acontecimento
ano VI - edição 15 - belo horizonte - mg

Acontecimento

Discurso de posse de Marco Aurélio Baggio na Academia Brasileira de Médicos Escritores
Prezados contertúlios, senhoras e senhores,
Apresento-me a esta solenidade de posse na Cadeira no. 27 da Academia Brasileira de Médicos Escritores, nesta noite de 24 de novembro de 2000, na maravilhosa cidade do Rio de Janeiro, ostentando pelo menos três galardões. Desde 1965, sou médico. Desde 1980, tornei-me escritor. E há 57 anos procuro ser um homem.
Médico, para mim, é aquele que atende pessoas acometidas por doenças e por sofrimentos. Médico é aquele que exerce a clínica. Médico, portanto, é aquele profissional que se capacitou, com conhecimentos médico-científicos mais que suficientes, para expandir seu talento ao estabelecer a imprescindível relação humanística médico-paciente, que é base e fiança insubstituível para se atuar com poderio terapêutico. Sem intermediários. Sem prepostos e sem atravessadores. Sem convênios, sem planos de saúde ou institutos e empresas intervenientes. Noventa e cinco por cento dos atos médicos prescindem da parafernália burocrática tecnificada e protelatória em que se metem a incauta classe médica e o nosso pobre país.
Médico é cidadão de classe média alta, que paga os impostos e os preços vigentes em sua sociedade e precisa ainda mais de recursos para se manter atualizado. Não deveria ser sugado ou depreciado, desqualificado, depletado e esprimido em suas condições socioeconômicas de vida, tal como não se faz com os comandantes de avião em serviço, nem com os prestimosos políticos no exercício de seus mandatos.
A prática da clínica psiquiátrica demonstra sobejamente que a relação médico-paciente se estabelece diretamente entre o psiquiatra e o seu cliente, com envolvimento imbricado e comprometido o suficiente para introduzir na psicopatologia do cliente os fatores curativos - psicofarmacológicos, psicoterápicos, culturais e existenciais - necessários e disponíveis, que são o bastante para reverter o quadro e, eventualmente, resolvê-los. Essa relação não carece de terceiros intervenientes. Funciona melhor sem eles.
Assim, é de se espantar como a prestigiada e portentosa classe médica, de sessenta anos a esta data, foi-se deixando permear e corromper por esse enxame de agentes estatais, paraestatais e sobretudo por essas grandes agências de puro interesse de lucro capitalista que passaram a dominar e explorar o nobre trabalho médico.
Por que isso? O que foi que nos aconteceu? Como chegamos a esse descalabro que tornou o médico um subempregado de outrem que, ardilosamente, postou-se como dono, agente, intermediário, explorador do ato médico?
Como puderam os médicos ser tão ingênuos, incautos e facilmente amestráveis? Por que nunca, até hoje, a classe médica defendeu-se - como fez e faz tão bem a classe dos advogados - seus legítimos interesses de recebimento de honorários dignos e compatíveis, em valor pecuniário, com o desempenho de sua arte de curar? Por que os médicos se deixaram explorar monetariamente e se permitiram ser espoliados em sua dignidade? Já vai tarde e longe esse processo de abastardamento do trabalho médico. A nossa Medicina, assim, virou um poço de insatisfação do médico, decepcionado com a aridez de sua profissão, um muro de reclamações do paciente, que não se sente ouvido, acolhido e suficientemente tratado. A Medicina tornou-se o lugar do desperdício de talentos e de dissipação dos parcos recursos disponíveis. Lugar do discurso belo-falso dos políticos e dos administradores do alto escalão da Saúde.
Os poderosos detentores do poder político, maldosa e perversamente, atribuem as insuficiências e os defeitos da prestação dos sucateados e subfinanciados serviços médicos a uma remota e pretensa falha num suposto sacerdócio e à falta de abnegação por parte dos médicos. Quanta falácia! Como se Medicina fosse sacerdócio. Não é! É profissão! Como se Medicina fosse caridade e misericórdia. Não é! Medicina é atividade humana que despende recursos limpos e suficientes, na quantidade necessária, pelo tempo que for preciso. Como se Medicina fosse "quebra-galho", praticada por quem fez voto de pobreza. Não é e não é! Medicina só funciona, restaurativa e curativamente, quando exercida sob a égide da generosidade e da abundância.
Em um mundo capitalista, onde todas as relações entre seres humanos fazem inexorável passagem pela troca do dinheiro, a busca de mais eficiência exige o enxugamento do intermediário e do comerciante. Tanto quanto possível.
Por que a Medicina brasileira seguiu o tolo caminho inverso? Por que nós, médicos, corremos, pressurosamente, rumo a esses campos de extermínio do trabalho médico digno e eficaz, os quais são constituídos por essa camarilha que se interpõe entre nós e nossa clínica, sugando sua seiva? É chegada a hora de seguir o exemplo dos advogados e de todo o moderno fluxo capitalista: desalojemo-nos dessa Medicina de fancaria e voltemos a ser donos de nossas prerrogativas de livre profissional. As associações Médicas em todo o Brasil começaram a caminhar nesse sentido. Sim, porque a Medicina - a única Medicina - científica, alopática, terapêutica é um paradigma, uma referência, um modelo organizador que abarca todas as "alternativas" propostas.
Medicina, portanto, é profissão e arte que se exerce estribada na relação de escolha por parte do cliente e na relação de confiança que ambos, médico e paciente, entre si, mutuamente, se conferem.
Como bem sintetiza Pedro Nava, "Medicina antes de mais nada é conhecimento humano. E este está tanto nos livros de patologia e clínica como nos da obra de Proust, Flaubert, Balzac, Rabelais, poetas de hoje, de ontem, nos modernos como nos antigos." (Beira-mar.)
Por que o médico escreve? Essa questão tem sido formulada muitas vezes, já que, bem mais que outros profissionais, os médicos manifestam especial pendor em brunir-se nas letras.
O caráter engajado do médico escritor pode ser traduzido pelas palavras de Mário de Andrade, o grande revolucionário das letras:
"Se escrevo é primeiro porque amo os homens. Tudo vem pra mim. Amo e por isso é que sinto esta vontade de escrever, me importo com os casos dos homens, me importo com os problemas deles e necessidades. Depois escrevo por necessidade pessoal. Tenho vontade de escrever e escrevo. (Isto é pro caso dos versos.) Mas mesmo isto psicológicamente pode ser reduzido a um fenômeno de amor, porque ninguém escreve para si mesmo a não ser um monstro de orgulho. A gente escreve pra ser amado, pra atrair, encantar etc." (Cartas a Manuel Bandeira )
O médico escreve para apaventar sua desilusão diante dos ainda sempre parcos recursos terapêuticos da Medicina. Para poder conversar consigo mesmo. Para afastar a solidão. Para descrever aquilo que acumulou com a experiência e disso dar conhecimento aos demais. Escreve para iluminar o escuro, para prestar depoimento de responsabilidade sobre o tido e o vivido. Escrevinha ainda para verter tudo aquilo que leu e aprendeu. O que quer fazer com que pensem sobre a condição humana aqueles que gostam de pensar. Escreve para dar vazão lateral à pressão e ao desgaste humano que lhe acomete a prática clínica diuturna. A literatura dá acolhida à sua inspiração e lhe permite o exercício de seu talento, possibilitando ao médico prestar testemunho pessoal de que sua vida não passou em vão.
Escreve, ainda, por precisão de não enlouquecer.
Sim, porque o escritor só fala daquilo que sente e daquela sua maneira especial de ver e de viver as coisas todas do mundo.
A satisfação de ver a sua obra publicada eqüivale ao prazer e a alegria do menino ao tocar o outro na brincadeira do "pegador" ou ao gosto de driblar o adversário e marcar o gol numa "pelada".
O reconhecimento e as láureas obtidas - o prestígio, o eventual lucro, os comentários sobre sua obra - são prazerosos sucedâneos adultos ao verdadeiro prazer infantil de brincar com as boas letras.
No entanto, tudo conspira contra o médico e contra o escritor.
"Tudo é incauto e pseudo, as flores sou eu não meditando, mesmo o de hoje é um dia que comprei fiado." ("Sobre a escova e a dúvida" - Tutaméia - Terceiras estórias - João Guimarães Rosa.)
O ato médico, tal como o ato de escrever, é pois, a arte de administrar a incerteza, suplantando a insegurança, objetivando produzir um ato humano digno de qualidade.
Quando a gente escreve, vira tudo: vira coisa, vira rosa, vira gente.
Se escrevemos, se produzimos, é vencendo tudo aquilo que conspira contra o médico e contra o escritor.
Só o fazemos por pura pressão interna pessoal, compulsiva, de auto-expressão. A cura do doente e a literatura são a vitória do médico escritor sobre o sofimento, a estupidez, o tempo e a morte.
Absolutas estrelas.
É, para mim, uma grande honra assumir a Cadeira no. 27 da Academia Brasileira de Médicos Escritores, cujo patrono é o Ministro Maurício de Medeiros.
Nascido no Rio de Janeiro em 14 de julho de 1885, Maurício de Medeiros falaceu na mesma cidade, em 23 de julho de 1966.
Médico, professor, escritor e político, estudou no Colégio Pedro II e na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Especializou-se na França, nos anos de 1906 e 1907. Colaborou em inúmeros jornais do Rio e de São Paulo. Foi eleito deputado estadual em 1916, e deputado federal em 1921, sendo reeleito em 1927 e 1930. Tornou-se Catedrático pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Em 1955, foi eleito para a Cadeira no. 38 da Academia Brasileira de Letras, tendo como patrono Tobias Barreto. Um de seus irmãos, Medeiros e Albuquerque, foi Presidente da Academia Brasileira de Letras, na década de 20.
Em 1950, Maurício foi nomeado chefe da delegação brasileira ao I congresso Mundial de Psiquiatria, realizado em Paris. Sempre interessado pela psiquiatria, participou de congressos sobre essa especialidade em Roma, em 1952, e em Londres, em 1955.
Nomeado Ministro da Saúde no curto governo Nereu Ramos, foi confirmado no cargo nos anos dourados do governo Juscelino Kubitschek de Oliveira, entre 1956 e 1960.
São destaques no conjunto da obra de meu Patrono, D. Maurício de Medeiros: "Peço a palavra"( 1924); "Segredo Conjugal" (1933); Idéias, homens e fatos" (1934); "Folhas secas", Joaquim Nabuco", "O casamento", "O inconsciente diabólico", Rússia" e "Homens notáveis" (1964).
A esse médico escritor e político de talento tenho a honra de homenagear nesse expressivo momento em que tomo posse na Cadeira que ele, sempiternamente, iluminará.
Tendo sempre em mente seu exemplo e seu trabalho, procurei desincumbir-me desse mister com denodo e empenho, nos muitos anos vindouros.
Como representante mineiro, devo ressaltar, aqui na praia, as alterosas montanhas de onde vim.
Minas tem sua mais poderosa raiz no Rio de Janeiro. Daqui passaram as levas de gentes provindas da África, de Portugal e de todo o resto do então arquipélago brasileiro, em fins do século XVII e, sobretudo, durante todo o século XVIII, rumo ao eldorado, que eram os córregos frios de abundante ouro de aluvião do vale do rio das Velhas.
Criou-se o núcleo de ouro, de arte, de civilização e de ferro, na zona metalúrgica central das Minas Gerais. Com isso, a noção abalizada de brasilidade foi sendo forjada no sério e no eito, a ponto de servir de coalizão aos interesses que resultaram na criação de um todo, de um país integrado em língua, povo, costumes, leis, conveniências e miscigenação. Assim foi que Minas Gerias criou e gestou o Brasil como portentosa nação "monstra", postada como um ombro avançado, meio continente inteiro, por sobre o lago atlântico. Brasil, verdadeira sentinela de ocidentalidade.
Hoje, mineiro quase não "desce" para o Rio. Fica mesmo encastoado na coroa de ferro de Minas. Portanto, para este mineiro que acaba de ser generosamente recebido nesta Academia Brasileira de Médicos Escritores é uma alegria e um desvanecimento vir ao Rio de Janeiro participar de suas tertúlias. Ciente da responsabilidade e da honra que me foram concedidas por esta Casa, saberei representá-la, com brio e dignidade, junto aos meus confrades mineiros e brasileiros.
À dinâmica e gentil presidente desta entidade, Zilda Cormack, expresso minha gratidão pela acolhida com que me distinguiu.
Ao Dr. Walter Whitton Harris, meus agradecimentos por apadrinhar a minha entrada neste silogeu. Sobramista que é, assíduo freqüentador das "Pizzas Literárias" da Paulicéia, Dr. Harris é pioneiro na introdução dos Limericks, saborosa espécie poética tão ao gosto dos ingleses.
Assim funciona uma egrégora: o detentor do poder escolhe um candidato, avalia-o e o consagra. Um contertúlio de expressão serve-lhe de padrinho. A Academia, então, generosamente acolhe o novo confrade. Dessa forma, ela se renova e se enriquece.
Cumprimento os consórcios que hoje tomam posse neste Sodalício: Emmanuel Alves, do Rio de Janeiro, na Cadeira no. 47. Estamos todos irmanados na consciência da responsabilidade de que ora somos investidos.
Concluindo, quero aqui expressar minha gratidão a todos os colegas deste areópago, que tão bem me recebem nesta noite de gáudio.
Que nos bafejem a todos as aragens do sagrado que em nós habita.
Resolutas estrelas!

Muito obrigado.

Rio de Janeiro, 24 de novembro de 2000.

 

 

© 2002 Jornal de Psiquiatria.com.br- All Rights Reserved.