármaco adquire a forma final de remédio que chegará ao consumidor. Este pode ter a forma de cápsula, comprimido, xarope, pomada ou ampola. Nesse estágio o fármaco já não sofre nenhuma alteração em suas características químicas. Segue-se a embalagem.
O quarto estágio é o de comercialização e marketing. A propaganda que é dirigida para a classe médica tem características bem diferentes daquela que é dirigida diretamente ao consumidor. Trata-se de uma propaganda muito cara e que freqüentemente consome o dobro de recursos que são destinados à pesquisa.
No Brasil são muito poucas as empresas multinacionais que operam nas duas primeiras fases. Nenhuma empresa nacional opera nessas fases, com exceção das estatais que trabalham com vacinas e soros, como a Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) e o Instituto Butantan. A grande maioria das indústrias multinacionais e a totalidade das indústrias nacionais no Brasil operam apenas nos dois últimos estágios.
Grande parte das atuais indústrias farmacêuticas multinacionais nasceu ao longo do século XIX (dezenove). A maioria dessas indústrias teve origem em pequenas farmácias de manipulação paroquiais. Os farmacêuticos e donos dessas pequenas farmácias manufaturavam, de maneira artesanal, alguns produtos que se constituíram em especialidades dessas farmácias. Essas especialidades, freqüentemente tinham composição secreta. Alguns desses produtos de maior aceitação e vendidos inicialmente apenas no balcão da farmácia produtora, passaram a ser industrializados em maior escala e distribuídos mais amplamente para outras farmácias menores, onde eram vendidos. Algumas dessas farmácias produtoras transformaram-se em gigantes da indústria farmacêutica e existem até hoje. Podemos considerar que, até hoje, este é o grande sonho de toda farmácia de manipulação.
Podemos considerar, entretanto, que o verdadeiro nascimento da indústria farmacêutica, tal como ela se apresenta nos dias de hoje, teve início no final do século XIX (dezenove) e início do século XX (vinte). Em 1889, durante a exposição do Centenário da Revolução Francesa em Paris, os laboratórios de pesquisa de indústrias que produziam corantes para o setor têxtil, como a Ciba (Suíça) e a Bayer (Alemanha) se apresentaram com seus primeiros medicamentos, através de suas divisões farmacêuticas. Um desses medicamentos, o *cido acetilsalicílico ou a Aspirina(r) da Bayer, viria a ser o mais bem sucedido produto farmacêutico de todos os tempos.
Enumeramos abaixo alguns exemplos de indústrias farmacêuticas multinacionais que tiveram origem em farmácias de manipulação e outras fundadas por médicos, por químicos ou por empresários, como empreendimentos puramente comerciais.
Algumas das que tiveram início a partir de farmácias de manipulação ou que foram fundadas por farmacêuticos são as seguintes:
-Em 1821 foi fundada a E.Merck A . G. em Darmstadt (Alemanha), quando uma antiga e pequena farmácia familial, fundada em 1668 pelo farmacêutico Heinrich Emanuel Merck, passou a manipular e manufaturar morfina e outros alcalóides em grande escala.
- Em 1830, um farmacêutico chamado John K. Smith, associou-se a outro, chamado Kline e fundaram em Filadélfia (EUA) uma empresa industrial com o nome de Smith, Kline e French. Mais tarde, em 1989 esta empresa uniu-se ao laboratório inglês Beecham e recebeu o nome de Smith Kline e Beecham. Mais recentemente, em janeiro de 2000, esta empresa fundiu-se com a Glaxo Wellcome, em uma operação que envolveu cerca de 77 (setenta e sete) bilhões de dólares, dando origem a um dos maiores conglomerados da indústria farmacêutica do mundo, chamado de Smith Kline & Beecham, com capital de cerca de 180 (cento e oitenta) bilhões de dólares e com planos de ocupar 10% (dez por cento) do mercado mundial de produtos farmacêuticos.
- Em 1845, dois farmacêuticos de Baltimore (EUA), Alphonsus Phineas Sharp e Louis Dohme fundaram a indústria farmacêutica que recebeu o nome de Sharp & Dohme. Em meados do século XX (vinte), isto é, em 1953, esta indústria fundiu-se com a já mencionada Merck, fundada em 1821, dando origem à mega indústria chamada Merck, Sharp & Dohme.
- Em 1876, o farmacêutico Eli Lilly, fundou em Indianópolis (EUA) uma companhia farmacêutica que existe e que tem seu nome até hoje e que é responsável por um dos maiores sucessos comerciais entre os psicof*rmacos, o antidepressivo Fluoxetina - Prozac(r).
- Em 1880, dois farmacêuticos, graduados pelo Colégio de Farmácia de Filadélfia (EUA) fundaram em Londres (Reino Unido) a indústria farmacêutica Borroughs Wellcome Company. Esses farmacêuticos eram Henry S. Wellcome e Silas S. Borroughs.
Um outro grupo de indústrias farmacêuticas foi fundada por médicos. Vamos lembrar que, na época, em alguns países, era hábito relativamente freqüente que o próprio médico dispensasse os medicamentos que prescrevia. Algumas dessas indústrias são as seguintes:
- Em 1858 foi fundada em Brooklyn (EUA), pelo médico Edward R. Squibb, a indústria E.R. Squibb & Sons. Esta indústria teve grande sucesso comercial pelo fato de ter sido escolhida para suprir de medicamentos as forças armadas da União durante a Guerra Civil Americana.
- Em 1885, foi fundada em Kalamazoo - Michigan (EUA), a Upjohn Pill and Granule Company. Seus fundadores foram o medico William E. Upjohn e seus irmãos. O êxito desta empresa deveu-se, em grande parte, às suas "pílulas solúveis ou friáveis", devidamente patenteadas. Uma análise dessas pílulas evidencia que, 30 (trinta) delas eram produtos vegetais; 20 (vinte) eram de origem química; 5 (cinco) eram alcalóides.
Um terceiro grupo de indústrias foi fundado por químicos e teve origem em indústrias químicas, em particular em indústrias de corantes, que vendiam seus produtos para as farmácias que fabricavam medicamentos ou para as indústrias farmacêuticas incipientes:
- Em 1849, nasceu a Pfizer em Baltimore (EUA). Está indústria foi fundada por Charles Pfizer, um químico alemão refugiado nos Estados Unidos.
- Em 1849, foi fundada a Rhone Poulenc, na Cidade de Rhone na França. Esta indústria nasceu a partir de uma pequena indústria de química fina e seu fundador foi Etiene Poulenc.
- Em 1859, foi fundada a Ciba em Basiléia (Suíça), como uma pequena fábrica de corantes. Esta empresa transformou-se rapidamente em um grande complexo industrial, com um capital de 2,5 (dois e meio) milhões de francos suíços, em 1884. Mais tarde a Ciba fundiu-se com a Geigy dando origem à Ciba Geigy, depois Biogalênica a qual, mais recentemente, fundiu-se com a Sandoz, dando origem à Novartis.
- Em 1863, foi fundada a Farbenwerke Hoechst na cidade de Hoechst (Alemanha), a partir de uma pequena indústria química. Em 1907, a Hoechst, que vinha trabalhando de forma sistem*tica com compostos arsenobenzóicos, lança uma arsfenamina o Salvarsan(r), destinado ao tratamento da sífilis. O Salvarsan(r) deu a Paul Ehrlich, em 1908, o Prêmio Nobel de Medicina e transformou a Hoechst, de uma pequena indústria paroquial, em uma transnacional, com o lançamento de um produto eficaz, obtido através da verificação sistemática de efeitos biológicos, produzidos por substâncias químicas sintéticas. No ano de 2000 a fusão da Hoechst Marion Roussel e da Rhodia Pharma deu origem à Aventis Pharma, empresa com capacidade de investimento de cerca de 2,5 (dois e meio) bilhões de dólares anuais.
- Em 1886, foi fundada a Sandoz Química na Suíça, também a partir de uma indústria de corantes, recentemente fundida com a Ciba Geigy, que deu origem à Novartis.
Algumas indústrias farmacêuticas tiveram origem como empreendimentos puramente comerciais e foram fundadas por empresários sem nenhum treino ou experiência em química, farmácia ou medicina. Entre outras, podemos enumerar as seguintes:
- Em 1758, foi fundada em Basiléia (Suíça), uma empresa que negociava com especiarias, corantes e drogas. Seu fundador foi um comerciante chamado Johann Rudolph Geigy. Essa casa comercial transformou-se mais tarde na potente Geigy A. G., indústria líder no ramo de antidepressivos e outras drogas. Mais tarde fundiu-se com a Ciba dando origem a Biogalênica e mais recentemente com a Sandoz dando origem a atual Novartis.
- Em 1886, foi fundada a Johnson & Johnson em New Brunswick, New Jersey (EUA).
- Em 1887, foi fundada a Bristol Mayers, em Clinton, Nova York (EUA). Esta empresa fundiu-se mais tarde com a Squibb dando origem a Bristol-Mayers-Squibb.
Existem no mundo aproximadamente 120 (cento e vinte) indústrias farmacêuticas multinacionais. Em 1990 o faturamento anual da indústria farmacêutica multinacional era de 100 (cem) bilhões de dólares. Elas detém 90% (noventa por cento) do comércio mundial de medicamentos. Isto representa em 2000 uma cifra astronômica de US$ 200.000.000.000 (duzentos bilhões) de dólares por ano. Deve ser destacado que 25 (vinte e cinco) empresas desse total de 120 (cento e vinte), controlam 60% (sessenta por cento) do total desse mercado. Uma delas, a já mencionada Smith Kline Beecham tem planos para ocupar 10% (dez por cento) do mercado mundial de medicamentos. Este percentual já é uma cifra impressionante, e representa o dobro do mercado anual brasileiro, que é de apenas US$ 10.000.000.000 (dez bilhões) de dólares ou R$ 20.000.000.000 (vinte bilhões) de reais.
No Brasil, cerca de 70 (setenta) indústrias multinacionais são responsáveis pela produção de aproximadamente 80% (oitenta por cento) do mercado nacional de medicamentos. Este percentual equivale a US$ 10.000.000.000 (dez bilhões) de dólares ou R$ 20.000.000.000 (vinte bilhões) de reais por ano. Esta cifra, ainda que impressionante, representa apenas 5% (cinco por cento) do faturamento anual mundial da indústria farmacêutica multinacional. Este montante coloca o Brasil em 4º (quarto) lugar no ranking mundial de consumo de medicamentos, apesar do consumo per capita por ano, no Brasil, ser apenas de US$ 15 (quinze) dólares, o que é considerado muito pouco quando comparado com o consumo per capita nos países desenvolvidos, que pode chegar a US$ 150 (cento e cinqüenta dólares).
As indústrias multinacionais, como já foi dito, são as responsáveis pela industrialização de produtos inovadores, originais ou de marca e que investem em pesquisa. Entretanto a maioria delas industrializa também produtos não éticos ou populares, isto é, não sujeitos a prescrição médica. Em inglês estes últimos recebem o nome de "over the counter" (O. T. C.) - ou medicamentos de balcão.
Muitas dessas empresas abrigaram e abrigam em seus quadros investigadores muito importantes, respons*veis por grandes avanços da terapêutica farmacológica. Apenas a guiza de exemplos podemos mencionar a síntese do *cido acetilsalicílico (Aspirina(r)) da Bayer, em 1987 e que, cem anos depois continua sendo o f*rmaco mais bem sucedido do mundo. A síntese do primeiro medicamento eficaz para o tratamento da sífilis, o arsenobenzóico (Salvarsan(r)), no laboratório da Hoechst, e que valeu a Paul Ehrlich o Prêmio Nobel de Medicina, em 1908. A descoberta da penicilina por Fleming, que trabalhava para a indústria Beecham e que também lhe valeu um Prêmio Nobel em 1940. A descoberta da cimetidina (Tagamet(r)), em 1960, em estudos desenvolvidos na indústria Smith Kline e que também fez juz a um Prêmio Nobel. A pesquisa desenvolvida na indústria ICI (hoje Zeneca) entre 1958 e 1964 e que levou à descoberta do primeiro betabloqueador clinicamente avaliado e que valeu a Sir James Black o Prêmio Nobel de Medicina em 1988.
Podemos ainda mencionar a descoberta dos efeitos antidepressivos da imipramina (Tofranil(r)) por Ronald Kuhn em 1959 e o desenvolvimento de toda uma família de antidepressivos tricíclicos pela então Ciba-Geigy. A síntese do primeiro benzodiazepínico, o clordiazepóxido (Librium(r)), pelo judeu polonês Leo Sternbach, e o desenvolvimento de toda uma família de benzodiazepínicos pela indústria Roche, a partir da década de 1960.
O período de duas décadas, compreendidas entre 1940 e 1960, constituiu-se no período áureo da indústria farmacêutica multinacional. Durante esse período houve a descoberta e o lançamento de um grande número de produtos inovadores, como sulfas, penicilina e outros antibióticos, hormônios esteróides, betabloqueadores e antipsicóticos. Nesta época a indústria farmacêutica multinacional gozava de grande prestígio, admiração e respeito por parte da comunidade de todos os países. Essa situação foi muito abalada no período compreendido entre 1960 e 1970, quando o senado americano identificou ligações espúrias entre a indústria farmacêutica americana e a medicina americana organizada, entre a indústria farmacêutica e as revistas médicas e também, de como as indústrias farmacêuticas norte americanas e européias promoviam seus produtos nos países em desenvolvimento e do terceiro mundo, enaltecendo as suas propriedades terapêuticas e omitindo ou minimizando os efeitos colaterais e tóxicos. Este foi também o período do grande desastre da talidomida, quando em 1959 houve os primeiros relatos de focomelia e, em 1961, antes que o produto fosse retirado do mercado, havia a previsão de cerca de 10.000 (dez mil) crianças deformadas em vinte países.
Acreditamos que seremos capazes de entender melhor alguns problemas ligados à indústria farmacêutica multinacional e aos choques inevitáveis entre essas indústrias e os governos, principalmente os governos de países em desenvolvimento e do terceiro mundo, se soubermos alguma coisa acerca de multinacionais em geral. Neste capítulo tentamos enumerar algumas características das multinacionais em geral e esboçar algumas considerações acerca das mesmas. Grande parte do que escrevemos é uma transcrição de textos de alguns mestres de economia como Roberto Campos e Mário Henrique Simonsen.
A história das multinacionais remonta ao século XVII. Nessa época o comércio e a distribuição dos produtos orientais na Europa era um monopólio de Portugal e decorreria da sua supremacia naval no Oceano Índico. A partir de 1640 as rotas navais portuguesas foram desbaratadas pela Holanda e pela Inglaterra. Nessa época foi fundada, na Holanda, uma empresa com uma estrutura acionista formada pelas câmaras de seis cidades dos Países Baixos, além de ter o capital aberto a toda a população. Esta foi, provavelmente, a primeira multinacional do mundo. Esta empresa monopolizou o comércio de porcelana chinesa por mais de três séculos e por ser muito rentável gerou a expressão popular "negócio da China".
No correr de três séculos e meio foram criadas empresas análogas em muitos países. Algumas dessas empresas foram muito bem sucedidas e continuam realizando "negócios da china" fora da área de porcelana. Estas empresas são as chamadas multinacionais ou transnacionais. A indústria farmacêutica multinacional pertence a esta categoria de empresas.
Para entender melhor o tema lembramos aqui uma classificação elaborada pelo demógrafo francês Alfred Sanny, na década de 1950, que classificava os países em geral da seguinte maneira: Países do primeiro mundo que compreendiam a maior parte da Europa Ocidental mais os Estados Unidos e o Japão. Países do segundo mundo que eram constituídos por países comunistas, como a antiga União Soviética e alguns países europeus mais pobres como Grécia, Portugal e Turquia. Países de terceiro mundo que compreendiam a maior parte dos países da América do Sul e da África. Com o desaparecimento da União Soviética e algum avanço de países do antigo terceiro mundo, alguns desses últimos passaram a ser chamados, eufemisticamente, de "paises emergentes" ou "em desenvolvimento", como é o caso do Brasil.
A maior parte das multinacionais ou transnacionais teve sua origem em países do primeiro mundo. No que se refere ao comportamento dos países emergentes ou em desenvolvimento em relação a essas empresas, ele tem variado em diferentes épocas e regiões.
No período de 1950 a 1970, no Brasil, assim como na maior parte dos países subdesenvolvidos ou eufemisticamente chamados "em desenvolvimento" as palavras de ordem mais ouvidas eram "fora com as multinacionais e fora com o imperialismo dos países do primeiro mundo".
Segundo Mario Henrique Simonsen, uma das teses do nacionalismo xenófobo e em particular das esquerdas brasileiras, era a necessidade de deter a invasão das multinacionais que somente se interessam em explorar a nossa mão-de-obra barata, sangrar o balanço de pagamentos com a remessa de lucros para o exterior, submeter-nos a dependência tecnológica e transferir para fora das fronteiras nacionais a decisão sobre produção e investimentos.
A partir de 1970 na maior parte desses países em desenvolvimento, de todo o mundo, a mentalidade foi mudando e, atualmente, a palavra de ordem é outra: "bem vindo o capital estrangeiro e as multinacionais". O capital estrangeiro foi santificado num altar, como anjo da guarda do desenvolvimento e ferramenta indispensável para qualquer país que sonhe em sair do atraso. Do leste Europeu, pós-comunista, aos formigueiros humanos do sudeste asiático, todos tentam conseguir investimentos das multinacionais. Simonsen afirma ainda que a média anual de capital estrangeiro, investido nesses países, era de 25 (vinte e cinco) bilhões de dólares entre 1986 e 1990. Em 1992, cerca de 50 (cinqüenta) bilhões de dólares saíram dos países ricos para os países do terceiro mundo, sob a forma de investimentos diretos. No período de 1985 a 1993, foram investidos pelas multinacionais cerca de 300 (trezentos) bilhões de dólares na compra de estatais colocadas à venda dentro de planos de privatização ousados, como os que ocorreram na Espanha, Argentina e na Inglaterra na década de 80 (oitenta) e estão ocorrendo, com certo atraso no Brasil, na década de 90 (noventa).
No transcurso da última década, observa-se grande competição por parte de governadores de alguns estados brasileiros, em torno da instalação de montadoras de automóveis, em seus respectivos Estados. Oferecem-se vantagens em termos de subsídios, isenção de impostos e infra-estrutura para atrair essas empresas. Aprendeu-se, enfim, que essas empresas geram empregos diretos e indiretos, fomentam o aparecimento de indústrias de auto-peças, desenvolvem mão-de-obra especializada, pagam impostos, podem aumentar as exportações e dão prestígio ao estado, atraindo outras empresas. Esta mentalidade somente foi adquirida após muitas décadas de rejeição xenófoba sistemática.
Um balanço dos últimos anos tem mostrado que o Brasil tem se saído muito bem na disputa de investimentos estrangeiros. Um estudo mostra que fluxo de investimentos diretos cresceu de 68% (sessenta e oito por cento) nos últimos três anos. Em 1997 este investimento foi de 15 (quinze) bilhões, em 1998 foi de 29 (vinte e nove) bilhões e em 1999 foi de 31 (trinta e um) bilhões de dólares.
Segundo Simonsen, a conclusão de que as multinacionais não devem ser tão diabólicas como alardeia a esquerda brasileira, decorre de alguns conceitos errados e interpretações capciosas acerca do papel dessas multinacionais. O conceito atrasado e ultrapassado das esquerdas brasileiras é de que, para o país, é preferível o capital estrangeiro de empréstimo ao capital estrangeiro de risco.
Isto propicia uma discussão e atitudes deformadas e às vezes ignorantes, por parte de uma minoria, que faz muito barulho e que, muitas vezes, consegue influir nas decisões governamentais. O capital estrangeiro de risco, sob a forma de empresas multinacionais, que se instalam no país, ou que adquirem empresas estatais deficientes e as transforme em empresas rentáveis, é encarado por essas esquerdas ou por nacionalistas xenófobos, como uma ameaça à autonomia do país.
Ainda segundo Simonsen, "o que desejam as multinacionais é óbvio: diversificar geograficamente as suas operações, de modo a reduzir seus custos e riscos e assim remunerar melhor os seus acionistas. A idéia de que elas abalam o poder do governo nacional, transferindo os centros de decisão para o exterior, para o país de origem de suas sedes centrais, decorre de uma confusão conceitual entre capitalismo de estado e capitalismo privado. Uma Sony ou uma IBM ou General Motors ou Roche ou Novartis ou Smith Kline Beecham não são controladas por nenhum governo. Na realidade, muitas delas nem possuem acionista controlador, pois seu capital está disperso por uma multidão de pequenos, médios e grandes acionistas. Seus dirigentes, para se manter nos cargos, tratam de defender os interesses de seus acionistas e não do governo japonês, americano, suíço, ou qualquer outro. O mesmo fazem as empresas privadas nacionais brasileiras, que defendem os interesses de seus donos e não do governo ou de partidos políticos ou de sindicatos. "No que tange à informação que as multinacionais somente viriam ao Brasil para aproveitar a mão-de-obra barata, ela é absolutamente verdadeira e também óbvia: nenhuma multinacional é instituição de caridade e não teria nenhum interesse em investir no Brasil, se os salários aqui fossem mais altos que nos Estados Unidos, Europa, Japão ou mesmo Argentina, Chile ou México. A desinformação ai se refere ao fato de que a disputa por mão-de-obra barata gera empregos e a criação de empregos torna a mão-de-obra menos barata. É isto que realmente interessa, e o que acontece freqüentemente no Brasil, onde as multinacionais existentes pagam a seus empregados cerca de 40% (quarenta por cento) a mais que as empresas nacionais, sejam estatais, sejam privadas. O trabalhador brasileiro, como de qualquer outro país, não tem muito interesse em saber se o controle da empresa pertence a americanos, japoneses ou alemães. O que realmente interessa ao trabalhador, de qualquer nacionalidade, é o quanto ele ganha e de como ele é tratado pela empresa, seja nacional, ou multinacional".
Mas a meta deste artigo não é discutir a nossa política econômica e as privatizações de nossas instituições. O que foi escrito nesse tópico em grande parte foi transcrito de artigos acerca de nossa economia de autoria de Henrique Simonsen. A sua meta é lembrar, para aqueles que não são versados em economia, o que são multinacionais ou transnacionais, quais são algumas de suas características e, por fim que a maior parte das indústrias farmacêuticas existentes no Brasil, representadas pela Associação Brasileira da Indústria Farmacêutica (ABIFARMA), são constituídas por multinacionais ou transnacionais, com todas as características genéricas das multinacionais em geral.
O fato dessas empresas produzirem medicamentos e não automóveis, computadores, maquinários, geladeiras ou roupas, não as torna diferentes. A meta de todas elas é produzir lucros.
Também desejamos chamar a atenção de que está para ser provado que empresas nacionais e, em particular a indústria farmacêutica nacional, tem metas diferentes, entre as quais produzir medicamentos baratos para a população, reduzindo os lucros de seus donos e os ordenados de seus diretores. Isto não é verdade. O que mais sonham os donos de indústrias farmacêuticas nacionais é transformar-se em multinacionais.
Por fim, desejamos mencionar que, no caso de grandes empresas farmacêuticas multinacionais, existem certas regras de sobrevivência que devem ser cumpridas. Uma dessas regras é que a lucratividade dessas empresas é função, também, de seu tamanho. Um raciocínio análogo pode ser aplicado a produção de computadores, televisores, geladeiras, roupas, bebidas, perfumes e também medicamentos. É por isto que se observa fusões freqüentes em todas essas áreas. A meta dessas fusões é reduzir os custos e aumentar os lucros. Este raciocínio é válido para qualquer área, como a automobilística, informática, têxtil, e também a área de medicamentos que são setores que exigem um investimento continuado em pesquisa e inovação continuada, que possa garantir a sua competitividade e sobrevivência ao longo do tempo.
Constatamos que, no transcurso das duas últimas décadas, na maior parte dos países em desenvolvimento, observa-se uma atitude cada vez menos hostil em relação a multinacionais em geral.
Este fenômeno não ocorre em relação as multinacionais farmacêuticas que, de uma maneira geral, são tratadas pelos governos desses países, pela imprensa e pela comunidade em geral, com grande e crescente hostilidade.
Parece que este fato ocorre como conseqüência da própria conceituação do que seja um medicamento, para as partes envolvidas.
Para a indústria farmacêutica o medicamento é um produto industrializado, como qualquer outro e, portanto deve gerar lucro, para assegurar dividendos para seus acionistas, ordenados altos para seus executivos e garantir o ressarcimento dos investimentos feitos em pesquisa e em promoção de seus produtos.
Para os governos e para os órgãos assistenciais, o medicamento é considerado como um instrumento importante para promover a saúde da população, principalmente das camadas mais pobres desta população e, portanto, deve ser barato.
Estes dois pontos de vista divergentes e aparentemente irreconciliáveis configuram um óbvio conflito de interesses que nunca foi resolvido satisfatoriamente.
Referências Bibliográficas:
_ Campos, Roberto
A Lanterna na Popa
Top books - Editora e Distribuidora de Livros Ltda. Rio de Janeiro, 1994
_ Cowen, D.L. & Helfound, W.H.
Pharmacy - an illustrated history
Harry N. Abrams Inc. Publisners, N.Y., USA. 1990
_ Gerez, J.C.
Indústria Farmacêutica: histórico, mercado e competição
Ciência Hoje, 15 (89): 21-30, abr/1993
_ Peters, Georges
Medicamentos: Pelo Uso Racional
O Correio da Unesco - Ano 15, Nº 10, out 1987
_ Silverman, M.; Lydecker M.; Lee P.R;
Bad Medicine - The prescription drug industry in the third world
Ed. Stanford University Press, 358 pg. 1992
Revista "VEJA" - O risco de Optar
Ed. 997 4 outubro 1987
Revista "VEJA" - Informe Publicitário da ABIFARMA
Ed. 1611 18 agosto 1999
Revista "VEJA" - Informe Publicitário da ABIFARMA
Ed. 1622 03 novembro 1999
Revista "VEJA" - Quem tem medo dos estrangeiros
Ed. 1632 19 janeiro 2000

(Jorge Paprocki)


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